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Akdeniz Arkeolojik Coğrafi Bilgi Sistemi (MAGIS) Veri Tabanı

2. ARKEOLOJİK ÇALIŞMALARDA VERİ TABANI TASARIMI

2.3 Arkeolojik Araştırmalarda Veri Tabanı

2.3.2 Dünya Çapındaki Mevcut Arkeolojik Çalışmalardaki Coğrafi Bilg

2.3.2.1 Akdeniz Arkeolojik Coğrafi Bilgi Sistemi (MAGIS) Veri Tabanı

Eliade afirma que o “mundo” se revela através dos símbolos, isto é, os símbolos possuem a capacidade de desvelar uma estrutura profunda do “mundo”, de revelá-lo enquanto totalidade vivente. Assim, o “Mundo é apreendido enquanto Vida e, para o pensamento primitivo, a Vida é um disfarce do Ser.”38 Além disso

O símbolo religioso traduz uma situação humana em termos cosmológicos, e vice-versa; mais precisamente: revela o vínculo existente entre as estruturas da existência humana e as estruturas cósmicas. O homem não se sente “isolado” no Cosmos; está “aberto” para um Mundo que, graças ao símbolo, se torna “familiar”. Por outro lado, as valências cosmológicas do simbolismo permitem-lhe sair da situação objetiva e reconhecer a objetividade de suas experiências pessoais.39

Para Eliade, os símbolos tornaram-se símbolos religiosos porque contribuíram para “fundar o mundo”. Assim, a constituição dos símbolos é o resultado de um processo de simbolização que é inerente à condição humana no mundo. Para o homo religiosus a existência real, autêntica, começa no momento em que ele recebe a comunicação da história primordial, os mitos cosmogônicos que relatam a origem do mundo. O simbolismo aparece dessa forma como uma “linguagem” que exprime simultaneamente a condição social, “histórica” e psíquica da pessoa que usa o símbolo e as suas relações com a sociedade e o cosmos.

38 ELIADE, 1999, p. 221. 39 ELIADE, 1999, p. 226.

O Cosmos é um território habitado, organizado, diferente do Caos, justamente porque foi consagrado previamente. “O Mundo é um universo no interior do qual o sagrado já se manifestou”40. Eliade compreende que o momento religioso

implica o momento cosmogônico, pois o sagrado funda o mundo, fixando os limites e estabelecendo a ordem cósmica. A transformação do Caos para o Cosmos ocorre pelo ato divino da criação, os deuses organizam o Caos dando-lhe estrutura, formas e normas. A existência humana, portanto, é possível graças à comunicação permanente com os deuses, a abertura para o transcendente. O ser humano não pode viver no Caos e uma vez perdido o contato com o transcendente, a existência no mundo já não é possível.

Por isso, mesmo que os mitos estejam degradados e os símbolos secularizados, eles jamais desaparecerão. Os símbolos e os mitos fazem parte do ser humano, e é impossível não os reencontrar em qualquer situação existencial do homem no Cosmos. Eles podem revelar a condição humana, enquanto modo próprio de existência num Universo. Os símbolos, os mitos e os ritos revelam sempre uma situação limite do ser humano, e não apenas uma situação histórica. Por situação- limite entende-se aquela que o ser humano descobre tomando consciência do seu lugar no mundo. Assim, o comportamento mágico-religioso da humanidade arcaica revela uma tomada de consciência existencial do homem em relação ao Cosmos e a si mesmo.

Destacamos aqui a importância dos mitos cosmogônicos, pois eles oferecem um modelo para todos os mitos de origem, pois a criação de animais, das plantas ou do homem pressupõe a existência de um mundo. O mito cosmogônico desvenda a criação do mundo e do homem e apresenta, ao mesmo tempo, os princípios que governam o processo cósmico e a existência humana. Sempre há um mito central que descreve o começo do mundo, relatando o que aconteceu antes do mundo se tornar aquilo que ele é hoje, descrevendo o primeiro estágio germinal do mundo. O que aconteceu no princípio descreve simultaneamente a perfeição original e o destino de cada indivíduo. O mito cosmogônico permite compreender a vida religiosa, bem como os símbolos religiosos. Os mitos da origem de plantas, de animais, do homem, ou da origem do casamento, da família e da morte constituem uma narrativa coerente que revelam como o cosmos se modificou. Mostram, então,

como o ser humano se tornou mortal, sexualmente diversificado e foi obrigado a trabalhar para viver; revelam igualmente o que os seres sobrenaturais e os antepassados míticos fizeram, como e porque abandonaram a terra e desapareceram. Nesse sentido, os mitos revelam uma história sagrada e criativa e sobre a importância de tal história sagrada primordial, Eliade afirma:

Ora, esta história sagrada primordial, reunida pela totalidade de mitos significativos, é fundamental porque explica, e por isso mesmo justifica a existência do mundo, do homem e da sociedade. Esta é a razão pela qual uma mitologia é simultaneamente considerada uma verdadeira história: ela relata como surgiram as coisas, fornecendo o modelo exemplar e também as justificações para as atividades do homem. Compreende-se aquilo que se é – mortal e de determinado sexo – e como é que isso veio a ser assim porque os mitos contam como é que a morte e a sexualidade apareceram. Os homens entregam- se a um certo tipo de caça ou agricultura porque os mitos relatam como é que os heróis da cultura ensinaram essas técnicas aos antepassados.41

A história sagrada é repetida nos mitos pelo homo religiosus assegurando a continuidade do mundo, da vida e da sociedade. Lembremos que Eliade definiu a história sagrada como a série coerente de eventos que é incessantemente lembrado e enaltecido porque relata como as coisas foram feitas, fornecendo o modelo exemplar e também a justificativa das atividades do homem. Da mesma forma, o mito cosmogônico tem a função de um modelo exemplar e como tal é periodicamente reatualizado. Assim, a cosmogonia é também uma ontofania, a manifestação plena do ser, pois quando relata a criação do mundo, o mito cosmogônico revela a realidade total que é o cosmos e o seu regime ontológico, na medida em que explica qual o sentido em que o mundo é. É por isso que para o pesquisador romeno “não existe mito, senão existir o desvendar de um mistério, a revelação de um tempo primordial que fundou quer uma estrutura do real, quer um comportamento humano.”42 O homo religiosus não pensa de forma alguma que as

histórias sagradas tenham saído de sua própria imaginação, pois são objeto de uma revelação do sagrado, constituindo as raízes do pensamento arcaico.

Os mitos, e os símbolos neles contidos, revelam a estrutura do real e os múltiplos modos de existir no mundo, e é por isso que como já dito anteriormente,

41 ELIADE, 1989, p. 97. 42 ELIADE, 2000, p. 10.

podem até estar degradados na contemporaneidade, mas não foram extirpados. Eles permeiam o cotidiano mesmo nas ações mais banais, sendo este um dos motivos para a afirmação de Eliade de que o sagrado encontra-se camuflado no profano. Os símbolos sobrevivem em nível do inconsciente, especialmente nos sonhos e universos imaginários, e em um mundo dessacralizado como o de hoje o sagrado encontra-se presente e ativo principalmente nos universos imaginários. Como exemplo, poderíamos tomar o significado que tem a casa, o corpo e a passagem do ano para o homem hodierno.

Eliade, ao apresentar a temática da passagem do Caos para o Cosmos destaca pontos como a sacralização do espaço e do tempo e o valor existencial para o ser humano. A destruição de uma cidade, por exemplo, equivaleria a uma regressão ao Caos. O espaço sagrado tem um valor existencial para o homem religioso, não é homogêneo, mas é forte e significativo. Já o espaço profano é homogêneo, sem nenhuma diferença qualitativa, se opondo à experiência do espaço sagrado. Para o pesquisador romeno seja qual for o grau de dessacralização do mundo, o homem que optou por uma vida profana não consegue abolir completamente o comportamento religioso. Há para esse homem diferenças qualitativas entre os espaços que transita; como diria Eliade: existem locais privilegiados ou diferentes dos outros, diferentes daqueles do cotidiano. Assim, o mundo todo para o homem religioso é um mundo sagrado, pois a consagração de um território equivale à sua cosmicização. “Em todas as culturas tradicionais, a habitação comporta um aspecto sagrado pelo próprio fato de refletir o Mundo”43,

imago mundi. Toda construção e toda inauguração de uma nova morada equivalem

a um novo começo, a uma nova vida – isto é repetição cosmogônica. O homo

religiosus nunca estará sem um lar, enquanto o espaço sagrado fornecer orientação

para ele em seu universo.

Junto com sua consciência do espaço sagrado o homo religiosus torna-se consciente do tempo sagrado. As façanhas dos deuses ou heróis míticos do princípio são repetidas na narração de mitos e no decorrer dos rituais, fazendo o tempo sagrado aparecer novamente. O tempo divino e o tempo das origens retornam àquele lugar onde é fielmente imitado. Assim, o sentido da vida não irá “evaporar”, desde que o sagrado permaneça ali, no centro. Em relação ao tempo,

Eliade apresenta como exemplo o ano novo, sendo este a dimensão temporal do Cosmos, pois em todos os anos o mundo deve ser criado de novo. Ele prossegue afirmando que todo tempo litúrgico representa a reatualização de um evento sagrado que teve lugar num passado mítico, nos primórdios. Tempo que é experimentado não só pelo homem religioso, mas também pelo homem não-religioso ao ouvir sua música predileta ou ao encontrar a pessoa amada, passando a experimentar um ritmo temporal diferente. Dessa forma, o tempo cósmico que a cosmogonia faz brotar é o modelo exemplar de todos os outros tempos, e

a intencionalidade decifrada na experiência do Espaço e do Tempo sagrados revela o desejo de reintegrar uma situação primordial [...] Essa “situação primordial” não é de ordem histórica, não é cronologicamente calculável; trata-se de uma anterioridade mítica, do Tempo da “origem”, do que se passou “no começo”, in principium. 44

A criação do homem é uma réplica da cosmogonia. A criação do mundo torna-se um arquétipo de todo gesto criador humano, seja qual for seu plano de referência, sendo a nostalgia das origens uma nostalgia religiosa. Tal nostalgia pode ser entendida como o desejo experimentado pelo ser humano de achar-se sempre e sem esforço, no coração do mundo, na realidade e na sacralidade, uma forma de superar de maneira natural a condição humana e recuperar a condição divina. A nostalgia revive a beatitude e exaltação criadora dos começos. A esse respeito, Guimarães questiona se não seriam Sagrado e História as duas faces da nostalgia secreta do homem que se percebe enquanto um ser histórico, finito, marcado essencialmente pela temporalidade45.

A principal diferença entre o homem das sociedades arcaicas e tradicionais e o homem das sociedades modernas, com sua forte marca do judeu-cristianismo, reside no fato de que o primeiro se sente indissoluvelmente ligado ao Cosmos e os ritmos cósmicos, enquanto que o segundo insiste que ele é ligado apenas à História.

O mundo continua a ser dividido em dois. De um lado encontra-se a compreensão "metafísica" do universo como algo sagrado, característico do homem arcaico e permanece onde a secularização não triunfou completamente. Do outro lado encontra-se a recusa em reconhecer a transcendência e a tentativa de viver em um universo profano, dessacralizado, que é a escolha do homem não-religioso. Para

44 ELIADE, 2001, p. 81-82. 45 cf. GUIMARÃES, 2000.

Eliade, na modernidade o que é possível observar são alguns vestígios do comportamento do homo religiosus, porém, esvaziado de significados, mas que permanecem visíveis na vida secularizada. Assim, sagrado e profano são dois modos de ser no mundo. Nessa perspectiva, hoje o cosmos se tornou opaco, inerte e mudo, ele não transmite qualquer mensagem. A experiência religiosa já não é aberta ao cosmos e na visão eliadiana o cosmos é primordial na religião e na essência do sagrado como um modo de ser no mundo e na forma de atribuir significado a ele e consequentemente à vida do indivíduo. É neste processo de privação de uma relação viva e criativa com o seu ambiente que ocorre o “enfraquecimento” do homem religioso, pois é assim que ele é transformado em uma criatura do momento, perdido em um mundo indiferente e sem sentido.

Na perspectiva do pesquisador romeno, a mente inconsciente ainda pensa mitologicamente, usando símbolos para compreender o universo e é assim que o sagrado, ou poderíamos ainda dizer que a religião, mantém o seu poder de cura, de possibilitar o ser humano a dar constantemente novos significados à sua existência no mundo. Nos tempos hodiernos, o homem secularizado "esqueceu" o sentido religioso que o cosmos possui, porém, mesmo sem saber ele continua a se valer de suas potencialidades mágicas.

2 O MÉTODO ELIADIANO

Eliade escreve a partir da perspectiva da história das religiões, por isso não se limita a fazer descrições e não reduções de crenças religiosas e costumes. Ele vai além elaborando considerações sobre o valor da consciência religiosa e especula sobre o assunto que a religião é em si. O seu interesse na investigação dos documentos religiosos não é exclusivamente histórico, uma vez que eles não apresentam apenas um passado, mas também desvendam situações existenciais fundamentais que são diretamente relevantes para o homem contemporâneo. Trata- se de um esforço hermenêutico de decifrar o sentido dos mitos, símbolos e outras estruturas religiosas tradicionais, motivo pelo qual o nosso autor compreende que o historiador das religiões não pode dispensar-se de ser um hermeneuta.

Ele ainda insiste em considerar a religião como sui generis e também faz questão de demarcar o status ontológico da experiência religiosa. Com isso ele fornece um esquema interpretativo que permite estudar a religião no âmbito da religião, ou a religião como religião, ficando clara a utilização do método fenomenológico. A perspectiva universalista, presente na base de sua investigação das estruturas simbólicas, possibilita a compreensão do homem integral.