2. Bölüm
5.2. Öneriler
Em nosso estudo, buscamos desde o início expor o contexto social, regional, econômico e simbólico no qual estão inseridas as relações de violência conjugal no município
de Iguatu – CE. Nesse tópico, apresentaremos as supostas motivações masculinas para a prática de violência contra suas companheiras.
Da análise dos dados ficou demonstrado que em 35% dos casos, a violência conjugal contra a mulher é decorrente de brigas corriqueiras entre o casal. Nos depoimentos os agressores reconhecem seus excessos, mas não a função disciplinar da qual se investem em nome de um poder e de uma lei que julgam encarnar. Geralmente quando contam suas agressões, os homens costumam dizer que procuraram “resolver o problema na conversa”, mas a mulher o agrediu verbalmente ou fisicamente, rompendo assim a sua autoridade de homem da casa e ferindo a sua honra masculina. Ou seja, nos depoimentos masculinos, há a justificativa que a mulher foi a culpada da violência, uma vez que fazem, através de suas atitudes, com que os seus companheiros a agridam. Por isso, os agressores consideram que o comportamento e as atitudes das mulheres estão sempre aquém do ideal que preconizam ou desejam, colocando-se no lugar de guardiões de um tipo de moral que precisam garantir e controlar.
Abaixo descrevemos o depoimento de um casal que está há mais de 30 anos juntos, no qual se revela que a violência moral e psicológica contra a mulher, em garantia da virilidade e dominação do homem, ocorreu durante o perpassar de todo o casamento, todavia, após 30 anos de violência sem marcas físicas, o homem, em razão de “desobediência” de sua esposa, a agrediu, levando-a a revelar a violência sofrida por mais de três décadas.
Inquérito Policial Registrado sob o n° 39/2013 BO N° 314 – 270/2013
Vítima: A. A. C. Indiciado: L. A. L.
A vítima DISSE QUE: Convive maritalmente com a pessoa de “L” há aproximadamente 30 anos, tendo cinco filhos deste relacionamento todos maiores; Que, durante esses anos de convivência sempre teve que conviver com o temperamento difícil de “L”, sendo ele um homem agressivo e ignorante; Que, em muitas ocasiões foi agredida verbalmente pelo companheiro, mas ele nunca havia lhe agredido fisicamente, até que no dia 13 de julho do corrente ano, por volta das 15:00, quando a declarante estava sentada na calçada em frente a sua casa, “L”, chegou em casa brigando e falando um monte de coisas, mas a declarante não lhe deu ouvidos e ficou mexendo no celular, em um dado momento ele perdeu a cabeça e lhe indagou se ela não estava lhe ouvindo, momento que ela retrucou dizendo que não dava ouvidos a gente besta, neste momento ele lhe agrediu com um murro violento no olho; Que, a agressão foi presenciada por “R”, um homem que é amigo de seu companheiro; Que, após ser agredida começou a chorar e foi amparada por suas filhas e posteriormente por duas amigas, “C” e “N”; Que, deseja representar criminalmente contra seu companheiro; Que, deseja uma medida protetiva de urgência para retirar seu companheiro de casa.
O indiciado DISSE QUE: Convive maritalmente com a pessoa de “A” há 33 anos, advindo dessa relação 05 filhos; Que nunca agrediu “A”; Que na data e hora da ocorrência estava em sua residência assistindo televisão quando “A” começou a
mexer em um aparelho celular, vindo a fazer muito barulho; Que reclamou com “A” o barulho que o telefone estava fazendo; Que “A” não parou de mexer no celular daí então resolveu tirar o telefone das mãos dela; Que não agrediu “A” com um murro no olho; Que acredita que ao pegar o celular sua mão encostou no rosto de “A” e consequentemente seu olho bateu na cadeira em que estava sentada; Que não sabe se o olho de “A” ficou roxo ou com qualquer hematoma; Que não xinga “A” com palavrões; Que não costuma beber, bebe apenas quando tem tempo aos finais de semana; Que nega todas as acusações feitas por “A” (DDM – Iguatu. Inquérito Policial nº 39\2013).
No caso em tela, o conflito entre o casal surge em virtude do som emitido por aparelhos eletrônicos. O homem “perdeu a cabeça” face à desobediência da companheira de baixar o volume de seu celular, para que seu esposo pudesse manter o volume da televisão que assistia naquele momento, indagando-a, em tom de autoridade, “se ela não estava lhe ouvindo”. O volume do som aparece aqui como o símbolo da dominação masculina, na qual, ao homem é permitido o mais alto, o mais forte, o de maior tamanho.
Outro fator relevante é a negativa da agressão por parte do homem e a tentativa de justificar as agressões visíveis no corpo da mulher. Em muito dos Inquéritos encontramos discursos semelhantes ao do indiciado de iniciais L. A. L.. Os homens negam a prática de violência contra suas companheiras e apresentam justificativas das mais criativas para se defender das acusações que lhes são atribuídas.
Em nosso diário de campo, anotamos observações sobre o comportamento dos homens perante a autoridade policial. Eles, em geral, se colocam na defensiva, muitas vezes negando as acusações das mulheres ou justificando a agressão e mostrando que também foram agredidos física ou psicologicamente. Por outro lado, as mulheres, na maioria das vezes, ficam muito assustadas e, ao relatar a agressão que sofreram, expressam muito medo. Algumas demonstram raiva e parecem querer vingar-se denunciando o companheiro. No momento em que se encontram na delegacia e sentem alguma segurança, tendem a se expressar com muita emoção e fazem relatos sobre a história de todo o relacionamento, não se atendo ao fato ali noticiado à polícia.
Outros números consideráveis da motivação da violência se referem aos ciúmes, em 26% dos casos, e à não aceitação do fim do relacionamento por parte do companheiro, presente em 32,5% dos casos analisados, demonstrando a necessidade do controle excessivo sob a vida da companheira ou ex-companheira.
Nas situações estudadas, observamos uma continuidade na reincidência das agressões por parte de ex-companheiros e ex-maridos. Isso significa que a dominação masculina continua de tal forma arraigada que, mesmo separados, eles se sentem donos do destino de suas ex-mulheres.
Em 48,2% dos casos apresentados nos inquéritos policiais e nos processos judiciais, a prática da violência foi realizada por homens que estão separados de fato ou divorciados de suas ex-companheira. O número é muito próximo dos casos de violência ocasionados na constância do casamento ou união estável, quem somam 50,6%. Somente em 1,2% dos inquéritos analisados, há a presença de violência na esfera do relacionamento extraconjugal. Desta forma, evidenciam-se riscos tanto físicos quanto psíquicos desta situação de violência na esfera conjugal, uma vez que as mulheres estão expostas a violência, praticada por homens do seu convívio afetivo.
A associação da lógica patriarcal que realiza o controle das mulheres e a rivalidade presumida entre homens que as disputam estão presentes nos casos de exacerbação dos sentimentos de posse, de moralismo e nas agressões por ciúme, cujo ponto culminante são os homicídios e lesões graves por “razões de honra”.
No tocante aos dados da violência em virtude do ciúme, aqui apresentados, cabe esclarecer que tal “motivação” decorre do ciúme que o companheiro tem de sua mulher, mas também, e em maior número, em decorrência do ciúme que a mulher possui em relação ao seu companheiro. Os homens alegam que as suas companheiras, por sentirem muito ciúmes, o acusam de infidelidade e passam a violentá-los psicológica e moralmente, chegando muitas vezes à agressão física. Por se sentirem ofendidos em sua honra, o homem, por sua vez, rebate os argumentos femininos com a violência.
Transcrevemos aqui, os depoimentos de dois casais em situação de violência conjugal, em virtude do ciúme e da não aceitação do fim do relacionamento:
INQUÉRITO Nº 314 – 41/2014 Vítima: L. M. P. M.
Indiciado: J. B. L. F.
L. M. P. M. DISSE QUE: presta o presente depoimento acompanhada de sua advogada, P. M. A. F., inscrita na OAB/CE sob o n°. XXX; Que conviveu maritalmente com a pessoa de “J”, durante 01 ano e meio; Que está separada do mesmo há 02 meses; Que “J” não se conforma com o fim do relacionamento; Que no dia 18/08/2014, por volta das 18:30h, “J” foi até sua casa com a desculpa que a genitora do mesmo, “M. S.”, desejava encontrá-la; Que disse ao “J” que não iria encontrá-la; Que virou de costas para “J” com a intenção de entrar em casa; Que nesse instante, “J” pegou seu cabelo e começou a golpear sua cabeça com uma faca; Que gritou por socorro, momento em que sua mãe, “R. A.”, que estava tomando banho, correu para socorrer-lhe; Que alguns vizinhos entraram em sua casa para lhe ajudar; Que “J” fugiu com a faca, objeto que lhe causou lesões; Que antes de sair de sua residência, “J” prometeu que voltaria, caso a polícia fosse avisada, e lhe mataria, bem como mataria, também, sua irmã, “M. R.”; Que no período em que conviveu com “J”, sempre era agredida quando o mesmo fazia uso de bebida alcoólica e drogas; Que teme por sua vida; Que deseja uma medida protetiva para que “J” não volte a atentar contra sua vida.
J. B. L. F. DISSE QUE: manteve um relacionamento amoroso com a vítima “L” durante aproximadamente 01 ano, convivendo sob o mesmo teto durante 06 meses na cidade de Fortaleza-CE; que estão separados há aproximadamente 01 mês; que no dia 18/08/2014 estava malhando na academia quando recebeu uma mensagem de um colega via whatsApp informando que sua ex-companheira, durante o relacionamento, havia feito uma proposta de “ficar” com ele, seu colega; que quando soube dessa notícia foi até a casa de “L” para ter satisfações sobre a notícia; que ao chegar na casa em sua motocicleta, buzinou e “L” o atendeu da porta, pois estava de toalha; que ficou conversando por uns instantes em cima da moto e ela na porta, até que ela o chamou para entrar na residência; que durante a conversa, já dentro da casa, começaram uma discussão verbal e “L” ficou lhe ofendendo lhe chamando, entre outras ofensas, de “corno” e lhe deu as costas em direção ao quarto; que ficou enfurecido com as ofensas e apanhou uma tesoura pertencente a mãe de “L”, que estava próxima a um computador; que segurou “L” pelo cabelo e tentou cortá-lo; que após tentar cortar o cabelo de “L” jogou a tesoura em direção a parede e saiu da residência; que não percebeu que tinha lesionado “L”; que em momento algum ameaçou “L” ou qualquer pessoa de sua família; que durante a convivência com “L” em Fortaleza-CE; Que nunca a agrediu; que não usa drogas; que no dia do ocorrido não havia bebido; E nada mais disse e nem lhe foi perguntado (grifos nossos) (DDM – Iguatu. Inquérito Policial nº 314 41\2014).
A suposta possibilidade de traição, a ofensa verbal que contesta a masculinidade do agressor e fere sua honra, somadas ao inconformismo da rejeição por parte da ex- companheira, se apresentam aqui como fatores motivacionais da lesão corporal de natureza grave contra a vítima. Os símbolos da dominação se apresentam em todo o depoimento do acusado, que mesmo separado da vítima, relata que foi até sua casa “para ter satisfações sobre a notícia”, da qual tratava de uma suposta infidelidade. A revelação da tentativa de cortar o cabelo da ex-companheira, não passa invisível no discurso dominador, uma vez, que com tal ato o acusado tentaria extrair a vaidade e a beleza da vítima.
Neste caso, para além de dar continuidade à violência ocorrida anteriormente a separação podemos conferir espaços a novas modalidades de vitimação através da ameaça de uso de violência sobre outros membros do grupo familiar próximos da vítima.
No segundo depoimento de violência em virtude de ciúmes, o qual transcreveremos abaixo, percebemos que o ciúme, com a necessidade de controle sob a vida do companheiro, por parte da mulher, se configura como um motivo para a prática de violência, haja vista, que na lógica patriarcal da masculinidade o homem não pode e não deve ser dominado por sua companheira, haja vista, que no campo social, ele deve mostrar a sua força, virilidade e poderio de dominação.
Vejamos o depoimento:
RESPONDEU QUE: Vive em união estável com G. S. T. há 13 anos, não tendo filhos deste relacionamento; Que sempre teve um bom relacionamento com a sua companheira, mas ultimamente, devido aos ciúmes excessivos da sua esposa, estavam brigando muito; Que na última quinta-feira, 23\01\2014, chegou do trabalho
por volta das 23:00 horas e encontrou sua esposa tomando cachaça juntamente com uns parentes seus; Que, também já havia bebido um copo de cachaça e logo após sua chegada começou a discutir com sua companheira; Que após a saída de seus parentes a discussão ficou mais acalorada e após perder a cabeça agrediu sua companheira com um tapa bem forte no rosto; Que não é a primeira vez que a agrediu, sendo esta a segunda vez; Que após esta agressão houve a separação, no entanto, ela está insistindo para reatar o relacionamento, inclusive ameaçando de se matar caso o interrogado não a aceite de volta; Que não quer reatar o relacionamento com sua esposa, mas teme que ela faça uma besteira caso não reate o relacionamento (DDM – Iguatu. Inquérito Policial nº 314 15\2014).
No depoimento da vítima, esta confirma “que as agressões aconteceram por motivos de ciúmes e dentro da sua casa”, acrescentando ainda, que embora se encontre visivelmente lesionada não quer que seu companheiro seja preso, uma vez que “ele é trabalhador e que essa foi apenas a segunda vez que lhe agrediu, sendo que a primeira foi apenas um tapa; que não chegou a acionar a polícia por conta dessa agressão, justamente por não querer que ele fosse preso”.
No caso em tela, temos o que Bourdieu (2002) chamou de violência simbólica, uma vez que se apresenta a adesão dos dominados em um campo de conjugalidade e afetividade. Trata-se, pois, conforme o referido autor, de uma relação desigual de poder que comporta uma aceitação dos grupos dominados, não sendo necessariamente uma aceitação consciente e deliberada, mas principalmente de submissão pré reflexiva.
Além das motivações aqui apresentadas, temos ainda, como suposta justificativa para a prática da violência conjugal, problemas por conta dos filhos, insatisfação com o desempenho das atividades domésticas da companheira e mágoa após o fim do relacionamento conforme percentuais apresentados na tabela abaixo:
Tabela 08 – Motivação da violência
O agressor não aceita o fim do relacionamento 32,50%
Discussões corriqueiras 35,00%
Ciúmes 26,00%
Problemas por conta dos filhos 3,90%
Insatisfação com o desempenho das atividades que a esposa realizou no lar 1,30%
Mágoas pós-fim do relacionamento 1,30%
Fonte: DDM – Iguatu. Inquéritos Policiais 2013-2014.
Outro elemento que nos chamou bastante atenção, no tocante às motivações e ao momento da prática das agressões, foi o uso de álcool tanto por homens como por mulheres em situação de violência conjugal. Todavia, a partir dos depoimentos analisados, o uso de
álcool e outras drogas, aparece como substrato para a prática da violência conjugal contra a mulher, conforme demonstraremos em tópico abaixo.