2.2. Örgütsel Bağlılık
2.2.5. Örgütsel Bağlılığın Sonuçları
A delimitação da periodização do Estado Capitalista a partir da movimentação da renda no circuito capital-dinheiro enfrenta uma dificuldade prática, em razão da limitação da disponibilidade de dados, e duas contingências analíticas, uma referente à qualidade dos dados e outra relativa ao fato da distribuição de renda apurada segundo o conceito de contas nacionais "insumo-produto" não se adequar aos conceitos marxianos.
Os dados referentes a receitas e despesas governamentais assim como relativos aos agregados das contas nacionais dos estados em geral para períodos mais longos não se encontram disponíveis de forma acessível e estruturada, embora seja presumível que a maioria dos estados disponha de séries históricas de dados fiscais organizadas devido à longa tradição contábil de registros públicos no caso de pesquisas personalizadas 'in loco'. Do mesmo modo, dados consolidados relativos ao Produto Interno Bruto de países em geral para períodos anteriores aos anos noventa não se encontram disponíveis. Com a difusão da internet na última década e a disseminação das tecnologias de informação e, ainda, sob o contexto da
responsabilidade fiscal de publicização das contas públicas, a disponibilização dessas
informações assim como sua padronização organizativa têm se ampliado. Este cenário levou a que, a partir do início da década de 90 do século XX, as agências internacionais, destacadamente, Banco Mundial - BM, Fundo Monetário Internacional - FMI, Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE e Eurostat iniciassem, junto aos
Estados, a coleta sistemática, padronização conceitual e consolidação de dados macroeconômicos, fiscais e sociais diversos para o monitoramento e formulação de políticas. Além da ação das agências internacionais, iniciativas como Penn World Table, Mesuring
Worth e Madison Project têm procurado sanar a lacuna informativa89.
Neste contexto, para a caracterização histórica dos padrões de materialidade, a análise teve de se restringir aos Estados Unidos da América-EUA e Reino Unido-RU, únicos estados para os quais foram encontradas séries históricas completas consolidadas e padronizadas90, desde o século XIX, das contas nacionais e de despesas governamentais classificadas, assim como da dívida governamental. No caso da tributação e endividamento, só foram encontrados dados para os EUA no período. Embora esta amplitude de referências não recomende generalizações, assim como não possibilitem estabelecer possíveis diferenciações de padrões de materialidade entre os estados, a trajetória destes estados é, certamente, representativa do sentido geral da evolução do estado capitalista, uma vez que EUA e Reino Unido constituíram as principais economias capitalistas nos últimos duzentos anos. Em complementação a esta
periodização, foi também analisada a evolução da materialidade de estados da OCDE com dados disponíveis para as três últimas décadas. Além disto, procurou-se caracterizar os padrões de materialidade nas 10 maiores economias do planeta91 com série mais recente de dados, assim como oferecer um panorama geral do conjunto dos países conforme seu nível de renda a partir de dados igualmente recentes do Fundo Monetário Internacional.
Os problemas relativos à qualidade dos dados referem-se, fundamentalmente, aos indícios de subestimação das despesas governamentais. Vale ainda ressaltar que os diversos cenários históricos de enforcement da legalidade de atuação do Estado bem como o conceito de 'setor público' empregado na contabilidade pública sugerem forte indício de subestimação da movimentação de renda a partir do Estado. Conforme analisamos no Capítulo 1, sobretudo até o início do século XX, verificaram-se diversas omissões contábeis de despesas governamentais que eram lançadas pelos seus valores líquidos. Apesar dessa conduta poder ter interferido na contabilização tanto britânica quanto norte-americana principalmente na primeira década analisada, não encontramos referências negativas ou positivas, mesmo no trabalho Peacock (1961) sobre o Reino Unido. Na atualidade, persistem condutas distintas para o registro de receitas e despesas orçamentárias, que demandariam pesquisa especial para sua identificação e diferenciação92. O segundo risco de subestimação dos dados refere-se ao conceito contábil de setor público. Movimentações a partir de empresas estatais podem não ter sido incluídas, o que exigiria igualmente pesquisa independente das particularidades do setor público em cada estado para a devida confirmação, como mostrou Amsden (2004). Do mesmo modo, a concessão de tratamento tributário diferenciado seletivo de ofício pela autoridade pública, que implica gastos tributários, não possui, via-de-regra, status contábil, não sendo, portanto, computada enquanto despesa, embora seja, na prática, dispêndio favorável à recomposição de renda dos capitalistas, ainda que de modo indireto. Finalmente, os dados analisados se referem somente às movimentações que transitaram pelo orçamento. Assim, fica de fora toda a recomposição de renda promovida por parte do estado a partir da
gestão monetária, aí incluídos os financiamentos a juros subsidiados para a iniciativa privada,
o que, em conjunto, representa expressiva subestimação da condensação material originada pelo estado.
Ademais, a agregação disponível dos dados não possibilita análises departamentais ou por estratos sociais de qualquer natureza seja das contribuições, seja das alocações. Deste modo, não é possível se estabelecer diretamente padrões de materialidade por departamento econômico ou frações de classe.
A segunda questão contigente diz respeito à realização da análise tomando como base o conceito de 'riqueza' apurado pelas contas nacionais segundo o conceito "insumo-produto". Neste caso, dentre outros riscos, do ponto de vista marxista, esta abordagem tende a superestimar o produto, visto que a metodologia não considera a distinção entre atividades
produtivas e improdutivas, assim como o fato dela utilizar um conceito de excedente que não
se alinha com a definição de mais-valia. Como a acumulação de riqueza ocorre por meio da geração de mais-valia, que é obtida a partir da exploração do trabalho assalariado, toda atividade econômica será produtiva em termos capitalistas, se gerar mais-valia, sendo as demais improdutivas. Assim, ainda que haja atividades produtoras de valores de uso na pequena produção mercantil, na produção para consumo próprio, ou em várias atividades de não-produção, como a distribuição e manutenção social, elas não geram mais-valia e, devem, então, ser consideradas improdutivas (Shakiah e Tonak, 1994:202). Nesta perspectiva, a apuração da movimentação econômica deveria incluir apenas o que estritamente integra a produção, excluindo atividades de reprodução social como distribuição ("valores de uso social utilizados para transferir objetos de seus possuidores imediatos para aqueles que pretendem usá-los"), manutenção social (valores de uso usados na administração pública e privada, manutenção e reprodução da ordem social por parte do governo, o sistema legal, os militares, o pessoal de segurança corporativa") e consumo pessoal ("objetos de uso social consumidos diretamente pelos consumidores individuais") (Shakiah e Tonak, 1994:21-22). Na verdade, estas são atividades necessárias à realização social da acumulação de capital, que, porém, não criam nova riqueza. Elas se apropriam de parte do excedente e viabilizam empreendimentos tais como o próprio comércio, serviços diversos, atividades financeiras, dentre outras. Podem ser consideradas custos para a efetivação social dessa acumulação. Todavia, nas contas nacionais, elas não são diferenciadas, o que limita uma análise marxista precisa.
Assim, as contas de produção segundo o conceito "insumo-produto" não oferecem diretamente o montante de mais-valia gerado e do excedente restante. O valor adicionado na matriz "insumo-produto" apura a diferença geral entre o preço efetivamente apurado dos bens e serviços ao final para sua comercialização e os custos incorridos no processo de produção (matérias-primas, serviços, bens intermediários), procurando averiguar o quanto foi, em geral, movimentado na economia. Já, em termos gerais, a mais-valia deveria ser apurada deduzindo- se do valor adicionado nas atividades estritamente produtivas o montante correlato de salários pagos93. O excedente econômico, por sua vez, corresponderia àquela "parcela restante
da produção nacional para além 'das necessidades de consumo essenciais, públicas, bem como privadas, de todos os seus cidadãos', que forma uma 'espécie de fundo discricionário que a sociedade pode optar por utilizar de várias maneiras'" (Shakiah e Tonak, 1994:203).
Particularmente, as despesas governamentais, embora consideradas improdutivas na análise marxista por se tratarem de atividades realizadas com a renda do excedente, não devem ser reduzidas à dimensão de teleologias estritamente burocráticas, nem tampouco minimizada sua relevância para acumulação capitalista por esta condição, ao que Shakiah e Tonak insistem em se limitar. Apesar deste ponto de vista, a análise que procedem do impacto a longo prazo sobre a taxa de lucro da parcela do excedente aplicada de modo improdutivo converge para os objetivo analíticos aqui perseguidos, sobretudo, quanto ao impacto dos gastos governamentais (G) na acumulação. Eles nos mostram que a equação [S* = Pn + T + Eu = mais-valia], onde Pn = renda do lucro, T = impostos sobre lucros + impostos indiretos sobre negócio e Eu =
despesas do setor improdutivo (comércio), indica "que o lucro agregado na produção é a parte da mais-valia que permanece após os impostos e gastos improdutivos serem deduzidos”. Por sua vez, a equação [SP* = In + CONC + G + Eu = valor do excedente do produto], igual em
magnitude à mais-valia S*, "nos diz que o investimento agregado (In) é aquela porção do
produto excedente que não é absorvida pelo consumo pessoal do capitalista (CONC), atividades de não-produção do governo (G) e atividades de não-produção capitalistas". Dividindo a primeira "equação pelo estoque de capital utilizado de K*.u, descobrimos que a taxa líquida baseada na capacidade de utilização ajustada pela taxa de lucro (r’n) é igual à taxa
marxista similarmente ajustada de lucro (r*') multiplicada pela proporção da mais-valia que não vai para impostos sobre os negócios (t) e para gastos improdutivos (eu)", o que é dado por
[r’n = (1-T/S*)[S*/(K*.u)] = (1- t - eu) r*' = (1- b) r*'], em que [r*'= S*/(K*.u), r’n =
Pn/(K*.u), t = T/S*], [eu = Eu/S*], e [b = t + Eu]. Isto significa que, como a causalidade nesta
equação é dada de r*’ para r’, "a taxa líquida observada de r'n lucro vai cair em relação à taxa
geral marxista r*', quando uma maior proporção da mais-valia for absorvida por impostos sobre os negócios ou despesas improdutivas", representando uma taxa de carga social ‘b’ (Shakiah e Tonak, 1994:212-213).
Ora, vemos que a análise em questão se alinha com as preocupações perseguidas neste trabalho sobre a repercussão das movimentações do excedente exteriores ao circuito capital- dinheiro para a reprodução da acumulação de capital. No caso das despesas governamentais, temos, na verdade, um paradoxo onde seu crescimento é condição para viabilização da acumulação de capital, contrarrestando a queda tendencial da taxa de lucro e, ao mesmo
tempo, variável crescente, a longo prazo, que compromete o excedente diretamente diosponível para valorização no circuito capital-dinheiro. Sucede que as despesas governamentais são mais complexas do que "empresas estatais" e "agências governamentais supervisionando a manutenção e reprodução da ordem social: policiais, bombeiros, tribunais e prisões, defesa e assuntos internacionais e administração geral" (Shakiah e Tonak, 1994:59). Envolvem transferências estatais e bens de consumo coletivo que representam a recomposição da renda apropriada pelas frações de classe em seu processo de reprodução ampliada e, portanto, da geração de lucro, conforme discutido anteriormente. Assim, uma análise mais completa deste paradoxo demanda levar em conta a interação das despesas governamentais com a reprodução do capital e do trabalho em cada um dos departamentos econômicos, que se encontra, em termos gerais, nos objetivos da análise ora empreendida.
3.7. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS PADRÕES DE MATERIALIDADE NOS