Revista IstoÉ, 30 de abril de 1986, página 36 (transcrição)
Odisséia Kraô
Duas semanas atrás, nove índios da tribo Kraô deixaram a sua aldeia de Pedra Branca , às margens do Rio Tocantins, no norte de Goiás, e partiram em sigilosa expedição rumo ao sul. Buscavam uma machadinha de pedra polida e cabo de madeira, chamada k`yire – precioso objeto ritual que há cerca de meio século desapareceu da aldeia. A machadinha, em forma de meia-lua, foi localizada em 1947 no município goiano de Pedro Afonso, não longe de Pedra Branca, pelo antropólogo alemão Harold (sic) Schultz, que a levou para o Museu Paulista, o famoso Museu do Ipiranga, da Universidade de São Paulo (USP), onde desde então está exposta numa vitrine. Só em 1982 os Kraô souberam do paradeiro da k`yire. Trataram de certificar-se de sua autenticidade – e, finalmente, no último dia 18, através de uma comissão de nove “embaixadores”, desembarcaram no Museu do Ipiranga, dispostos a reaver seu pequeno tesouro.
Objeto ritual surgido há quatrocentos anos e que tem origem num mito épico dos Kraô – o mito de Hartant, o herói cultural máximo do grupo –, a machadinha é associada a um vasto ciclo de cantigas e canções rituais da tribo, hoje parcialmente esquecidas. “Eu era menino quando a
k`yire saiu da aldeia, mas ainda lembro dela”, diz Pedro Penon, 70 anos, conselheiro da tribo
Kraô, reduzida agora a cerca de mil índios. “A k`yire era para nós como a bandeira para vocês. Depois que desapareceu, ninguém cantou mais as músicas ensinadas pelos espíritos.” na lenda kraô, o índio Hartant e seu cunhado enfrentam vários perigos, até encontrarem o espírito que cantava com a machadinha nas mãos. Fascinados pela música, os dois lhe pedem a k`yire. O espírito a entrega, mas avisa: “Não deixem nunca a k`yire parada, ela não pode ficar quieta”. A história é contada pelo velho Penon, um dos três líderes kraô que ainda sabem o ciclo completo de cantigas rituais associadas à machadinha.
Assustados com a falta de entusiasmo da juventude pelas tradições da tribo, os índios mais velhos decidiram resgatar de qualquer modo a k`yire, que representa essa epopéia fundamental da nação Kraô. Assim, no último dia 18, acompanhados de Ailton Krenak, coordenador da União das Nações Indígenas, os Kraô negociaram com o diretor do Museu do Ipiranga, Orlando Marques de Paiva, a devolução da machadinha. Não houve luta nem guerra. Num clima pacífico, eles preencheram um ofício, enviado ao reitor da USP, pedindo a baixa da k`yire do museu, onde está registrada como patrimônio da universidade e “emblema do melhor cantor da aldeia”. “O interesse dos Kraô, um grupo que tem cerca de trezentos rituais diferentes, em recuperar a machadinha é o de não perder seu patrimônio cultural”, diz o antropólogo Gilberto Azanha, do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), que acompanha esse grupo indígena desde 1976.
Azanha explica que a nação Kraô é uma sociedade de festas, onde os rituais envolvem trocas de alimentos e brindes. As festas chegam a durar quatro meses, e a atividade econômica existe apenas como suporte para os rituais. Quando a k`yire chegar na aldeia, ficará sob a guarda de um velho cantador, e os Kraô darão uma grande festa para relembrar o ciclo completo de suas cantigas. “Ainda bem que o Harold Schultz levou o machado para o museu, que o preservou e agora poderá devolvê-lo aos índios”, diz o antropólogo. De fato, um outro exemplar foi perdido para sempre, e sabe-se apenas da existência de mais duas k`yires: uma dos índios Canela, que se encontra no Museu de Etnografia de Paranaguá, no Paraná, e outra que está na Alemanha.
Fotografia da k`yire em fundo branco. Legenda: A machadinha kraô: uma busca de 50 anos. Crédito foto: Sérgio Moraes.
Jornal O Globo, 12 de junho de 1986 (transcrição)
Seção “O País”
Krahôs matarão um boi na festa do machado sagrado
SÃO PAULO – Felizes com a devolução do machado sagrado Kyire, retirado há 40 anos da aldeia de Pedra Branca, em Goiás, pelo antropólogo Herald (sic) Schultz, os índios da tribo krahô anunciaram ontem que vão comprar um boi e realizar uma grande festa nos próximos dias para comemorar o acontecimento.
O machado, que estava no Museu Paulista, da Universidade de São Paulo, foi entregue ontem ao chefe krahô pedro Penon, que assinou o termo de “empréstimo em comodato”, que ficará em vigor até que o Patrimônio Histórico promova o “destombamento” da Kyire.
- Ele é movimento, é alegria, põe coragem e traz união – explicou Penon, segurando a machadinha da fase neolítica, formada por uma lâmina de pedra amarrada a um cabo de madeira. Para os Krahõ, ela simboliza a continuidade de sua cultura e faz parte de todos os rituais da tribo. É tão importante, que os mais velhos temem que esta longa ausência possa ter causado o descaso e o esquecimento dos jovens em relação às tradições Krahô.
Mas a cerimônia de ontem, que contou com a presença do presidente da Funai, Romero Jucá Filho, e do chefe Krahô Aleixo Po'ri, teve pelo menos um momento constrangedor para o reitor da USP, José Goldemberg. Foi quando Po'ri, em seu discurso, destacou a alegria de “ter saído da prisão”:
- Vim para buscar meu ritual nativo, aquilo que é meu, que Deus me deixou e significa meu coração. Mas fiquei preso durante dois meses, sofrendo longe da família – queixou-se, referindo-se aos dois meses perdidos em São Paulo, entre encontros políticos, entrevistas e muita burocracia, até receber o Kyire.
Nesse momento, Goldemberg interrompeu o discurso e fez questão de explicar que os 10 índios da tribo Krahô foram alojados na Casa do Estudante da USP, onde receberam alimentação.
No final da festa, o chefe Pedro Penon voltaria ao assunto, fazendo coro com Po'ri, ao mencionar o “desrespeito do homem branco, que nos deixou dois meses de um lado para o outro”, até a entrega do machado sagrado.
Fotografia de Penon beijando a kyire. Legenda: Emocionado, Penon beija a Kyire. Fotografia sem crédito.
Folha de São Paulo, 18 de junho de 1986
Revista Visão, 18 de junho de 1986, página 05 (transcrição)
Sessão “Aconteceu”
Índios recuperam machado sagrado
Emocionados por haver recuperado, após quase quarenta anos de espera, seu kyire, o machado sagrado que é símbolo religioso e cultural de sua tribo, os índios kraho anunciaram no dia 11, em São Paulo, que nos próximos dias uma grande festa, para a qual até um boi foi comprado, será realizada em sua aldeia de Pedra Branca, no Norte de Goiás. O kyire, retirado da aldeia em 1947 pelo antropólogo Haral (sic) Schultz e até agora fazendo parte do acervo do Museu Paulista (o do Ipiranga), da USP, ficará com os índios, mas continua propriedade do museu, já que a cessão foi por termo de comodato, assinado pelo presidente da Funai, Romero Jucá Filho, pelo reitor da USP, José Goldemberg, e pelo cacique Penon (foto).
Fotografia da reitor da USP apertando a mão de Penon, que segura a kyire. Sem legenda. Crédito foto: Ricardo Giraldez.