• Sonuç bulunamadı

Üç gündür var olan atefl ve döküntü flikayetiyle hastane-

Poster Sunumlar (PS-001 — PS-298)

Olgu 2: Üç gündür var olan atefl ve döküntü flikayetiyle hastane-

Fonte: Foto de Marinez Garlet – Aldeia Por Fi – 19.05.2009.

A cultura caracteriza-se por sua dimensão coletiva, é dinâmica e sofre transformações. Assim como as mãos da mulher Kaingang que trama nesta imagem seu artesanato, a cultura também é entrelaçada pelas pessoas que fazem parte de cada grupo. E ela vai ganhando novas formas continuamente, pois as pessoas vão criando ou vão reproduzindo e re-significando os fatos do dia a dia, das relações.

A habilidade e rapidez do trançado expressam séculos de uma cultura que tem, nas tramas e fibras das taquaras e cipós, a representação da essência do povo Kaingang. Ainda nos dias atuais, homens, mulheres e crianças ferem suas mãos na transformação da matéria prima em estado bruto. São necessários vários dias de dedicação para transformar o material coletado na mata para que este seja

89

transformado em produto final – o artesanato. Assim como a cultura, a matéria prima para a confecção do artesanato também sofre transformações, não é estática.

A sociedade brasileira, ao se referir aos indígenas, ora os vê de forma preconceituosa – justamente por desconhecimento das especificidades culturais – ora de forma idealizada. Comumente ouvem-se comentários de que “os índios no Brasil já perderam sua cultura”. Como vimos no capítulo anterior, o Brasil é sim um país dinamicamente multicultural e diverso e concentra inúmeras especificidades culturais, como a universalidade da língua portuguesa. Ora, se no Brasil existe, em pleno século XXI, cerca de 180 línguas indígenas diferentes, isto nos demonstra que a diversidade étnica e cultural existente aqui se caracteriza na dinâmica de diversas relações sociais concentradas num mesmo país.

O tema da diversidade cultural permanece um assunto candente nas ciências humanas, assim como nas artes, na literatura, no direito, na antropologia e até mesmo, recentemente, nas políticas públicas. Exemplifica-se com a afirmação dos direitos específicos dos negros e povos indígenas em nossa sociedade, o que vem consolidando espaços para políticas diferenciadas.

Na atualidade, as populações indígenas ocupam diferentes espaços, distribuídos em praticamente todo o território brasileiro, vivendo, em grande parte, nas periferias de centros urbanos em diferentes estados e municípios, o que os obriga a viver de forma e em condições completamente adversas de suas práticas culturais originárias.

Neste capítulo, a reflexão será sobre a importância do entendimento sobre a categoria cultura bem como suas implicações para a garantia de direitos diferenciados (educação, saúde, direito à terra) para o segmento indígena.

4.1 – O DESAFIO DE AFIRMAR DIREITOS DIFERENCIADOS

Interessa-nos aqui abordar alguns aspectos, tendo em vista a cidadania como direito. A cidadania no Brasil foi construída como privilégio de classe, raça e gênero, sendo os direitos concebidos pela concessão, pela tutela e dependência, podendo ser retirados pelos governantes, quando estes assim decidissem. Somente a partir

90

da Constituição de 1934 é que o voto passou a ser universal para mulheres, negros, pobres, trabalhadores. Conforme Couto,

A concretização dos direitos sociais depende da intervenção do Estado, estando atrelados às condições econômicas e à base fiscal estatal para ser garantidos. Sua materialidade dá-se por meio de políticas sociais públicas, executadas pela órbita do Estado (2004, p. 48).

Somente com a Constituição de 1988, que reconheceu a capacidade plena dos índios, é que estes passaram a votar. Nossa sociedade é marcada por relações hierárquicas, nas quais a violência simbólica que perpassa estas relações é regra da vida social e cultural. Violência invisível sob o paternalismo, e exaltada como de “caráter nacional”. As leis no Brasil sempre foram instrumentos para preservar privilégios e instrumentos para a repressão e opressão. No consenso popular, as leis são consideradas inúteis e feitas para serem violadas, jamais contestadas ou transformadas (CHAUI, 1986, p. 54). A transgressão popular nessa via é punida, enquanto prevalece a impunidade aos detentores do poder. A luta de classes em confronto direto, nesta via, aparece como caso de polícia. A esfera pública não chega a se constituir como pública, ou seja, de acesso a todos. Ela é mais definida pelas exigências do espaço privado, faz-se uso do público para fazer valer os interesses privados.

No Brasil, as disputas pela posse da terra são resolvidas pelas armas e assassinatos clandestinos. Os negros são considerados infantis, raça inferior, e perigosos - “Um negro parado é suspeito: correndo é culpado” (CHAUI, 1986, p. 56). Os índios são considerados em fase final de extermínio, são considerados irresponsáveis, preguiçosos, bêbados e semi capazes. Os trabalhadores rurais e urbanos são considerados ignorantes, atrasados. As mulheres que recorrem à justiça por espancamento e estupro são violentadas até mesmo nas delegacias. Ocorre tortura nas prisões, nas ruas, contra homo-afetivos, profissionais do sexo e contra pessoas que cometem pequenos delitos. Assim, as classes ditas subalternas de fato são e carregam os estigmas da suspeita e da incriminação permanentes.

Ainda que no cotidiano a realidade se configura assim, os indígenas são legalmente considerados grupos especiais. Mas por que os indígenas são considerados grupos especiais e com direitos especiais? Entende-se que são especiais por pertencerem a um grupo social diferenciado, com cultura e crenças

91

diferenciadas e que representam, neste país, as raízes de todos nós. Portanto, é imprescindível para nossa vivência e sobrevivência que tenhamos o amparo e as raízes de um grupo cultural e étnico, como se fosse aquele taquaral unido e entrelaçado pelas profundas raízes. É este grupo que nos transmite conhecimentos, valores, conceitos, objetivos, formas de comunicação como a língua e símbolos, que orientam e dignificam a vida em seu todo, num espaço coletivo.

Povos Indígenas não são um único povo, mas, sim, diferentes povos em que cada qual possui a sua organização social e cultural. Entende-se que cada pessoa nasce num contexto ou num grupo cultural e étnico, e ali, entre suas próprias teias ou raízes, o cotidiano vai entrelaçando-se num emaranhado de códigos e símbolos específicos e diferenciados. E é justamente este grupo que oferece as condições de viver e desenvolver-se de uma forma adequada e o mais harmoniosa possível. Portanto, é imprescindível para vivência e sobrevivência que os indivíduos sejam amparados pelo seu grupo cultural e étnico. A historiadora de filosofia brasileira, Marilena Chauí, reflete a complexidade do termo “cultura”, reforçando que é uma categoria de difícil definição (CHAUI, 1986, p.10).

Um dos principais antropólogos do século XX, Clifford Geertz, antropólogo norte-americano, apresentou, em 1989, uma redefinição do conceito de cultura, propondo uma teoria interpretativa sobre ela, evidenciando que cultura é um contexto dentro do qual os processos podem ser inseridos em um sistema, como “uma espécie de teias de significados” (GEERTZ, 1989, p. 4). É justamente neste coletivo que os indivíduos podem se desenvolver de diferentes formas, e, nesta trama de significados, o indivíduo, de certa forma, mantém-se amarrado nas suas próprias teias, nas teias que ele próprio teceu ao redor de si, da mesma forma que as taquaras se entrelaçam no seu coletivo natural.

Os indígenas são considerados atrasados pelo fato de manterem um jeito de viver diferente do nosso, pela maneira de explicar e acreditar nos fenômenos da natureza e também por manterem uma forma diferente de relacionar-se com ela. Chauí reforça que cultura pode ser compreendida como sendo “o campo simbólico e material das atividades humanas”, e que, para tal, o termo é estudado por diferentes áreas do conhecimento como a etnografia, etnologia e antropologia. O Serviço Social é uma das áreas do conhecimento que inicia aproximação com este tema com significados diversos, a fim de compreender a complexidade dos sujeitos

92

inseridos na sociedade contemporânea e que têm espaço de expressão nas políticas sociais.

Para Silva, cultura é a capacidade que os seres humanos, e só eles, tem de dar significados às coisas que fazem, às realidades, aos fatos da natureza, ao seu relacionamento com a natureza, animais, outras pessoas, outros grupos, à realidade construída por eles (SILVA, 1988, p. 5). Sendo assim, é evidente que todos os grupos sociais, sem exceção, produzem cultura, entende-se, a partir disso, que cultura é um código de simbologias que são construídas socialmente e, visto assim, os seres humanos produzem e as modificam com freqüência. Etnocentrismo é o ato, ou fato de considerar a sua cultura melhor, ou superior a do outro, e esta tendência é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais (LARAIA, 2003). O comportamento etnocêntrico tende a transformar o que considera “diferente” em “anormal” à luz do olhar da sua própria cultura, o que faz com que sua cultura seja superior às outras culturas, evidenciando a discriminação às diferenças sócio-culturais existentes na sociedade.

Ao refletimos sobre etnocentrismo, consideramos que a discriminação vem acentuando formas de provocar a exclusão social. A sociedade brasileira, assim como fundamentado por Chauí, é uma sociedade na qual as diferenças e assimetrias sociais e pessoais são imediatamente transformadas em desigualdades. A forma como a sociedade brasileira está organizada, hierarquizada, faz com que os povos indígenas sejam impedidos de desfrutar seus direitos básicos de cidadãos, quanto mais os direitos que têm por serem socialmente diferenciados da sociedade, permanecendo assim, socialmente excluídos, na condição de desiguais.

Essa discriminação, como resultado da formação e da perpetuação de barreiras ambientais e atitudinais, é que os impede de participar na sociedade de forma autônoma. E, mais do que isso, numa cultura individualista e reprodutora de estereótipos padronizados, o diverso é sempre negado, desvalorizado e subalternizado, quando não reprimido e agredido. Episódios repetidos de violência contra indígenas, negros, mendigos, homossexuais, estrangeiros e mulheres, tingem de vergonha o cotidiano brasileiro. Frente a isso, afirma-se que os indígenas constituem um grupo diverso, necessitando de políticas eficazes que respeitem a sua diversidade como povo que agrega suas especificidades culturais, diferentes dos contextos sociais, entendidos aqui como sociedade envolvente.

93

Baniwa reflete sobre esta questão, na contemporaneidade, como resultado de um processo histórico, que precisou, inclusive, taxar pejorativamente os índios como forma de, por um lado, até mesmo destruí-los, e, por outro, roubar-lhes suas terras e suas riquezas, processo que permanece atual.

Ainda hoje essa visão continua sendo sustentada por grupos econômicos que têm interesse pelas terras indígenas e pelos recursos naturais nelas existentes. Os índios são taxados por esses grupos como empecilhos ao desenvolvimento econômico do país, pelo simples fato de não aceitarem se submeter à exploração injusta do mercado capitalista, uma vez que são de culturas igualitárias e não cumulativistas (BANIWA, 2006, p. 36).

É o (pré) conceito de que os indígenas são preguiçosos. Poucos se dão conta de que esses povos, ao longo dos anos e com imensas dificuldades, foram encontrando diferentes formas de conviver com a sociedade envolvente e com a Natureza. Assim como os indivíduos, também as sociedades costumam ter preconceito contra tudo que não conhecem e que difere dos padrões considerados normais. Por isto, a falta de conhecimento específico sobre a cultura indígena e suas especificidades culturais faz com que ocorram atitudes discriminatórias, ou comentários depreciativos, como, “já deixaram de ser índios porque usam relógio, calças jeans, têm antenas parabólicas, carros, até celular eles têm”. Ora, por possuírem esses objetos, isto não os transforma em brancos, porque cultura não é só a aparência, também é, mas é muito mais o significado interno, o modo de vida, a forma de organização, princípios e valores internos. É claro que também os aspectos externos carregam símbolos e significados diversos.

Se a cultura é carregada de símbolos, portanto se situa muito mais na esfera subjetiva do que objetiva, não são os aspectos exteriores, como roupas e objetos que principalmente constróem cultura, mas muito mais os interiores, pois é um conjunto de elementos artísticos, intelectuais e morais que constituem o ser humano no seu meio.

Se cada sociedade, indígena ou não, é fruto de uma determinada trajetória histórica, única, própria, e as situações conjunturais e históricas jamais se repetem, não há duas sociedades iguais. Cada sociedade também desenvolve respostas próprias na sua estruturação, e estas são respostas suficientes, que completam suas necessidades, e não é possível copiar-se modelos de um lugar e tempo para outros. Assim, afirmamos que cada sociedade, cada cultura é independente,

94

autônoma e auto suficiente, sem jamais ser inferior ou superior a outra. A visão de superioridade é, portanto, etnocêntrica e baseada em premissas falsas e preconceituosas.

Para Aranha, os direitos humanos têm sua importância histórica de sua afirmação quando é possível “introduzir no direito um novo fundamento

racionalmente construído, qual seja, a dignidade ao invés da dominação” (ARANHA, 2008, p.14). As comunidades indígenas, a maioria vivendo em espaços geográficos reduzidos, ou ainda morando nas periferias das cidades, necessitam avançar nas lutas para que a dignidade de seu povo possa efetivar-se, no sentido de sentirem-se incluídos nos serviços públicos existentes. Decorre daí uma dupla exclusão, a social e a cultural. Pelo fato dos serviços públicos não estarem aparelhados para isto, famílias indígenas muitas vezes sequer são entendidas por esses agentes públicos, por exemplo, e, portanto, não devidamente atendidas. E, assim, acabam sendo desprezadas, sendo-lhes impostos outros serviços, ou ações que elas de fato nem quiseram, ou necessitavam.

No entanto, consideramos que a assistência social como política social pública não pode ser entendida como solução para a eliminação da desigualdade social. Nenhuma política é capaz de tal feito. Portanto, a assistência social não provoca sozinha uma mudança estrutural. Segundo Sposati (1992), é um equívoco, também, pensar que a assistência acontece em situações imediatas; que sua atuação deve prover bens e serviços; e que tais bens e serviços devem ser realizados, objetivando transformar a situação de pobreza dos indivíduos. Para a autora a assistência deve potencializar:

A “promoção do homem e integração das diferentes faixas da população no processo de desenvolvimento”, por meio de ações técnicas, racionalmente planejadas. Nesta perspectiva, os elementos estruturais da pobreza são reconhecidos enquanto causação circular e cumulativa, o que exige estratégias de trabalho global que ataquem a marginalização social (SPOSATI, 1992, p. 57).

Devemos, sobretudo, analisar a assistência social dentro desses limites estabelecidos pelas condições estruturais que subscrevem as políticas sociais nos marcos da sociedade capitalista. Significa perceber que, colocar a assistência social como direito, foi um ganho político, extremamente importante e necessário, tendo em vista que vivemos numa sociedade que produz e reproduz várias formas de

95

desigualdade, e que os direitos sociais estiveram historicamente voltados para os trabalhadores inseridos no mercado de trabalho, mas que é necessário unir-se forças com outras instâncias públicas, no que Sposati chama de trabalho global.

4. 2 – PERANTE A LEI: O DIREITO DE SER DIFERENTE