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Entender o passado em toda a sua complexidade é uma forma de adquirir sabedoria, humildade e um senso trágico a respeito da vida. (Gordon S. Wood – The Purpose of the Past: Reflections on the Uses of

History).108

As obras hidráulicas descendem do início das civilizações, cujo cenário era determinado pela busca do domínio da água, elemento este ligado a mitos e rituais simbólicos109, notadamente no Egito e Grécia110, bem como às necessidade vitais de sobrevivência e poder das cidades.

108O citado autor explica que “Senso trágico não significa ser pessimista, mas apenas

compreender a vida com todas as suas limitações.” Apud: GOMES, Laurentino. 1822: como uma

rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo; Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. p. 20.

109Na concepção mitológica da água no Egito, Osíris é a personificação da fecundidade e criadora

das águas. O rio Nilo era representativo da união entre o deus Osíris e a deusa Íris, sendo que desta união nasceu o deus Hórus que conseguiu a proeza de fazer recuar o oceano, deixando nas margens do Rio Nilo o lodo aluvial necessário à adubação das plantações. Na Grécia, a mitologia consagra que o ar uniu-se ao dia dando origem ao nascimento da Terra (Gaia), Céu e Mar. Da união do Ar (arquétipo masculino) com a Terra (arquétipo feminino) apareceu o oceano, representativo da vida. Os rios e fontes eram considerados os filhos dos oceanos e, portanto, sempre foram divinizados. O rio Jordão, v.g., originou rituais de purificação que evoluíram ao batismo cristão. RUDHARDT, Jean. L’eau et les divinités de l’eau dans la religion grecque. In: BERNARDIS, Marie Agnès; NESTEROFF, Anne. (Orgs.). Le grand livre de L’eau. Paris: La Manufacture et la Cite des Sciences et de l’Industrie, 1990. p. 31-39. GRAVES, Robert. Los mitos

griegos. Trad. Luis Echávarri. Madrid: Alianza Editorial, 1985. v. 1. No Brasil, a água também é

considerada, dentro da tradição de algumas crenças religiosas, como elemento fomentador da vida e assim, merecedora de oferendas. Iemanjá, simboliza a deusa que reina sobre as águas do mar e que se casou com Oxalá, o Deus do ar e do Céu, criador do mundo. Desta união, surgiram Oxum (Deusa dos rios, cachoeiras e fontes) e Nanã-Buruku (deusa das lamas e mangues que varre a sujeira da terra ao limpar a água). CRESPO, S. (Coord.). Rio: Cidade das Águas. Rio de Janeiro: Instituto de Estudos da Religião (ISER), 1997.

110Na Grécia era forte a relação entre saúde e saneamento, sendo discutida de forma ampla por

Hipócrates e colaboradores da obra ‘O corpo hipocrático’, na qual se analisavam algumas enfermidades como caxumba, bócio, resfriados, pneumonias, entre outras: “ os médicos gregos eram também filósofos naturais e se interessavam pelos problemas de saúde existentes e suas cuasas (...) A relação entre o ambiente físico (clima, solo, água, modo de vida), nutrição e a ocorrência das doenças ficou evidente no livro hipocrático ‘Dos ares, águas e lugares”. In: HELLER, Leo; REZENDE, Sonaly. O saneamento no Brasil: políticas e interfaces. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002. p. 38. Ver também em George ROSEN que acrescenta a ideia de que os gregos determinavam aos médicos que realizassem pesquisa local antes da região a ser colonizada, com o objetivo de verificar o solo. ROSEN, George. Uma história da saúde pública. Trad. Marcos Fernandes da Silva Moreira com a colaboração de José Ruben de Alcântara Bonfim. São Paulo: UNESP, 1994. p. 37-38.

Os primeiros registros históricos111 sobre saneamento foram a construção de galerias de esgoto em Nipur, na Índia (por volta de 3750 a. C); o abastecimento de água e drenagem no Vale do Indo em 3200 a.C; o uso de tubos de cobre como os do palácio do faraó Cheóps e a clarificação da água de abastecimento pelos egípcios em 2000 a.C, através do uso de sulfato de alumínio.112

Vale dizer que no século IV a.C. os romanos instituíram os chamados banhos públicos e as termas. Ainda como importantes obras referentes ao saneamento e, mais detidamente, ao esgotamento sanitário, foram construídas canalizações onde os esgotos eram lançados através de sistemas de hidráulica construídos para tal fim, evitando-se o lançamento de águas servidas nas ruas. A denominada “cloaca máxima” consistia num conduto livre em pedra com mais de 04 metros de diâmetro que se tornou o coletor tronco dos esgotos de Roma.113

Entretanto, com as invasões bárbaras, todo este arcabouço de construções hidráulicas foi perdido, dando lugar ao retrocesso de estudos e técnicas para o combate dos problemas tendentes ao saneamento ambiental.

Na Idade Média, inexistiu qualquer abordagem científica em relação às questões referentes ao saneamento, mesmo com problemas sérios na área, propiciados pela aglomeração característica das cidades medievais e epidemias severas como a Peste de Justiniano e a Peste Negra em 1348. Estas, por serem construídas em meio a fortificações, geravam um cenário de acumulação de pessoas, animais (v.g., porcos, gansos e patos) dentro de casa e excrementos nas ruas que, até então, não tinham calçamento.114

Neste período histórico, evidenciavam-se dois problemas básicos, quais sejam, o referente ao suprimento de água e sua potabilidade e o da destinação do lixo.

111Percebe-se pelos relatos de George ROSEN que desde a Antiguidade, os povos hindu, romano,

grego, hebreu e egípcio já havia sistemas de abastecimento de água, drenagem, esgotamento sanitário canalizado e banheiro. Segundo descreve o citado autor, tais práticas tinham um cunho religioso, v.g. no Egito acreditava-se que as epidemias adivinham da ira da deusa das pestes Sekhmet. ROSEN, George. op. cit., p. 31-32.

112AZEVEDO NETTO, José Martiniano. Cronologia dos serviços de esgotos, com especial menção

ao Brasil. Revista DAE, v. 20, n. 33, p. 15-19 apud SILVA, Elmo Rodrigues. Um percurso pela história através da água: passado, presente, futuro, p. 5.

113Id. Ibid., passim. Ver também: HELLER, Leo; REZENDE, Sonaly. op. cit., p. 39-40. 114ROSEN, George. op. cit., p. 53.

O primeiro deles começou a se apresentar como uma necessidade premente que foi inicialmente resolvida através de cisternas, fontes, poços. No Oriente, o uso de água encanada já havia aparecido mesmo antes do século IX, quando o engenheiro egípcio Ibn Katib al Faighani conduziu a água através de um aqueduto, desde um poço cavado no deserto da cidade do Cairo.

Entretanto, apesar da construção de dutos para o abastecimento da água, uma questão começou a atemorizar as autoridades municipais: a da potabilidade, que se encontrava ligada à da destinação de resíduos. Assim, pedia-se aos cidadãos para que não lançassem animais mortos ou refugos nos rios e não se permitia aos curtidores lavarem suas peles nos rios, e aos tintureiros, vazarem os corantes e a lavagem das roupas.115

A pavimentação das ruas, com o intuito de mantê-las limpas, iniciou-se em Paris em 1185, depois em Praga em 1331, Nuremberg em 1368, Basileia em 1387 e Augsburgo em 1416. O esgotamento dos dejetos para poços cobertos iniciou-se em Paris, através do chamado cabinet d’aisance, destinado a drenar os dejetos até os canais. Em Milão, no século XV, decretou-se a necessidade de construção de esgotos e cloacas que deveriam ser construídos em lugares previamente autorizados pelas autoridades e com certa profundidade para evitar que exalasse odores. Em Londres, os esgotos eram lançados no rio Tâmisa ou em valas próximas à cidade.116

Com o advento das doenças epidêmicas ( varíola, cólera, lepra, tifo e outras pestes)117 começou-se a estudar suas possíveis causas.

Assim, difundiu-se a ideia de que havia um instrumento de contaminação, chegando à teoria do ‘ar corrompido’, ou seja, a da alteração do ar em locais onde havia matéria em decomposição, águas estagnadas e fétidas.118 Com base nessa teoria, desenvolveu-se a de higiene pessoal. George Rosen afirma que tais teorias foram dominantes na Saúde Pública moderna até o final do século XIX.

115Especialmente na Alemanha e na Itália. In: ROSEN, George. op. cit., p. 54-55. 116ROSEN, George. op. cit., p. 55.

117Avalia-se que aproximadamente 25 milhões de pessoas morreram em razão das epidemias (In:

KLIGERMAN, D. C. Gestão ambiental integrada: recursos hídricos, saneamento e saúde. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001. A questão das doenças enfrentadas pela deficiência do saneamento ambiental serão desenvolvidas no cap. III deste trabalho, sob a análise do meio ambiente cultural.

No Renascimento, novos conhecimentos sobre aspectos de construções hidráulicas surgiram em decorrência da revolução científica que foi impulsionada, especialmente, pelas epidemias que surgiam e dizimavam desde períodos históricos anteriores.

França119, Inglaterra e Alemanha apresentaram-se como países que primeiro aplicaram políticas de saúde tendentes à organização sanitária.120

Contudo, percebeu-se, nos séculos XVI e XVII, que o problema maior não era varrer as ruas, mas, sim, o destino do esgoto e outros refugos que eram arremessados das portas e janelas das casas nas ruas e vielas. Assim, como método inicial para resolução deste problema, as pessoas escolhiam locais fora da cidade para descartar o lixo. Obviamente que tal solução não deu certo, dando-se guarida ao emprego, pelas autoridades competentes, de limpadores de ruas que usavam carroças para o recolhimento do material dos esgotos e lixo.121 Entretanto, esse material era escoado para o rio Tâmisa e valas da cidade, o que acabou perpetuando a grave situação de saneamento.122

Assim, o que se observou é que muitas cidades da Europa do século XVIII eram insalubres e cheias de “odores nauseantes”, conforme bem relata George Rosen.123

Em 1760, Londres e posteriormente outras comunidades passaram a realizar medidas mais eficazes, referentes ao saneamento ambiental, tais como: derrubada de prédios deteriorados que impediam a circulação, sistemas de drenagem de águas pluviais, pavimentação de ruas, alargamento de vias, uso de bombas a vapor e canos de ferro no sistema de esgotos. Claro é que este cenário

119Rosen afirma sobre o assunto: “Como na Inglaterra, a introdução da energia do vapor fez os

artífices perderem seus empregos e os levou aos centros industriais urbanos, em busca de trabalho e salário. A população urbana francesa subiu de quinze por cento, em 1830, para vinte e cinco por cento, em 1846. A falta de habitações, o conglomerado de pessoas em uma mesma moradia e os efeitos do desemprego periódico se combinavam para fazer da vida do trabalhador, e de sua família, uma vida-morte.” Id. Ibid., p. 188.

120Em 1388 foi promulgada a lei britânica mais antiga sobre a poluição das águas e do ar,

proibindo-se o lançamento de excrementos, lixo e detritos em fossas, rios e em outras águas. Também, instituiu-se a obrigação dos habitantes de manterem as ruas limpas. ROSEN, George. op. cit., p. 99.

121Id., loc. cit. 122Id. Ibid., p. 100. 123Id. Ibid., p. 122.

foi surgindo nos bairros onde a classe alta vivia, sendo que os pobres permaneciam em regiões mais antigas e insalubres.124

As latrinas e as fossas surgiram como uma forma de direcionar as excretas, contudo, ao longo do tempo, constatou-se que essas últimas raramente eram limpas e seu conteúdo, por se infiltrar no solo, acabava por contaminar poços e fontes. Além disso, a água de esgoto atingia os canais existentes nas cidades que encontravam rios e lagos.125 A consequência decorrente dessa

situação foram esgotos a céu aberto cada vez maiores.

As condições sanitárias da Inglaterra entre o fim do século XVIII e início do XIX começaram a melhorar, mas de forma desigual, persistindo a acumulação de esgoto, poluição das fontes, aglomeração de pessoas em moradias.126 Contudo,

com o fenômeno da industrialização, o índice da mortalidade face às epidemias novamente cresceu, e entendeu-se que havia a necessidade da melhoria das condições laborais, da higiene pessoal e pública, bem como de administrações centralizadas127 com o fim de cuidar da área sanitária da comunidade.

Aliás, oportuno afirmar que a situação acima instalada não se fazia presente apenas na Grã-Bretanha, mas também em outros países nos quais a industrialização houvesse nascido, tais como França128, Bélgica, Prússia e Estados Unidos.129

Importante ainda salientar que no século XVIII germinaram ideias claras sobre a necessidade de programas e legislações eficazes na área sanitária. Adam Smith, em sua obra intitulada A Riqueza das Nações, é um exemplo disso, bem como Jeremy Bentham, utilitarista e idealizador do chamado “Código Constitucional” (1820), no qual propaga a ideia de um ministério responsável por

124ROSEN, George. op. cit., p. 122. 125Id. Ibid., p. 124-125.

126Id. Ibid., p. 127.

127Na França, em 1848, após a superação do antigo regime, estabeleceu-se um sistema nacional

de administração de Saúde Pública. Id. Ibid., p. 133.

128Na França, também foram relatadas as péssimas condições de higiene vividas no período da

Revolução Francesa, onde os sanitários públicos eram imundos, propiciando a utilização, pela população, do Jardim das Tulherias para a satisfação de suas necessidades fisiológicas. Para além disso, com o incremento da taxação para o uso das privadas públicas, o povo em revolta, passou a fazer uso das escadas do Palácio do Louvre. In: ROCHA, Aristides de Almeida. Fatos

históricos do saneamento. São Paulo: João Scortecci, 1997. p. 63-64.

saneamento ambiental, doenças epidêmicas e administração dos cuidados da medicina. 130

As ideias de Bentham influenciaram líderes da reforma sanitária na Inglaterra, como o médico Edwin Chadwick131 e outros que criaram a Saúde Pública como hoje é estudada.

Contudo, era pouco o interesse na tomada de medidas sanitárias, pois, no dizer de Rosen, não se consideravam rendosas as despesas para usufruí-las. A seguir, o citado autor realiza, de forma minuciosa, a descrição da situação do saneamento do século XIX:

A raridade de esgotadouros e da remoção do lixo, e o descaso quanto aos pátios e ruelas em torno dos quais se construíam as casas, deu origem à prática de os usar como depósitos. Assim, raramente um pátio não estava ocupado por uma fossa comunal, ou por um monturo. As casas nos bairros mais pobres não possuíam privada com descarga d’água, muitas não tinham sequer privadas. Esse estado de coisas não se restringia aos lares das classes trabalhadoras, mas se agravava ali. Na ‘Pequena Irlanda’, em Manchester, havia duas privadas para 250 pessoas e em um bairro da vizinha Ashton, duas privadas para cinquenta famílias. Ao invés de privadas, com ou sem descarga, existia um ‘urinol’, uma espécie de tina, esvaziada a cada manhã. Mas assim, a situação continuou temível. Em um distrito de Manchester, trinta e três ‘urinóis’ serviam a sete mil pessoas! Na maioria dos casos, não havia como chegar ao quintal senão passando por dentro da casa, e assim todas as imundícies eram carregadas através de quartos, corredores, entradas e outros pisos, e os poluíam.132

A leitura acima induz, de forma induvidosa, à reflexão de que, apesar de hoje não termos mais os chamados ‘urinóis’, ainda contemplamos situações no cenário nacional brasileiro de ocupações insalubres e sem higiene, como são os casos dos cortiços, favelas, moradores de rua. E, ainda, em alguns dos Estados brasileiros, vê-se uma taxa de esgotamento sanitário, em pleno século XXI, que em muito se assemelha ao histórico do início da industrialização em diversos países, conforme se depreende do estudo feito no próximo capítulo.

130ROCHA, Aristides de Almeida. op. cit., p. 134.

131Chadwick realizou em 1842 um paradigmático relatório sobre as condições da população

trabalhadora na Grã-Bretanha, provando a relação da doença com o ambiente, a falta de sistemas de drenagem, abastecimento de água e esgotamento eficazes. Ratificou a ideia da necessidade de um órgão pra empreender um programa de medidas preventivas, com o fim de aplicar as técnicas da engenharia, tais como: drenagem, limpeza de ruas e casas, por meio de suprimento d’água, melhoria do sistema de esgotos. Ainda indicou que as doenças resultavam da negligência de medidas administrativas apropriadas. Cabe ressaltar a notória atualidade de suas observações, que apesar de quase dois séculos de escrita, mantém-se como base principiológica ao saneamento ambiental.

Já em 1854, conseguindo-se chegar à correlação entre a transmissão do cólera e a água de abastecimento, fez-se imprescindível a intervenção do Estado em ações sanitárias no meio ambiente, no abastecimento de água e no esgotamento sanitário, na urbanização que, além de pensar no conforto, começou a refletir a prevenção e controle das enfermidades.

Vale a pena citar a questão do saneamento no contexto da Alemanha, que trouxe importantes contribuições nas décadas de 1860 e 1870 quando médicos e leigos organizaram associações para a luta da reforma sanitária no país. Durante o sistema de governo presente neste período (Império Germânico), Virchow estudou os problemas tendentes aos esgotos, especialmente em Berlim, posto que a fossa e a privada externa ainda dominavam o cenário e a maioria das pessoas não dispunham de abastecimento de água central, captando-a por meio de poços. O higienista citado implementou um sistema de esgotos e introduziu o de suprimento de água. Nessa mesma época, Max Von Pettenkofer, em Munique, também introduziu esforços na área de saneamento e ainda ditou ideias do valor da saúde para uma cidade, abordando que a “saúde pública é de interesse comunitário e que as medidas tomadas para ajudar os necessitados beneficiariam todos”.133

Observa-se, assim, dos fatos acima colocados, que é inegável a relação entre medicina, contexto social e economia.

No Brasil, as medidas de saneamento se confundem com o aparecimento e formação das cidades. Quando do início do século XIX, em pleno período colonial, o abastecimento de água era realizado por meio de coleta em bicas e fontes dos povoados que se instalavam.

Com a vinda da família real no Brasil, iniciou-se a implantação de uma infraestrutura mínima como, v.g., pontes, estradas e, notadamente, abastecimento de água à população, contudo, ainda de uma forma extremamente incipiente. Ademais, a cultura escravagista e as condições de insalubridade em que os

133ROSEN, George. op. cit., p. 192-193. O citado autor ainda ressalta que na segunda metade do

século XVIII, Johann Peter Frank (1748-1821), clínico, iluminista e humanista, foi o pioneiro da Saúde Pública e Medicina Social, analisando problemas sanitários de moradia, esgotamento sanitário e abastecimento de água e concluindo que a tarefa mais importante das autoridades municipais é a limpeza as cidades.Assevera ainda a ideia nuclear de que os terrenos tendentes ao descarte de lixo e outros refugos fossem em locais mais distantes às cidades para evitar contaminações. (Id. Ibid., p. 130).

escravos executavam seus serviços contribuía sobremaneira para o cenário de péssimas condições sanitárias.

Apenas para exemplificar, segue o relato de Daniel P. Kidder, missionário americano, sobre a situação ambiental na Bahia, que traduzia um ponto estratégico e crucial para o império brasileiro, sendo a terceira província mais populosa, depois de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, cujo número de habitantes era de 765000, dos quais 524000 eram escravos134:

A cidade baixa não é feita para causar boa impressão aos visitantes (...) As ruas são estreitas, esburacadas e caóticas, congestionadas por carregadores e pessoas de toda espécie. O esgoto sem tratamento corre pelo meio delas espalhando uma fedentina insuportável. É o segundo entreposto comercial da América do Sul. E tudo é carregado nos ombros e cabeças dos escravos.135

Claro é que antes da chegada da colonização no Brasil, no período de 1500, os índios eram portadores de hábitos de higiene pessoal mais adequados que os europeus, visto que não só se banhavam diariamente, respeitavam os recursos naturais, como também depositavam seu lixo em lugares específicos. Contudo, esse cenário logo mudou com a chegada dos portugueses, evidenciando um período de conflitos indígenas, doenças e miscigenação. Os índios morriam aos milhares, vítimas não só das pestes136 trazidas pelos navios que aportavam disseminando os agentes infecciosos, como também em razão de uma simples gripe.137

No período entre 1500 a 1850, observa-se uma política econômica voltada para o exterior, o que levou à não realização de políticas públicas de saneamento e urbanização.138 As obras eram pontuais, como em 1561, com o primeiro poço

de abastecimento de água no Rio de Janeiro determinado por Estácio de Sá; em

134GOMES, Laurentino. op. cit., p 196.

135KIDDER, Daniel. Sketches of Residence and Travels in Brazil, vol. 2, p. 19. Apud: GOMES,

Laurentino. op. cit., p. 197.

136Especialmente as epidemias de varíola e febre amarela. SCLIAR, Moacyr. Políticas de saúde