2. ÖRGÜTSEL ADALET ALGISI
3.3. Örgütsel Sessizlik Teorileri
Na atualidade, observa-se grande expansão da produção do livro de literatura infantil, com a atenção voltada para os recursos gráficos e diagramação. As publicações têm trazido, tanto na forma quanto no conteúdo, histórias inusitadas e uma apresentação que faz do livro um objeto atraente para leitores de todas as idades. Esse possível fascínio deve-se aos recursos múltiplos atuais na área de computação gráfica e às possibilidades na criação das ilustrações, mesmo que não se abandone o pincel e a tinta. Como dito neste estudo, não importa a técnica, importa como ela é utilizada na produção de um livro literário infantil.
Neste segmento da pesquisa, deu-se uma atenção maior para elementos tipográficos de ilustrações, desde a letra, a palavra ou a frase, que exercem tanto sua função verbal, quanto serem tomados na sua condição plástica de forma. Os abecedários exploram essa dupla condição, explorando letras retas (E, F, T, L) e outras totalmente curvas (O, S, C) e outras ainda que mesclam retas e curvas (R, G, B.D, P). Tal variedade proporciona, em termos composicionais, também uma variedade de combinações plásticas, exploradas por alguns autores e ilustradores. Vemos, com frequência, diferentes situações em que há essa interação plástica e literária entre texto visual e verbal. Segundo ARBEX (2006, p.19),
a cultura alfabética foi tomada pela imagem e tanto a literatura quanto as artes viram surgir inúmeros exemplos de reintegração da parte visual e espacial da escrita, na ilustração, nos cartazes, nos jogos literários com a letra, nos jogos dos pintores com a escrita e dos poetas e escritores com a imagem.
A seguir, temos alguns exemplos de composições plásticas com elementos tipográficos em alguns livros literários infantis. No livro Bichos tipográficos, de Guilherme Mansur, Editora Dubolsinho, 2007, os animais citados são “escritos” ou “ilustrados” de acordo com uma de suas características. Cada nome de animal ocupa uma única página, disposto de forma bem visível, com uma fonte legível e grande. A letra, no caso, um desenho, colabora com sua forma como elemento único de uma composição visual e plástica que se torna, ao mesmo tempo, uma palavra (texto verbal) e uma ilustração (texto visual), evidenciando, dessa forma, alguma característica do animal descrito, como sua aparência, comportamento ou mesmo sons por ele emitidos. Exemplo: a palavra vagalume, em uma das páginas, objetiva retratar como é esse inseto, e a alternativa do autor para isso foi manter o nome do animal com uma mesma fonte, mas com uma alternância de cores entre elas, uma preenchida com a cor rosa, outra apenas com o contorno com linha, sem cor de preenchimento, criando um ritmo de ora um; ora outro, o que sugere o ritmo desse inseto quando aciona seu mecanismo de acende e apaga. Esse livro se mostra lúdico, e o leitor deve ativar seu conhecimento prévio sobre a característica de cada animal, a fim de descobrir como quais soluções o autor encontrou para retratar essas características visualmente. Parece um jogo, em que o leitor deve decifrar a intenção do autor nessa
proposta literária de apresentar palavras desenhadas de forma lúdica, o que, certamente, não tem idade determinada para ser lido e apreciado.
Figura 112 - Bichos tipográficos - Editora Dubolsinho - 2007.
Letras-formas-linhas-desenho misturam-se, formando composições plásticas nas quais textos verbais e visuais tornam-se um único texto. Outro exemplo dessa relação e mistura de texto e imagem verifica-se no livro Abecedário do Millôr para crianças (Editora Nova Fronteira, 2004), com imagens dos designers Guto Lins e Susan Johnson. Uma versão divertida apresentando as letras pelo seu aspecto físico, algumas vezes personificadas na própria ilustração que ocupa toda a página. Para cada letra, um pequeno texto na parte superior esclarece alguma característica dela própria, atribuindo definições peculiares como dizer que o “b” minúsculo é uma letra grávida e o “B” maiúsculo é a junção de dois números, o 1 e o 3. O autor não se satisfaz em dizer que as letras têm alguma similaridade com algum objeto ou outra coisa, ele simplesmente afirma a letra é “um gângster com chapéu” (letra F- maiúscula), ou “um poste antigo” (letra f - minúscula).
Figura 114 - Abecedário do Millôrpara crianças (2004)
Um outro exemplo dessa junção temos no livro Pequena História de um Anão, de Otávio Ramos, ilustrado por Sebastião Nunes, da Editora RHJ (1999), título que traz em todas as páginas um texto verbal que é também o texto visual. É um exemplo típico de “quando a própria imagem se constrói a partir das palavras [...] quando a palavra se torna imagem e a imagem se torna palavra” (AUMONT, 2010, p.116)
As letras são em tamanho grande, com uma única frase ocupando toda a página, que tem dimensões de 20 cm x 22 cm. Dependendo da frase, ou seja, da “entonação”, elas se mostram ainda maiores, causando um impacto em relação aos dizeres de palavras ou frases. Outro recurso gráfico utilizado pelo autor é o desenho de uma “cobrinha” colorida, que funciona nas palavras como o diacrítico til, assim como outro elemento visual parecendo também um bichinho de formas simples representa os acentos agudo e circunflexo. As palavras de uma mesma frase são apresentadas com alternância das cores branco, lilás e vermelho, que separam, em sua maioria, as letras “A”, presentes na frase de várias páginas, distinguindo essa vogal de várias consoantes. Tal visualidade é acompanhada também pela sonoridade das palavras: “Arno”, o anão, tem uma irmã que se chama Ana, mas pelo fato de não ser pequena, é chamada de “Anão”, nome que coincide com a característica de Arno - ser anão. Ainda coincidindo com tal palavra há a expressão “Ah, não”, quando a mãe de Arno, pede para Ana chamar seu irmão Arno. Esse jogo de palavras, sons e formas possibilita uma situação lúdica, de jogo visual e sonoro, além do humor. Se o leitor for uma criança, isso poderá instigá-la a ampliar seu vocabulário, buscando outras palavras com o mesmo som ou a mesma forma de escrita, mas com sentidos distintos.
Figura 115 - Pequena História de um Anão (1999)
A narrativa desse livro permite estimular a capacidade imaginativa do leitor, quando relata personagens de uma família que, apesar de serem apresentados pelos nomes e por algumas de suas características físicas, não aparecem no livro, efetivamente, por meio de imagens figurativas. Podemos indagar: Como será Arnô, que é um anão? Sua irmã Ana é grande e gorda porque come demais, mas como será a aparência física de Ana, também chamada de “Anão”? Sua mãe Augusta Amélia Penteado Cavalcanti Castelão tem uma postura imperativa quando determina para os filhos guardarem os brinquedos ou irem para a cama. Como seria sua expressão quando grita para Arnô chamar “Anão”, sua irmã? Essas e outras perguntas induzem o leitor a criar um universo inventivo, elemento primordial, principalmente em se tratando de literatura infantil.
O escritor italiano Italo Calvino (1999:102) reflete sobre o imaginário diante do texto verbal e visual nos tempos atuais, relatando:
voltemos à problemática literária, e perguntemo-nos como se forma o imaginário de uma época em que a literatura, já não mais se referindo a
uma autoridade ou tradição que seria sua origem ou seu fim, visa antes a novidade, à originalidade, à invenção. Parece-me que nesta situação o problema da prioridade da imagem visual ou da expressão verbal (que é um pouco assim como o problema do ovo ou da galinha) se inclina decididamente para a imagem visual.
Nesse sentido, podemos ainda indagar: seria mesmo necessário ou é dispensável a representação das imagens desses personagens? Talvez o ganho seja tantas possibilidades de imaginar tais personagens, que depende da imaginação do escritor e ilustrador como principalmente do leitor. Essa flexibilidade e diversidade de interpretações, própria da literatura, possibilitam justamente isso: imagina quem cria, imagina quem lê.
A criação de imagens é uma necessidade humana. Sejam imagens figurativas ou não-figurativas, sejam imagens mais descritivas ou mais estilizadas. Sejam imagens descritas com palavras ou representadas com formas e cores. E aí as coisas se misturam. Segundo o psicólogo canadense Allan Paivio, o conhecimento é armazenado em nosso cérebro por uma via verbal e uma via não-verbal. Essa interação pode ser percebida ao longo da história da arte e da literatura. Provavelmente, a maior fonte de imagens para as artes visuais são as narrativas: míticas, históricas, literárias. (CAMARGO, 2006)
Essas obras literárias, pelas suas composições tipográficas, nos remetem à experiência inovadora do poeta simbolista Stéphane Mallarmé, ainda no século XIX, em seu poema “Un coup de dês”, inovou tanto em relação à tipografia, quanto na sonoridade das palavras, articulando literatura e das artes plásticas. O suporte do livro, para esse poeta, ganha destaque. De acordo com Garcia (2006, p. 286),
o texto de Mallarmé convida não só a leitura simultânea de duas páginas, mas também a uma leitura global: se, por um lado, um conjunto de duas páginas possui diferentes tipos e tamanhos de caracteres, por outro, caracteres do mesmo tipo e do mesmo tamanho (ou seja, equivalentes em sonoridades) que aparecem ao longo do livro convertem-se, individualmente, em elos que interconectam graficamente diferentes páginas.
Os exemplos citados retratam visualidades em que as imagens das letras formam palavras que resultam em outras imagens, que são, ao mesmo tempo, texto verbal e visual. Estes se
mesclam, extrapolando o recurso único ilustrativo ou descritivo, pois todo o livro “atua como um significante”. Essa diversidade e flexibilidade de possibilidades na interpretação literária (se assim se pode chamar) é o grande ganho do leitor.