4. NEVġEHĠR VE ÇEVRESĠNDEKĠ GEÇ OSMANLI DÖNEMĠ (19.yy) CAMĠ
4.1. Ürgüp ÇarĢı (Merkez Hacı Mustafa Ağa) Camii 27
É importante notar que investigar os processos de sociabilidade dos espaços públicos e privados de São Vicente valendo-se da presença dos meios de comunicação em seu cotidiano significa admitir que o objeto desta análise esteja inserido dentro de um amplo processo de modernização, pois nossa “cultura do olhar” não é independente das revoluções técnicas da modernidade (DEBRAY, 1994). Como nosso trabalho também se refere ao estudo desse cotidiano na cidade, é válido colocar que é neste cenário citadino que surge inúmeras possibilidades de recriar e reinventar esse dia-a-dia, um lugar de inventividades.
No momento em que a sociedade se moderniza, as condições de vida tradicionais tendem a se “desagregar”. São Vicente-RN inicia seu processo de mudanças e ajustamentos da vida diária, bem antes da TV fazer parte de sua realidade.
Entretanto, foram os meios de comunicação que impulsionaram esse processo de transformações. Eles ocuparam um espaço expressivo na mediação do tradicional com o moderno, essencialmente, no cenário urbano porque antes de sua emancipação política, o povoado já apresentava um quadro urbano em pleno desenvolvimento.
Segundo Araújo (1997), duas importantes construções foram responsáveis pelo desenvolvimento da parte elevada do povoado: o Grupo Escolar Professor Valle do Miranda e o Mercado Público, construídos nos meados dos anos de 1930.
Na década de 1950, havia no povoado dois núcleos residenciais: a “Luíza”, local da origem do povoado e o novo núcleo urbano, chamado de “Monte Áreo”. Era no Monte Áreo14 que ficavam as entradas e saídas da estrada de rodagem para Flores (atual município de Florânia) e Currais Novos, onde funcionavam a Cadeia Pública, a Mesa de Renda Fiscal e os Correios e Telégrafos, além de outros serviços. (ARAÚJO, 1997).
Na disposição visual apresentada pela figura abaixo, observa-se a distribuição geográfica da urbe nesse período. Percebemos no centro da imagem a “rua nova ou rua do alto” localizada no Monte Áreo. Naquela área, residiam comerciantes, políticos e outras autoridades, além das famílias mais abastadas. Todos os serviços disponíveis na cidade encontravam-se na “Rua Nova”. O monte Áreo era visto como o centro de todas as coisas da cidade. No fundo da imagem, visualizamos a rua de baixo, o núcleo Luísa, no qual estava o antigo centro urbano da cidade, que logo ficou conhecida por “Rua Velha”.
O investimento na parte elevada da cidade acarretou uma grande desvalorização da Rua Velha, que ficava distante dos serviços básicos oferecidos na urbe.
Figura 04- Vista aérea de São Vicente em meados do século XX Fonte: Irani Araújo
14 Denominavam de Monte Áreo a parte elevada da cidade. Essa designação se deu com a construção da primeira
casa com sótão, conhecida como “casa do monte áreo”, pertencente ao comerciante Vivaldo Pereira da Costa, que residia em Currais Novos-RN.
Conforme afirma Macedo (2006), as casas residenciais, localizadas na rua velha, lembravam as antigas Casas Grandes do período colonial. Suas ruas não pavimentadas transformavam-se em verdadeiros lamaçais nos períodos chuvosos, além dos esgotos que provocavam odores desagradáveis. Já a parte alta da cidade diferenciava-se pela sua arquitetura que assumia outras formas, dando ao lugar uma nova aparência.
A emancipação da cidade alterou, de certa forma, a conduta dos cidadãos, que começaram a ser orientados a realizar novas práticas, guiados por noções de limpeza, beleza e pelas diferentes formas de sociabilidades. Elementos modernos como os bares, as praças, as novas ruas pavimentadas e os pequenos estabelecimentos comerciais, paulatinamente, implantavam-se no cotidiano vicentino e eram referenciados no primeiro Código de Posturas do município, sancionado no dia 22 de abril de 1955. Ele representava um conjunto de regras a serem cumpridas pelos munícipes com a finalidade de manutenção da ordem pública.
O Código de Posturas do Município era composto por medidas de política administrativa a cargo da Prefeitura em matéria de higiene, segurança, ordem e costumes públicos, instituindo normas disciplinadoras do funcionamento dos estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços, tratamento da propriedade dos logradouros e bens públicos; visando disciplinar o uso dos direitos individuais e do bem estar geral. Este atribuía pena aos infratores que, por ação ou omissão, infringissem a legislação e os regimentos do Município (MACEDO, 2006).
As penas impostas pelo não cumprimento das disposições do Código variava entre multas, apreensões e embargos. De posse desses instrumentos urbanísticos, cabia aos gestores organizar a ocupação territorial urbana e suas sociabilidades, fazendo cumprir cada uma das posturas, lembrando que:
A ocupação urbana de determinado território corresponde ao espaço produzido pelo homem em oposição ao que se pode chamar de espaço natural [...]. A forma urbana não deve ser desligada de seu suporte geográfico, o que, em muitos casos, traz consigo as determinantes das formas e do traçado urbano (COSTA, 2002, p. 18). O Código de Postura era um dos principais instrumentos de policiamento administrativo do Município. Era a partir dele que o prefeito e os fiscais da prefeitura colocavam ordem na cidade, levando a população a se disciplinar com os princípios e apelos modernistas (MACEDO, 2006). O esforço para adequar a cidade ao ordenamento dos novos discursos existentes era um imenso desafio.
A análise do Código de Postura da cidade demonstrava a força desse discurso no disciplinamento do modo de vida da população, na organização do espaço urbano e na
normatização das construções. Dentre eles, o discurso higienista, cujas novas concepções de limpeza e sanidade iam adentrando no espaço do município. Mudar as condições sanitárias de uma cidade significava também, e deliberadamente, interferir e erradicar os maus hábitos e costumes dos seus moradores, darem-lhes uma nova fisionomia e plasticidade, criando usos condizentes com os padrões da civilidade burguesa (SOUSA, 2001, p. 104).
Esses discursos estavam agregados aos avanços da medicina em esfera mundial, difundindo novas formas de hábitos e costumes, elaborando discursos que se propunha a medicalizar o espaço e a sociedade, influenciando as práticas e as políticas urbanas. No entanto, a cidade não dispunha de uma infra-estrutura condizente a essas potencialidades. Mesmo assim, discursos sanitaristas alteravam pouco a pouco os hábitos dos vicentinos, principalmente dos que tinham acesso à radiodifusão ou revistas, o que ganhava novos ares com a construção do primeiro Posto de Saúde da cidade no ano de 1958.
Segundo Adeílton Dantas de Macedo, (2006, p. 27), a elaboração do Código de Posturas nos meados dos anos de 1950, “[...] significa uma busca pelo progresso, uma tentativa de romper com o passado e seguir uma nova direção em busca de uma cidade arquitetada por muitos munícipes, que não aceitavam a ideia de residir em uma cidade estagnada e atrasada”.
Estas normas sintetizam, em parte, os ideais da cidade salubre e da casa higiênica idealizada pelos discursos urbanistas- modernistas que, de certa forma, contribuíram para um novo pensamento sobre o espaço urbano e a sociedade urbana, que moderadamente foi se incorporando no cotidiano vicentino.