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Segundo Bicudo (1993, p.18), pesquisar está relacionado com um processo de construção de uma interrogação e reunião de esforços para “andar em torno da mesma”, buscando elaborar, nesse processo, uma forma convincente de compreensão para a interrogação formulada. Entretanto, esse processo pode assumir contornos diferenciados, principalmente quando se leva em consideração a concepção de ciência assumida pelo pesquisador.

Por exemplo, segundo a autora, quando se assume uma concepção positivista, a compreensão para o problema investigado pode ser entendida como uma busca de respostas que garantem uma estrutura rígida que explique, de forma inquestionável, o problema investigado. Diferentemente, quando se assume uma concepção fenomenológica, busca-se interrogar o fenômeno em sua redução (BICUDO, 1993, p.19). Ao assumir esta última concepção de ciência, o pesquisador adota um procedimento estratégico de suspender o objeto na sua forma reduzida e contorná-lo incansavelmente, com o rigor metodológico se estabelecendo por meio da busca e construção de um movimento dialético de interrogação e compreensão do objeto pesquisado.

A autora sublinha que a interrogação deve fazer sentido para o pesquisador. Entretanto, a busca da compreensão do objeto investigado deve igualmente contribuir para a “região de inquérito onde o significado é tecido” (BICUDO, 1993, p.19). Dessa

forma, quando um determinado objeto, ou uma determinada interrogação, é construída por um pesquisador, deve-se levar em consideração que este nunca está só, pois o mesmo faz parte de uma cadeia na qual (e da qual) suas ideias são alimentadas.

Considerando esta pesquisa, sua região de inquérito é a Educação Matemática (Crítica) e a modelagem matemática nela inserida. A interrogação ou pergunta que norteou esta investigação não tem, portanto, só uma influência do ponto de vista subjetivo, mas traz consigo esse processo dialético de interlocução que procuro desenvolver com a região de inquérito do qual esta pesquisa faz parte.

Diante dessas considerações, destaco que esta pesquisa tem como interesse inicial buscar compreender como se dá o processo de matematização em um ambiente no qual se desenvolve um projeto de modelagem orientado na perspectiva da Educação Matemática Crítica, bem como compreender e analisar a natureza da matemática que foi (ou pode ser) construída nesse ambiente, considerando a dinâmica das relações dos envolvidos nas atividades desenvolvidas no projeto.

Como esta pesquisa se fundamenta numa perspectiva que busca o efeito dos dialógos dos participantes do projeto de modelagem para entender o processo de matematização do mesmo, julgo que a abordagem qualitativa é uma opção adequada. Como justificativa por esta opção metodológica me apoio, inicialmente, em D’Ambrósio (2006). Este autor ressalta que pesquisas que adotam uma abordagem qualitativa têm como uma de suas principais preocupações a valorização das pessoas, e buscam, na maioria das vezes, narrar e interpretar o sentido que as mesmas dão às ideias por elas construídas.

De forma semelhante, devo igualmente apontar o interesse desta pesquisa pelas perspectivas dos participantes, tal como destacam Bogdan e Biklen (1994), para o modo que os envolvidos em uma pesquisa qualitativa traduzem, dão sentido e buscam estratégias em suas interações diárias para resolver uma dada situação-problema, como foi o caso do projeto de modelagem desenvolvido pelo grupo de alunos sob a minha orientação.

Outra importante característica das pesquisas qualitativas, conforme é ressaltado por Bogdan e Biklen (1994), está na forma com que o planejamento da pesquisa8 se

8 O termo planejamento ou delineamento de pesquisas será utilizado nesta pesquisa de acordo com a

interpretação de Deslauries e Kérisit (2008). Os autores ao discorrerem sobre esses termos, se referem ao modo como o pesquisador apresenta a pesquisa que ele pretende realizar, considerando seus aspectos metodológicos, como escolha dos instrumentos e organização e análise dos dados, bem como a compreensão do problema de pesquisa e toda a problemática que o inspirou, além de sua pertinência.

efetua ao longo do processo investigativo. Os autores destacam a possibilidade de a direção de uma pesquisa ser mudada, uma vez que ela só “começa a se estabelecer após a recolha dos dados e o passar do tempo com os sujeitos” (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 50).

Não é sem razão que Alvez-Mazzotti (2001) destaca a casualidade das pesquisas qualitativas sofrerem alterações ao longo do processo de investigação, possibilitando que o foco e o desenvolvimento de categorias previamente estabelecidas sejam reelaborados e redimensionados. A autora afirma ainda que uma estruturação não muito rígida deve ser levada em consideração no planejamento de uma pesquisa qualitativa, uma vez que os fenômenos sociais que estão na pauta de investigação destas pesquisas são considerados complexos, principalmente devido à natureza holística dos mesmos. Dessa forma, a autora nos alerta que uma focalização prematura do problema, bem como a adoção de um quadro teórico rígido, pode impossibilitar a ampliação da visão do pesquisador para “aspectos importantes que não se encaixam na teoria previamente estabelecida” levando-o a “fazer interpretações distorcidas dos fenômenos estudados” (ALVES-MAZZOTTI, 2001, p.148). Diante dessa característica da pesquisa qualitativa, a autora sublinha que a sua estruturação deve ser equilibrada de maneira a não ser totalmente aberta, sem um grau mínimo de estruturação prévia, nem tampouco ser muito fechada e apriorística, de maneira a impossibilitar que o pesquisador redimensione seu estudo, alterando ou ajustando o seu foco à medida que vai percebendo elementos importantes dentro da complexidade investigada.

Essa abertura possibilitou-me que, durante a imersão no campo, percebesse que o processo de matematização era conduzido por uma unidade formada pela tríade pesquisador orientador-grupo de alunos-tecnologias, vistos como atores constituintes do conjunto seres-humanos-com-mídias (BORBA; VILLARREAL, 2005). Diante disso, as influências das interações recíprocas desenvolvidas neste “coletivo pensante” (LÉVY, 1993) possibilitavam auxiliar o grupo no desenvolvimento da matematização do tema investigado. Foi a partir dessa constatação, já no início do projeto, que o elemento das ações coletivas ganhou um espaço privilegiado em minhas observações. Deslauriers e Kérist (2008) apontam que um dos objetivos da pesquisa qualitativa é compreender e descrever “o comportamento dos indivíduos, assim como a ação social quando ela se traduz em ação coletiva” (DESLAURIERS; KÉRISIT, 2008, p.131).

Apesar da pergunta norteadora da pesquisa não sofrer um processo de redimensionamento, o olhar do pesquisador passou a considerar e analisar o

desenvolvimento do coletivo pensante no processo de matematização no projeto de modelagem, o que me conduziu a tomar como unidade de análise a parceria entre os componentes do grupo de modelagem e as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no desenvolvimento do projeto. Mas, importa-me, sobretudo, investigar a característica da matemática construída pelo grupo de alunos voluntários ao longo de todo o processo e etapas do desenvolvimento do projeto de modelagem.

Essa investigação se efetuou com a utilização de múltiplos instrumentos de coletas de dados, como a observação participante, gravação em vídeo e áudio, utilização de um caderno de campo e entrevistas. Na próxima seção tecerei com maiores detalhes o desenvolvimento do projeto e a importância e características de cada instrumento.

4.2. Caracterização dos instrumentos de coletas de dados utilizados na

Benzer Belgeler