2.2. ÖRGÜTSEL BAĞLILIK KAVRAMI VE TANIMI
2.2.1. Örgütsel Bağlılığın Önemi
Para abrir esta reflexão, partiremos da definição sobre o que seja cultura. Adotaremos a concepção apresentada por Geertz (1989):
[...] denota um padrão de significados transmitido historicamente. Incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em forma simbólica, por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida (GEERTZ, 1989, p. 61).
Antonio Castillo Gómez acrescenta que há quatro pontos que diferenciam essa visão sobre cultura dos modelos clássicos e do modelo marxista que a precederam, a saber:
La ruptura con la división tradicional entre sociedades con cultura y sin cultura […] los historiadores culturales prefieren hablar de culturas en plural; […] la vida cotidiana o la cultura cotidiana pasa a ser algo esencial; la incorporación de la ideas de la recepción […] tanto tiene que ver con los actos de apropiación y las circunstancias que los envuelven; […] interés creciente por la historia de las representaciones y, en particular, por la historia de la construcción, invención o constitución de los hechos sociales9
(BURKE, 1991, apud GÓMEZ, 2003, p. 106, grifo do autor).
9 Com a ruptura da tradicional divisão entre sociedade com cultura e sem cultura [...] os historiadores
prefierem falar em culturas no plural, [...] vida cotidiana ou da cultura cotidiana torna-se essencial; a incorporação das ideias de recepção [...] tanto têm que ver com atos de apropriação e as circunstâncias que os cercam, [...] interesse crescente na história das representações e, sobretudo, pela história da construção, da invenção ou da criação de fatos sociais. (Tradução nossa)
Dessa forma, o que é cultura escrita? Segundo Ana Galvão (2009), “podemos considerar que a cultura escrita é o lugar – simbólico e material – que o escrito ocupa em/para determinado grupo social, comunidade ou sociedade” (GALVÃO, 2009, p. 1). Uma das consequências dessa definição, de acordo com a pesquisadora Ana Galvão (2009, p. 1) é que “a cultura escrita, principalmente em sociedades complexas, não é homogênea.” Para tanto, tal pesquisadora lembra o trabalho de Judith Kalman (2003) que, estudando os “escribas” da Praça São Domingo, no México, mostra a variedade de usos da leitura e da escrita em uma sociedade complexa.
A partir desses conceitos, entendemos que a escrita enquanto tecnologia de comunicação vem, ao longo dos tempos, proporcionando-nos experiências tão ricas como a descrita por Lévy (1990, p. 120) que, relatando sobre a transição da oralidade para a escrita, ressalta que a relação discursiva muda, visto que se separam as mensagens das situações em que se utilizam e produzem os discursos.
Em outro instante de descrição sobre a escrita, ao demonstrar as transformações que a imprensa nos proporcionou, Lévy afirma que:
A imprensa transforma profundamente o modo de transmissão dos textos. Dada a quantidade de livros em circulação, já não é possível a cada leitor ser pessoalmente introduzido à interpretação de cada um deles, por um mestre educado segundo o sistema oral. O destinatário do texto passa a ser um indivíduo isolado que lê em silêncio. Mais do que nunca, a exposição escrita surge como auto-suficiente. A nova técnica, tal como foi desenvolvida na Europa desde meados do século XV, contribui para quebrar as cadeias da tradição (LÉVY, 1990, p. 122).
Compreender o lugar histórico-cultural da escrita enquanto tecnologia de comunicação em nossa sociedade é de fundamental importância para percebermos as consequências desta para o nosso desenvolvimento intelectual.
Segundo Lévy, “[...] a escrita suscita igualmente o aparecimento de saberes que os seus autores pretenderam freqüentemente apresentar como independentes das situações particulares no seio das quais esses saberes foram elaborados e utilizados: as teorias” (LÉVY, 1990, p. 115).
Entretanto, não estamos querendo dizer, com isso, que culturas não letradas sejam menos inteligentes ou que pensem menos; apenas que possuem uma percepção diferente do mundo em que vivemos. Também não queremos dizer que aspectos da oralidade não estejam presentes na escrita, haja vista a revolução que alguns gêneros digitais têm causado na forma e no modo de comunicação.
Colocando em evidência essas questões ligadas aos efeitos da escrita como tecnologia intelectual, Lévy conta-nos a seguinte experiência:
Confrontados com a lista <<serra, acha, plaina, machado>>, os camponeses de cultura puramente oral não sonham classificar separadamente a acha, enquanto as crianças, quando já aprenderam a ler, observam imediatamente que a acha não é uma ferramenta.
Quererá isto dizer que os indivíduos educados numa cultura oral não têm lógica e que aprendemos a raciocinar quando nos tornamos letrados? Na realidade, diversos trabalhos de antropologia demonstraram que os indivíduos de cultura escrita têm tendência a pensar por categorias, enquanto as pessoas de cultura oral apreendem em primeiro lugar as situações (ora, a serra, a acha, a plaina e o machado pertencem todos à mesma situação de trabalho da madeira) [...] Os oralistas – preferimos este termo ao termo analfabeto, que remete para as sociedades onde a cultura se encontra parcialmente estruturada pela escrita – não são, portanto, menos inteligentes nem menos racionais do que nós; apenas praticam uma outra maneira de pensar, perfeitamente ajustada às suas condições de vida e de aprendizagem (não escolar) (LÉVY,1990, p. 118).
Da mesma forma, ao nos propormos observar os efeitos de se experimentar a escrita no suporte digital, no período em que o sujeito está se apropriando da escrita alfabética, pretendemos fazer essa investigação tendo como pressuposto que letrar digitalmente nessa fase de apropriação da escrita alfabética não é melhor ou pior para o sujeito que experimenta esse fenômeno, mas diferente.
Conhecimentos novos para uma forma de comunicação radicalmente nova desde que surgiu. Essa parece ser a sina do ser humano em seu processo de invenção da escrita como nova tecnologia da comunicação. Pierre Lévy, em breve descrição sobre a história cultural da escrita, ressalta:
A escrita permite uma situação prática de comunicação radicalmente nova. Pela primeira vez, os discursos podem ser separados das circunstâncias particulares nas quais foram produzidos [...] A comunicação puramente escrita elimina a mediação humana, que adaptava ou traduzia as mensagens vindas de um outro tempo ou de um outro local. Nas sociedades
orais primárias, por exemplo, o contador adaptava a sua narrativa às circunstâncias da sua prestação e, também, aos interesses e conhecimentos dos seus auditores. Do mesmo modo, o mensageiro formulava o pensamento daquele que o enviava em função dos costumes e das disposições particulares do destinatário. A transmissão oral era sempre, simultaneamente, uma tradução, uma adaptação e uma traição. Na medida em que está condicionada a uma fidelidade, uma rigidez absoluta, a mensagem escrita pode tornar-se obscura para o seu leitor (LÉVY, 1990, p. 113-114).
Ao deixarmos de ser uma sociedade apenas oral, passamos a dar mais valor à comunicação escrita. Isso realmente trouxe desenvolvimento para a sociedade ocidental e ampliou as possibilidades de relacionamento com o outro. Afinal, não precisamos estar perto para nos comunicarmos. O mais distante se tornou perto, através da escrita.
No entanto, não se pode negar que os suportes, instrumentos, as formas de produção/reprodução da escrita determinam seus usos e circulação: é o que se pode destacar sobre as consequências da escrita com o advento da imprensa no século XIV. Com a internet, inventada muito mais recentemente, multiplicam-se as possibilidades de comunicação no sentido da produção e da recepção de textos e de outros signos. Essa pode acontecer on-line, o que faz juntar oralidade e escrita, em uma interação comunicacional sincrônica que ocorre no instante em que escrevemos ou falamos através da Web Can.
Supomos, então, que aprender a ler e a escrever seja muito mais do que codificar e decodificar, pois implica conhecimentos, atitudes e valores que são construídos quando as pessoas têm a chance de conviver com a cultura escrita como um todo, inclusive a digital, usufruindo plenamente dos benefícios que essa cultura pode trazer.
Dessa forma, a cultura escrita está relacionada à ideia de poder. Gómez (2003, p. 109) estabelece algumas formas de poder relacionadas a essa cultura: “El poder, por ejemplo, de adquirir una capacidad – leer y/o escribir – que no siempre ha estado al alcance de todos; el poder de producir un determinado texto; o el poder, en fin, de accede a los saberes y conocimientos vertidos en los libros.”
[…] La cultura escrita es objeto de una producción discursiva relacionada con los valores que se le atribuyen en cada momento de la historia. Allí donde está revestida de argumentos sagrados, el discurso trata de legitimar las razones del acceso restringido y del monopolio ostentado por determinada casta o corporación. Y por el contrario, allí donde se concibe como un factor de promoción social, el discurso vendrá a sostener las ventajas que tiene la alfabetización extensiva y la democratización del acceso a lo escrito.10
Ana Galvão (2009, p. 4) lembra a esse respeito, dizendo que, desde a década de 80, pesquisadores liderados por Brian Street reconhecem essa dimensão de poder relacionada à cultura escrita. Galvão ainda esclarece que Street estabeleceu o “modelo ideológico de letramento” com a finalidade de:
[...] sublinhar que a leitura e a escrita não devem ser compreendidas como um bem em si mesmas: os valores que recebem em determinado espaço e tempo somente podem ser dimensionados quando compreendemos as relações de poder que estão na base desses contextos em que são praticadas.
Goody e Watt (2006), ao discutirem as relações entre o letramento e todos os aspectos que envolvem as sociedades no desenvolvimento de uma cultura escrita, afirma em relação ao sucesso do alfabeto grego:
A razão para o sucesso do alfabeto, que David Diringer chama de escrita “democrática” em oposição à escrita “teocrática” do Egito, baseia-se, ela própria, no fato de que, unicamente entre sistemas de escrita, seus símbolos gráficos são representações do mais extremo e mais universal exemplo de seleção cultural – o sistema fonêmico básico. O número de sons que a corrente respiratória humana pode produzir é vasto, mas quase todas as línguas baseiam-se no reconhecimento formal pela sociedade de apenas quarenta, mais ou menos, desses sons. O sucesso do alfabeto (bem como o de algumas de suas dificuldades incidentais) advém do fato de que seu sistema de representação gráfica tira vantagem desse padrão socialmente convencionado dos sons em todos os sistemas lingüísticos; simbolizando por letras essas unidades fonêmicas selecionadas, o alfabeto torna possível ler e escrever facilmente e sem qualquer ambigüidade todas as coisas sobre as quais a sociedade possa falar (GOODY; WATT, 2006, p. 31).
10 [...] a cultura escrita é o tema de uma produção discursiva relacionada aos valores que lhe são
atribuídos em cada momento da história. Onde está coberta de argumentos sagrados, o discurso é o de legitimar as razões de acesso restrito e de monopólio por certa casta ou corporação. E, inversamente, onde é visto como um fator de desenvolvimento social, o discurso servirá a sustentar as vantagens da alfabetização extensiva e a democratização do acesso à escrita. (Tradução nossa)
No entanto, embora existam outros sistemas de escrita contemporâneos e muito embora a escrita alfabética provoque a ideia de universalismo intelectual e político, nem todos se beneficiaram de tal conhecimento; o sonho de uma “democracia educada” e de uma sociedade igualitária não se realizou (GOODY; WATT, 2006), pois a disseminação da escrita não depende de aspectos formais envolvidos na sua notação, mas de sistemas sociais que regulam seus usos e benefícios.
Aprender a ler e a escrever, então, ocorre em contexto de distribuição desigual dos instrumentos, dos suportes textuais e das situações de uso. Mas, a invenção da escrita, do sistema em si, poderia ter efeitos mais democráticos, considerando-se o alcance do tipo de registro.
Um dos efeitos que a desigualdade de acesso à cultura escrita causa é o da estratificação social. A esse respeito, Goody e Watt esclarecem que:
Nas culturas proletradas, com seus sistemas de escrita não-alfabéticos relativamente difíceis, houve uma barreira forte entre os escritores e os não- escritores; mas, embora os manuscritos “democráticos” tornassem possível demolir essa barreira particular, eles conduziram eventualmente a uma vasta proliferação de distinções mais ou menos tangíveis baseadas no que as pessoas liam. O sucesso na manipulação das ferramentas de ler e de escrever é obviamente um dos eixos mais importantes de diferenciação social em sociedades modernas e essa diferenciação se estende para particularidades entre especializações profissionais, de forma que até mesmo membros dos mesmos grupos socioeconômicos de especialistas letrados puderam manter pouco desenvolvimento intelectual em comum (GOODY; WATT, 2006, p. 62).
O uso do suporte digital para a escrita pode ser mais um fator de hierarquização dos tipos de escritores e leitores na sociedade, mas não se pode negar que eles possam apresentar algumas condições diferentes.
Tal efeito foi tema de nossa pesquisa de mestrado, quando investigamos a forma de acesso e frequência aos computadores da escola pública em Belo Horizonte e agora, no doutorado, tentamos ampliar essa discussão, procurando verificar como se dão as apropriações do texto digital e se estas favorecem o surgimento de diferenciações entre os sujeitos que dele se utilizam.
O letramento digital que investigamos está relacionado à forma de apropriação da escrita digital em termos de fenômeno sociocultural; a apropriação dessa escrita no espaço da comunidade escolar pública. Afinal, os sistemas educativos permitem, fundamentalmente, a apropriação de sistemas de códigos, de estruturas organizacionais e de temas retóricos. Esses três elementos constituem ao mesmo tempo as condições da transmissão da cultura de uma sociedade e objeto da transmissão.
Para tanto, nossa reflexão caminhou no sentido de levantar algumas questões sobre o grau de letramento digital alcançado por alunos/usuários da rede pública de ensino e de como essa nova prática de escrita adquirida no espaço escolar contribui para que esses sujeitos possam dar respostas condizentes a essa realidade digital, dentro e fora da escola.
Estudar o fenômeno da cultura escrita e da cultura escrita digital supõe estudar conjuntamente os instrumentos, os suportes, os usos da escrita e seus efeitos. Conforme salienta Frade (2005, p. 7):
Historicamente e estabelecendo diálogo com outras práticas sociais de escrita, a escrita tipo escolar é algo que se inscreve com instrumentos (pedras na ardósia, pena, caneta-tinteiro, caneta esferográfica, lápis grafite, etc.), sobre determinadas superfícies (quadro de areia, quadro negro, pedra ardósia, cadernos, folhas soltas de papel, etc.). São poucos os estudos sobre a relação entre a história dos materiais utilizados na escrita escolar (RAZZINI, 2003 apud FRADE, 2005, p. 7) e menos ainda são aqueles que discutem seus efeitos (grifo nosso).
Este estudo, portanto, tem a pretensão de verificar alguns efeitos da escrita digital adquirida na escola na apropriação que os alunos fazem da cultura escrita nesse espaço.