A Lei 8.213/91 de 24 de julho de 1991 - DOU de 14/08/98, Brasil (1998), em seu artigo 19, parágrafos de 10 a 40, determina a responsabilidade da empresa pela saúde e segurança do trabalhador bem como a pela adoção e uso de medidas coletivas e individuais de proteção, pela prestação de informações pormenorizadas sobre os riscos das operações a serem executadas e dos produtos a serem manipulados. Informa que o Ministério do Trabalho e da Previdência Social fiscalizará e os sindicatos e entidades representativas de classe acompanharão o cumprimento do disposto nos parágrafos anteriores. Estabelece também que o não cumprimento das normas regulamentadoras (NRs) constitui contravenção penal, passível de punição com multa.
A prevenção dos acidentes do trabalho que resultam em ferimentos fatais e não fatais na ICC, segundo Ringen et al.28 citados por Sweeney et al. (2000), é mais difícil do que nas demais indústrias em função da natureza transiente dos trabalhadores, do ambiente de trabalho em constante mudança, de pressões de prazo e de ordem econômica e pela própria natureza complexa dos processos construtivos. Apesar das dificuldades inerentes, esforços e recursos despendidos no sentido da prevenção dos acidentes do trabalho mostraram-se bem sucedidos demonstrando a possibilidade de reduzir as taxas de ferimento (CPWR29 citado por NSC Injury Facts, 2004).
Em 1912, estimou-se que entre 18.000 a 21.000 trabalhadores perderam suas vidas no exercício de suas funções nos Estados Unidos da América do Norte. Em 2003, em uma força de trabalho praticamente quadruplicada em tamanho e produzindo cerca de nove vezes mais bens e serviços, estimou-se a ocorrência de 4.500 mortes decorrentes do trabalho. Assim, entre os anos de 1912 e 2003, as mortes por 100.000, não intencionais no trabalho, foram reduzidas em 93%, caindo de 21 a 1,5, o que demonstra a eficácia dos esforços prevencionistas (NSC, 2004).
As Normas estabelecem prescrições e informações no sentido de eliminar ou controlar perigos específicos nos canteiros de obras, porém outras questões de fundamental importância, necessárias para que se obtenha sucesso neste contexto seriam:
• integrar o planejamento de segurança ao processo de planejamento construtivo;
• assegurar que os trabalhadores, os mestres, os demais agentes envolvidos no processo e os gerentes de projeto tenham o conhecimento e as habilidades necessárias para desempenhar o trabalho com segurança;
• prover a todos, no canteiro de obras, as ferramentas, os equipamentos, as tecnologias protetoras necessárias e o tempo suficiente para assegurar a segurança do trabalhador;
28
RINGEN, K.; ENGLUND, A.; WELCH, L.; WEEKS, J. L.; SEAGAL, J. L. Why is construction different? Occupational Medicine: State of the Art Reviews, 1995.
29
CENTER TO PROTECT WORKER’S RIGHTS (CPWR). The Construcion Chart Book: The U.S. Construction Industry and Its Workers. Washington, 1998.
• estabelecer claramente as responsabilidades com relação à segurança e a saúde de todos os agentes participantes do empreendimento como um todo, ou seja, proprietários, projetistas, empreiteiros, sub-empreiteiros, supervisores, e trabalhadores (Sweeney et al., 2000).
Uma prevenção eficaz dos acidentes do trabalho, segundo a Fundacentro (1980), dependerá da participação e colaboração ativa de todos os agentes envolvidos no processo, desde os ajudantes gerais até os engenheiros e médicos, devendo ser planejada por intermédio de um programa de segurança e medicina do trabalho que, para ser efetivo, deve colocar em prática os seguintes princípios:
• programação de todos os trabalhos, tarefas e serviços, a fim de reduzir ao mínimo os danos humanos, materiais e econômicos;
• estabelecimento de um sistema eficaz para localizar e corrigir rapidamente as condições e práticas inseguras;
• disponibilidade e vigilância para que se utilizem os equipamentos de proteção individuais e coletivos e que toda máquina, equipamento ou ferramenta tenha sua proteção adequada;
• implantação de um sistema efetivo de inspeção e manutenção de máquinas, equipamentos e ferramentas de trabalho;
• investigação dos acidentes, determinando as causas e tomando as medidas necessárias para evitar sua ocorrência e repetição;
• estabelecimento de um programa para manter o interesse e colaboração de todos os agentes participantes em todos os níveis da empresa.
A colaboração ativa de todos os agentes participantes no processo construtivo deverá abranger também as empresas terceirizadas contratadas, prática bastante comum atualmente, devendo a contratante admitir apenas subempreiteiros comprometidos com a questão da segurança. Segundo Serra (2001), “uma empresa construtora que reconhece a importância da política de higiene e segurança do trabalho sabe escolher subempreiteiros que respeitem e adotem a mesma filosofia”.
Para se prevenir os ferimentos, ainda de acordo com Sweeney et al. (2000), os perigos ou fontes de riscos devem necessariamente ser reconhecidos, eliminados onde possível e
minimizados quando a eliminação não é possível ou quando a eliminação de uma fonte de risco cria uma outra maior. A hierarquia mais eficaz nas estratégias de controle de ferimentos, segundo este autor seria:
• eliminar o perigo através das mudanças na prática do trabalho (a montagem de andaimes tubulares no solo com posterior transporte por meio de gruas é mais segura que a montagem dos mesmos em altura);
• substituir (utilização de materiais pré-fabricados no lugar de materiais montados no canteiro de obras);
• proteger (quando uma fonte de risco não pode ser eliminada, proteger reduzindo a exposição do trabalhador através da aplicação de controles administrativos e de engenharia, por exemplo, a proteção de máquinas e a rotação do trabalho).
Como um último recurso, as estratégias de controle que requerem a participação ativa dos empregados, tais como o uso de EPI e a implantação de procedimentos especiais.
O reconhecimento das potenciais fontes de risco é de fundamental importância na prevenção dos acidentes na ICC e a avaliação das fontes de risco potenciais deve ser parte integrante do processo de gestão do empreendimento devendo continuar durante todo o processo do mesmo. Cada canteiro de obras deve ser constantemente avaliado, já que condições específicas influenciam grandemente os perigos encontrados durante o processo construtivo, não sendo suficiente que os gerentes de segurança inspecionem o local apenas verificando os itens de conformidade relativos às Normas reguladoras vigentes (MacCollum30 citado por Sweeney et al., 2000).
A gestão efetiva da segurança deve ter, portanto, uma abordagem pró-ativa na qual os perigos são antecipados, soluções exeqüíveis em relação ao processo do trabalho são desenvolvidas e os necessários procedimentos de trabalho, modificações e precauções são executados para assegurar a não ocorrência de ferimentos (Levitt e Samelson31; MacCollum32 citados por Sweeney et al. 2000).
30
MACOLLUM, D. V. Construction safety planning. New York: Reinhold, 1995. 31
LEVITT, R. E.; SAMELSON, N. R. Construction safety management. 2 ed. New York: John Wiley & Sons, Inc, 1993.
32
Concordando com essa afirmativa, pode-se afirmar que a segurança do trabalho deve atuar de forma preventiva e pró-ativa, capacitando os operários presentes na obra a reconhecerem os potenciais riscos de acidentes e, se necessário, até se recusando a desempenhar atividades que coloquem em risco sua integridade física. Também os responsáveis pela execução da obra devem buscar formas de atualização profissional e capacitação para receber as recomendações de segurança, quando existentes.
Observa-se que ao longo do tempo que houve uma evolução na compreensão da gestão da segurança, representada pela mudança do enfoque tradicional para a busca de tornar o ambiente de trabalho mais seguro. Atualmente, esta é a prática mais recomendada.