5. İNSAN NEFSİNİN GÜÇLERİ
5.4. ERDEMLERE BENZEYEN REZİLETLER
5.4.5. Adalet Erdemine Benzeyen Durumlar
As reformas educacionais de maneira geral trouxeram significativas mudanças na organização do trabalho nas escolas. No caso da Rede Municipal de Ensino de Belém, a organização escolar, na gestão de 2005 a 2012 passou ser focada na descentralização e responsabilização, marcada pela formação centralizada em resultados.
Oliveira (2007), analisando as mudanças na organização escolar diante da reforma educacional brasileira, diz que elas refletem um modelo de regulação educativa, como parte de articulações entre as demandas globais e as respostas locais. Diante dessa nova forma de organização escolar, o trabalho docente passa a ser foco central, com a ampliação de suas atividades e com elas novas responsabilidade. Deste modo, pondera a autora, as mudanças exigem:
[...] novos critérios para enturmação dos alunos, novos procedimentos de avaliação, o que tem implicado mudanças nos métodos e instrumentos de avaliação e registro, o que, por sua vez, tem resultado em dispêndio de maior tempo do professor para atendimento aos alunos e reuniões com colegas para planejamento e avaliação do trabalho (OLIVEIRA, 2002, p. 132).
Percebe-se que as mudanças na organização escolar pautadas em novas formas de processo de ensino e aprendizagem, avaliações, estrutura curricular e os tempos escolares, provocaram uma reorganização do trabalho escolar docente realizado nas escolas. Sobre a organização do trabalho escolar, Oliveira (2002) refere-se à forma como as atividades de todos os trabalhadores da escola são distribuídas, conforme as competências, relações de hierarquias dentre outros fatores. Essas duas categorias estão imbricadas, e se interferem mutuamente, estabelecendo entre si uma dependência mútua, na qual a forma como se estrutura a organização escolar dita a maneira como a organização do trabalho escolar é assentada (OLIVEIRAS 2010).
O entendimento do trabalho docente visto sob o prisma da organização escolar necessita ser estudado a partir da escola e do seu papel na produção e reprodução de força de trabalho, englobando as práticas sociais decorrentes da divisão social do trabalho, das relações de poder, do controle e do papel que ela assume diante da sociedade. Neste cenário, em que se entrelaçam trabalho docente e organização escolar, é possível compreender as prescrições do trabalho e seus efeitos sobre o trabalhador docente.
Um ponto chave para se entender a organização do trabalho escolar na Rede Municipal de Ensino de Belém (RME) passa necessariamente pelo grupo de formação que
reorienta o trabalho dentro da escola de maneira geral. Percebeu-se durante esta pesquisa que o grupo de formação ECOAR passou a ter um papel relevante quanto à organização do trabalho pedagógico e que incidiu também na organização do trabalho escolar, tendo em vista as exigências colocadas à escola e aos trabalhadores docentes pelas políticas educacionais. Diante disto, o enfoque do trabalho do grupo que coordena o ECOAR esteve direcionado a três dimensões: em um primeiro momento o grupo realizava a diagnose das escolas, ou seja, mapeava a realidade de ensino das escolas, como elas se encontravam de acordo com os mapas de avaliação do Ministério da Educação. Feita a diagnose, ocorria à fase da proposição, em que se procurava projetar o desenvolvimento da escola tendo como foco a mudança no ensino de acordo com as metas de avaliação, e, então, eram realizadas as intervenções sistemáticas sobre essa realidade, com acompanhamento da escola e do trabalho docente.
O acompanhamento da RME, na busca pelo aumento do IDEB das escolas da rede, ocorreu de maneira sistemática por meio de reuniões, com todas as equipes que faziam parte da Secretaria da Educação, desde a coordenação da Educação Infantil até a Educação Especial, pois todos se encontravam envolvidos com a problemática. No entanto, o foco mesmo estava no Ensino Fundamental, em cujos Ciclos estão os alunos que participam diretamente dos processos de avaliação. O ECOAR, que tem uma equipe multiprofissional, trabalha na perspectiva da formação e confecção de material didático, como dito anteriormente, se envolvendo assim na organização do trabalho e da escola.
Percebeu-se, de maneira geral, que o foco na qualidade de ensino, seguindo o modelo de gestão baseado nos resultados (accountability), não apenas evidenciou um aumento das responsabilidades dos trabalhadores docentes, mas criou, de certa maneira, um controle no que tange à autonomia docente em sala de aula, uma vez que, ao direcionar o ensino com vistas às avaliações, as intervenções sistemáticas deixaram pouca margem para que trabalhador docente desenvolvesse suas atividades com independência e criatividade.
A gestão do trabalho na escola, de acordo com as orientações das políticas municipais, trouxe como pontos determinantes, a responsabilização e a prestação de contas dos resultados de cada escola. Estes dois elementos serviram de indicativo de como o trabalho docente passou a ser controlado no âmbito dos resultados que as escolas alcançavam tanto nas avaliações externas, quanto nas avaliações internas, estas últimas produzidas e acompanhadas pelos professores formadores do ECOAR.
No caso dos trabalhadores docentes da RME abre-se um parêntese para a contradição que a lógica da avaliação assume no cotidiano de trabalho. Apesar da existência dos Registros Síntese, nos quais os docentes precisam registrar a evolução contínua do processo de ensino e de aprendizagem dos alunos, tendo como parâmetros de avaliação os conceitos e não as notas existiram pressões sobre os professores para realizarem com as turmas quatro avalições quantitativas, mais a Prova Brasil. Essas avaliações se contradizem com o conceito de avaliação qualitativa assumida pelas políticas de ciclos em Belém, em que se objetiva a avaliação do processo de aprendizagem em sua completude e não apenas os aspectos quantitativos. Mas, as provas realizadas pelas turmas são feitas e aplicadas pelos formadores do Grupo de Formação da RME, o que significa um excesso de fiscalização por parte destes no trabalho docente.
Para Ball (2002), a natureza como são engendradas as reformas na educação tem provocado nos trabalhadores docentes certas “esquizofrenia de valores”, quando estes passam a assumir a cultura do desempenho, em detrimento de seus valores pessoais e das reais necessidades dos alunos. Isso porque a responsabilidade de um bom desempenho profissional não leva em consideração até que ponto este desempenho é ou não o mais adequado, mas se ele está condizente com os resultados que se espera do mesmo, já projetados em metas.
Cabe destacar que a responsabilização e a prestação de contas dos resultados, colocaram o trabalho docente focado no sucesso do aluno, porém não levando em consideração as condições de trabalho dos trabalhadores docentes. Esta ênfase vem se arraigando nas escolas, fazendo com que os trabalhadores docentes aceitem naturalmente essa situação, e ao mesmo tempo denota uma autorresponsabilização, enfatizando um trabalho individual que é mascarado de trabalho coletivo, trazendo como consequência o próprio isolamento (ASSUNÇÃO 2013). Este isolamento pode ser um campo fértil para processos de adoecimentos.
Tardif e Lessard (2005) abordam a existências de fatores ou variáveis que condicionam a organização do trabalho docente no interior das escolas e que são demarcados pelo tempo de trabalho; pelo tempo dedicado ao ensino em sala de aula; pelas diversidades das tarefas; pelas exigências burocráticas; pelo número de alunos por turmas; pelo número de disciplina; pelo vínculo empregatício; pelos critérios de avaliação de desempenho; pelas condições materiais e ambientais de trabalho; pela diversidade da turma; pela idade e tempo de profissão; pelo gênero dentre outras. Observa-se que a categoria condições de trabalho é complicada por envolver múltiplos fatores que condicionam o trabalho docente; ao mesmo
tempo, exigem estratégias, tanto de os mesmos assumirem os programas impostos, quanto de desviar-se deles.
A existência desses fatores pode corroborar tanto com processos de intensificação, quanto de precarização atravessados também pela flexibilização do trabalho docente. Esta tríade esconde algo perverso, que seria o controle ideológico e técnico da educação (HARGREAVES, 2004). Esse controle decerto coaduna com a aceitação e normalização das formas como são instituídos e prescritos o trabalho docente nas escolas (ASSUNÇÃO 2013). Este processo tem uma profunda e intrínseca relação com a subjetividade dos trabalhadores docentes. Talvez não seja ao acaso que os processos de adoecimento mental nos últimos vinte anos tenham aumentado consideravelmente (ASSUNÇÃO 2003), (LANDINI 2006).
Ao longo deste capítulo foi possível apresentar uma reflexão sobre as reformas educacionais no contexto do Ensino Fundamental com destaque para as transformações que ocorreram na organização da escola e fazendo o nexo com as mudanças para os trabalhadores docentes, focando a situação vivenciada pela Rede de Ensino de Belém. Em vista disso, no próximo capítulo serão abordadas as políticas de saúde para os trabalhadores docentes, tendo como perspectiva perpetrar um debate de como o Núcleo de Atenção à Saúde dos Trabalhadores (NAST) trabalha a problemática dos processos de adoecimentos entre os docentes.
CAPÍTULO 3 - SAÚDE DOS TRABALHADOPRES DOCENTES NA REDE DE