Em seguida, foi calculado o índice preço-lucro como em Fama e French (1992), Lakonishok, Shleifer and Vishny (1994) e Mohanram (2005), utilizando a mesma metodologia empregada em Q de Tobin e MV/BV. O índice Preço-Lucro (preço por ação sobre lucro por ação) mede o quanto os investidores estão dispostos a pagar por unidade monetária de lucro atual. Quanto mais alto o índice preço-lucro, mais o mercado espera que a firma tenha perspectivas de crescimento futuro. Valores negativos indicam que a empresa apresentou prejuízo ao invés de lucro (BASU, 1977).
Quanto maior o lucro de uma empresa ou maior a expectativa de lucros futuros (fluxo de caixa para o acionista), maior o preço da ação e, consequentemente, maior o valor da empresa (CHENG; DONG, 2001). Assim, empresas com maior relação preço da ação sobre o lucro atual seriam as empresas nas quais o mercado entende que há maior expectativa de crescimento futuro dos fluxos de caixa para os acionistas, seja na forma de ganho da capital ou distribuição de lucros (FAMA; FRENCH, 1992).
Em continuação, tendências negativas do índice preço-lucro, significariam desaceleração do efeito do lucro para os acionistas no preço das ações e valor da empresa, i.e., o lucro marginal, embora gerasse aumento do preço das ações, teria efeito menor.
O teste ANOVA revelou, com p-valor menor que 0,05, que há diferença entre os índices preço-lucro setoriais, por país. A análise de variância (ANOVA) entre as médias dos países também mostra diferenças entre os BRICs, com p-valor menor que 0,10.
A Tabela 34 mostra os resultados para o Brasil. Os setores que o mercado entenderia como possuindo maior potencial de geração de valor, ou seja, maior índice preço- lucro seriam tecnologia da informação, automotivo e saúde; os setores com menor potencial de geração de valor (menor índice preço-lucro) seriam consumo, instituições financeiras e motores, máquinas & ferramentas. Deve-se observar, no entanto, que os setores de papel & celulose, telecomunicações e consumo apresentam valores negativos devido ao prejuízo apresentado durante o período de estudo. Coube, neste caso, a avaliação dos módulos ao invés de valores absolutos para verificar o potencial de geração de valor com base na expectativa de fluxos de caixa descontados futuros.
Complementarmente, quinze dos vinte e um setores brasileiros do estudo apresentaram tendência positiva (crescimento) do índice preço-lucro.
Tabela 34 – Preço-Lucro para o Brasil
Setores - Brasil Preço-Lucro Tendência de Variação Preço-Lucro R2
Tecnologia da Informação 135,15 -28,40 0,2551
Automotivo 82,89 -59,37 0,8714
Saúde 73,54 37,24 0,5090
Serviços 55,52 -270,47 0,0987
Construção, Engenharias & Imobiliárias 47,74 8,85 0,4051
Varejo 45,62 4,99 0,4751
Transporte & Logística 44,58 0,67 0,0022
Eletro-eletrônicos & semicondutores 43,45 5,37 0,8173
Água e Saneamento 41,21 -59,87 0,7671 Siderurgia e Metalurgia 35,31 -160,32 0,2103 Alimentício 20,97 11,67 0,8916 Óleo & Gás 17,91 3,69 0,1709 Mineração 15,85 0,95 0,6942 Energia 15,47 -0,19 0,0015 Química 11,60 3,79 0,4563 Têxtil 9,87 -0,10 0,0009
Motores, Máquinas & Ferramentas 6,50 25,05 0,7010
Instituições Financeiras 5,72 1,14 0,8295
Consumo -3,64 0,81 0,1600
Telecomunicações -25,20 321,95 0,6953
Papel & Celulose -31,77 47,51 0,6790
Média 30,87 -5,00 0,4615
Fonte: elaboração própria a partir de dados do Compustat (STANDARD & POOR’S, 2009).
Na Rússia, como mostra a Tabela 35, os setores que teriam maior potencial de geração de valor (maior índice preço-lucro) seriam energia, motores, máquinas & ferramentas e mineração, enquanto os setores com menor potencial de geração de valor (menor índice preço- lucro) seriam química, transporte & logística e óleo & gás.
Três dos dez setores russos analisados neste estudo apresentaram tendência de redução do índice preço-lucro.
Tabela 35 – Preço-Lucro para a Rússia
Setores - Rússia Preço-Lucro Tendência de Variação Preço-Lucro R2
Energia 59,73 -3,09 0,0645
Motores, Máquinas & Ferramentas 58,79 -2,56 0,0122
Mineração 25,67 2,52 0,2769 Siderurgia e Metalurgia 24,85 7,29 0,8477 Telecomunicações 23,90 26,95 0,8598 Instituições Financeiras 22,59 4,88 0,7639 Alimentício 20,51 2,94 0,9495 Óleo & Gás 16,82 1,92 0,9098
Transporte & Logística 11,59 -0,17 0,0065
Química 7,28 16,33 0,3789
Média 27,17 5,70 0,5070
Fonte: elaboração própria a partir de dados do Compustat (STANDARD & POOR’S, 2009).
A Tabela 36 mostra que na Índia os setores que teriam maior índice preço-lucro seriam eletro-eletrônicos & semicondutores, varejo e tecnologia da informação. Já os setores com menor potencial de geração de valor – menor índice preço-lucro – seriam instituições financeiras, papel & celulose e construção, engenharias & imobiliárias.
Apenas quatro dos vinte e dois setores indianos analisados neste estudo apresentaram tendência de redução do índice preço-lucro, o que poderia sinalizar confiança dos mercados no aumento de fluxos de caixa futuros de empresas indianas.
Tabela 36 – Preço-Lucro para a Índia
Setores - Índia Preço-Lucro Tendência de Variação Preço-Lucro R2
Eletro-eletrônicos & semicondutores 103,85 9,14 0,4035
Varejo 99,66 6,51 0,4964 Tecnologia da Informação 73,97 7,72 0,0899 Óleo & Gás 67,53 4,43 0,6576 Alimentício 62,52 -7,86 0,5288 Serviços 47,55 2,71 0,2004 Consumo 33,09 2,52 0,4723 Energia 31,12 2,23 0,4003
Motores, Máquinas & Ferramentas 29,98 0,79 0,1019
Farmacêutica 25,39 0,48 0,1443
Transporte & Logística 23,01 1,50 0,3977
Mineração 22,39 1,40 0,7023
Têxtil 22,22 1,79 0,4004
Química 22,06 1,33 0,4894
Lazer & Turismo 21,11 -6,99 0,3078
Saúde 20,41 2,68 0,5269
Automotivo 19,93 0,59 0,1546
Siderurgia e Metalurgia 19,06 -0,85 0,0646
Telecomunicações 14,44 0,34 0,0049
Construção, Engenharias & Imobiliárias 12,04 0,02 0,0003
Papel & Celulose 9,88 1,57 0,9397
Instituições Financeiras 4,79 -1,84 0,2827
Média 35,73 1,37 0,3530
Fonte: elaboração própria a partir de dados do Compustat (STANDARD & POOR’S, 2009).
Os resultados para a China (Tabela 37) mostram os setores que teriam maior potencial de geração de valor pela expectativa de fluxos de caixa futuros aos acionistas seriam os de consumo, lazer & turismo e serviços. Já os setores com menor índice preço-lucro – seriam água e saneamento, papel & celulose e siderurgia & metalurgia.
Sete dos vinte e dois setores chineses apresentaram tendência de redução do índice preço-lucro, o que corrobora com os resultados obtidos para risco ROE e risco-retorno ROE (indicando tendência de aumento do primeiro e queda do segundo índice), o que poderia levar a diminuição do efeito dos lucros sobre o valor das empresas, por conta do aumento do
Tabela 37 – Preço-Lucro para a China
Setores - China Preço-Lucro Tendência de Variação Preço-Lucro R2
Consumo 250,15 -121,00 0,1226
Lazer & Turismo 189,18 -31,53 0,0454
Serviços 139,30 -2,74 0,0199
Motores, Máquinas & Ferramentas 126,61 -10,80 0,5848
Alimentício 123,15 6,95 0,4518 Varejo 122,08 8,77 0,5157 Óleo & Gás 115,43 3,87 0,1832 Automotivo 109,13 5,90 0,5861 Tecnologia da Informação 105,67 7,84 0,6716 Energia 104,88 8,53 0,7554 Química 95,83 4,43 0,0639 Têxtil 95,47 1,65 0,0485 Farmacêutica 93,69 4,31 0,2010
Construção, Engenharias & Imobiliárias 91,61 -10,57 0,4522 Eletro-eletrônicos & semicondutores 84,68 1,78 0,0774
Telecomunicações 82,87 7,92 0,8228
Instituições Financeiras 73,69 -0,96 0,0271
Mineração 72,96 2,94 0,0954
Transporte & Logística 65,74 2,04 0,1373
Siderurgia & Metalurgia 64,67 -3,85 0,0257
Papel & Celulose 61,01 6,04 0,6122
Água & Saneamento 13,77 -3,76 0,8883
Média 102,83 -5,76 0,3273
Fonte: elaboração própria a partir de dados do Compustat (STANDARD & POOR’S, 2009).
A análise do índice preço-lucro revela que Brasil e China tenderiam a sofrer desaceleração no aumento de valor percebido pelos mercados para cada unidade incremental de lucro, o que poderia sinalizar o desenvolvimento e amadurecimento destes mercados.
Os resultados apresentados pelo índice preço-lucro podem ainda indicar que: apesar da tendência de geração de valor apontada pelos índices anteriores, o mercado pode não ter a disposição de pagar pela unidade de lucro por ação na mesma proporção que a tendência de valor futuro a ser gerado pela empresa, talvez devido ao aumento do risco, o que comprometeria a relação risco-retorno.
Os resultados com Q de Tobin, MV/BV e Preço-Lucro combinados com o risco- retorno ROE e sua variação temporal sugerem que o Brasil, enquanto praça de investimento está melhorando sua relação risco-retorno, possui potencial (pelos resultados de Q-Tobin) e tendência de aumento na geração de valor (pelos resultados de MV/BV), através de investimento estratégico, porém tenderá a ter desaceleração no aumento de valor percebido pelos mercados para cada unidade incremental de lucro, como indicam os resultados do índice preço-lucro, de forma geral (MOHANRAM, 2005). De forma mais específica, cabe análise para cada setor em cada país, separadamente.
Utilizando-se o mesmo raciocínio, para a Rússia, os resultados indicariam tendência de melhora na relação risco-retorno, potencial de geração de valor pelo re- investimento em ativos físicos, aumento do valor de mercado em comparação com o valor contábil e com lucro marginal.
Os resultados para a Índia, de forma geral, sugerem tendência de estabilidade na relação ao risco-retorno ROE, aumento na geração de valor (MV/BV) e redução do potencial de geração de valor com investimento em ativos (Q-Tobin).
Analogamente, para a China os resultados indicariam tendência de redução da relação risco-retorno ROE, geração de valor pelo re-investimento em ativos físicos, aumento do valor de mercado em comparação com o valor contábil, porém desaceleração do efeito do lucro marginal sobre o valor gerado.