A literatura em contabilidade que investiga o valor informacional de medidas financeiras de desempenho para os propósitos de incentivo tem, geralmente, argumentado que o uso dessas
medidas reflete os esforços de curto-prazo desempenhados pelos gestores. Pelo fato de as medidas financeiras refletirem principalmente esse tipo de esforço, elas induziriam os gestores a uma orientação temporal de curto-prazo (FELTHAM; XIE, 1994; NARAYANAN, 1985; SLIWKA, 2002).
Medidas financeiras, tais como o lucro contábil, são então percebidas como úteis para fornecer informação acerca do esforço gerencial dedicado às tarefas que afetam o desempenho financeiro de curto-prazo (DIKOLLI; VAYSMAN, 2006). Outras medidas financeiras, tais como as medidas de retorno, provocariam semelhante comportamento nos gestores, induzindo também a uma orientação temporal de curto-prazo (LAMBERT; LARCKER, 1987; HOSKISSON et al, 1993).
O efeito de uma medida financeira de desempenho sobre OTG é provavelmente decorrente de seu nível de tempestividade para refletir o efeito financeiro de esforços de longo-prazo. Indicadores financeiros tradicionais, tais como medidas contábeis e de retorno, são, geralmente, criticados em decorrência da perspectiva de curto-prazo que eles possuem, isto é, tais indicadores não seriam capazes de oferecer informações tempestivas que permitam avaliar plenamente o resultado dos esforços gerenciais (SAID et al, 2003. FARREL et al, 2008).
Indicadores financeiros seriam capazes de capturar esforços exercidos em tarefas que afetam resultados futuros somente depois de certa defasagem temporal (SLIWKA, 2002). Eles não seriam, portanto, adequados para encorajar os gestores a pensarem acerca das consequências de longo-prazo dos esforços gerenciais (DIKOLLI, 2000). Indicadores financeiros são, por essa razão, caracterizados como medidas de desempenho que refletem apenas eventos passados e que eles seriam incapazes de oferecer informações sobre a criação de valor financeiro futuro (KAPLAN; NORTON, 1996; LAMBERT; LARCKER, 1987).
Em razão de as medidas financeiras refletirem principalmente os esforços de curto-prazo dos gestores e os induzirem a uma orientação temporal de curto-prazo, a literatura contábil procurou identificar medidas adicionais de desempenho que pudessem refletir os esforços de longo-prazo dos gestores e, assim, afetar positivamente OTG. Destacam-se, nesse contexto, as medidas não-financeiras de desempenho, consideradas como capazes de levarem os gestores a
dedicarem atenção também às atividades que afetarão resultados financeiros de longo-prazo (HEMMER, 1996; DIKOLLI; VAYSMAN, 2006).
Desse modo, uma vez que medidas não-financeiras de desempenho sejam percebidas como mais tempestivas do que indicadores financeiros para fornecer informações de acompanhamento do esforço gerencial que afetará resultados financeiros de longo-prazo (SAID et al, 2003), elas teriam o potencial de induzir os gestores a uma orientação temporal mais de longo-prazo (KAPLAN; NORTON, 1996; ITTNER; LARCKER, 1998).
As predições gerais do efeito de medidas financeiras e não-financeiras de desempenho sobre OTG são então baseadas na maior tempestividade relativa no fornecimento de informações de acompanhamento de desempenho, com reflexos em resultados financeiros de longo-prazo, que indicadores não-financeiros possuem. Entretanto, tem sido argumentado que indicadores não-financeiros não são mais tempestivos do que indicadores financeiros em um sentido absoluto (LUFT; SHIELDS, 2002).
De fato, ‘novas’ medidas financeiras de desempenho, que melhor refletiriam a criação de valor futuro, tal como medidas de lucro residual, têm sido propostas (YOUNG, 1996; WALLACE, 1997). Adicionalmente, lucros contábeis e medidas absolutas não-financeiras podem ter efeitos substitutos sobre os esforços gerenciais (HEMMER, 1996). Esse resultado implica que esses dois tipos de medidas de desempenho podem oferecer informações tempestivas de desempenho, com efeitos financeiros de longo-prazo, de forma equivalente.
Nesse sentido, não é possível tratar medidas não-financeiras de desempenho e informações mais tempestivas de desempenho como sendo equivalentes, e vice-versa. Tanto medidas não- financeiras, quanto medidas financeiras, possuem algum nível de tendência de resultados futuros (VAN RINSUM, 2006), ou seja, ambos os tipos de indicadores de desempenho refletem resultados de longo-prazo com diferentes defasagens temporais entre a ação gerencial e o efeito financeiro dessa ação. Portanto, não é possível afirmar que medidas financeiras de desempenho induzirão os gestores a uma orientação temporal mais de curto- prazo do que medidas não-financeiras, em um sentido absoluto.
O ponto é então considerar o efeito relativo desses dois tipos de indicadores de desempenho sobre OTG; isto é, a ênfase seria no entendimento de como os gestores alocarão esforços entre
atividades de curto e de longo-prazo no caso em que medidas financeiras de desempenho usadas para os propósitos de incentivo são mais relevantes do que indicadores não- financeiros, e vice-versa.
A literatura contábil normativa tem desenvolvido modelos analíticos, em ambientes multidimensionais, que analisam a ponderação ótima a ser atribuída às medidas de desempenho, com o objetivo de afetar a alocação gerencial de esforços entre tarefas de curto e de longo-prazo. A conclusão geral é de que medidas de desempenho deveriam ser ponderadas de modo a maximizar a congruência entre a criação de valor futuro e o conjunto de medidas de desempenho usadas para capturar o esforço gerencial e, ao mesmo tempo, reduzir o risco imposto aos gestores (LAMBERT, 2001; DATAR et al, 2001).
Especificamente, se os gestores tiverem pequena expectativa de permanecer na empresa, medidas financeiras de desempenho não serão suficientes para induzi-los a também alocarem esforços em tarefas com consequências de longo-prazo; para melhor equilibrar as conseqüências de curto e de longo-prazo, o plano de remuneração gerencial deveria incluir também medidas não-financeiras que sejam informativas sobre o efeito do esforço gerencial atual em resultados futuros (DIKOLLI, 2001).
Além disso, se superiores e subordinados tiverem preferências temporais conflitantes, contratos de remuneração gerencial deveriam incluir ou medidas de tendência de resultados futuros ou medidas baseadas em ações, em adição a medidas de lucro contábil, para induzir os gestores a também alocarem esforços de longo-prazo (DIKOLLI; VAYSMAN, 2006).
Não significa dizer que a inclusão de medidas não-financeiras de desempenho sempre resultará em uma redução na ponderação atribuída a indicadores financeiros para que se obtenha um efeito positivo sobre OTG. Hemmer (1996), por exemplo, indica que a inclusão de uma medida relativa de satisfação de clientes será acompanhada de um aumento na importância relativa de medidas de lucro contábil.
Em resumo, com base nas expectativas gerais quanto ao efeito relativo de medidas financeiras e não-financeiras de desempenho, espera-se que um aumento na importância relativa de medidas não-financeiras de desempenho, usadas para os propósitos de incentivo, afete positivamente OTG, induzindo os gestores a melhor equilibrarem a alocação de seus esforços
entre atividades de curto e de longo-prazo (SLIWKA, 2002; DIKOLLI; VAYSMAN, 2006; DIKOLLI, 2001; HEMMER, 1996).
Tendo por base essas expectativas e evidências normativas, a seguinte hipótese é elaborada relativa ao efeito direto do tipo de medida de desempenho sobre OTG (Figura 10):
H1: maior (menor) importância relativa de medidas não-financeiras de desempenho, usadas para os propósitos de incentivo, afeta positivamente (negativamente) OTG.
Figura 10 – Efeito direto da importância relativa do indicador de desempenho sobre OTG