FENNÎ DÎVÂNI’NIN TAHLİLİ
7.1. Cin, Şeytan
Até 1923, quando foi publicada a Lei Elói Chaves, não existia a Previdência Social, de modo que o adjetivo complementar não cabia à previdência privada. Com o advento da Lei Elói Chaves, foi estruturada a Previdência Social, momento em que se pode falar em previdência privada “complementar”.
No entanto, no entendimento da doutrina, sob o aspecto jurídico, essa complementariedade veio a ser estabelecida apenas em 1977, com a Lei nº 6.435, que estabeleceu no seu artigo 1º que “as entidades de previdência privada (...) são as que têm por objetivo instituir planos privados de concessão de pecúlios ou de rendas, de benefícios
complementares ou assemelhados aos da Previdência Social”.
Tal complementariedade estava relacionada aos planos administrados por entidades fechadas de previdência privada (“planos fechados”), conforme se depreende do artigo 34, in verbis:
“Art. 34. As entidades fechadas consideram-se complementares do
sistema oficial de previdência e assistência social, enquadrando-se suas atividades na área de competência do Ministério da Previdência e Assistência Social.” (destacamos)
Especificamente quanto aos “planos abertos”, administrados por entidades abertas de previdência privada ou sociedade seguradora, a Lei nº 6.435/77 não estabelecia dispositivo semelhante. Muito pelo contrário, o artigo 7º, da Lei nº 6.435/77, integrava os planos abertos ao Sistema Nacional de Seguros Privados. Se para os planos
fechados havia uma dependência entre previdência privada e previdência social, para os planos abertos havia uma autonomia ente os dois regimes (privado e público) .
Portanto, se entendermos que a complementariedade da previdência privada está tão-somente relacionada a essa dependência entre regime privado e público (a concessão do benefício privado no plano fechado dependia da concessão de benefício assemelhado no regime público), os planos abertos não poderiam ser adjetivados como “complementares”, como de fato assim não fazia a lei. A Lei nº 6.435/77, quando utilizava o termo “complementar”, referia-se sempre aos planos fechados, administrados por entidades fechadas de previdência privada.
Encontramos na Lei nº 6.435/77 o termo “complementar” em três momentos, e, em nenhum deles, relaciona-se aos planos abertos, administrados por entidades abertas de previdência privada ou sociedade seguradora. Com efeito, o art. 34, já transcrito, dispunha que “as entidades fechadas consideram-se complementares do sistema oficial”, e, a alínea “a”, inciso I, do art. 35, estabelecia a competência do Ministério da Previdência e Assistência Social para “fixar as diretrizes e normas da política
complementar de previdência”, no que tange às entidades fechadas de previdência privada. O artigo 1º da Lei nº 6.435/77, o único mais genérico (trata tanto das entidades fechadas como das abertas), no qual encontramos o termo “complementar”, utilizou propositadamente o conectivo “ou” na seguinte expressão: “benefícios complementares ou assemelhados aos da Previdência Social”. Isso porque certamente o adjetivo “complementar” não se aplicava aos planos abertos, havendo necessidade, portanto, do conectivo excludente “ou”.
Se para os planos fechados fazia todo sentido considerá-los como “complementares”, o mesmo não acontecia em relação aos planos abertos, salvo se o termo “complementar” fosse entendido em outra acepção, não necessariamente relacionada com a dependência entre regime público e privado.
Poder-se-ia assumir o caráter complementar dos planos abertos em duas conotações distintas: i) complementares porque não poderiam substituir a previdência social, de caráter obrigatório; ou ii) complementares quando atuassem para
“complementar” o valor do benefício dos trabalhadores com remuneração acima do teto do RGPS.
Com efeito, a dependência da previdência privada em relação à previdência social antes da Emenda Complementar nº 20/98 – no que se refere aos planos fechados – levou a doutrina, bem como as autoridades fiscais, a interpretar a expressão “complementar” no sentido de complementação aos benefícios concedidos pela Previdência Social, na composição mais próxima possível da remuneração do trabalhador na ativa, o que não mais se adepta ao novo regime introduzido pelo art. 202 da Constituição Federal, com redação dada pela Emenda Constitucional nº 20/98, como com a Lei Complementar nº 109/01.
No passado, ao analisar os efeitos da Lei 6.435/77 sobre as fundações de Seguridade Social já existentes, Sérgio de Andréa Ferreira147 assim se pronunciou sobre as entidades fechadas de previdência privada:
“Com efeito, os diplomas em apreço assinalam o caráter complementar, ou suplementar, em relação aos benefícios da previdência social, oficial, dos pecúlios, rendas e outras vantagens asseguradas pelas entidades de previdência privada (art. 1º da Lei nº 6.435/77 e do Decreto nº 81.240/78), estabelecendo, expressamente, que as fechadas são consideradas complementares do sistema oficial de previdência e assistência social, enquadrando-se suas atividades na área de competência do Ministério da Previdência e Assistência Social (arts. 34 da Lei nº 6.435/77 e 3º do Decreto nº 81.240/78).
(...)
A previdência social, a seguridade oficial é necessariamente limitada, já que não garante, em caso de aposentadoria, por exemplo, a integralidade da renda do trabalhador. Nasceu, em conseqüência, a “idéia universal de seguridade total: a garantia do rendimento familiar nos casos de perda involuntária de capacidade laborativa dos trabalhadores”, e a chamada seguridade complementar e supletiva, a cargo da iniciativa privada.” (destacamos)
Por sua vez, Wladimir Novaes Martinez classificava como complementares “(...) os valores mensais resultantes da diferença entre a remuneração média do segurado e o desembolsado pelo ente público”148.
Analisando também o caráter complementar da previdência privada, vejamos o entendimento da Consultoria Jurídica do Ministério da Previdência e Assistência Social, expresso na Nota nº 414/97, publicada em 03 de setembro de 1997, segundo a qual, à luz da antiga legislação:
“3 - Analisando a questão a Secretaria da Previdência Social deste Ministério, em Nota de 24 de julho de 1997 assim o dispôs: (...)
d) A previdência oficial básica assegura aos seus beneficiários os meios de manutenção indispensáveis nas situações denominadas de risco social, quais sejam, a incapacidade, temporária ou permanente, a idade avançada, o tempo de serviço transcorrido, os encargos familiares, a reclusão e a morte. O valor do benefício oferecido, no entanto, não ultrapassa R$ 1.031,87. Assim, a previdência complementar socorre o trabalhador com
rendimentos acima deste valor, na composição do benefício mais próximo de sua remuneração real. Não faz sentido obrigar a que segurados com rendimentos abaixo do teto aufiram benefícios da previdência complementar porque, neste caso, não haveria o que ser complementado.
(...)
5. É certo que o programa há de estar disponível a todos os empregados e
dirigentes. Por óbvio não estará obrigatoriamente disponível para aqueles que recebam remuneração abaixo do valor máximo de benefício pago pela Previdência Social (...).”149 (destacamos)
Nesse sentido, também é o entendimento de Wagner Balera150 para quem “ao regime complementar (...) compete proporcionar planos de proteção que atendam à demanda daquela parcela da comunidade cujas rendas se situam acima dos limites de proteção estabelecidos pelo regime geral e pelo regime próprio”.
148 “Primeiras Lições de Previdência Complementar”, p. 22.
149 A Nota nº 414/97 analisava, especificamente, o alcance da seguinte disposição prevista na Lei nº 8.212/91:
“Art. 28 (...) § 9º Não integram o salário-de-contribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: p) o valor das contribuições efetivamente pago pela pessoa jurídica relativo a programa de previdência complementar, aberto ou fechado, desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes, observados, no que couber, os arts. 9º e 468 da CLT” (redação incluída pela Lei nº 9.528/97).
No mesmo sentido, transcrevemos o entendimento de Léo do Amaral Filho151, para quem a complementariedade se relaciona à diferença entre o valor do benefício da Previdência Social e o valor da remuneração do trabalhador quando em atividade:
“O aspecto de complementaridade decorre da insuficiência do sistema oficial. Explica-se, desde logo, que o sistema oficial de previdência tem como finalidade prover condições mínimas para os que a ela são filiados, facultativa ou obrigatoriamente. Esses limites são aferíveis por meio dos parâmetros que a lei fixar. Por certo, os benefícios que a previdência social proporcionar deixarão uma parcela da população com restrições à época do pagamento dos benefícios, em relação àqueles aferidos quando em atividade. Aquele segurado que em atividade extrapolar o limite (teto) de benefícios pagos pela Previdência Social terá seus rendimentos sensivelmente reduzidos por ocasião da aposentadoria”.
Após a Emenda Constitucional nº 20/98, essa complementariedade, ou suplementariedade, tem sido objeto de muita discussão, sobretudo diante da autonomia que se estabeleceu entre o regime privado de previdência e o regime geral da previdência social, tendo sido objeto de severas críticas, tal como assinala Sérgio Pardal Freudenthal152:
“O novo Texto Constitucional, fruto da EC n. 20/98, nos apresenta grave contradição quando pretende a constituição de ‘Regime de Previdência Privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social’. A redação é contrária quando dispõe regime complementar e autônomo. Como poderá ser complementar se deve ser autônomo em relação ao regime geral?!? Complementar ao que?!?”
O mesmo autor oferece a resposta a sua pergunta, apontando a nova função da previdência privada: suplementar os proventos pagos pela previdência oficial,
com o que ele (regime privado) presta o serviço de manutenção das condições de vida do segurado; “possibilitando que o trabalhador se aposente, saindo da atividade, retirando-se para os seus aposentos, o seguro privado ainda colabora na formação de novos empregos no mercado do futuro, o dos entretenimentos, das diversões, das férias.”
151 “Previdência Privada Aberta”, p. 148. 152 “A Previdência Pública e Privada”, p. 768.
Arthur Bragança de Vasconcellos Weintraub153, vai ainda além, concluindo pela inocuidade do termo “complementar” como o termo “suplementar”, “pois constitucionalmente não há vinculação dos benefícios da Previdência Privada com os benefícios oficiais. O art. 68, parágrafo 2º, da Lei Complementar nº109, de 29 de maio de 2001, determinou que a concessão de benefício da Previdência Privada não depende da concessão de benefício pelo Regime Geral da Previdência Social, ilustrando bem a autonomia de organização da Previdência Privada. Essa previsão respeitou o art. 202 da Constituição. Não obstante, de vez em quando ainda se ouve falar dessa terminologia.”
Com efeito, a autonomia entre os regimes (privado e público), que implica a possibilidade de concessão do benefício da previdência privada sem que seja concedido o benefício pela Previdência Social, faz repensarmos o alcance do termo “complementar”. Nesses termos, Wladimir Novaes Martinez:
“A expressão ‘complementar’, levando em conta que também se cuida das EPC abertas, que pressupõe algo a suprir, combinado com o vocábulo “autônomo”, se não explicativa em seu alcance, induz a contra-senso. Se é complementar, dificilmente será autônomo; se independente, não pode ser subordinado ao RGPS. Do desenvolvimento dos demais artigos, em particular com o art. 68, §2º, resta evidente que a técnica é implementar e desvinculada do regime básico. Assim, é destituído de sentido chamar de complementar a aberta e também a fechada.”
A autonomia do regime da previdência privada não impõe a necessidade de filiação obrigatória ao regime da previdência social para que o indivíduo participe do plano de previdência privada. Assim, nem sempre a previdência privada pode ser entendida no sentido de complementar o valor concedido pela previdência social.
Na prática, tal como a previdência privada está juridicamente estruturada, o indivíduo poderá receber da Previdência Social um benefício inferior ao teto e ter, pela previdência privada, uma suplementação da diferença até o valor do teto, ou
153 “Até a criação da Lei Complementar nº 109/01, a Previdência Privada tinha imanente os conceitos de
complementar ou suplementar. Era complementar quando, dentro de um plano de benefício definido, era direcionado a completar o valor do benefício oficial até alcançar o valor do trabalho ativo. Era suplementar quando apenas acrescia valor ao benefício oficial. A característica da complementariedade da Previdência Privada em relação à Previdência Pública não tem o conteúdo de outrora. É complementar no sentido de
ainda receber uma diferença maior ou menor do que o teto. Poderá ser contemplado pelo teto da Previdência Social e receber do plano de previdência privada um valor adicional ou, ainda, não ser segurado da Previdência Social e receber benefício do plano de previdência privada. Nos dizeres de Wladimir Novaes Martinez154, “a prestação poderá ser complementar e independente, dependente e não-complementar”.
Também não se pode supor que esse caráter complementar estaria a excluir do âmbito de proteção da previdência privada aqueles que recebem abaixo do teto da Previdência Social, presumindo-se que essa massa de trabalhadores já estaria ampla e satisfatoriamente protegida pela Previdência Social.
Mais adequado seria entender a característica complementar no sentido de proteção às necessidades sociais não alcançadas pela previdência social, tal como sustenta Jerônimo Jesus dos Santos155, para quem “a previdência privada é complementar porque atua paralelamente à previdência oficial exercida pelo Estado, sem, contudo, substituí-la”.
Segundo Helga Klug Doin Vieira156, a autonomia do regime privado em relação ao regime geral, recentemente garantida pela Emenda Constitucional nº 20/98, não permite mais classificá-lo como complementar, no que se refere a completar o regime básico, mas sim por permitir completar a proteção social, facultativamente, aos interessados nessa complementação. Isso porque, apesar de a Lei Complementar nº 109/01 utilizar a terminologia “previdência complementar”, o termo tem sentido de completar, aperfeiçoar, tornar pleno.
Assim, não se pode confundir o termo “complementar”, utilizado no atual ordenamento jurídico com aquele presente na revogada Lei nº 6.435/77, a qual tratava de “benefícios complementares”. A complementaridade da norma anterior referia-se aos
suplementação facultativa dos benefícios, como determina o art. 202 da Constituição.” (“Previdência Privada”, p. 77)
154 “Curso de Direito Previdenciário”, tomo IV, p.66. 155 “Previdência Privada”, p. 67.
benefícios, ao passo que a normatização atualmente em vigor se refere ao sistema de Seguridade Social157, com propósito de completar a proteção social.
Tais considerações a respeito da “complementariedade” são de suma importância para a questão da tributação do imposto de renda, pois, conforme se verá no capítulo próprio, a legislação fiscal (artigo 13, V, da Lei nº 9.249/95), ao possibilitar a dedução na apuração do lucro real das despesas com previdência privada, utilizou a expressão “contribuições destinadas a custear benefícios complementares assemelhados aos da previdência social”.