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1.4 NİKÂH AKDİ

1.4.2 Yahudi Hukukunda Nikâh Akdi (Kidduşîn)

1.4.2.1 Akdin Gerçekleşmesi

Nesta pesquisa, como já dito, estudaram-se textos escritos publicados no início do século passado (entre 1900 a 1950). Considerando-se também os resultados obtidos em pesquisa realizada anteriormente, na qual se estudaram os mesmos verbos, mas em textos escritos entre o período de 1951 e 2000 (Neves, 2004)70, é possível proceder a uma comparação entre as análises de textos de épocas distintas. Nesta subseção, são exibidos os resultados encontrados para cada verbo quanto a essa comparação.

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9.5.1 PERDOAR

Para este verbo, os resultados obtidos nas duas pesquisas são diferentes. Aqui (com corpus da primeira metade do século XX), como se verificou, quase 73% das ocorrências do verbo perdoar obedecem ao que recomenda a prescrição normativa, enquanto apenas 27% não obedecem (porcentagem de obediência extremamente elevada). Na pesquisa com corpus mais recente (segunda metade do século XX), por outro lado, observa-se grande não-conformidade ao que prescreve a norma: 74,5%, verificando-se, pois, que os números são praticamente opostos nas duas pesquisas. Como já visto na subseção 8.6.3, em que se estudaram as prescrições para esse verbo em épocas e manuais distintos, a recomendação nas diversas obras é praticamente a mesma, independentemente de época ou autor, havendo apenas algumas variações no que é ou não aceitável, mesmo que considerado não-padrão71. A maior divergência entre os manuais diz respeito ao fato de que alguns deles (nas duas épocas)72 admitem que a regência direta para pessoa é cada vez mais comum, enquanto outros73 afirmam que tal regência era comum nos escritores clássicos, mas não se usa (ou não se deve usar) mais.

9.5.2 PAGAR

Também no caso deste verbo, comparando-se as duas pesquisas, verifica-se uma diferença, porém não tão acentuada quanto a encontrada para o verbo perdoar. Neste

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Como, por exemplo, a aceitação da voz passiva, admitida por Cegalla, 1999, Martins, 1997, Rocha Lima, 1983, Barreto, 1922; 1924, Silveira, 1934, Souza Lima, 1945 e Góis, 1938.

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Como Luft, 2002, Faraco e Moura, 1999 e Góis, 1938, dentre outros.

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trabalho, como se verificou, 73% das ocorrências do verbo pagar obedecem ao que recomenda a prescrição normativa, enquanto apenas 27% não obedecem. Na pesquisa anterior, com corpus mais recente, a obediência à norma-padrão foi de apenas 52%, o que mostra que houve uma diminuição na porcentagem de obediência à prescrição.

9.5.3 IR

A comparação entre as duas pesquisas mostra que há muita semelhança quanto ao índice de obediência à prescrição. Na pesquisa atual, como se verificou, 92% das ocorrências do verbo ir obedecem ao que recomenda a prescrição normativa (porcentagem de obediência extremamente elevada). Os resultados da pesquisa anterior, realizada com

corpus mais recente, mostraram 94% de obediência à norma, ou seja, resultado muito

semelhante ao obtido aqui. Como se vê, a norma-padrão que recomenda a não-utilização da preposição em com os verbos de movimento é seguida de modo quase uniforme nos textos escritos das duas amostras74.

9.5.4 CHEGAR

Também para este verbo os resultados com textos do início e textos do final do século XX mostram bastante semelhança. Com corpus da primeira metade do século passado, verificou-se que 87% das ocorrências do verbo chegar obedecem ao que

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Várias outras pesquisas, realizadas com textos de diversas épocas, também confirmam esses resultados, mostrando que a preposição em é pouco utilizada, e geralmente nos casos em que se tem um complemento com o traço [+fechado]. Citem-se: Guedes e Berlinck, 2003; Berlinck, 2003; Berlinck, 1996; Malvar, 1996; Berlinck, 2000; Mollica, 1996; dentre outras.

recomenda a prescrição normativa, enquanto em Neves (2004) se observa que 80% das ocorrências seguem a norma-padrão (ambas taxas altas).

9.5.5 ASSISTIR

Mais uma vez se encontrou bastante semelhança. Nesta pesquisa, como se observou, em 83% das ocorrências do verbo se obedece ao que recomenda a prescrição normativa, enquanto na pesquisa com corpus mais recente 77% das ocorrências seguem a norma-padrão, ambas constituindo porcentagens altas.

9.5.6 OBEDECER

As porcentagens de obediência foram 90% com textos de 1900 a 1950 e 85% com textos de 1951 a 2000, ou seja, nos dois casos se verifica uma grande conformidade à prescrição normativa.

9.5.7 ESQUECER(-SE)

Mais uma vez a comparação entre as duas pesquisas mostra bastante semelhança. No entanto, observa-se uma certa inversão nos resultados quanto ao emprego das formas pronominal e não-pronominal. No caso de esquecer-se (pronominal), a porcentagem de obediência observada no presente estudo foi de 85%, enquanto a pesquisa

com corpus do final do século passado (Neves, 2004) mostra obediência em 96% dos casos. As ocorrências de esquecer (não-pronominal) que obedeceram à norma nesta pesquisa representam 95% dos casos, enquanto na pesquisa com textos mais recentes a porcentagem de obediência chega a 86% dos casos. Quanto à média geral de obediência do verbo esquecer(-se) os resultados encontrados neste estudo são bastante semelhantes aos encontrados na pesquisa realizada com textos de 1951 a 2000: 92% e 89%, respectivamente. Como se nota, ambas porcentagens de obediência são elevadas.

9.5.8 LEMBRAR(-SE)

No caso de lembrar-se (pronominal), a porcentagem de obediência foi de 88% com o corpus de 1900 a 1950 e 84% com textos do final do século passado. Quanto às ocorrências de lembrar (não-pronominal) observaram-se 89% de obediência com os textos mais antigos e 85% de obediência com os textos mais recentes. Em ambos os casos, os resultados mostram uma elevada obediência à prescrição normativa. Isso também ocorre quando se observa a média geral de obediência do verbo lembrar(-se), para a qual os resultados encontrados aqui também são bastante semelhantes com os encontrados na pesquisa realizada com textos mais atuais: 89% e 85%, respectivamente.

9.6 Considerações finais

Uma primeira observação a ser feita é que, de modo geral, as recomendações normativas para todos os verbos estudados são as mesmas, tanto nos manuais

contemporâneos aos dos textos aqui analisados quanto nos manuais mais recentes. Desse modo, é possível confrontar a porcentagem de obediência nas duas épocas (da primeira e segunda metades do século passado) sem ressalvas às prescrições. As duas únicas exceções são os verbos ir e chegar, para os quais não se encontram referências em manuais da primeira metade do século passado, o que dificulta a comparação da recomendação dessa época com a atual.

De qualquer modo, como se observou, para todos os verbos estudados, nas ocorrências do corpus mais antigo as porcentagens de obediência foram extremamente elevadas e maiores do que as encontradas na pesquisa com textos mais recentes (com exceção do verbo ir), todas mais baixas no estudo com textos mais recentes. No caso do verbo perdoar (o qual mais chama a atenção), as porcentagens de obediência e desobediência à prescrição, nas duas épocas, praticamente se invertem. Isso mostra que o usuário da língua portuguesa (mesmo com relação à língua escrita) vem deixando de lado recomendações normativas extremamente tradicionais e prescritivas e preferindo utilizar as construções que não são abonadas pela gramática tradicional, mas que, na sua opinião, representam melhor o que quer expressar75. O que se confirma também é que a não- utilização da norma-padrão, como mostraram as duas pesquisas, não faz com que o objetivo essencial da linguagem, que é a comunicação, deixe de ser um processo realizado com êxito pelos usuários.

Além disso, considerando-se que a norma recomendada para a língua formal é basicamente a mesma nas diferentes épocas estudadas, não se pode deixar de observar que as variações são possíveis (se não inevitáveis) – e cada vez mais comuns –, o que faz com

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Merece menção as ocorrências com as formas pronominais dos verbos esquecer(-se) e lembrar(-se). Também fogem à norma, pois, embora isso não seja exatamente questão de regência, a toca, já que as formas pronominais têm como norma o complemento regido pela preposição de, enquanto as formas não- pronominais devem vir seguidas de complemento não-preposicionado.

que o seu não-reconhecimento pelas gramáticas e dicionários não tenha sentido (Luft, 2002, p. 399).

10 CONCLUSÃO

Neste trabalho, procurou-se examinar a tensão entre o que propõem os manuais normativos e o que ocorre no uso real da língua escrita do português do Brasil, na primeira metade do século XX (de 1900 a 1950), quanto à regência de alguns dos verbos mais tratados pelos manuais normativos (atuais e mais antigos), a saber: pagar, perdoar,

chegar, ir, assistir, obedecer, esquecer(-se) e lembrar(-se). Paralelamente a essa

comparação, buscou-se um confronto com os resultados obtidos em pesquisa anterior (Neves, 2004), realizada com corpus constituído de textos mais recentes (compreendidos entre o período de 1951 a 2000).

Para a realização desta pesquisa, utilizou-se um corpus formado por textos de língua escrita disponíveis no Laboratório de Lexicografia da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, UNESP (como já dito, especificamente os produzidos e/ou publicados no período de 1900 a 1950). A amostragem foi selecionada utilizando-se todos os tipos de texto em prosa (romanescos, jornalísticos, dramáticos, oratórios, técnicos), não fazendo distinção entre eles, e todas as formas (pessoas e tempos) em que o verbo foi conjugado.

Após a análise de cada verbo e seus respectivos complementos, fez-se uma comparação entre o que efetivamente se encontrou nos textos e qual era a recomendação normativa para a regência daquele verbo. Em seguida, compararam-se as duplas de verbos com recomendações prescritivas semelhantes (pagar e perdoar; chegar e ir; assistir e

obedecer; esquecer(-se) e lembrar(-se)) e verificou-se se a porcentagem de obediência à

Realizado o estudo, um primeiro dado observado foi que, de modo geral, todos eles apresentam uma elevada taxa de obediência (73%, 73%, 87%, 92%, 83%, 90%,

92% e 89%), o que mostra que, nos textos escritos do período de 1900 a 1950, o usuário

segue prevalentemente ao que recomenda a tradição normativa.

Apesar disso, a revisão bibliográfica dos trabalhos sobre regência verbal e a análise dos verbos, mostram, primeiramente, que um estudo realmente abrangente sobre verbos não pode deixar de lado a importância da semântica, tratando a questão da transitividade unicamente sob a luz da sintaxe. Como afirma Luft (2002), “a noção de que a semântica dita a regência – os traços semânticos do verbo é que prevêem a presença ou ausência de complementos – é fundamental para compreender mudanças e variações de regência verbal” (p. 13). Aliás, segundo Neves (2004), “essa é a lição geral de lingüistas que se dedicaram à questão da estrutura argumental dos verbos, em todas as teorias” (p. 49). Neste trabalho, perfilhou-se essa idéia de que (não deixando de lado a sintaxe) o conceito de transitividade não pode ser depreendido se não se partir da semântica, estando nela implicada a pragmática, que dirige as escolhas. Assim, notou-se, que, em quase todos os casos, a não-utilização do que recomenda a norma-padrão para regência verbal explica- se pela aproximação semântica com algum outro verbo com regência diferente, o que faz com que aquele acabe incorporando a regência deste. É o caso, por exemplo (como já dito no item 8.6.1), do verbo assistir no sentido de “ver”, que acaba assimilando a regência transitiva direta de seu sinônimo. Aliás, de acordo com Luft (2002, p. 79), a construção desse verbo como transitivo direto não pode ser banida pelos gramáticos, já que, segundo o autor, estes devem “registrar os usos da língua”. O mesmo ocorre com o verbo obedecer, que sofre pressão semântica de seguir (Neves, 2004).

Também a variação preposicional ocorrida nos complementos verbais de ir e

outra preposição para reger o complemento desses verbos não é feita totalmente ao acaso pelo usuário, ou seja, cada preposição tem um valor semântico que influencia o usuário na sua escolha. O fator observado mais importante é a utilização da preposição em (não- recomendada pela norma no caso dos dois verbos) nos casos em que se tem a idéia de “inserção em um lugar” (Neves, 2004), ou seja, com complementos que apresentam o traço [fechado].

Quanto a esquecer(-se) e lembrar(-se), pode-se concordar com autores (como Barreto, 1924 e Luft, 2002) que consideram que a não-obediência à prescrição, tanto para a forma pronominal dos verbos quanto para a forma não-pronominal, ocorre devido a uma espécie de “cruzamento sintático”, ou seja, utiliza-se ou não a preposição sem distinção quanto ao uso do verbo com ou sem o pronome, daí os desvios da norma observados no

corpus estudado.

Pagar e perdoar, além de serem os verbos que mais apresentaram porcentagem

de desobediência à prescrição normativa (de 27%, para ambos), também são casos muito especiais pelo fato de apresentarem as maiores taxas de não-obediência na pesquisa realizada com textos mais recentes (Neves, 2004). Aliás, naquela pesquisa, o verbo

perdoar foi o único que apresentou uma porcentagem de desobediência maior do que a de

obediência (75%), enquanto pagar apresentou uma porcentagem de desobediência de quase 50%. Como exposto nos itens 8.6.3 e 8.6.4, alguns manuais (como o de Luft, 2002 e de Faraco e Moura, 1999) afirmam que, para esses dois verbos, é aceitável o uso do complemento não-preposicionado, chegando Luft (2002) a afirmar, quanto ao verbo

pagar, que a sintaxe direta é uma “sintaxe evoluída (…) e, até literariamente, bem

documentada” (p. 388). Quanto a perdoar, o autor explica que a alteração de regência tem explicação semântica, por influência dos verbos escusar ou desculpar, e poupar. Além

disso, mais uma vez, Luft (2002, p. 399) afirma que as gramáticas e dicionários não devem continuar reprovando essa sintaxe, a qual, por ser usual, deve ser considerada “regular”.

Também se conclui, nesta pesquisa, que nenhum estudo lingüístico pode deixar de considerar também a mudança lingüística ocorrida no decorrer do tempo, já que a variação e a mudança, “longe de serem processos marginais e paralelos ao funcionamento da linguagem, (…) estão na essência do funcionamento das línguas naturais, que, por definição, são historicamente inseridas” (Neves, 2004, p. 68). Daí a grande contribuição dos estudos sociolingüísticos. Desse modo, já nas obras de gramáticos tradicionais de peso, como Bechara (1999) e Luft (2002), nota-se o reconhecimento da ação da mudança lingüística quando se relaciona a obediência à prescrição normativa especialmente à linguagem mais formal, o que comprova a influência do uso real nos manuais tradicionais (Neves, 2004). Por esse motivo é importante a comparação entre estudos realizados com textos de épocas diferentes. Essa comparação, aqui realizada, mostrou que, no geral, houve uma diminuição na porcentagem de obediência à prescrição normativa, o que comprova a hipótese exposta na Introdução deste trabalho de que o usuário vem preferindo, cada vez mais, ao utilizar a regência verbal, abandonar as normas tradicionais e utilizar aquilo que ele considera mais adequado ao contexto. No caso do verbo perdoar, o mais marcante de todos, a comparação entre os resultados das duas pesquisas mostrou que, nas duas épocas estudadas (primeira e segunda metades do século XX), os números praticamente se inverteram: a obediência à norma passou de 73% a 25%.

Por fim, o estudo dos manuais tradicionais e as análises dos verbos (incluindo a comparação entre os usos em diferentes épocas) – que mostram uma porcentagem elevada de obediência à prescrição, mas cujos resultados permitem relacionar essa grande obediência mais diretamente com as formas de linguagem mais tensa, como já dito na

“constitui um ajustamento a exigências sociais, e não uma parametrização de base propriamente lingüística” (Neves, 2004, p. 75).