Esta pesquisa foi desenvolvida em uma universidade pública, localizada no interior do estado de São Paulo. Escolhemos esse contexto pelas razões que descreveremos a seguir.
Primeiramente, por ele dispor de potenciais participantes de pesquisa com características representativas para o âmbito desta investigação, pois possibilita o acesso a
pessoas que representam o grupo majoritário dos alunos de alemão da cidade investigada, a saber, os estudantes universitários32.
A segunda razão para a escolha do contexto foi a existência da possibilidade de criação de ambiente de coleta de corpus por meio da realização de um curso de extensão a ser oferecido por um período específico. A criação de um curso de extensão nos pareceu necessária, para se obter algumas condições que poderiam vir a enriquecer a pesquisa nos aspectos que expomos a seguir:
Em primeiro lugar, ele poderia promover maior aproximação dos participantes com a professora/pesquisadora (favorecendo, assim, análise minuciosa das crenças). Em segundo lugar, tornaria possível a relativa homogeneização do perfil dos estudantes, no que tange à configuração de suas crenças prévias e perfil. Em terceiro lugar, viabilizaria a participação de uma aluna-observadora, com o propósito de obtermos impressões advindas de conversas informais entre os alunos, bem como impressões pessoais de uma aluna em relação ao conteúdo apresentado. Em quarto lugar, e de suma importância, está o fato de podermos, desta forma, realizar a análise das crenças e do perfil dos alunos previamente a qualquer tipo de contato com a língua e cultura em aprendizagem formal. Tal fato permitiria uma análise mais precisa da influência do contexto social na configuração das crenças e de aspectos referentes às suas características antes, durante e após o curso. Em instituições de ensino existentes na cidade, o acesso a informações significativas sobre os alunos e suas crenças anteriores ao início da aprendizagem seria fortemente dificultado por razões diversas, como as de natureza prática, por política de sigilo, escolar ou administrativa. Em quinto e último lugar está o fato de ser possível, a partir da constituição de um grupo, selecionar alunos com
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Tal informação foi pressuposta e confirmada em conversa informal com uma pesquisadora alemã, da área de sociologia, a qual desenvolveu pesquisa na cidade investigada e verificou que os alunos de alemão como LE da cidade são majoritariamente estudantes universitários.
crenças calcadas em estereótipos e poder, assim, verificar possíveis variabilidades em sua configuração no decorrer e ao final do curso. Tal procedimento poderia fornecer informações importantes acerca da natureza das crenças, no que tange a sua dinamicidade e a influência dos procedimentos metodológicos sobre elas.
Além disso, a seleção de estudantes para criação de ambiente de coleta de dados de pesquisa se justificou pelo fato de que ela possibilitou reunir alunos com crenças distintas, porém, bastante recorrentes entre aprendizes de alemão (alguns estudos desenvolvidos no Brasil também apontam para tal fato, como exposto no item 2.1.5). Tais crenças foram as que instigaram a realização deste estudo.
Pelas razões referidas, consideramos a criação de ambiente de coleta de dados como possibilidade que veio a enriquecer este estudo.
Vale ressaltar que no semestre que antecedeu a criação do curso de extensão, a pesquisadora realizou coleta de dados com grupos iniciantes em um instituto de idiomas da cidade. Todavia, foi verificado que o distanciamento da pesquisadora dos alunos (que não eram de seus grupos), bem como o desconhecimento dos procedimentos utilizados pela professora responsável, ao lado de algumas imposições institucionais, poderiam levar a fortes restrições no trabalho de coleta e de análise de dados. Por esta razão optamos pela criação do curso de extensão.
A partir da proposta de criação de ambiente de coleta de dados, dividimos o corpus da pesquisa em duas fases: a fase de inscrição de candidatos ao curso (primeira fase) e a fase da realização do curso de extensão (segunda fase). A primeira fase teve início com a divulgação e inscrição de alunos interessados no curso de extensão “Alemão para Iniciantes” (Apêndice 3: Texto de divulgação do curso). As inscrições ficaram abertas por dois dias e foram oferecidas 20 vagas a estudantes de graduação e pós-graduação. Os alunos interessados no curso deveriam preencher o Questionário 1 (Apêndice 4), disponibilizado na web, e enviá-lo
anexado a mensagem eletrônica para o endereço virtual criado para esse fim. Encerradas as inscrições, os questionários foram lidos, analisados, divididos em categorias pela pesquisadora e, assim, os participantes que iriam integrar o grupo foram selecionados, caracterizando o fim da primeira fase da coleta de dados.
A segunda fase iniciou-se com o primeiro dia de curso e se estendeu até a realização da segunda e última discussão e aplicação do Questionário Final (Apêndice 5).
O modelo de curso adotado na segunda fase foi baseado em características similares ao de cursos oferecidos em institutos de idiomas (por exemplo, os participantes são, em institutos de idiomas, como já mencionamos, majoritariamente estudantes universitários e o material didático e o conteúdo programático também foram os mesmos do adotado na maior parte das escolas da cidade).
O curso de extensão “Alemão para Iniciantes” foi realizado no próprio campus da universidade e as aulas foram ministradas duas vezes por semana, cada uma com duração de uma hora e quinze minutos e teve caráter gratuito.
Estabelecemos como objetivos do curso: 1) criar ambiente para coleta de dados;
2) proporcionar conhecimento básico da língua alemã (curso básico 1) a estudantes de graduação e de pós-graduação da referida universidade. O objetivo programático específico se constituiu em buscar capacitar os alunos nas habilidades (preponderantemente as de ler, escrever, falar e ouvir) exigidas no nível A1.1 convencional, com vistas ao quadro comum de referência europeu.33
3) estudar a configuração das crenças dos alunos antes, durante e ao final do curso, com relação à língua e à cultura-alemã;
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Segundo o quadro comum de referência europeu, o aluno deve, no nível A1, ter a capacidade de compreender e utilizar frases e expressões cotidianas simples; capacidade de apresentar-se, elaborar perguntas simples sobre outras pessoas e responder a perguntas desta natureza; capacidade de comunicar-se de maneira simples,
O livro didático utilizado no curso de extensão foi o Tangram Aktuell 1 – Lektionen 1- 4 e estabelecemos como conteúdo a ser trabalhado, o proposto no livro (quatro lições), correspondente ao do nível A1.1.
Durante o curso, buscamos adotar procedimentos metodológicos contemporâneos em sala de aula, que promovessem um baixo filtro afetivo no sentido de Krashen (1983): procedimentos que pudessem levar a um aumento da motivação, do interesse, do prazer na aprendizagem, a um baixo grau de ansiedade, ao lado de promover também uma aproximação de culturas. Tais propostas foram calcadas em pressupostos teóricos da abordagem comunicativa e do ensino intercultural, segundo os quais, um dos papéis fundamentais do professor de LE é promover situações relevantes de comunicação, o contraste de culturas, a compreensão do outro, o maior conhecimento do próprio, com vistas aos aspectos afetivos e à formação geral do aluno. Teorias que respaldam esses princípios encontram-se, em parte, descritas no item 2.3. Outras, acerca do ensino comunicativo, encontramos, por exemplo, em Almeida Filho (1993)34 ou Widdowson (1978).
Buscamos, ainda, diversificar as atividades propostas ao longo do curso. Utilizamos, para tanto, diferentes jogos, músicas, filmes, simulações de situações do dia-a-dia (por exemplo, fazer compras, se conhecer, etc.), a partir de material extra livro e/ou do próprio livro didático. Com base nos pressupostos teóricos do ensino comunicativo, buscamos criar situações reais de comunicação (ou aproveitar as que surgissem espontaneamente) ou o mais próximo possível delas, que fossem relevantes aos alunos, a fim de estimular e motivar o uso verossímil da língua-alvo.
Tendo como respaldo também os pressupostos do ensino intercultural, procuramos levar os alunos à reflexão crítica sobre a própria cultura e possibilitar o contato com aspectos
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Almeida Filho (1993, p. 37) caracteriza em linhas gerais o ensino comunicativo, como aquele que dá maior ênfase na produção de significados do que nas formas do sistema gramatical. Neste caso, o professor, promove materiais e procedimentos que incentivam o aluno a pensar e interagir na língua-alvo abrindo espaços para que ele aprenda e sistematize conscientemente aspectos escolhidos da nova língua.
da cultura-alvo por meio de discussões sobre temas distintos relacionados às duas culturas envolvidas e incentivando os alunos a buscar o contato com a cultura alemã fora de sala de aula, seja por meio da Internet, músicas, filmes ou televisão.
Para elucidar os procedimentos metodológicos adotados para atingirmos nossos objetivos, apresentamos alguns exemplos de atividades realizadas: discussão sobre aspectos do dia-a-dia como, por exemplo, as formas mais usuais de se atender ao telefone no Brasil e na Alemanha e possíveis razões para as diferenças existentes (geralmente, na Alemanha, pelo nome, de forma direta; no Brasil, com “alô”, de forma indireta); indicação de sites e de filmes alemães disponíveis em locadoras; discussão de padrões de comportamento na situação de um encontro com amigos em restaurante (o uso de “Prost” e “Guten Appetit”, no Brasil e na Alemanha); indicação e apresentação de músicas e outras.
Além disso, apresentamos em uma das aulas os filmes “Good bye Lênin” e “Edukators”.
A escolha do filme “Good bye Lênin” se deu, com o objetivo de promover discussão de temas sobre aspectos da cultura alemã abordados no filme. O filme, além de fonte de insumo riquíssima, apresenta com bastante humor um fato histórico muito importante da cultura alemã que foi a reunificação do país. Por essa razão, apresentamos alguns trechos do filme e, com base em um roteiro de atividades pré-elaborado, foram discutidos (na LM) aspectos da história do país abordados no longa-metragem.
A escolha do segundo filme ocorreu por razões lingüísticas específicas. Selecionamos alguns trechos que apresentavam imagens e tema relacionados ao vocabulário da lição que se estava trabalhando, a saber, os móveis da casa. Com base em uma folha de atividades previamente distribuída, discutimos as cenas focalizando o vocabulário apresentado nas aulas anteriores, a fim de promover novas situações de uso do conteúdo lingüístico abordado. Sendo
assim, os alunos deveriam se expressar acerca das impressões pessoais sobre os cômodos e móveis das casas existentes nas cenas assistidas.
O curso teve duração de 3 meses, sendo que foram realizadas, ao final do semestre, três aulas extras, com o objetivo de possibilitar conclusão do conteúdo previsto, totalizando assim, 29 aulas, ou 36 horas/aula.
A sala de aula possuía carteiras universitárias, que eram dispostas pela pesquisadora a cada aula em forma de U, por acreditarmos ser esta uma distribuição que possibilita maior participação e interação entre os alunos. Além disso, dispúnhamos de um guadro-negro e um CD-Player.
Descreveremos, a seguir, os instrumentos de coleta de dados, procedimentos e participantes das distintas fases.
3.2.2. Primeira Fase: instrumentos, procedimentos e participantes