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"Compositor de destinos / Tambor de todos os ritmos..."177, o tempo dá cadência e perpassa a farta narrativa do autor italiano Dino Buzzati, que motivou a pesquisa que apresentamos nesta tese.

Para dar suporte à análise que empreendemos da narrativa de Buzzati, dentre todos os autores que, ao longo da história, debruçaram-se sobre a incansável e árdua tarefa de teorizar sobre tempo, optamos pelas reflexões elaboradas por Norbert Elias, Santo Agostinho e Paul Ricoeur, principalmente, sem desconsiderar, no entanto, outros estudiosos não menos importantes.

Nossa tese apresentou dois objetivos principais: o primeiro deles propunha uma análise com vistas a comprovar a hipótese de que a categoria tempo subjuga as demais categorias - personagem e espaço - dentro da narrativa de Buzzati e serve de gatilho para as reflexões das personagens. Para tanto, compusemos nosso corpus com contos nos quais esse sobrepujamento fica evidente, como no caso de Cacciatori di vecchi, em que a personagem se surpreende com o próprio reflexo envelhecido, por não ter percebido a inevitável passagem do tempo.

O tempo, às vezes, passa de forma sutil na narrativa de Buzzati, como pudemos observar, por exemplo, no conto I giorni perduti, no qual a personagem só percebe que havia deixado de viver alguns momentos importantes em sua vida, fazendo, muitas vezes, escolhas equivocadas, quando já era demasiadamente tarde. Outras vezes, o tempo passa de forma fatal, como em I vecchi clandestini.

As estratégias narrativas utilizadas por Dino Buzzati para representar as marcas que o avançar dos anos pode deixar, sejam elas leves ou intensas, nos aproximam das experiências reais que são comuns a todo ser humano. Ou seja, Buzzati elabora sua narrativa de maneira que a realidade da vida comum mantenha-se válida, mesmo quando insere um elemento mágico para provocar

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em nós a reflexão; mais ainda, esse elemento mágico faz parte da realidade narrada.

O segundo objetivo desta tese foi demonstrar que a narrativa de Buzzati se avizinha aos conceitos do Realismo Mágico, como o entendia Massimo Bontempelli, mais do que ao Surrealismo e ao Fantástico como afirma a maior parte dos críticos e estudiosos de sua obra. Por isto, colocamos em relevo a presença do inesperado, ou inusitado, nos contos buzzatianos, que surge sem causar estranhamento ou dúvida nas personagens, porque essa presença se dá para ressaltar as dores e conflitos vividos pelo homem comum em seu cotidiano, premissas da corrente de Bontempelli.

Dino Buzzati tece seus contos de maneira leve, se consideramos o conceito estabelecido por Italo Calvino em Lezioni Americane178; os recursos que utiliza para a inserção do elemento mágico como representação do real surgem de maneira a provocar questionamentos das mais variadas ordens. A versatilidade do autor nos conduz a reflexões que vão desde os conceitos mais complexos da física quântica até a uma simples brincadeira infantil, tratados sempre com a mesma profundidade.

Essa leveza na representação do real também se estende à inserção do elemento mágico na narrativa, como pudemos observar, por exemplo, no conto Una goccia, no qual o movimento ascendente feito pela gota causa medo e espanto nos moradores do edíficio, ao mesmo tempo que é perfeitamente aceita por todos que a ouvem subir as escadas. O mesmo se dá no conto La giacca stregata, em que a magia do paletó, mais que estranhamento, desperta o sentimento de zelo na personagem que o possui.

Uma das máximas do Realismo Mágico é associar a verossimilhança ao fantástico de modo que a fantasia se torne uma realidade e se manifeste harmoniosamente dentro da narrativa. Dino Buzzati constrói sua narrativa dentro dessa premissa e se mantém nela, como pudemos demonstrar através do nosso corpus. No conto Contestazione globale esse diálogo harmonioso entre fantasia e realidade fica evidente quando a presença da morte,

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personificada como mulher, é fato normal não apenas para Svampa e os outros anciãos, como também para as demais personagens da história. Não há estranhamento ou dúvida quanto ao fato de se poder impedir a atuação da morte em seu funesto ofício de ceifar vidas.

Dino Buzzati é o artífice de obras que podem ser afiliadas à corrente do Realismo Mágico.

Os dezenove contos apresentados nesta tese compuseram a representação do imenso jardim a que chamamos vida, mas esse jardim construído por Dino Buzzati tem lá suas peculiaridades, suas idiossincrasias e não pode ser apreciado e sim experienciado. É o jardim delle gobbe.179 Nele foi plantada a grande descoberta de Einstein, a mesma que tornou possível tudo aquilo que nessuno crederà. Aqui cultivamos l’autostrada da vida que poderá durar bem mais que il 12 ottobre ou ser tão breve quanto a do paciente do Doutor Carlo Trattori e tão triste como a da signora Laurapaola, mas, invariavelmente, é nele que todas as nossas solitudini desabrocham, e, tenhamos ou não giorni perduti, será nele que o nosso bom e velho Giacomo nos lembrará que em cada canteiro repousa uma parte de nossa história.

E, por fim, quando alguém nos vir como vecchi clandestini, que possamos também, como aquele que si chiamava Dino Buzzati180, ser lembrados em outros jardins.

E, por último, confessamos a pretensão de que esta tese possa incentivar novas leituras da obra de Dino Buzzati e, também, contribuir para os estudos de italianística no Brasil.

179 Aludimos ao conto Le gobbe nel giardino, de Dino Buzzati. 180 Idem

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