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Na avaliação sobre a produção historiográfica dos anos de 1980, não há consenso, mas concordância em torno de alguns traços comuns.25 O clima de “libertação do Estado”, ou

seja, uma ótica do poder para além da questão do Estado, provocou, no campo historiográfico, a abertura para os chamados “novos temas”. Nos anos 1980-90, a Universidade se consolidou como espaço, por excelência, do conhecimento histórico, com uma produção crescente e diversificada, resultado da consolidação dos vários cursos de pós-graduação, incluindo, aí, os doutorados.

A História do Brasil ampliou sua presença no conjunto dos cursos e pesquisas, tendo como área de concentração a História Social. A história política não aparece designando cursos ou áreas de concentração; quando muito, está aclopada com os campos sociedade, economia e cultura. Os dados apresentados na defesa de teses e dissertações confirmam os da década de 1970, com crescimento de estudos na área de República e muitos trabalhos na área de história regional.

É no diálogo com as Ciências Sociais que foi possível identificar as maiores inovações no campo do político. Na avaliação de Ângela Castro Gomes (1999), os estudos políticos produzidos no Brasil, a partir dos anos de 1960, contribuíram para alargar a concepção da política para além da esfera institucional/administrativa, contemplando não só a ação do Estado e de outros atores coletivos, até então, praticamente ignorados, mas, igualmente, aproximando a política da cultura.

Preocupada em explicar porque o Brasil e a América Latina mergulharam em regimes autoritários e o que seria necessário para reinstalar uma democracia sólida, as Ciências Sociais/Políticas incorporaram novos sujeitos coletivos e o tempo presente, datado do pós-30, como objetos de estudo, demarcando mudanças significativas também nas abordagens históricas.

O texto da referida autora não contempla nenhuma avaliação sobre a produção historiográfica das duas últimas décadas do século XX, mas uma rápida percepção da

25 Para os anos de 1980, Falcon utiliza os dados de FICO, Carlos e POLITO, Ronald. A história do Brasil

bibliografia apresentada em trabalhos recentes26 apontam para a persistência de estudos sobre a esfera do político, enfocando os tempos mais remotos da história brasileira. Revisitam-se temas tradicionais, investigados sob novas perspectivas teórico-metodológicas e problematizados pelas inquietações do presente, como é o caso da discussão sobre o Estado e a Nação no Brasil, reavaliando-se “as tensões, contradições e conflitos que perpassam a simultânea montagem de ambos” (JANCSÓ, 2003, p. 15), o que evidencia a complexidade do debate. Os embates em torno de projetos políticos alternativos ao unitarista, o federalismo, as elites regionais, os conceitos de pátria, nação e país são repensados para se entender identidades específicas, assim como a participação de outras províncias, que não apenas as do Centro-Sul, na construção do Estado nacional, revelando-se tensões e possibilidades políticas analisadas com maior atenção por esses trabalhos das duas últimas décadas do século XX.

Dentre estes trabalhos, destacamos o texto de Jancsó e Pimenta (2000), no qual os autores acentuam que a formação do Estado Nacional não pode ser reduzida à ruptura do pacto político que unia o Brasil a Portugal e tampouco se pode falar de uma identidade ou sentimento nacional anterior ou mesmo imediatamente posterior à Independência. Conceitos como o de pátria, nação e país precisam ser pensados a partir da realidade histórica do século XIX, ainda marcada por diferentes identidades e diversos projetos políticos, haja vista a posição dos deputados brasileiros nas Cortes em Lisboa e, mais tarde, no próprio Brasil.

Um outro trabalho fundamental, sobre os embates políticos no início do século XIX é o de Márcia Regina Berbel (1999), que, através da análise dos Diários das Cortes Constitucionais, estuda a atuação dos deputados das várias regiões do Brasil representados nas Cortes de Lisboa, em 1820 e, mais especificamente, sobre suas diferenças políticas, o que, na sua avaliação, revela a inexistência de uma oposição prévia entre deputados “portugueses” e “brasileiros” e a inexistência de uma unidade de interesses no Brasil a ser defendida nas Cortes.

26Sobre a idéia de construção de um Império luso-brasileiro temos o interessante trabalho de Mª de Lourdes

Viana Lyra (1994); para as abordagens sobre as sociabilidades e simbolismo político no que diz respeito à presença da Corte portuguesa no Brasil tem-se os trabalhados de Jurandir Malerba (2000) e para a Monarquia brasileira, o de Iara Lis franco S. C. de Souza(1999); na perspectiva das coletâneas podemos destacar aquelas organizadas por Carlos Guilherme Mota, Viagem incompleta. Formação: histórias, de 2000 e, as de István Jancsó

Brasil: formação do Estado e da Nação e Independência: história e historiografia, publicados, respectivamente, em 2003 e 2005, que reúnem vários artigos de historiadores que retomam a discussão sobre o tema em função das pesquisas por eles desenvolvidas. Sobre as idéias federalistas no século XIX, os trabalhos de Evaldo Cabral de Mello (2004) e o de Mirian Dolhnikoff (2005). No campo das biografias históricas temos os trabalhos de Marcos Morel, sobre Cipriano Barata (2001) e, o de Isabel Lustosa, sobre D. Pedro I (2006). Mais recentemente, outra coletânea sobre as novas dimensões da Independência , organizada por Jurandir Malerba(2006) e a publicação da tese de Denis A. de Mendonça Bernardes (2005), sobre o patriotismo constitucional, nos anos de 1820-1821, em Pernambuco.

A temporalidade focada é curta, porém a interpretação da autora, em busca de maior compreensão, estabelece nexos com um processo temporalmente mais recuado, ao menos desde a vinda da Família Real para o Brasil. Por outro lado, no próprio tempo em que recorta o estudo, aponta sub-periodizações.

Nesse sentido, a análise apresenta três eixos que, a nosso ver, representam inovação nas interpretações historiográficas sobre o processo de Independência do Brasil, que, mesmo não incidindo diretamente sobre o período de nosso estudo, são essenciais para compreendê- lo. O primeiro eixo é o da relação entre os deputados portugueses e os do Brasil, rompendo uma visão maniqueísta e homogeneizante de cada um dos lados e apontando suas aproximações e distanciamentos. O segundo eixo diz respeito a atuação, posição e arranjos políticos dos deputados baianos, pernambucanos, fluminenses e paulistas, também destacando as diferenças internas à representação brasileira nas Cortes. Finalmente, um terceiro eixo compara o processo de eleição dos deputados das bancadas de Pernambuco e Bahia e analisa as diferenças no seu respectivo autonomismo.

Os deputados pernambucanos, apesar do controle do governador Rego Barreto, eram, quase todos, revolucionários que haviam se envolvido com a República pernambucana e tinham uma concepção diferente de “pátria” e “país” pernambucanos, definições mais concretas do que a de “nação”, um patriotismo pernambucano expresso na defesa regional de seus interesses, em detrimento de questões mais gerais, de acordo com os pronunciamentos dos deputados nas Cortes: A defesa das reivindicações locais era prioritária para os pernambucanos, mas eles poderiam integrar a nação portuguesa desde que respeitada legalmente a autonomia da província. As bases do projeto integracionista eram opostas aos pernambucanos, essencialmente localistas. A possibilidade de intervenção das Cortes evidenciou a posição: o governo de Lisboa poderia interferir em qualquer decisão local. (BERBEL,1999, pp. 110-111).

No que diz respeito à delegação da Bahia, o trabalho aponta como a mesma resultara de prolongado processo eleitoral, que durara meses e possibilitara o envolvimento de setores politicamente muito divergentes, incluindo desde um militar comprometido com o governo joanino27 até participantes do movimento de 1817. Mesmo com o atraso de sua chegada a Lisboa, os deputados baianos atuaram de modo a suscitar a discussão de questões importantes que já haviam sido sinalizadas anteriormente, e que foram aprofundadas: a representação da

27 Dentre os deputados que apoiavam a manutenção da união à Portugal, a autora destaca a atuação do Marechal

nação e a configuração do judiciário. Em ambas, eles defenderam o fortalecimento e a autonomia do poder das províncias, quer fosse diante de Lisboa ou do Rio de Janeiro. Cipriano Barata e Francisco Agostinho Gomes, apoiando-se no artigo 21 das Bases da Constituição – “somente à nação pertence fazer a sua constituição ou lei fundamental, por meio de seus representantes eleitos” – propunham a rediscussão do que já havia sido aprovado, argumentando que nem todos os representantes das províncias do Brasil estavam presentes.

A despeito da recusa dessa proposta, ela expressa a concepção da deputação baiana, de nação como uma construção política, a partir de um pacto elaborado com e entre os representantes das várias partes do Reino, que, até então ausentes, não eram obrigados a acatar as deliberações dos presentes. Ponderavam os representantes baianos sobre as diferenças entre as províncias e a necessidade de ouvir seus representantes.

Os três eixos se entrecruzam, possibilitando, assim, a compreensão da complexidade do jogo político, em uma abordagem mais refinada, mais nuançada. Berbel desomogeneiza a perspectiva de abordagem. Desse modo, o tempo desse jogo é visualizado em seus vários ritmos, de um lado e de outro do Atlântico, ao sabor dos acontecimentos que vão interferindo nos debates das Cortes que, por sua vez, interferem nos acontecimentos nas diferentes partes da América portuguesa.

É vislumbrada, também, a multiplicidade dos seus agentes. Assim, o ponto forte da obra de Berbel, é a perspectiva de oferecer, mais especificamente, subsídio a nosso trabalho, com o registro e análise sobre a posição dos representantes das províncias do Brasil, que revelam concepções e identidades políticas diferenciadas, expressando, em última instância, a heterogeneidade no processo constitutivo da ex-Colônia, então Reino Unido.

Nesse sentido, a obra vai realizando um movimento das diferenciações provinciais para um consenso mais geral entre deputados do Brasil (veja-se bem: não brasileiros no sentido de uma identidade nacional que não existia, naquele momento, tanto que o consenso não era unânime), a partir da proposta da delegação paulista, que foi possibilitando a aproximação com representantes pernambucanos e baianos, reconfigurando os respectivos autonomismos. Por outro lado, a posição inicial dos deputados baianos, por uma autonomia provincial inserida no Estado português, induz a uma problematização da posterior adesão das elites baianas ao Estado unitarista brasileiro: até que ponto aquela posição inicial não é reiterada, apenas deslocando o centro do poder? Até que ponto as elites baianas do Império perceberam que um patriotismo mais localizado, com ênfase maior na autonomia provincial, a

exemplo do caso pernambucano, as fragilizaria? É claro que outros elementos e outra conjuntura, posterior a 1822 e, sobretudo, 1824 (a própria guerra da independência, a Confederação do Equador, numerosos levantes de tropas) interferiram no seu posicionamento, mas havia uma experiência política prévia das elites baianas (Conjuração dos Alfaiates, inúmeras revoltas escravas antes de 1822, o próprio comando da repressão a 1817 ter sido centrado na Bahia) que pode ter pesado nas suas concepções e práticas políticas durante o Império.

Na coletânea coordenada por Jancsó (2003), destacamos o trabalho de Mirian Dolhnikoff28 que, diferentemente de interpretações mais conhecidas, ressalta o papel das elites regionais e o federalismo como uma proposta alternativa na construção de um Estado Nacional federativo no Brasil, a partir de 1830. Segundo a autora, as elites regionais constituíram-se também como elite política, simultaneamente à presença da Corte, cujo desejo de autonomia não era sinônimo de separação nem incompatibilizava a acomodação das reivindicações regionais em um arranjo nacional.

O risco do fim da escravidão, as pressões inglesas e de vários setores sociais fizeram minar as resistências regionais diante da centralização imposta pelo Rio de Janeiro, fazendo com que estas fossem propensas a aceitar um arranjo institucional que, garantindo-lhes certa autonomia, articulava todo o território luso-americano sob um único governo. Mas é com a abdicação, em 1831, que os grupos regionais assumiriam, de modo mais direto, o poder, instituindo seu modelo de Estado, em nome do liberalismo moderado.

Para Dolhnikoff, a reforma liberal da década de 1830 estabeleceu um pacto federativo, com decisiva influência dos grupos regionais no jogo político nacional, que não foi alterado com a revisão conservadora, consubstanciada no Ato Adicional.

Para fundamentar o modelo de federalismo implementado no Brasil, no período regencial, a autora utilizou o conceito de Preston King, que o entende como “um arranjo institucional adotado como estratégia de construção do Estado, cuja principal característica é a coexistência de dois níveis autônomos de governo (regional e central), definidos constitucionalmente”. (DOLHNIKOFF, 2003, p. 433)

Estudando as províncias de São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco, a autora vai mostrando, a partir de situações político-administrativas, o nível de autonomia das mesmas. Destaca a capacidade orçamentária provincial sustentada por uma tributação e

28 O texto a que nos referimos é: Elites regionais e a construção do Estado Nacional. 2003, pp.431-468, mas as

idéias aparecem desenvolvidas,também, no livro O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil, publicado em 2005.

arrecadação próprias, que garantiam o desenvolvimento de uma política econômica voltada para o desenvolvimento material das províncias, a autonomia dos grupos regionais para deliberarem sobre os empregos provinciais, uma vez que esses funcionavam como moeda de troca no jogo clientelista e constituíam peça fundamental na cooptação dos grupos locais; e, a prerrogativa da assembléia provincial legislar sobre força policial, deixando nas mãos das elites provinciais um instrumento imprescindível para a manutenção da ordem.

Segundo a autora, as mudanças na legislação, a partir dos anos de 1840, quando da reinterpretação do Ato Adicional, fortaleceram o governo central através da centralização da justiça, mas não liquidaram a autonomia das elites regionais nem sua influência no sistema político. Assim, a autonomia provincial comprometeu as elites regionais com a preservação do próprio Estado, que chegou às regiões através de um federalismo que garantiu a autonomia provincial, evitou a separação e possibilitou a unidade nacional.

Outro trabalho que retoma a idéia de confronto federativo entre os projetos políticos para o Brasil, no início do século XIX, é aquele de Evaldo Cabral de Mello (2004). Apresentando outros projetos políticos que não o da centralização, a partir de Pernambuco, o autor “procura concatenar os eventos políticos da província entre si e os de Lisboa e da Corte, ignorando propositadamente o contexto socioeconômico e os episódios militares, propostos mas não expostos”. (MELLO, 2004, p. 20).

Discutindo sobre o projeto de federalismo em Pernambuco, no período da Independência, o autor faz uma crítica ao viés historiográfico que entende a história da Independência e a construção do Estado como sendo responsabilidade de alguns “iluminados”, nascidos no triângulo Rio – São Paulo – Minas; e aos marcos cronológicos definidos por essa historiografia, ou seja, os anos de 1820 – 1822. Assinala o autor que os anos de 1823-1824, marcados pela dissolução da Assembléia Constituinte e a Confederação do Equador, são referências temporais cruciais para a consolidação do Império.

Para o autor, o triunfo do federalismo ou a criação de estados regionais, e não um império único, teria provavelmente ocorrido, caso três momentos decisivos não houvessem infletido o curso dos acontecimentos: a transmigração da dinastia bragantina para o Rio de Janeiro; a determinação da Corte fluminense de preservar a posição hegemônica recém- adquirida; e a incapacidade do Congresso de Lisboa de lidar com a questão brasileira (MELLO, 2004, p. 12).

Os dois centros do Reino – Rio de Janeiro e Lisboa – disputaram a adesão das províncias, que sucumbiram pela pressão e também pelo uso da força. A unidade não foi desejada em todo o Brasil e não beneficiou a todo o seu território. Segundo Mello, a Bahia, pelo fato de ter sido ocupada pelos portugueses, reforçou a opção pelo império com D. Pedro, ficando “o federalismo uma sensibilidade política eminentemente pernambucana” (MELLO, p.13).29

O autor também registra como propostas federativas as idéias de Feijó, defendidas em Portugal, na Corte, e os princípios da Base Constitucional das Cortes, que acenaram com a possibilidade de autonomia das partes, destacando que a historiografia escamoteou a existência dos projetos federalistas, associando-os a impulsos anárquicos e de ambições personalistas, semelhantes aos tumultos da América hispânica.

Discutindo sobre o significado histórico do federalismo, o autor explicita, entretanto, que, ao tempo da Independência, não havia uma idéia precisa do termo, muitas vezes empregado como sinônimo de confederação, ou de república e democracia, confundindo-os, inclusive, com “governo popular”. Originalmente, federalismo era entendido como “a reunião de unidades políticas autônomas visando a criação, por motivo de defesa principalmente, de uma entidade maior” (MELLO, pp. 14-15). Esse conceito se aplica à criação das Províncias Unidas dos Países Baixos no século XVI, na sua luta de independência em relação à Espanha, e à Confederação das treze colônias inglesas na América do Norte, na guerra com a Grã Bretanha, vindo a constituir-se em uma república federal em 1787.

Em comparação com o significado do termo nos Estados Unidos, o autor assinala erro no uso do termo no Brasil. Segundo ele, os federalistas norte-americanos defendiam a união dos laços entre as províncias, o que, entre nós, corresponderia aos unitaristas; e os democratas brasileiros queriam afrouxar os laços entre as províncias e dar maior soma de atribuições às assembléias legislativas, correspondendo aos federalistas. Estes entendiam que a soberania residia nas províncias, o que explica o fato de Frei Caneca, Cipriano Barata, Natividade Saldanha, entre outros, se autoclassificarem como tal. Por outro lado, o autor ressalta que não é comum achar essa expressão em relação aos citados, pois era uma forma de escapar às perseguições implementadas pelo Rio de Janeiro a partir de 1822. De modo similar, o vocábulo república também não aparecia explicitado nos debates, prevalecendo a discussão em torno da autonomia provincial.

29A movimentação dos baianos, durante o Primeiro Reinado e a Regência, em defesa de um Estado federado

contraria a afirmativa do autor. Para isso basta verificarmos a posição dos deputados demarcada nas Cortes de Lisboa, em 1820, nos movimentos rebeldes acontecidos em Cachoeira, na Bahia, nos anos de 1831-1832 e 1833, estudados pela professora Lina Maria Brandão Aras e, na revolta da Sabinada, em 1837, amplamente estudada.

Por isso, entre 1817 – 1824, os federalistas e republicanos não explicitaram seus objetivos abertamente, preferindo apresentá-los como compatíveis com o sistema monárquico implementado no Rio de Janeiro, desde que autenticamente liberal, ou procurando esvaziar o debate sobre a natureza da chefia do Estado, que seria irrelevante face ao problema da distribuição de poder em escala nacional.

Segundo o autor, a idéia de federalismo marcou negativamente Pernambuco, ao mesmo tempo em que a memória atribuiu aos fluminenses, mais especificamente, o epíteto de construtores da nacionalidade. Apontando outras interpretações, o autor destaca no texto a contribuição de certos autores para o tema. Ressalva a observação de Denis Bernardes sobre o anacronismo de se colocar o sete de setembro como fim predeterminado do processo de emancipação; e o alerta de Maria de Lourdes V. Lyra, que viu na propaganda de separatismo uma manobra para as províncias apoiarem o projeto do Rio de Janeiro, substituindo a causa da unidade pela campanha de centralização. Para o autor, não se pode acusar o ciclo de 1817- 1824 de separatismo como também não se pode garantir que a unidade do Brasil fosse prioridade, na medida em que esta unidade pudesse implicar no prejuízo da aspiração de auto- governo e nos princípios liberais da Revolução Portuguesa.

Estas obras são exemplares na perspectiva das novas abordagens sobre a construção do Estado Nacional, que vêm ampliando o campo dos estudos políticos sob novos sentidos, ao explicitarem uma séria crítica a uma linha interpretativa hegemônica na historiografia, qual seja, a da ênfase na defesa na centralização. Ao apontarem outras interpretações, pensam as relações políticas a partir de outros atores e espaços, que disputaram projetos políticos de organização do Estado Brasileiro, evidenciando a complexidade do tema. Ajudam-nos a pensar a inserção da Bahia no debate, considerando as relações entre um espaço provincial importante em relação a um novo centro político que ia se estabelecendo no Rio de Janeiro.

Cumpre entender como o jogo político formulava possibilidades de alianças ou definia oposições entre as elites políticas provinciais e as ações desenvolvidas por elas para efetivarem a presença do Estado na província.

Benzer Belgeler