Vivemos um tempo em que cultura se tornou mercadoria. É com esta afirmação que David Harvey inicia o capítulo “A arte da renda”, que finaliza sua obra A produção capitalista do espaço, de 2006. Em outras palavras, significa que as mudanças globalizadoras, ocorridas nas últimas décadas, potencializam a transformação (ou exploração) da cultura como mercadoria, constatação teorizada, pioneiramente, por Adorno e Horkheimer em seus escritos sobre a indústria cultural na obra Dialética do Esclarecimento, publicada em 1944.
As primeiras preocupações sistemáticas em relação à ideia de cultura como modo de vida se remetem à Alemanha do século XVIII, anterior, portanto, a sua unificação como estado nacional. Nesse contexto, cultura seria a expressão de uma unidade viva daquela sociedade que não era unificada politicamente, porém, se identificava através de costumes e crenças comuns. Cultura é, sobretudo, uma preocupação contemporânea de entender os caminhos que levaram os diversos grupos humanos às suas relações do presente e suas perspectivas de futuro. Diz respeito ao desenvolvimento da humanidade, o qual está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social, de se apropriar dos recursos naturais e modificá-los, de conceber a realidade e expressá-la (SANTOS, 2006). Existe, porém, um aspecto sobre a concepção de cultura que se torna mais relevante a esta análise: seu relativismo. Santos (2006) coloca que a relação entre culturas distintas é tão fundamental quanto a apreciação de uma cultura em particular, já que a sua compreensão é influenciada pelo olhar de quem a interpreta.
Ele deriva da constatação de que a avaliação de cada cultura e do conjunto das culturas existentes varia de acordo com a cultura particular da qual se efetue a observação e análise (...). Verifica-se assim que a observação de culturas alheias se faz segundo pontos de vista definidos pela cultura do observador, que os critérios que se usa para classificar uma cultura são também culturais. Ou seja, segundo essa visão, na avaliação de culturas e traços culturais tudo é relativo. (SANTOS, 2006)
Canclini (2003) também compartilha essa concepção quando afirma que cultura, antes de ser processo em si, exclusivo a uma determinada sociedade, é antes um fenômeno relativo, uma representação derivada de uma relação entre dois grupos distintos, em suma, uma maneira de ver o outro. Essas definições nos permitem deduzir que, como processo de geração de significados e como produto de um imaginário intercultural, a representação da cultura ou dos objetos culturais de um determinado local pode ser vista como flexível e moldável ao que se deseja figurar, permanecendo ainda como produto singular e autêntico, já que original, relativo a origem, não copiado e não imitado.
No início da década de 1940, os filósofos alemães Adorno e Horkheimer cunharam o termo indústria cultural para se referirem à produção e consumo em massa de bens “imateriais” ou “culturais”. Por uma tradição proveniente do Iluminismo, os termos “indústria” e “cultura” eram cirurgicamente separados, “indústria” indicava a necessidade, a coerção, a obrigatoriedade da produção; enquanto “cultura” seria seu oposto, seria a expressão maior da liberdade e criatividade humanas (DUARTE, 2009). A ideia de Adorno e Horkheimer era que, diferentemente da expressão “cultura de massa”, a qual ainda se remete a uma suposta espontaneidade das pessoas diante do bem de consumo cultural, a expressão indústria cultural possui uma acepção justamente oposta.
Tal denominação [indústria cultural] evoca a ideia, intencionalmente polêmica, de que a cultura deixou de ser uma decorrência espontânea da condição humana, na qual se expressaram tradicionalmente, em termos estéticos, seus anseios e projeções mais recônditos, para se tornar mais um campo de exploração econômica, administrado de cima para baixo e voltado apenas para os objetivos supramencionados de produzir lucros e de garantir adesão ao sistema capitalista por parte do público. (DUARTE, 2007, p. 9).
De acordo com a teoria marxista, a expansão da indústria substituiu o trabalho criativo do homem pelo trabalho alienado. No sistema capitalista, o trabalhador vende a sua força de trabalho durante parte do dia para conseguir manter sua sobrevivência e de sua família, restando outra parte do dia para se recuperar antes da próxima jornada de trabalho. De acordo com os filósofos da teoria crítica, os meios de entretenimento de massa surgiram para preencher essa quantidade de tempo livre dos trabalhadores e para manter esses mesmos trabalhadores longe de possíveis simpatias com o movimento socialista. Dessa forma, o entretenimento de massa, ou a “produção de cultura”, se tornou um promissor ramo de negócios, além de uma potencial arma ideológica, uma vez que contribuía de maneira eficaz para a manutenção do status quo.
Para esse ramo de negócios é interessante não apenas manter as mais amplas camadas da população num estado de ignorância, mas, tanto quanto possível, cultivar e ampliar essa ignorância, pois, além de isso (não sempre, mas frequentemente) garantir a adesão ao status quo, também influencia no custo total das produções. (DUARTE, 2010, p.49)
Retomando os escritos de Harvey (2006), introduzimos aqui o termo “renda monopolista”. O autor elabora uma associação entre o poder monopolista, algo intrínseco ao processo capitalista, apesar de contraditório, e a ideia de “cultura”, cada vez mais enredada com as tentativas de reassegurar tal poder. O poder monopolista se baseia na comercialização dos atributos exclusivos provenientes da propriedade de determinado objeto ou lugar existente no planeta.
Seu proprietário tem a capacidade de aumentar seu fluxo de renda por um longo tempo somente em virtude da exploração de seu controle exclusivo sobre tal item único, o qual pode ser uma obra de arte, um vinho de elevada qualidade, uma marca conceituada ou uma localidade distinta, porém devem ser marcados por critérios como especialidade, singularidade, originalidade e autenticidade.
O contexto capitalista contemporâneo, marcado pela globalização, ou “mundialização do capital”, como define o economista François Chesnais (LAPYDA, 2011), caracteriza-se pela valorização do capital financeiro, portanto, existe uma intensa formação de capital fictício, sem base material, naturalmente condicionado à produção futura de valor. É o momento em que o capital fictício comanda as forças produtivas reais, como já previra Marx em O Capital, ou seja, a produção e o consumo de mercadoria respondem aos desejos do capital financeiro, e não o contrário. Dessa forma, o produto não é somente um objeto, mas um dado a ser manipulado (FOSTER apud ARANTES, 2010, p. 90) ou valor a ser criado. A modalidade da renda de monopólio possibilita a comercialização, não só de um produto, mas especialmente de um conceito, de uma experiência, de um signo. Portanto, Harvey questiona:
Se as alegações de singularidade, autenticidade, particularidade e especialidade sustentam a capacidade de conquistar rendas monopolistas, então sobre que melhor terreno é possível fazer tais alegações do que no campo dos artefatos e das práticas culturais historicamente constituídas, assim como no das características ambientais especiais (incluindo, é claro, os ambientes sociais e culturais constituídos)? (HARVEY, 2006, p.232)
Portanto, a questão retórica levantada por Harvey nos indica a potencial relação existente entre a cultura e a nova dinâmica globalizante do capitalismo. A globalização, além de possibilitar relações efetivas entre diversas sociedades, permite ainda que seus indivíduos depositem suas fantasias em múltiplos cenários ao mesmo tempo. Como coloca Canclini, “com a expansão global dos imaginários, incorporam-se ao nosso horizonte culturas que, até há poucas décadas, sentíamos estranhas à nossa existência” (CANCLINI, 2003, p.31).
Harvey, então, introduz nesse raciocínio o tema do empreendedorismo urbano destacando a forte tendência atual de inovações culturais locais, a ressurreição e, até mesmo, a invenção de tradições locais que vão ao encontro do potencial desejo de se extrair e se apropriar das rendas monopolistas. O empreendedorismo urbano, como foi analisado no primeiro capítulo, é o padrão de gestão urbana que combina poderes estatais com interesses privados, compondo a chamada “máquina de crescimento” urbana, ou seja, “a orquestração da dinâmica do processo de investimentos e a provisão de investimentos públicos chave, no lugar e tempo certos, para
fomentar o êxito na competição interurbana e inter-regional” (HARVEY, 2006, p.231). O que torna esse arranjo potencialmente interessante é justamente as várias possibilidades de se extrair dele as rendas monopolistas. Trata-se do processo de produção de espaço urbano orquestrado pelo modo de produção capitalista.
O campo do turismo contemporâneo concentra muitas possibilidades de se explorar o poder do capital simbólico coletivo ou, em outras palavras, o poder dos marcos especiais de distinção (BOURDIEU, 2007) vinculados a algum lugar específico, através da criação de alternativas para transformar, circular e consumir localidades (FREIRE-MEDEIROS, 2006), desenvolvendo nelas uma capacidade destacada de atração de pessoas e capitais. Nesse sentido, Harvey cita os exemplos de Barcelona, exemplo modelo de empreendedorismo urbano criador de capital simbólico e diversos marcos de distinção, e de casos pontuais e controversos, como a reconstrução do Albert Dock e a implantação do International Slavery Museum, o museu internacional da escravidão, em Liverpool, e o Memorial do Holocausto, em Berlim.
O International Slavery Museum foi inaugurado em agosto de 2007 na região portuária de Liverpool, na Inglaterra e retrata o comércio de escravos que vigorou dos séculos XVI ao XIX. Liverpool se tornou capital do comércio de escravos no final do século XVIII e as estimativas dão conta de que pelo menos 1,5 milhão de africanos tenham sido transportados da África para a América por embarcações que partiam de seus portos. Este contingente consiste em mais de 10% do total de escravos vendidos de que se tem conhecimento. A questão que nos interessa aqui é que o museu é parte das atrações do novo porto “requalificado” de Liverpool e o tema “cultural” explorado ali, tido como autêntico ao lugar, é um fato histórico baseado na exploração e degradação humanas que constrange a história moderna de todo o mundo ocidental. No entanto, se tornou parte das estratégias de exploração econômica através do turismo. O mesmo ocorre com o Memorial do Holocausto, em Berlim, considerado uma obra de destaque arquitetônico, projetado pelo norte-americano Peter Eisenman, cujo objetivo é lembrar as vítimas judias do Holocausto, comandado pelo alemão Adolf Hitler. O monumento foi inaugurado em 2005 e é um dos locais mais visitados da cidade. Ambos os casos podem ser considerados exemplos de valorização, no sentido de criação de valor econômico, de seu capital simbólico e de seus marcos de distinção, já que retomam fatos marcantes de suas respectivas histórias que, no entanto, são fatos hostis e infelizes da trajetória humana.
É nesse princípio, portanto, ao qual se apoia a hipótese de que a instalação de equipamentos públicos de alto custo de implantação e grande visibilidade em favelas sediadas no entorno da
zona centro-sul da cidade do Rio de Janeiro, como teleféricos e elevador, acompanhada de intenso trabalho de divulgação e publicidade, fortalece a concepção de um imaginário sobre a “cultura” das favelas através do aumento de seu potencial turístico, possibilitando a criação de uma “mercadoria singular, autêntica, particular e especial” vinculada à cidade, associando significados ambivalentes que a colocam, ao mesmo tempo, como território violento e local de autenticidades preservadas, além de representarem o imaginário de desigualdade urbana própria dos países periféricos.
(...) sempre há fortes efeitos discursivos em jogo, definindo o que é ou não é muito especial sobre um produto, um lugar, uma forma cultural, uma tradição, uma herança arquitetônica. As batalhas discursivas se tornaram parte do jogo, e os patronos (na mídia, na academia, por exemplo) conquistaram sua audiência, assim como seu sustento financeiro em relação a esses processos. (HARVEY, 2006, p.237)
Esses investimentos seriam parte das estratégias relacionadas à construção da imagem do Rio de Janeiro como uma cidade global, associados, ainda, ao projeto de “requalificação” urbana da zona portuária do Rio e da preparação da cidade para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, dentre outros megaeventos. As favelas se tornariam, portanto, sob o ponto de vista econômico do empreendedorismo urbano, novas fontes de renda monopolista para a cidade. A seguir, analisaremos os elementos que, provavelmente, contribuem para essa conjetura.