BÖLÜM 4: ÂŞIK RIFAT KURTOĞLU
4.5. Şiirlerinde İşlediği Konular
Tentamos expor, na seção anterior, de que modo a investigação fenomenológica de Merleau-Ponty já envolve teses sobre o ser do mundo e mesmo do universo em geral. Essa exposição nos leva a rejeitar a interpretação de que a Fenomenologia da
Percepção é apenas uma obra preliminar em relação ao desenvolvimento de uma
ontologia por Merleau-Ponty47. Também acompanhamos que certas posições defendidas naquele livro implicam conseqüências idealistas, as quais o filósofo reluta em assumir. É importante notar, tal como comenta Emmanuel de Saint Aubert, que as críticas recebidas por Merleau-Ponty repercutiram nas reflexões posteriores do filósofo: ele não só retorna várias vezes ao conteúdo de tais críticas para tentar respondê-las mas também insiste na necessidade de esclarecer o alcance ontológico dos resultados da
Fenomenologia da Percepção, de maneira a evitar interpretações como aquelas de
Alquié e Desanti (Cf. VI, 228, 234, fev. 1959)48. Haverá, por conseguinte, um esforço da parte de Merleau-Ponty para elucidar e desenvolver suas teses ontológicas, o qual tentaremos acompanhar em detalhe49. Veremos que Merleau-Ponty formulará uma concepção não idealista do ser que motiva a percepção, sem, no entanto, definir tal ser como em-si objetivo.
A fim de facilitar metodologicamente a exposição desse resultado final da ontologia de Merleau-Ponty, identificamos três linhas de reflexão pelas quais ele se realiza50. Na primeira delas, Merleau-Ponty retoma alguns temas esboçados na
Fenomenologia da Percepção a fim de retificar algumas das teses ali expostas. Esse
percurso se compõe principalmente dos cursos A Instituição, A Passividade e A
Natureza; nós o exploramos no terceiro capítulo. Na segunda linha, Merleau-Ponty
aprimora a idéia de que a investigação ontológica deve ser indireta, princípio que já está em funcionamento em A Estrutura do Comportamento e Fenomenologia da Percepção. Os principais textos que servem a tal propósito são Notas de Cursos 1959-1961 e O
47 Posição defendida por R. Barbaras em De l’être du phénomène. Sur l’ontologie de Merleau-Ponty. Ed.
supra, p.12.
48 Após expor as críticas de Alquié a Merleau-Ponty, Saint Aubert comenta: “como se pode imaginar,
esse retrato de idealista, mais ainda que os outros, acabou por desconcertar o interessado, que ruminará a crítica de Alquié até os últimos manuscritos envolvendo O Visível e o Invisível e Ser e Mundo” (Saint Aubert, E. Op. cit., p.29). Em seguida, para legitimar seu comentário, Saint Aubert transcreve diversos textos inéditos em que Merleau-Ponty analisa as críticas de Alquié.
49 Rejeitamos, assim, a tese de M. C. Dillon, segundo a qual toda a ontologia ulterior Merleau-Ponty é
apenas uma explicitação de teses já prefiguradas na Fenomenologia da Percepção. Cf. M. C. Dillon, Merleau-Ponty’s Ontology. Evanston: Northwestern Univ. Press, 1997, p.155.
50 Merleau-Ponty não distingue, tal como as exporemos, tais linhas. No entanto, tal distinção é bastante
50
Olho e o Espírito, os quais serão estudados no capítulo quarto. Na terceira linha,
Merleau-Ponty elabora uma longa reflexão crítica, espalhada em diversos textos, acerca da fenomenologia, e tenta extrair dessa doutrina uma noção ampliada do ser, não mais limitada às capacidades subjetivas de discriminação de fenômenos. Essa reflexão será exposta em nosso quinto capítulo. Tentaremos, com tal divisão temática, levar em conta os principais momentos da elaboração da ontologia de Merleau-Ponty, que culmina com o texto inacabado O Visível e o Invisível, o qual analisaremos no sexto capítulo desta tese.
Antes de expor os três caminhos pelos quais acreditamos que a ontologia de Merleau-Ponty se desenvolve, vamos nos dedicar a um outro tema, em nosso segundo capítulo, com repercussões claras sobre a reflexão ontológica. Trata-se da investigação da linguagem. No curso A Passividade, o filósofo admite que na Fenomenologia da
Percepção havia acentuado demasiadamente a experiência sensível de coisas e deixado
de lado os aspectos culturais imediatamente envolvidos na doação fenomênica (Cf. IP, 174). A Fenomenologia da Percepção concebe a atividade perceptiva como um contato com um fundo de natureza universalmente partilhado sob as diferentes culturas (Cf. PhP, 339-340). Mas, conforme Merleau-Ponty defende nos anos cinqüenta, essa concepção oculta o fato de que toda coisa natural se manifesta por meio de algum contexto cultural e de que, de certo modo, a percepção se desenvolve historicamente (Cf. IP, 178). Em um texto de 1951, intitulado “Titres et Travaux”, o filósofo já admite o caráter artificial do âmbito da percepção sensível tal como descrita pelo
Fenomenologia da Percepção51. Não haveria, segundo tal texto, um puro campo de fenômenos sensíveis a ser descrito, já que o sujeito da percepção só pode fixar os dados percebidos por meio dos recursos lingüísticos (Cf. PII, 23). Daí a preocupação de Merleau-Ponty em investigar o papel da linguagem na constituição do campo fenomenal e em tornar explícita, de um modo geral, a contribuição da cultura na inserção humana no mundo (Cf. IP, 175)52.
A investigação da cultura complexifica a reflexão ontológica de Merleau-Ponty. O filósofo reconhece uma crise nas inter-relações humanas e em suas expressões
51 “É por uma abstração metódica que fingimos, começando, nos encontrar no mundo mudo da
percepção”. (PII, 22).
52 A linguagem já é tema de um capítulo da Fenomenologia da Percepção, intitulado “O corpo como
expressão e a fala”. Mas ali se trata principalmente de apresentar a linguagem como uma intencionalidade do corpo e não como fator cultural constituinte do campo fenomênico. Em todo caso, o caráter corporal da fala, tese discutida naquele capítulo, ecoará nos demais textos de Merleau-Ponty sobre o tema, conforme veremos no próximo capítulo.
artísticas, a qual abala as categorias filosóficas básicas (tais como sujeito, objeto, sentido - Cf. VI, 219, jan. 1959) e sugere uma renovação do discurso ontológico. A crise da cultura é, assim, uma oportunidade para forjar categorias que melhor exprimam o contato humano com o real. A meta de Merleau-Ponty é explicitar filosoficamente uma nova noção de ser que já se deixaria entrever em meio às convulsões da vida cultural contemporânea (Cf. NC, 37). Desse modo, como veremos no decorrer de nossos capítulos, a formulação de uma ontologia por Merleau-Ponty não é uma tarefa que se limita a sanar alguns problemas teóricos de seus primeiros textos, mas um empreendimento que visa renovar as bases dos sistemas simbólicos e das relações interpessoais da civilização contemporânea.