O número de cirurgias tem aumentado ao longo dos anos devido a diversos fatores, como o aprimoramento e a inovação das técnicas cirúrgicas e o desenvolvimento tecnológico de materiais e equipamentos, bem como a rápida transição demográfica e epidemiológica da população que, respectivamente, tem gerado aumento da expectativa de vida e das doenças crônicas e, consequentemente, a necessidade de procedimentos cirúrgicos.
No mundo, há informações de que acontecem anualmente 234,2 milhões de procedimentos cirúrgicos extensos, ou seja, que envolvem incisão, excisão, manipulação ou suturas de tecidos e que geralmente requerem anestesia local, geral ou sedação profunda para controle da dor (WEISER et al., 2008). No Brasil, foram realizadas 20.022.160 cirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no período de 2008 a 2012, uma média de 4.004.432 por ano, sendo que, de 2008 para 2012, houve um aumento de 2% (431.424 cirurgias). O estado de Minas Gerais é o segundo maior da federação em número de cirurgias, com 2.164.228 nesse mesmo período e média anual de 432.846, perdendo apenas para São Paulo que, nesse período, realizou 4.563.744, com média de 912.749 cirurgias anuais (BRASIL, 2013d).
Com o aumento das cirurgias, aumentam também as oportunidades de ocorrência de incidentes. Dentre eles há os Eventos Adversos (EA) que são aqueles que resultaram em dano ao paciente, sendo que o dano é um comprometimento da estrutura ou função do corpo e/ou qualquer efeito dele oriundo, incluindo doenças, lesões, sofrimentos, morte, incapacidades ou disfunções, podendo então ser físico, social ou psicológico (BRASIL, 2013a; 2013b).
São vários os relatos internacionais e nacionais de recorrentes e persistentes ocorrências de EA na assistência cirúrgica. Um estudo de revisão sistemática, que considerou os eventos adversos como uma lesão ou complicação não intencional causada mais pela gestão dos cuidados do que pela própria doença do paciente, revelou que um em cada dez pacientes hospitalizados sofreu EA, sendo que 41% ocorreram em sala de cirurgia (DE VRIES et al., 2008).
Um estudo de revisão de 7.926 prontuários, realizado em 21 hospitais holandeses, encontrou 744 EA, sendo que, destes, 64,5% foram cirúrgicos e 40,5% considerados evitáveis. As lesões mais frequentes resultantes destes eventos foram: inflamação/infecção (39%), hemorragia/hematoma (23%), lesão por causa mecânica/física ou química (22%), e
outros comprometimentos funcionais (16%), como retenção urinária, insuficiência respiratória e renal (ZEGERS et al., 2011). Colaboram no desfecho insatisfatório das cirurgias as intervenções realizadas em local errado e no paciente errado. Um em cada 50 a 100.000 procedimentos nos Estados Unidos da América (EUA) ocorre esse incidente, sendo 1.500 a 2.500 eventos adversos desse tipo por ano (SEIDEN; BARACH, 2006).
No Brasil, dos EA ocorridos em três hospitais do Rio de Janeiro em 2012 (MOURA; MENDES, 2012), a proporção de EA cirúrgicos evitáveis foi de 68,3% (28 de 41 eventos) e a proporção de pacientes com EA cirúrgicos evitáveis foi de 65,8% (25 de 38 pacientes). E ainda persistem cenários, como apontados por uma pesquisa realizada em Minas Gerais, em que nenhum dos 37 hospitais estudados apresentava política de gerenciamento dos riscos, e 32,43% dos hospitais não tinham um planejamento da assistência de enfermagem no perioperatório (RIBEIRO, 2011).
Ademais, os profissionais subestimam os riscos de sua prática. Em um estudo realizado com ortopedistas brasileiros, verificou-se que apenas 40,8% informaram já ter vivenciado, em algum momento de suas carreiras, cirurgias em local ou paciente errado (MOTTA FILHO et al., 2013). Nesse estudo foi evidenciado que eles subestimaram os problemas relativos às suas práticas e superestimaram a satisfação dos pacientes atendidos. Em estudo realizado em hospitais do Rio de Janeiro, aproximadamente um em cada cinco pacientes com EA cirúrgico evoluiu com incapacidade permanente ou morreu. Mais de 60% dos casos foram classificados como pouco ou nada complexos e de baixo risco de ocorrer um EA relacionado ao cuidado (MOURA; MENDES, 2012).
Outro estudo, que objetivou avaliar a precisão de cirurgiões e anestesiologistas na previsão de perda de sangue intraoperatória, mostrou que em 30% dos pacientes que recebem uma transfusão, tanto o cirurgião como o anestesiologista subestimaram o risco de perda de sangue superior a 500 mililitros. No entanto, a equipe multiprofissional deve estar ciente de que um em cada 14 pacientes submetidos à cirurgia de médio e grande porte terá uma perda de sangue inesperada, excedendo 500 mililitros (SOLON; EGAN; MCNAMARA, 2013).
Existe a necessidade de conscientização do risco, uma vez que os EA, sendo evitáveis, oferecem a possibilidade de identificar, gerenciar e tratar os fatores que contribuem para a sua ocorrência. Entende-se por fatores contribuintes, de acordo com a OMS (2009), as circunstâncias, as ações ou as influências que desempenham um papel na origem ou no desenvolvimento de um incidente ou no aumento de seu risco. Esses fatores podem ser externos, organizacionais, estarem relacionados ao staff ou a um fator individual do paciente.
Segurança da assistência no perioperatório: integração de uma complexa rede intra-hospitalar 30
Estudo de Zegers et al. (2011), em hospitais holandeses, evidenciou que as causas dos EA cirúrgicos foram predominantemente por fatores humanos (65,2%), como falhas no desempenho de habilidades, despreparo profissional para o procedimento específico ou aplicação inadequada de conhecimento existente e relacionado com os pacientes (35,3%), como a idade. Fatores organizacionais, como protocolos inadequados ou inexistentes, má comunicação e aspectos culturais (13,0%) e técnicos (4,0%), como problemas com materiais, equipamentos, software, etiquetas ou formulários, também contribuíram para os EA cirúrgicos (ZEGERS et al., 2011).
Assim, fatores organizacionais e sistemas complexos – como o hospital em estudo – podem contribuir para erros e EA nos contextos cirúrgicos (MEEKER; ROTHROCK, 2011). Todo esse contexto explica a movimentação em prol da segurança do paciente cirúrgico por instituições governamentais e privadas, em âmbito nacional e internacional, conforme descrito a seguir.