Na análise dos relatórios dos anos de 2006-201133, realizado pelo Núcleo de Atendimento a Saúde do Trabalhador (NAST), um fato que imediatamente chamou a atenção foi à existência de um número significativo de afastamentos dos docentes para tratamento de saúde.
Os afastamentos, de acordo com os relatórios, vêm assumindo proporções relevantes, em decorrência também das substituições desses trabalhadores que requerem políticas que procurem minimizar os impactos em múltiplas dimensões, quais sejam: nos trabalhadores docentes, que passam a realizar outras funções, para as quais, na maioria das situações não estão preparados, causando sérios problemas de adaptação. No gráfico 1, constata-se que o
total de trabalhadores docentes (Professor Licenciado e Professor Pedagógico) 34 afastados para tratamento de saúde é elevado se relacionado a outras categorias de trabalhadores, sendo que dos 3.991 servidores da Secretaria Municipal de Educação do município de Belém 21% são de Professores Pedagógicos que se encontram em processo de adoecimento (RELATÓRIO NAST 2011). Decerto que é preciso ponderar que a categoria de maior quantitativo no quadro de servidores são o de docentes, podendo ser determinante para o número expressivo de casos de adoecimentos entre esses trabalhadores.
Gráfico 1– Incidência por cargos dos servidores em tratamento de saúde. Rede Municipal de Belém (2006-2011)
Fonte: NAST/DERH/SEMEC, 2011.
No caso do Professor Pedagógico, de acordo com a entrevista com a coordenação do NAST, os que atuam na educação infantil são os mais propensos ao adoecimento, principalmente as doenças musculoesqueléticas.
[...] em uma sala de aula da Educação Infantil nós temos vinte crianças pra uma professora. Ela vai ter que pentear o cabelo das meninas, que são maioria. Nós temos uma sala com vinte crianças 12 são meninas. Ela tem que pentear o cabelo das doze meninas, colocar xuxinha nas doze menininhas, passar talquinho nas doze menininhas, vestir as calcinhas das doze menininhas, então vai se abaixar muito mais que doze vezes. Ela vai ajudar aquelas crianças a se alimentarem, vai ajudar todas na mesa, e se ela não observar que a postura dela ao abaixar, agachar num determinado período de tempo, num curto período se ela faz as mesmas coisas vai adoecer com muito mais facilidade [...] (COORDENAÇÃO).
O professor da Educação Infantil tem uma carga de trabalho muito grande, pois requer, não apenas habilidade física para lidar com a rotina do dia-a-dia, nesta etapa de ensino, mas as condições psicológicas são fundamentais, haja vista que são crianças que estão em uma fase de desenvolvimento muito complexa, e que necessitam de afeto e proteção, solicitando a todo o momento a atenção do professor.
34 Professor Licenciado é o professor que é formado para atuar nas disciplinas específicas e o Professor
Pedagógico é o formado para atuar na Educação Infantil e Ensino Fundamental até o 5º ano. Agente de Serviços Gerais (ASG) são os servidores que trabalham na merenda, limpeza e segurança das escolas.
274 240 271 281 246 230
0 100 200 300
Prof. Ped. Prof. Ped. ASG Prof. Ped. Prof. Ped. ASG
Ao se discutir sobre o trabalho realizado pelo professor, é necessário refletir acerca das questões que embasam a situação de trabalho, bem como a exigência psicológica em que o mesmo é solicitado a todo o momento, como concentração, ritmo e volume de tarefas feitas fora da sala de aula, além das pressões constantes para a obtenção de resultados de ensino que nem sempre passam pela questão da formação ou competências.
O trabalhador docente que atua no Ensino Fundamental menor, o foco desta pesquisa, assume responsabilidades que extrapolam a docência. O fato de esta profissão ensejar este compromisso, o problema encontra-se nas condições de trabalho, na qual ele cotidianamente se depara. Tais condições não são apenas estruturais, mas envolvem também os alunos, a forma como se precisa lidar com eles, a participação da família, dentre outras, são preponderantes para entender como se configura na atualidade a atividade docente.
Tabela 6 - Cargos dos servidores em tratamento de saúde nos distritos administrativos. Rede Municipal de Ensino de Belém (2009 a 2011)
DISTRITOS CARGO 2009 CARGO 2010 CARGO 2011
Qtde % Qtd
e % Qtde %
DABEL/SEDE Prof.
Lic. 51 6% ASG 32 21% Licenciado Prof. 52 23%
DABEN Prof.
Ped. 47 8% Prof. Ped. 42 24,4% Prof. Pedagógico 32 19%
DAENT ASG +
Prof. Lic 32 7,5% Prof. Lic. 26 27% Pedagógico Prof. 29 28%
DAGUA ASG 52 5,5% Prof. Ped. 57 25% Prof.
Pedagógico 49 22%
DAICO Prof.
Ped. 39 8% Prof. Ped. 35 38% Pedagógico Prof. 25 16%
DAMOS Prof.
Ped. 32 9% ASG 25 23% ASG 30 28,3%
DAOUT Prof.
Ped. 08 7,5% Ped.+ Prof.
ASG 7
cd 23% ASG 07 23,3%
DASAC Prof.
Ped. 41 8% ASG 34 26% Pedagógico Prof. 38 31%
Fonte: NAST/DERH/SEMEC, 2011.
A Tabela 6 dispõe sobre o quantitativo de todos os servidores e cargos ocupados que se encontravam em tratamento, nos anos de 2009 a 2011. Percebe-se que o número de servidores em tratamento mantem-se durante os três anos. Acredita-se que os servidores, durante o período analisado, permaneceram em tratamento, ou que haja um equilíbrio entre a saída de alguns e a entrada de outros para tratamento.
No caso do NAST se percebe que o atendimento nos últimos anos tenha sido apenas de controle, uma vez que o foco central é a catalogação dos atestados emitidos todos os finais de meses pela direção das escolas, que passam a cobrar esse documento insistentemente dos
seus servidores e em especial dos trabalhadores docentes. O depoimento da coordenadora do NAST pode esclarecer algumas condutas:
Porque eles (os diretores) precisam fazer funcionar a escola. Aquele servidor que está adoecido ele tem 45 alunos no momento, daqui a pouco é outra professora, que não veio e tem mais 45 que precisa ser liberada e ai sem saber o que fazer alguns diretores por acharem que é brincadeira que não estão levando a sério acabam punindo alguns. Eles encaminham as faltas, às vezes alguns servidores são bloqueados na folha de pagamento e isso é complicado (COORDENAÇÃO).
O depoimento da coordenação do NAST sobre a posição dos diretores frente à ausência dos trabalhadores docentes é muito forte. Percebe-se na fala a atitude dos diretores de punição aos trabalhadores docentes quando da ausência ao trabalho. O mais grave é o bloqueio na folha de pagamento, em que além dos prejuízos salariais, os trabalhadores ficam impossibilitados de utilizarem o plano de saúde da Prefeitura, da qual todos os meses lhes são descontados em folha de pagamento (em média de 8 a 11% do salário bruto de cada servidor). Estes somente poderão voltar a ser atendidos após 180 dias. Como o plano se constitui em único acesso a atendimento médico de 90% dos servidores, fica realmente uma situação problemática, que segundo a coordenação, na medida do possível o NAST consegue contornar, mas na maioria dos casos, fica difícil (COORDENAÇÃO).
Sabe-se que as ações que o Núcleo mantem relação direta tanto com o Instituto de Previdência e Assistência do Município de Belém (IPAMB) quanto com a coordenação de Recursos Humanos (RH). Essas relações de certa maneira expressam como a saúde do trabalhador é vista no interior desses órgãos: como controle. Certamente, não se pode generalizar o tratamento, mas a própria legislação que compõe o corpo das normas sobre a saúde do trabalhador, nasce com esta configuração, sendo a emancipação dessa visão de atendimento para a humanização, uma luta constante da classe trabalhadora.
No caso do IPAMB, a preocupação maior dos Médicos do Trabalho é com o afastamento dos servidores do local de trabalho, mais do que com as motivações ou as condições de trabalho dos mesmos. Existe entre o NAST e o IPAMB um controle desses servidores para que não faltem ao trabalho. É uma lógica perversa, de punição, como se estar e/ou ficar doente fosse algo da vontade dos trabalhadores docentes. Em uma das entrevistas com os trabalhadores docentes sobre o atendimento que eles recebem, uma fala é relevante:
Então ela [a médica] precisa compreender que ninguém pede para ficar doente e os médicos também. Na área profissional e clínica eles precisam entender que nenhum profissional pede para ficar doente. Então, quando você busca o atendimento eles dizem “você só vem quando tá morrendo”.
Então, digo vocês só me atendem quando estou morrendo. Seu eu vier com dor de cabeça, ele diz ah! é só isso?... É aquela enrolação, embromação para conseguir ter um atendimento preventivo. Na realidade não existe. Só existe o paliativo que você vai lá morrendo eles te dão uma lista de remédios para comprar e te mandam embora (TRABALHADORA DOCENTE 8).
Eles foram (equipe do NAST) lá em casa. Na quarta-feira me ligaram por volta do meio dia eu estava deitada, perguntaram se eu estaria AS duas horas em casa eu disse com certeza que eu não podia sair para lugar algum a não ser por tratamento. Quando chegaram veio uma Pedagoga e veio uma Fisioterapeuta, pelos menos uma na área afim do meu problema e a fala inicial foi de cobrança por eu estar no estágio probatório e isso eu respondi à altura na minha defesa, porque primeiro eu não pedi para adoecer eu tenho tudo para comprovar do que eu adoeci e o que eu estou fazendo para ficar boa (TRABALHADORA DOCENTE 5).
Minayo (1997), ao ponderar sobre quando a pessoa procura o médico e esse profissional está apenas preocupado com a localização da doença, diz que o corpo é apreendido apenas como um espaço da doença e não como espaço de vida. Na visão predominante, o importante é o cuidado médico, capaz de intervir e consertar “a máquina produtiva” (MINAYO 1997, p. 34). De acordo com a autora:
Assim, se uma pessoa tiver uma crise depressiva ou algum outro problema de ordem emocional, ao solicitar um atestado médico num posto de saúde, para não ter descontado um dia do salário, possivelmente não obterá o documento. Isto porque não tem uma doença localizada no corpo. Certamente, dirão: "Você pode trabalhar, isso é problema da sua cabeça, você tem que reagir" (MINAYO 1997, p. 34 grifos da autora).
Um dos princípios básicos do atendimento à saúde às pessoas de maneira geral é o da humanização. Esse princípio por si só coloca sobre outras condições a relação médico- paciente. Condições essas que carecem de respeito e humanidade no trato com o paciente. O trabalhador docente reclama do atendimento recebido uma vez que é prescritivo e paliativo. Para Carloto (s/d), as práticas institucionais acabam por gerar sofrimento e em vez de ajudar na recuperação com tratamentos adequados tornam crônicas as patologias.
Mais adiante, Carloto (s/d) coloca em discussão os caminhos percorridos entre a doença e o reconhecimento do nexo causal entre o trabalho, e a concessão de benefícios. Segundo Carloto (s/d), esses nexos são tortuosos e causadores de sofrimentos e constrangimentos, principalmente quando se trata de adoecimento e não de acidentes de trabalho, sendo este último mais rápido de ser reconhecido. E, conclui que o trajeto é árduo para homens e mulheres, afetando particularmente estas últimas por serem as que apresentam mais sintomas de processos de adoecimento que não se vinculam a acidentes típicos e pelo tratamento discriminatório dispensado a essas trabalhadoras. Portanto, no item seguinte irá se
iniciar (visto que não irá se esgotar aqui!) uma breve discussão em torno das políticas de atendimento à saúde da mulher por se entender que na conjuntura atual se faz necessária em virtude do aumento de processos de adoecimento entre as trabalhadoras docentes. Por outro lado, o percentual de mulheres no Magistério em Belém também é superior ao masculino, seguindo a lógica são as mais suscetíveis a aparecerem nos relatórios além do que, outros fatores colaboram para o adoecimento das trabalhadoras docentes, implicados na condição de gênero.