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novas práticas

Na teoria social da aprendizagem, as pessoas que pertencem à CoP se organizam em torno de seu trabalho, de seus colegas e de seus clientes para realizar suas atividades. Em torno de um projeto (BOUTINET, 2002) ou de um objetivo comum (WENGER, 2001), participantes desenvolvem suas práticas e instrumentos para cumprir as exigências do ofício (WENGER, 2001).

Afiliar-se a uma CoP supõe estabelecer alguns tipos de relações, conflituosas e amistosas, competitivas e colaborativas (WENGER, 2001), baseadas no compartilhamento de experiências e na comunicação entre seus membros.

Wenger (2001) chama de coisificação a transformação e solidificação de uma experiência ou prática humana em coisa, forma fixa ou objeto, como o instrumento, podendo mudar a natureza de uma atividade quando utilizado como apoio para direcionar, reestruturar ou modificar decisões de ação, tornando essa atividade mais fácil (WENGER, 2001).

computadores podem interpretar os dados ao seguirem as regras de programação, mas não podem participar da construção dos significados. Diferentemente, a participação dos indivíduos em uma CoP é necessária para produzir, interpretar e empregar um instrumento para avançar em suas práticas.

Mintzberg (2004) é favorável ao uso de sistemas de informação para auxiliar na elaboração de estratégias. Entretanto, afirma que apenas profissionais experientes poderiam avaliar e questionar um dado do sistema, por exemplo, a exatidão do número de pacientes com um exame em dia, conforme consta no sistema. Dados factuais podem estar incorretos e máquinas, principiantes em uma prática ou planejadores profissionais poderiam não questionar sua confiabilidade.

Retomamos aqui a ideia de Lorino (1992) e Santos (2004) sobre o risco de ocorrerem erros de interpretação devido à analise baseada apenas em dados quantitativos, espelhados em sistemas formais, por não tratarem das singularidades dos eventos. Apenas participantes ativos são capazes de entender as entrelinhas que os dados qualitativos lhes proporcionam. Assim, os dados intangíveis (MINTZBERG, 2004) servirão de base para qualquer questionamento, e, a partir daí, estratégias poderão ser elaboradas.

Para adquirir conhecimentos intangíveis, ao contrário da ideia tradicional de ensino relacionada aos livros, professores, salas de aula e manuais de instrução, é necessária a aprendizagem prática, que ocorre por meio da participação das ações, discussões e reflexões. Cientistas em um laboratório se mantêm em correspondência com seus pares em outros laboratórios, que podem estar próximos ou distantes, a fim de avançarem em suas pesquisas (WENGER, 2001).

Como no caso do fator de qualidade da pedra preciosa Sapphire, cientistas de um laboratório escocês visitaram outro laboratório russo que já tinha alcançado a medida mais alta de qualidade. O intuito era que os escoceses aprendessem e avançassem em suas práticas, uma vez que os resultados de suas medidas ainda não eram compatíveis com os dos russos (COLLINS, 2001). Isso porque alguns tipos de conhecimento inseridos nas práticas de determinados grupos, só podem ser aprendidos por meio de convivência/socialização – contato pessoal, eventualmente complementados por contatos à distancia, como comunicações telefônicas (COLLINS, 1974).

Por isso, ações e decisões dos indivíduos das CoPs não podem ser totalmente prescritas em um manual de processos para que sejam aplicadas, uma vez que pessoas contribuem para

atingir o objetivo da organização na medida em que participam ativamente de suas práticas (WENGER, 2001). Essa ideia é coerente com o que foi visto no tópico acima sobre o planejamento, quando alguns autores, como Mintzberg (2004), criticam a crença exagerada da literatura tradicional sobre planejamento estratégico em relação às prescrições e programações conscientes e antecipadas. As noções de planejamento emergente e pensamento estratégico são uma resposta emergente, rápida e criativa aos problemas, no mais comum das vezes construída implicitamente no curso das ações.

Existem outros momentos que intensificam a aprendizagem (WENGER, 2001), não estando esta somente associada ao contato entre alguém que já concluiu um experimento e outro que não o concluiu. Outras possibilidades surgem quando indivíduos se deparam com situações que interferem no sentido de familiaridade e são desafiados para além de suas capacidades de resposta; ou quando querem comprometer-se e aprender novas práticas de outras comunidades. Esta ideia é convergente com a visão de Mintzberg (2004), que considera que situações desconhecidas levam ao aprendizado. Diante de uma situação inusitada, a pessoa que conduz a planificação deve usar intuição, arte e experiência (MATUS,1989). Somente a partir daí, as novas experiências vão gerar aprendizado e estruturar o comportamento (BOUTINET, 2002).

Em uma CoP, o que as pessoas aprendem é uma prática, resultado de um processo social de aprendizado compartilhado:“A aprendizagem tem a ver com o desenvolvimento de nossas

práticas” (WENGER, 2001, p. 125).

O aprendizado significativo permite influenciar na prática e fazer uso dos recursos disponíveis ou produzidos para realização do trabalho. Cada CoP, nesse sentido, negocia localmente o que significa uma participação competente, deixando de ser indefinido o conhecer (WENGER, 2001).

A figura abaixo resume os componentes de uma CoP, localizada em determinado contexto, composta por ações, instrumentos, rotinas, práticas, discussões, reflexões e saberes específicos.

Figura 7: Componentes de uma CoP

(FONTE: ADAPTADO DE WENGER, 2001, p: 88) Veremos empiricamente, em outro capítulo, como ocorre, no caso da SaSi, a integração e a combinação entre os diferentes níveis hierárquicos e como cada um contribuiu com o coletivo a partir de seus conhecimentos. A intenção é compreender como o saber distribuído entre os diversos atores dos diferentes níveis organizacionais contribui para o sucesso do sistema, do município como um todo. Antes, apresentaremos a metodologia de pesquisa utilizada.