2.5. UYUŞTURUCU MADDE BAĞIMLILIĞI, SEBEPLERİ VE ETKİLERİ
2.5.5. Uyuşturucu Madde Bağımlılığının Aile Yaşamı Üzerindeki Etkileri
2.5.5.5. Aile, Bir Üyesinin Bağımlı Olduğunu Öğrendiğinde Ne Yapmalıdır? 49
Elaborar um estudo sobre Cecília Meireles significa, para mim, o momento em que a serpente urobórica morde a própria cauda, o encontro com o início. Foi dela o primeiro poema que li, até onde minha memória se recorda: Leilão de Jardim. Fui uma das muitas crianças tocadas pela generosa poesia que a elas Cecília dirigiu. Tive, eu também, meus sonhos nutridos por aquelas imagens, por aquela musicalidade, na época delicada e mágica da vida em que somos todos apenas-filhos. Como a psicologia nos faz entender, tudo o que recebemos na infância nos permanece de alguma forma. Eu recebi a poesia, num momento em que o destino me mirou como Mãe Boa. Como mencionei na introdução deste trabalho, por sincronicidade, Cecília Meireles dava nome à primeira escola onde estudei.
Atravessei uma adolescência também agarrada à sua lírica, que vim a conhecer melhor com o passar dos anos. Familiarizei-me com suas metáforas, com seu vocabulário e com o modo de sentir a vida que seus versos expressavam. Creio que eles passaram a andar dentro de mim. Posso dizer que essa adesão se deve à numinosidade dos símbolos presentes em sua obra. Minha consciência sempre precisou deles. Desta forma, escolher estudar um poema desta lírica em meu trabalho como pesquisadora consiste numa espécie de confissão biográfica.
Após minha formação como historiadora, em que meu interesse se voltou completamente à história das mulheres e às temáticas femininas, ingressei no campo da psicologia justamente por uma espécie de “carência” simbólica, uma necessidade de agregar o sentido e a finalidade dos fenômenos ao meu fazer científico. No momento de iniciar meu trajeto como pesquisadora nesta área, Cecília voltou a se fazer presente, unindo as extremidades de minha linha temporal num círculo, lembrando-me que sou mulher e que minha história jamais será percebida numa linha progressiva: nós, mulheres, temos fases, como a lua.
Como pessoa, significo este trabalho de pesquisa, portanto, como algo pleno de sentido em meu contexto de vida. Sou, por formação, também professora de dança do ventre. Há 13 anos, convivo com mulheres diariamente. Ensinar a dança para mulheres sempre tão diferentes entre si significa encontrar o fio de Ariadne que nos costura em meio ao labirinto de nossas singularidades. Esse fio, formado por aquilo que há em nós de mais primevo, de mais original, é o Feminino, nossa íntima essência, mãe de nossa consciência. Agregar a experiência diária de contato com esta fonte arquetípica ao meu fazer acadêmico possibilitou-
me sentir uma espécie de coerência, uma integração de esferas, a possibilidade de “traduzir” em linguagem psicológica um fenômeno que faz parte de minha vida na esfera do corpo e do sentimento. Unir Eros e Logos.
Como psicóloga clínica, percebo que o trabalho com os pacientes será alimentado pelo sentido aqui produzido. Por sincronicidade, muitas mulheres que atendi enquanto finalizava esta dissertação trouxeram-me questões altamente concernentes àquilo que eu pesquisava. Parece-me que o Feminino, esta parte fundamental de nossa constituição que se encontra tão aviltada em nossa cultura identificada com os valores do Masculino, tem emergido no ambiente terapêutico, sobretudo nos processos de mulheres que se encontram alijadas de sua essência básica. Enquanto eu amplificava símbolos, eles começaram a surgir nos sonhos dessas mulheres, e uma imensidão líquida, formada por mares, águas, fontes e riachos, acompanhada de peixes, cavalos e sereias se fez presente nas sessões. Percebi que tudo está, de fato, conectado, e minha análise teórica fornecia subsídio ao entendimento das questões trazidas por essas mulheres, ao passo que estas me faziam compreender melhor aquilo que eu escrevia.
Como pesquisadora, creio que os objetivos desse trabalho foram alcançados, embora, como ocorre com as pesquisas qualitativas, eles foram modificados aos poucos no curso da pesquisa, que se desenhou paulatinamente, sugerindo novas necessidades e demandando ajustes graduais.
Considero que tenha sido possível vislumbrar, na escrita ceciliana, como um princípio arquetípico pode se materializar, fazer-se ouvir pela consciência por meio de seus símbolos. Foi possível constatar que é especificamente o aspecto materno que nos fala no poema analisado, por meio de um conteúdo imagético peculiar que, amplificado, revelou conexões com uma profusão de mitos que reportam às antigas deusas, as Grandes Mães, nas quais a ambivalência do Feminino foi projetada ao longo da história.
Creio que o achado mais rico desta pesquisa foi justamente perceber como é possível, por meio da criação artística, tomar contato com as realidades arquetípicas e com a mensagem que elas encerram. Numa sociedade, reitero, tão identificada com o Masculino, a Mãe se tornou visível na arte, nas letras da poeta. Foi possível compreender que, por meio de seus escritos, a Grande Mãe renascia e era trazida à consciência moderna, na pele de uma deusa líquida, tecida com fios do inconsciente mesclados aos fios biográficos de Cecília.
A análise do poema Mar Absoluto, a meu ver, provou que antigos mitologemas continuam a emergir entre nós, revelando verdades do humano em linguagem contemporânea. Por isto mesmo, a pesquisa aqui levada a cabo evidencia a necessidade de que novos estudos
sejam realizados. Há um campo aberto, definitivamente amplo, a ser explorado pela psicologia analítica com relação à produção artística e, em especial, à literatura.
A própria Cecília encerra em sua lírica uma profusão de imagens relacionadas ao Feminino que não puderam ser contempladas neste estudo. Dada a maciça presença do mar e de seus símbolos em seus poemas, novas pesquisas podem ser elaboradas, visando ampliar o significado desta imagem tão fundamental em sua obra.
Acredito que muito ainda há a ser construído em termos de uma compreensão psicológica dos poemas de Cecília. Como revelou a revisão bibliográfica por nós realizada, há quase uma inexistência de análises nesse sentido. A maioria absoluta de trabalhos que focalizam a obra da autora são elaborados por pesquisadores oriundos da área das Letras, o que significa que este rico e abundante manancial simbólico pouco vem sendo aproveitado pelos psicólogos, no sentido de ser compreendido teleologicamente, como uma mensagem à consciência coletiva.
Reciprocamente, creio que os estudos em psicologia a respeito da obra ceciliana possam contribuir para sua fortuna crítica, por elucidar aspectos talvez pouco trabalhados nas análises literárias, seja corroborando as hipóteses dos pesquisadores das Letras, ou contrapondo-as. De todo modo, na metodologia qualitativa, cada análise ilumina um aspecto do fenômeno, sendo o que chamamos de “realidade” algo construído a partir de todos os luminares. Vistos em conjunto, tais estudos podem ajudar na melhor compreensão desta obra literária de fundamental importância.
Para nós, psicólogos, a tarefa de perscrutar os símbolos presentes em Mar Absoluto é uma maneira de constatarmos, na prática, como a dança das polaridades arquetípicas se manifestou, num determinado contexto cultural, numa determinada consciência individual, no processo de criação artística. Esta experiência nos convida a pensar a arte poética como território próprio da manifestação simbólica – um convite para um passeio pelas imagens, que sempre têm algo mais a revelar além do que aparece em sua superfície. Assim como o Mar Absoluto de Cecília, sob as águas mais epidérmicas jaz um oceano de significados profundos, obscuros, reveladores daquilo que, em nós, não tem nome. Mas não requerem, sobremodo, ser decifrados ou esgotados. Requerem reverência, pedem uma aproximação cuidadosa, um “saber escutar”: eis o cultivo do símbolo. Requerem que a consciência aceite esse instante de contato, de iluminação e alumbramento.
A poesia, como as outras formas de manifestação artística, nesse sentido, nos proporciona espelhos, nos brinda com o susto do reconhecimento. Ela introduz novos sentidos e significados às questões que não se dão à investigação racional. Para tudo aquilo que, em
nós, não se nomeia, ela proporciona uma imagem, que nos faz tomar contato com nossas verdades intrínsecas. Esperamos ter contribuído para elucidar, em termos psicológicos, a verossimilhança deste processo.
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