6.1
Implicações para o ensino
O conflito cognitivo é uma das possíveis estratégias de ensino que um professor pode utilizar. Porém, para que essa estratégia possa ser utilizada de maneira produtiva, acreditamos que o professor deve conhecer as diferentes maneiras de gerar, nos alunos, esses conflitos. Uma dessas possibilidades é confrontar as expectativas dos estudantes com dados anômalos ou inesperados. Para isso, a partir das previsões e expectativas dos estudantes, o professor pode apresentar essas anomalias na forma de uma informação ou de uma teoria concorrente. Dessa forma, ele estaria promovendo um conflito cognitivo potencial nos alunos a partir de situações teóricas. Outra opção é tentar gerar o conflito cognitivo a partir de atividades de natureza prática. Como a atividade prática depende, em certa medida, das escolhas feitas pelo aluno, o professor pode, no máximo, criar situações potenciais de conflito e esperar que os estudantes reajam a elas. Para criar estas situações conflituosas o professor deve conhecer bem os modelos que os estudantes trazem, antes do estudo formal de qualquer tema, para que possa preparar atividades adequadas. Além disso, é importante que o professor conheça as reações que os estudantes possam ter ao se depararem com resultados inesperados. As implicações deste estudo dizem respeito mais a este segundo ponto.
Acreditamos que o professor que está preparado para prever e reconhecer as possíveis reações dos estudantes frente ao inesperado pode intervir melhor em situações de ensino- aprendizagem conduzindo o aluno a alcançar os objetivos pedagógicos que ele tem em mente ou que o currículo estabelece. Alguns importantes trabalhos (PIAGET, 1976; KUHN, 1987) apresentam o desenvolvimento cognitivo de estudantes e cientistas em situações de conflito. Não descartamos a importância destes trabalhos, mas em situações práticas de sala de aula muitas vezes é necessário uma ferramenta simples e direta de análise por parte do professor. Neste sentido, a categorização de condutas de reação dos estudantes frente a situações inesperadas é uma importante ajuda para o professor (CHINN e BREWER, 1998; MASON, 2000; LIN, 2007). A tabela do capítulo 2, que relaciona as condutas de reação dos estudantes com os processos cognitivos de assimilação e acomodação, é um apoio ao professor para lidar com situações de ensino que envolvam dados anômalos. Esta tabela faz uma comparação entre o comportamento dos estudantes, que é perceptível para o professor, com processos internos e cognitivos da aprendizagem, tornando mais simples a percepção do professor sobre
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a aprendizagem do estudante. Por este motivo, o trabalho que apresentamos tem relevância para prática docente.
Como acreditamos que este trabalho é relevante para a prática docente, destacamos a importância de se trabalhar as condutas de reação dos estudantes nos cursos de formação de professores. Nesses cursos, o professor em formação tem contato com diferentes estratégias de ensino, como o conflito cognitivo, e, por isso, julgamos relevante que o professor em formação possa ter contato com diferentes leituras na área. Assim, acreditamos ter contribuído para os cursos de formação de professores na medida em que ajudamos disseminar as condutas de reação dos estudantes frente a situações inesperadas e fizemos um paralelo entre as teorias cognitivas de Piaget, sobre assimilação e acomodação em situações de conflito cognitivo, com as condutas de reação catalogadas na literatura.
Como consequência do trabalho, observamos que as condutas de reações categorizadas nos trabalhos anteriores também foram observadas nas situações práticas que os estudantes executaram. Observamos também que os ciclos anomalia-reação e anomalia- mediador-reação ocorreram em várias situações. As situações com a presença de mediadores foram mais ricas em termos de discussão dos conceitos relevantes para explicar aquela situação. Sendo assim, acreditamos que os mediadores podem ser ótimas ferramentas no processo de desenvolvimento cognitivo dos estudantes.
Além disso, destacamos a presença dos miniciclos de AR ou AMR internos a uma tarefa maior que os alunos devam cumprir. Estes miniciclos foram momentos ricos de desenvolvimento dos estudantes, mas devem ser cuidadosamente acompanhados. Os alunos podem acabar se perdendo em uma série interminável de miniciclos, em lugar de avançar rumo ao objetivo proposto pela atividade.
6.2
Implicações para a pesquisa
Este trabalho amplia a discussão do conflito cognitivo através de atividades práticas como estratégia de ensino. A pesquisa na área já mostrou que não existe a substituição automática de um conceito por outro. Sendo assim, é importante conhecer como os alunos se comportam quando se defrontam com dados anômalos. Este trabalho, assim como aqueles de Chinn e Brewer (1993, 1998) e de Lin (2007) nos ajudam a entender como estes alunos reagem quando se deparam com resultados e observações dissonantes com suas concepções e expectativas. Ao mesmo tempo, a grande variedade de reações diferentes observadas nesses trabalhos nos permite entender porque apenas em algumas situações de discrepância entre
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teoria e observação, os estudantes se envolvem em raciocínios que culminam com mudanças substantivas em suas ideias sobre o fenômeno ou tópico estudado.
Neste trabalho, nos propusemos a avaliar como os alunos reagem quando esta anomalia surge em uma atividade prática. Tivemos como fundamento as categorias propostas por Lin (2007), que amplia a taxonomia proposta de Chinn e Brewer (1998). Ao analisar cada estudo de caso, pudemos observar situações diferentes vivenciadas pelas estudantes.
Não encontramos nas referências consultadas relatos dos miniciclos de anomalia / reação. A análise do estudo de caso permitiu que observássemos os estudantes em ação ao lidar com os resultados inesperados e, por isso, acreditamos que a opção por esta metodologia tenha possibilitado a observação desses miniciclos. Uma análise quantitativa, como aquela feita por Chinn e Brewer e por Lin, congrega uma grande quantidade de informações, mas não observa os estudantes enquanto lidam com os resultados inesperados. Uma proposta futura seria detalhar melhor em que condições estes miniciclos podem ocorrer e até em que ponto é desejável que eles se repitam sem que os estudantes se percam dentro da tarefa maior que devem cumprir.
Outra situação observada foi o uso espontâneo de analogias, por parte das alunas, durante a realização das atividades. Algumas vezes elas fizeram uso desse recurso, em especial quando queriam explicar ou justificar algumas de suas ações. O uso de analogias para lidar com o conflito cognitivo parece ser uma estratégia adotada pelos alunos e, por isso, uma proposta relevante de pesquisa.
Sendo assim acreditamos que o trabalho apresentou uma visão mais detalhada de situações de conflitos cognitivos de natureza prática. Além disso, aponta para campos de pesquisa que parecem promissores no entendimento de como os estudantes aprendem em situações conflituosas.
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