BÖLÜM IV: BULGULAR VE YORUMLAR
5.2. Öneriler
Se de um lado Flusser discute conceitos de discurso e diálogo, conversação e conversa (fiada), de outro Pask desenvolve a Teoria da Conversação. Ambos acreditam que a real interação entre os participantes é fator primordial para a formação de uma nova informação.
Além da associação lógica entre os dois a partir dos termos que utilizam para descrever os processos comunicativos, um olhar mais atento revela uma relação muito mais interessante e rica para esta pesquisa, porque toma a concepção da comunicação como ponto de partida, mas vai além do seu aspecto dialógico. Enquanto Pask fala da importância da subespecificação dos objetivos dos sistemas, Flusser questiona o que é responsabilidade no design. A ideia de sistemas subespecificados de Pask, já mencionada acima, implica na necessidade de se pensar na criação de sistemas que não possuam um conjunto de objetivos pré-estabelecidos e fechados em si mesmo, mas abertos à possíveis conversações que podem ocorrer. No caso da arquitetura, isso pode significar pensar em espaços flexíveis que possibilitam o engajamento do Capítulo 4
94 PASK, Gordon. The meaning of cybernetics in the behavioural sciences: The cybernetics of behaviour and
cognition; extending the meaning of ” goal, 1969, p. 15-44.
95 NEGROPONTE em HAQUE, Usman. Gordon Pask and Architecture, 2007.
96 HAQUE, Usman. Gordon Pask and Architecture, 2007, e HAQUE, Usman. The Architectural
96 indivíduo na produção temporária deste espaço.
Se um designer especifica todas as partes de um design e, consequentemente, todos os comportamentos que as partes constituintes podem concebivelmente ter desde o começo, então a identidade eventual e o funcionamento deste design serão limitados pelo que o designer pode prever. É, desta maneira, fechada à novidade e só pode responder a pré-concepções que foram explicitamente ou implicitamente construídas no espaço97.
Flusser, por outro lado, acredita que todo objeto criado é um obstáculo que precisamos transpor. Eles são criados para que se possa progredir, mas eles mesmo obstruem o progresso. Por isso, as pessoas criam seus próprios projetos e os lançam no caminho de outras pessoas. O autor questiona: “Como devo configurar estes projetos para que ajudem os meus sucessores a prosseguir e, ao mesmo tempo, minimizem as obstruções em seus caminhos?”. A resposta está em quão responsavelmente estes objetos são projetados. A responsabilidade no design é vista pelo autor como a decisão de responder a outros homens, uma abertura perante os outros98, o que significa que, quando
se decide responder por algum projeto, os aspectos intersubjetivos são também levados em consideração. Os projetos devem ser, desta maneira, voltados para o diálogo entre as pessoas e não para o próprio objeto99.
O conceito de responsabilidade de Buber influencia o trabalho de Flusser. Segundo Buber:
a responsabilidade pressupõe alguém que se dirige a mim de uma forma primária, isto é, de um âmbito independente de mim mesmo, a quem A Cibernética como arcabouço para a avaliação dos museus
97 HAQUE, Usman. The Architectural Relevance... 2007a p. 58. “If a designer specifies all parts of a design and
hence all behaviours that the constituent parts can conceivably have at the beginning, then the eventual identity and functioning of that design will be limited by what the designer can predict. It is therefore closed to novelty and can only respond to preconceptions that were explicitly or implicitly built into it”.
98 A questão da responsabilidade no design é apresentada em Português em FLUSSER, Vilém. Design:
Obstáculo para Remoção de Obstáculos?,2007. p. 196, mas esta versão possui uma falha de tradução que modifica o sentido da frase. Na versão original em alemão, a responsabilidade é estar pronto para dar resposta a outros. “Verantwortung ist der Entschluß, anderen Menschen gegenüber Antwort zu stehen” (FLUSSER, Vilém. Design: Hindernis zum Abräumen Von Hindernissen, 1993), e em inglês, de ser responsável por coisas a outras pessoas, “Responsibility is the decision to answer for things to other people” (FLUSSER, Vilém. Design: Obstacles for to the removal of Obstacles?).
97 eu devo prestar contas. Ela se dirige a mim a respeito de algo que me confiou e de cuja tutela estou incumbido. Ele se dirige a mim no âmago da sua confiança e eu respondo na minha lealdade ou recuso-me a responder na minhas deslealdade ou então, caído na deslealdade, me liberto à força pela lealdade da resposta. Eis a realidade da responsabilidade: prestar contas daquilo que nos foi confiado, diante daquele que no-lo confiou, que lealdade e deslealdade venham à luz do dia, mas não ambas com o mesmo direito, já que precisamente agora permite-se à lealdade renascida dominar a deslealdade. Lá onde nenhuma reivindicação primária pode me tocar, pois tudo é “minha propriedade”, a responsabilidade tornou-se um fantasma. Todavia, dissolve-se com isto, ao mesmo tempo, o caráter de reciprocidade da vida. Quem cessa de dar a resposta, cessa de ouvir a palavra100.
Flusser expande os conceitos de Buber ao incluir um conceito específico de proximidade. “Quanto mais perto alguém está relacionado a mim, no espaço, tempo, tematicamente – mais responsabilidade eu tenho por ele/ela, e por mim mesmo”101.
A noção de responsabilidade explorada por Flusser e Pask encontra eco no trabalho de John Christopher Jones, e mais diretamente no processo de design, como apontam Baltazar e Kapp102. Jones ficou conhecido por seu livro
Designing Methods, de 1970, e discutia uma abordagem não tradicional do design. No seu livro Designing Designing de 1991, Jones critica sua própria abordagem anterior em relação aos métodos que desenvolveu para o design103.
A falha no método-feitura foi que nós fizemos métodos como ‘produtos’ e os entregamos para os designers esperando que eles os usassem como ‘ferramentas’, como meios para um fim. O que se tornou uma armadilha lógica, transformando a ideia de processo em seu oposto104.
Jones propõe que qualquer possível abordagem ao processo do design não Capítulo 4
100 BUBER, Martin. Do diálogo e do Dialógico. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 84-85.
101 ZIELINSKI, Sigfried. Introduction II: Vilém Fluser: A brief introduction to his media philosophy, 2004.
“The closer somebody is related to me – in space, time, thematically – the most responsibility I carry for him/her and for Myself ”.
102 BALTAZAR, Ana Paula; KAPP, Silke, Por uma Arquitetura não Planejada: o arquiteto como designer de
interfaces e o usuário como produtor de espaços, 2006: 93-103.
103 BALTAZAR, Ana Paula; KAPP, Silke, Por uma Arquitetura... 2006 p. 101.
98 pode ser baseada em produtos. Este processo de design deve ser “aberto o suficiente para permitir a arquitetos e usuários dar continuidade ao design”105.
Da mesma forma, Glanville afirma ser importante que designers assumam a sua responsabilidade para com a profissão. Tal responsabilidade requer que a natureza do design de conversações seja incluída no processo, i.e., a possibilidade de entrar em diálogo e promover a participação106.
Flusser afirma que quanto mais voltados para o produto final são os projetos, mais irresponsavelmente eles são criados, e maiores esforços serão necessários para a sua superação107. Pask108 também se preocupa com as
responsabilidades envolvidas no processo arquitetônico. Para ele, as regras para evolução do design deveriam estar embutidas no edifício, para garantir um crescimento saudável, não canceroso. Um projeto pensado para a produção de produtos com funções pré-determinadas é pouco responsável no sentido explorado por Flusser, porque, provavelmente, estorvará as gerações futuras, mesmo que sirvam ao presente.
De um possível diálogo dos conceitos desenvolvidos pelos dois autores, podemos destacar a importância do diálogo e da subespecificação do sistema para a produção de um design responsável e adaptável às diferentes demandas que possam surgir a partir das relações produzidas nestes espaços. A possibilidade de gerar diálogos assim como a flexibilidade de determinado espaço estão diretamente ligados à abertura inerente ao design, e consequentemente à sua variedade.