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“triste Bahia, ó quão dessemelhante...” Gregório de Matos, citado por Caetano Veloso. Transa.

Quando faleceu, em 13 de novembro de 1981, Vicente Ferreira Pastinha foi notícia em periódicos de Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, além de Salvador. Todos destacavam a

110 Nas palavras de Santos: “Os capoeiristas, ao exigirem do governo baiano o apoio não só ao Mestre Pastinha como também ao mestre Bimba...expressavam uma nova forma de cultura política que se instala no país a partir dos anos setenta. É aquilo para o qual Oliveira...já chamava atenção, como ‘inscrição no campo dos direitos’ que os diversos movimentos sociais estavam a expressar” (2005: 122-3).

importância do “Rei da Capoeira” (O Globo, 14 de novembro de 1981), aquele que foi o “criador da Capoeira Angola” (O liberal, 14 de novembro de 1981) e, principalmente, “um símbolo da cultura baiana” (Correio da Bahia, 14 de novembro de 1981). Alguns jornais, como A Tribuna da

Bahia, mais indignados, destacaram, ao invés dos aspectos positivos, a situação de abandono, “Mestre Pastinha morre aos 92, como indigente” (14 de novembro de 1981).

Num documentário sobre a vida do mestre baiano, produzido no final da década de 1990111, outros depoimentos também ressaltam uma indignação com a miséria a que foi submetido mesmo após morrer. Um dos depoimentos foi o da viúva do mestre, Maria Romélia Costa Oliveira, que conta como recusou o caixão de indigente enviado pela prefeitura para o enterro do marido, comprando outro, pago à prestação com a venda de acarajés na rua. A importância de Romélia foi destacada por Jorge Amado no mesmo documentário, louvando seu papel ao cuidar de Pastinha, nos anos finais: “(...) ela foi uma mulher admirável, que o

acompanhou, susteve durante a fase triste e cruel da vida dele, quando ele sofreu, não tinha dinheiro, não tinha como viver, passava as maiores necessidades (...)”112.

Dois anos antes, no mês de maio de 1979, houve a última tentativa de alguns intelectuais e alunos de Pastinha, de restituir ao capoeirista seu antigo Centro Esportivo de Capoeira Angola, desativado havia oito anos. Sofrendo há muito com a perda da visão, diagnosticada como catarata, a reabertura do Centro contou com apoio do então professor da Universidade Federal da Bahia, o antropólogo Vivaldo Costa Lima e de um discípulo de Pastinha, mestre Curió (Jaime Martins dos Santos). A iniciativa fracassou, seja porque o espaço era mal localizado113, seja

111 Pastinha! Uma vida pela capoeira. Muricy, Antonio Carlos. Rio de Janeiro: Raccord Produções, 1998. DVD. 112 Pastinha! Uma vida pela capoeira...

113 Para Mestre Curió, o local escolhido (rua Gregório Matos) seria péssimo, como dá a entender o apelido de ladeira do mijo. (Documentário Pastinha...)

porque os alunos não queriam pagar as mensalidades114. No fim de 1979, a situação da saúde de Pastinha também se agravou, pois, fumante de longa data e morando num pequeno quarto alugado numa das ladeiras do Pelourinho, ficara suscetível a doenças respiratórias. Conseguiu, durante pouco tempo, internação no Hospital do Servidor Público, por iniciativa do jornalista Reynivaldo Brito115 que intercedeu a seu favor junto ao secretário de Comunicação da Prefeitura, Osvaldo Gomes (Barreto & Freitas, 2009: 161).

A opinião de Pastinha tinha lugar de destaque nas páginas dos jornais. A Tribuna da

Bahia dizia que o mestre não esperava mais nada da vida, “agora eu quero morrer”. Embora com a saúde melhor no mês seguinte da internação, a perspectiva de retorno ao quarto da rua Alfredo Brito, no Pelourinho, era vista como uma condenação à morte. Em reportagem, possivelmente redigida pelo mesmo Reynivaldo Brito, que trabalhava para o jornal A Tarde, é possível ler: “Pastinha deixa hospital e volta para seu quarto insalubre no Pelourinho” 116. Outros periódicos locais informaram como, no decorrer de 1980, foram feitos shows em homenagem ao mestre, com objetivo de arrecadar dinheiro para apoiá-lo. As notícias se sucediam nos principais jornais: “Capoeiristas jogam para Mestre Pastinha”117; “Mestres de capoeira na campanha comunitária para Mestre Pastinha”118; “Show para comprar casa de Pastinha”119. Não

foi possível saber o que se arrecadou com tal campanha de mobilização, mas certamente a casa não foi comprada, voltando Pastinha a residir no mesmo quarto no Pelourinho. As constantes

114 Esta seria a opinião de Romélia, esposa do mestre (Barreto & Freitas, 2009: 157).

115 Segundo a pesquisadora Cleidiana Ramos, o jornalista “teve o que podemos chamar de carreira completa em A Tarde. Começou como repórter, tornou-se chefe de reportagem e editor de primeira página. Quando saiu da empresa, em 3 de fevereiro de 2003 era o editor responsável por uma equipe de três repórteres, da qual eu fiz parte por três anos, que produzia as matérias especiais para a edição de domingo do jornal” (2009: 86).

116 A Tarde¸Salvador, 25 de fevereiro de 1980: 3.

117 Jornal da Bahia, Salvador, 10 de janeiro de 1980. cad 1: 8. 118 A Tarde, Salvador, 10 de janeiro de 1980: 6.

crises de urgência, segundo relato de Romélia, levaram-na a interná-lo no abrigo público Dom Pedro II, onde teria assistência continuada, algo que ela não poderia mais proporcionar.

No fim do mesmo ano, morreu de parada cardíaca, aos 92 anos. Dois destaques, dentre as várias notícias, devem ser mencionados. O primeiro é o contraste entre o depoimento da esposa de Pastinha, sobre a compra do caixão e algumas presenças ilustres, como o Secretário de Saúde Nilton Barbosa, e o depoimento de um representante do prefeito, Nilton Morais, demonstrando, em alguma medida, a deferência do poder público ao capoeirista120 que, acrescida da campanha de mobilização em 1980, deixa sob suspeita a ideia de total abandono. Por outro lado, como sabemos por outra notícia do enterro: “a última homenagem da capoeira, que foi praticamente a

vida do mestre, foi prestada quando se interrompeu o cortejo, já dentro do cemitério e foram tocados acordes num berimbau por alguns minutos (...)” 121. Se algumas das pessoas presentes ao cortejo, bem como as homenagens ao mestre, são índices importantes para se tentar compreender as relações construídas por Pastinha ao longo da sua história, a execução do berimbau enuncia e encerra para todos os presentes, em breves acordes, um dos principais sentidos da vida para o mestre, ou a maneira pela qual ele gostaria de ser perpetuado. Basta afirmar que, no jogo da capoeira baiana, o berimbau sempre apareceu como elemento central a conduzir o jogo, abrindo as atividades da roda e encerrando-as: “Não se pode esquecer do

berimbau. Berimbau é o primitivo mestre. Ensina pelo som” (Abreu e Castro, 2009: 28). Em declaração dada oito anos antes de sua morte, quando ainda gozava de boa saúde e tinha plenas esperanças de recuperar seu Centro de Capoeira, há pouco fechado, o capoeirista disse como gostaria que fosse o seu enterro:

120 O Globo, 14 novembro de 1981. Como informa o mesmo jornal, o escritor Jorge Amado, só soube da morte do amigo, depois do enterro.

“Pastinha deseja ser enterrado ao som do berimbau de barriga, com caxixi, sua moeda de vintém e o pandeiro, o reco-reco, o chocalho, o atabaque e o

agogô e o canto ‘Aruandê, ê aruandê camarado/ galo cantou/ o galo cantou camarado/ cocoroco’. E pra encerrar a cerimônia um ‘santamaria’ (toque de berimbau), que determina o jogo de baixo, os lutadores quase deitados,

movimentos lentos, apoiados pela mão” 122

Infelizmente, não temos informação se aqueles que tocaram o berimbau na tarde de Salvador sabiam da vontade de Mestre Pastinha, nem se os toques seguiram a ordenação desejada, com a ginga cerimonial em tom de Santa Maria. Coincidência ou não, o sentido que o mestre atribuía à capoeira e às relações estabelecidas por ela nos indicam os caminhos a seguir, tentando compreender um pouco melhor o que Pastinha fez pela capoeira e também aonde chegou a partir dela. Uma aura mística soma-se, muitas vezes, à de genialidade quando se fala de Pastinha, e desta forma amplia a distância que nos possibilitaria também percebê-lo como pessoa, como um ser humano que buscou alcançar certa realização. Norbert Elias recomenda, segundo sua própria experiência no estudo de Mozart, que: “Não devemos nos iludir julgando o

significado ou a falta de significado da vida de alguém segundo o padrão que aplicamos a nossa própria vida. É preciso indagar o que esta pessoa considerava ser a realização ou o vazio de sua vida” (Elias, 1995: 10). É sob este prisma que devemos observar também a vida do mestre baiano.

Os limites do que mestre Pastinha poderia considerar a sua realização também podem ser observados, levando em consideração o lugar da capoeira na sociedade baiana, pois esta, na aceitação e positivação de uma prática até pouco tempo proibida, também vai delimitando seu

lugar, ambíguo entre o esporte e o folclore, sempre com referência à identidade nacional. Muito da tristeza de Pastinha ao fim da vida se deu porque aquela capoeira que acreditava ter criado ia muito bem, havia capoeiristas de sucesso, e na projeção da manifestação como elemento turístico, a Bahia também ganhava: “Dediquei minha vida à capoeira, à Bahia. Por acaso nada mereço,

na velhice em retribuição aos serviços prestados?” 123. Este apelo, que em meados da década de 1960 passa a ser repetido em várias reportagens, parte de uma situação construída a partir dos anos de 1930, para onde lançamos agora nossa curiosidade.