O Cine Freud, Cultura e Arte é um projeto de extensão vinculado ao Curso de Psicologia e ao Laboratório de Psicanálise da Universidade Federal do Ceará, que se propõe a realizar a atividade de exibições de filmes e outras produções audiovisuais, seguidas por palestras e debates, ao longo dos semestres letivos. Durante o mês de setembro, todas as quartas-feiras fora exibido um filme sobre a temática das pessoas com deficiência. Nesse mês, o projeto organizou exibições especiais para essa temática, sob a coordenação-colaborativa junto a equipe do Projeto Cine-Freud 11.
No dia 6 de setembro, em particular, foi exibido o filme ―Os melhores dias de nossas vidas‖, seguido por palestra com a orientadora do presente estudo, a Prof.ª Dra. Geny Lustosa, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira (UFC) e Reginaldo Dias, psicanalista e professor do Departamento de Psicologia (UFPI). Acompanhamos a exibição e o debate como mais um momento de coleta em função do quantitativo de professores e estudantes de educação e de psicologia que o evento reuniria, pois, dos filmes exibidos, apenas esse trazia enredo especificamente ligado ao contexto da educação escolar.
Após a exibição seguiu-se com explanações dos palestrantes, pertinentes acerca da inclusão, o que constituiu um paradigma com questões pertinentes à formação de educadores em geral, como formadores de mentalidades, estimuladores de mudanças sociais. Barreiras que as pessoas com deficiência enfrentam e muitas se alicerçam nas concepções (como veem, percebem, acreditam no potencial, na perspectiva do humano) que ainda se constituem como barreiras num continuum processo de construção de uma sociedade inclusiva. Precisamos discutir inclusão pelo fato de a sociedade contemporânea ainda se configurar eminentemente excludente.
Diversidade x sociedade, diferença x todos somos diferentes; nossas diferenças nos singularizam e representam os limites que são postos pela sociedade e deficiência são temáticas a serem discutidas incessantemente. Uma sociedade inclusiva busca apresentar aos sujeitos o que eles precisam de acordo com suas necessidades. Pensar sob o paradigma da inclusão sem cair na perspectiva caritativa equivocada, arraigada por mitos, em que as pessoas com deficiência são muito diferentes dos outros.
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A formação das concepções passa pela via dos sentidos. Defendemos que a formação de educadores passa pelo viés conceitual, de base de saberes, histórias de vida, experimentais, mas pelo limiar de sensibilidade, novas compreensões de mundo, de infância, de necessidades dos sujeitos, de diferenças individuais, discussões de canais de aprendizagem. O papel do outro em nossa vida. Em colaboração, o outro nos constrói. As interações com o outro é uma constante no nosso cotidiano. Não há como negar. Perspectiva da autonomia social promotora a autonomia cognitiva. Possibilidade de viver e explorar o mundo implica sair das instituições alcançando o cotidiano, que se configura no lócus principal onde a vida acontece.
Uma professora na plateia referiu um comentário bastante recorrente, segundo ela, no seu cotidiano de trabalho: ―Fala de um pai: Eu jogo a bola pra vocês! [...] Tá todo mundo jogando a bola! Todo mundo tem que fazer junto‖. Percebe-se que a transferência de responsabilidade pelo cuidado é uma constante, em negação do fato que as questões emergentes não dotassem de uma multidimensionalidade intrínseca. Urge a integração de todos os atores e seguimentos para o planejamento de estratégias inclusivas diante dos mais diversos contextos. Enquanto isso, as questões em xeque vão ficando robustas, ao ponto de se tornarem grandes limitações. Todos devem se engajar em prol do favorecimento da criança/adolescente
Outra professora acrescentou que ―a família tem muito a nos ensinar‖. Indagamo- nos sobre o real engajamento das famílias junto às escolas. Estaria ocorrendo a inserção, a integração ou uma real inclusão dessas famílias no cotidiano escolar? Ou, em que medida, no interior de projetos (pseudo) inclusivos as famílias estariam sendo excluídas, negligenciadas ou tidas como vilãs? Seguiu com outro comentário: ―A escola ainda reclama muito da lacuna da família‖.
Em que medida as tentativas de inclusão da família na escola têm sido eficazes? Existem espaços garantidos para expressão e escuta da família, em uma perspectiva ampliada? Um psicólogo, também na plateia, referiu que
Sobre a família sempre vai tem algo presente simbolicamente. Em algumas situações a família está presente e está ausente de outra forma [...] A gente vai abandonando pelo incapaz, a gente tem o pai abandonando pelo incapaz [...] A maioria dos pais não está presente. Nada sobre nós sem nós. A família não pode vir anterior ao sujeito, adorei a fala ―Nada sobre nós sem nós‖ [...] Qual o lugar que a família ocupa nessa história?.
Uma doutoranda em Educação colocou a questão das barreiras atitudinais: ―A formação humana é o foco! Tem a ver não somente com formação teórica, mas sim humana, que é o que mais embarreira a inclusão. A superproteção também é muito danosa!‖.
A barreira de atitude compreende um comportamento ou postura que se fundamenta em fenômenos emocionais, afetivos e sociais manifestos na interação entre duas ou mais pessoas, em que uma(s) tem predisposição desfavorável à outra(s). Destarte, a barreira de atitude se apresenta como um obstáculo, um anteparo que, de forma consciente ou não consciente, emana de um indivíduo e restringe a possibilidade de participação e desenvolvimento cognitivo, afetivo e social da pessoa com deficiência. (RIBEIRO, 2016, p. 54).
Tais barreiras são propulsoras das demais na medida em que estão arraigadas das subjetividades das pessoas. O contrário também se configura como uma verdade: Leontiev prova que ao colocar essas crianças em condições adequadas, e ao utilizar métodos adequados de ensino, muitas fazem progressos notáveis, muitas conseguem, inclusive, superar seu próprio atraso (PIRES, 2009, p. 327).
Os mecanismos da escola são, portanto, de exclusão. Não apenas para as pessoas com alguma deficiência, mas para boa parte da população escolar [...] É nas características pessoais que é colocada a responsabilidade do fracasso e da exclusão social da criança (PIRES, 2009, 328). Os diversos modos de resistência per si já constituem modos de exclusão, envolvendo lacunas formativas, subjetividades dos profissionais, etc.
Certamente, um evento dessa natureza se configura como um potente espaço formativo na medida em que viabiliza a construção de conhecimentos por meio do compartilhamento de saberes e práticas diversificadas.
3.7.4 Realização de minicurso no XVI Congresso de História da Educação do Ceará (2017)