O nascimento do diário íntimo é contemporâneo ao surgimento do romance como gênero. O romance, da forma como o conhecemos hoje, nasce no século XIX, mas sua origem está na antiguidade grega, como nos mostra Bakhtin (2002). O autor destaca que o Classicismo dos séculos XVII e XVIII não considerava o romance como um gênero poético independente, e o relacionava aos gêneros retóricos mistos (p.363). Na segunda metade do século XIX surge um vivo interesse pela teoria do romance como gênero predominante da Europa. O autor destaca que o estudo do romance enquanto gênero caracteriza-se por dificuldades particulares, condicionadas pela singularidade do próprio objeto, já que o romance para Bakhtin é o único gênero por se constituir, e ainda inacabado. O autor considera ainda que o romance, por ser o único gênero em evolução, reflete mais profundamente a evolução da própria realidade. “O romance tornou-se o principal personagem do drama da evolução literária da era moderna precisamente porque, melhor que todos, é ele que expressa as tendências evolutivas do nosso mundo...” (BAKHTIN, 2002: 400). Tornando-se o “senhor da modernidade”, segundo o autor, o romance contaminou todos os outros gêneros.
As particularidades do romance apresentam, para Bakhtin, uma relação importante com uma determinada crise na história da sociedade europeia: sua saída das condições de um estado socialmente fechado, surdo e semipatriarcal, em direção às novas condições de relações internacionais e de ligações interlinguísticas. Essas características vão estar presentes no romance.
Para Benjamin1, o surgimento do romance remonta à Antiguidade, mas ele precisou de centenas de anos para encontrar, na burguesia ascendente, os elementos favoráveis a seu florescimento. Benjamin considera que o surgimento do romance no início do período moderno é um indício da morte da narrativa. Para esse autor, o que separa o romance da narrativa é a sua vinculação ao livro. A tradição oral, patrimônio da poesia épica, tem uma natureza profundamente distinta do romance. O romance não procede da transmissão oral nem a alimenta e só é possível com a invenção da imprensa. Enquanto o narrador retira da experiência o que ele conta e incorpora as coisas narradas à experiência de seus ouvintes, o romancista segrega-se. “A origem do romance é o indivíduo isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não recebe conselhos nem sabe dá-los” (BENJAMIN, 1994: 201). O autor considera que o romancista se separou do povo e do que ele faz. A matriz do romance é o homem em sua solidão e “escrever um romance significa descrever a existência humana, levando o incomensurável ao paroxismo” (BENJAMIN, 1994: 54). Assim, nas diferentes referências que se fazem ao romance, considera-se que ele, enquanto gênero, nasce na modernidade. Para Benjamin, o romance, que está vinculado à escrita, se diferencia de outras formas de prosa, como os contos de fadas, as sagas, os provérbios, as farsas e, em especial, as narrativas, que provêm da tradição oral. A narrativa, no sentido empregado por Benjamin, portanto, refere-se à narrativa oral. Consideraremos, na aproximação que estamos fazendo entre o romance e o diário, o romance como uma história narrada.
O que nos parece relevante destacar é que o diário, assim como o romance, é uma herança burguesa. Um dos principais fatores que contribuíram para o crescimento do
1BENJAMIN, Walter. “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: Magia e técnica,
arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994 (Obras Escolhidas, vol. 1), p.197- 221.
individualismo foi a ascensão do amor romântico, quando começou a construção da subjetividade burguesa, com uma intimidade que era intermediada pela escrita. O crescente interesse da classe burguesa pela arte de ouvir música e poesia levou a um aumento considerável da produção escrita e as ideias românticas sobre o amor tinham um público numeroso. Segundo Corbin (2003), o amor romântico modifica o ordenamento da confissão, aumenta as reações devidas à vergonha e estabelece novos procedimentos de deliberação. A palavra que poderia ser escandalosa é substituída pelo olhar, o sorriso, o toque; surgem a perturbação, o rubor e o silêncio. Para Corbin, depois de 1850, o modelo do amor romântico declina.
O estudo das experiências vividas impõe-se como uma tarefa fundamental dos historiadores. Segundo Corbin (2003), o estudo das correspondências íntimas do início do século XIX revela a violência da linguagem da paixão, logo após a Revolução. O amor violento e os ciúmes doentios aproximam o amor da morte. A psicanálise floresce nesse contexto, no jardim das Flores do mal (Baudelaire), quando há um crescimento do tema da “felicidade do mal” (MILLER, 1997). Mas, ao mesmo tempo, prolifera a linguagem angélica; a metáfora religiosa toma conta do discurso e o amante é uma criatura celeste. A partir de 1850, encontra-se a mesma linguagem na pequena burguesia. A linguagem forte da paixão e a linguagem angélica estão presentes também nos textos dos diários íntimos que se proliferam no século XIX.
No final do século XVIII e no início do século XIX, a busca pela particularidade de cada experiência individual promoveu a ascensão de uma literatura cujas formas subjetivas ganharam maior visibilidade, surgindo um conjunto difuso de gêneros conhecidos como “narrativas do eu”. Foi nesse contexto histórico que Goethe publicou seu romance: Os sofrimentos do jovem Werther, que utilizava o formato epistolar (como cartas) para narrar uma dramática história de amor que terminava com o suicídio de um personagem. O livro teve grande repercussão e sucesso, provocando um efeito inesperado, a identificação tão forte dos leitores com os personagens que uma onda de suicídios por amores não correspondidos sacudiu a Europa. Foi em função desse fenômeno que passou a se dizer que Goethe ensinou seus contemporâneos a se apaixonar, seguindo a escola do movimento romântico. Outro romance que obteve repercussão semelhante nesta época foi A nova Heloísa, de Rousseau. Diversos romances que exploravam essa vertente “sentimentalista” tiveram enorme sucesso.
O Romantismo no século XIX influenciou, portanto, todas as práticas de escrita pessoal. Para Barthes (2004), o romance e a história tiveram relações muito estreitas no século XIX. A sua ligação profunda, segundo o autor, “está na construção de um universo autárquico, a fabricar as suas próprias dimensões e limites, a dispor o seu tempo e espaço, sua população, sua coleção de objetos e seus mitos” (BARTHES, 2004: 26). O romance, assim como a história, organizam o universo, delimitando-o, dispondo seus objetos e pessoas, construindo seus mitos e dispondo-os no tempo e no espaço.
Roland Barthes, em O grau zero da escrita (2004), observa que o romance “é uma mentira manifesta: traça o campo de uma verossimilhança que desvendaria o possível no tempo mesmo em que ela o designaria como falso” (BARTHES, 2004: 29). A finalidade comum do romance e da história narrada é alienar os fatos, segundo o autor. É a tentativa de posse da sociedade sobre o seu passado e o seu possível. Barthes relaciona esse ato com certa mitologia do universal, própria à sociedade burguesa, de que o romance é um produto caracterizado: “dar ao imaginário a caução formal do real, mas deixar a esse signo a ambiguidade de um objeto duplo, ao mesmo tempo verossímil e falso” (2004, p.30). Essa ambiguidade está presente em toda a arte ocidental, segundo o autor, para a qual o falso se iguala ao verdadeiro. O verdadeiro é sentido como contendo uma universalidade. A burguesia, conforme observa Barthes, considerou os seus próprios valores como universais. É esse o mecanismo do mito o que o aproxima do romance.
Existem diferentes classificações do romance. Bakhtin (2003) apresenta a seguinte classificação, segundo o princípio de construção da imagem da personagem central: o romance de viagens, o romance de provação, o romance biográfico e o romance de educação (formação). O romance que tem início no século XIX é romance de formação. Faremos uma breve exposição dos diferentes tipos de romance segundo essa classificação do autor, para depois apresentarmos a nossa hipótese.
No romance de viagens a personagem é um ponto que se movimenta no espaço e não se encontra no centro da atenção artística do romancista. Seu movimento no espaço são as viagens que permitem ao artista desenvolver e mostrar a diversidade espacial e socioestática do mundo. O romance de viagens tem como característica uma concepção
puramente espacial e estática da diversidade do mundo. O tempo nesses romances carece de um sentido substancial e de colorido histórico. O tempo biológico do personagem está ausente ou marcado em termos puramente formais e é ressaltado apenas o tempo de aventura. A imagem do homem, mal traçada, é absolutamente estática. Presente em solo antigo, ele pode ser exemplificado pelo romance picaresco europeu: Lazarillo de Tormes.
O romance de provação é construído como uma série de provações das personagens centrais, de provações de sua fidelidade, de bravura, de coragem, de virtude, de nobreza, de santidade etc. Trata-se da forma mais difundida de romance da literatura europeia. O mundo do romance é a arena de luta e provação da personagem. Todas as suas qualidades são dadas desde o início, e ao longo de todo o romance apenas são verificadas e experimentadas. Segundo Bakhtin (2003), o romance de provação surge também em solo antigo, sendo representado tanto pelo romance grego quanto no início do Cristianismo.
O romance biográfico é também de origem antiga, segundo Bakhtin (2003). Ele pode ser encontrado nas biografias antigas, autobiografias e confissões do período inicial do Cristianismo (terminando em Agostinho). Para ele, o romance biográfico nunca existiu de forma pura. A forma biográfica apresenta as seguintes modalidades: a velha forma ingênua do êxito-fracasso, os trabalhos e as obras, a forma confessional (biografia), a forma hagiográfica e o romance biográfico familiar, a forma mais importante. Todas essas formas apresentam características comuns, como: 1- O enredo de forma biográfica; 2- Apesar das modificações da vida da personagem, a sua própria imagem continua essencialmente inalterada. A única mudança substancial da personagem é constituída pela crise e pelo renascimento da personagem. A concepção de vida que embasa a obra é determinada pelos seus resultados objetivos; 3- O tempo biográfico é plenamente real, todos os seus momentos estão vinculados ao conjunto do processo vital, caracterizam esse processo como limitado, singular e irreversível; 4- Os contatos e vínculos da personagem com o mundo já não se organizam como encontros fortuitos e inesperados. Há uma representação realista mais profunda da realidade; 5- A construção da imagem do personagem sofre profundas alterações. A heroificação desaparece quase inteiramente. O herói se caracteriza tanto por traços positivos quanto negativos.
Esses são os princípios fundamentais de informação das personagens no romance, que se constituíram e existiram até a segunda metade do século XVIII, preparando o terreno para o romance de educação. O romance de educação surge na Alemanha na segunda metade do século XVIII, segundo Bakhtin (2003).
O romance de educação inclui alguns protótipos básicos dessa modalidade de gênero, tais como Ciropédia, de Xenofonte (Antiguidade), Parzival, de Wolfram von Eschenbach (Idade Média), Gargântua e Pantagruel, de Rabelais (Renascimento),
Emílio, de Rousseau, Infância, adolescência e juventude de Tolstói, Os Buddenbrooks,
de Thomas Mann, entre outros (BAKHTIN, 2003: 218).
Os romances de educação constituem um grupo bem heterogêneo, tanto do ponto de vista teórico quanto histórico. Alguns são de natureza biográfica e autobiográfica, outros não; alguns têm como princípio de organização a ideia puramente pedagógica de educação do homem, outros não apresentam essa concepção; alguns apresentam um plano rigorosamente cronológico de desenvolvimento do personagem central e carecem de enredo, outros têm um complexo enredo aventuresco e são ainda mais substanciais as diferenças no que diz respeito à relação desses romances com o realismo, mais particularmente com o tampo histórico real.
Bakhtin (2003) destaca, nos romances, o elemento de formação substancial do homem. Ele comenta que, na grande maioria dos romances, a personagem é uma grandeza constante. A despeito de todas as diferenças possíveis de construção na própria imagem da personagem, não há movimento, não há formação. A personagem é um ponto imóvel e fixo em torno do qual se realiza qualquer movimento no romance. A permanência e a imobilidade interna da personagem são a premissa do movimento do romance. O movimento do destino e da vida dessa personagem pronta é o que constitui o enredo do romance, seu conteúdo. Mas o caráter do homem, imutável, não se torna enredo.
Mas existe um outro tipo de romance, bem mais raro, que, em contraposição à unidade estatística, apresenta uma unidade dinâmica da imagem da personagem. O próprio herói e seu caráter se tornam uma grandeza variável na fórmula desse romance. As mudanças sofridas pelo herói ganham significado de enredo e em face disso reassimila-se e reconstrói-se todo o enredo do romance. Segundo Bakhtin (2003), nesses romances, o
tempo se interioriza no homem, passa a integrar a sua própria imagem, modificando o significado de todos os momentos do seu destino e da sua vida. Bakhtin designa esse romance como romance de formação do homem.
O romance de formação é o que buscamos destacar. Dependendo do grau de assimilação do tempo histórico real, a formação do homem pode ser muito variada. Bakhtin (2003) diferencia cinco tipos de romance de formação. O primeiro tipo diz respeito aos tempos cíclicos, podendo mostrar a trajetória do homem entre a infância e a mocidade e entre a maturidade e a velhice, mostrando as mudanças substanciais no caráter e na visão de mundo do homem. Essa série de desenvolvimento do homem é de natureza cíclica, repetindo-se em cada vida.
Um segundo tipo de romance de formação é também de formação cíclica, mantém também sua ligação com as idades e desenha uma trajetória recidiva de formação do homem, partindo do idealismo juvenil, por exemplo, até a sobriedade madura. Esse tipo de romance tem como característica fundamental a representação do mundo e da vida como experiência, como escola. Todo indivíduo deve passar e levar dessa experiência o mesmo resultado.
O terceiro tipo de romance de formação é o tipo biográfico e autobiográfico. Aqui não existe o tempo cíclico, mas o tempo biográfico. O indivíduo passa por etapas individuais, singulares. A formação é o resultado de todo um conjunto das mudanças nas condições de vida, de acontecimentos e de trabalho. “Cria-se o destino do homem, cria-se com ele o próprio homem, o seu caráter. A formação da vida-destino se funde com a formação do próprio homem” (BAKHTIN, 2003: 221).
O quarto tipo é o romance didático-pedagógico. Ele se baseia em uma determinada ideia pedagógica, ou seja, ele representa o processo pedagógico da educação no próprio sentido do termo, como Emílio, de Rousseau.
No quinto tipo de romance de formação, a formação do homem não é um assunto particular. O homem se forma concomitantemente com o mundo, reflete em si mesmo a formação histórica do mundo. Trata-se da formação do novo homem. A imagem do homem em formação começa a superar seu caráter privado e desemboca em outra esfera.
Esse é o romance realista. Esse romance tem uma relação próxima com o romance biográfico de formação.
No nosso entender, a partir dessa classificação de Bakhtin, é possível fazer uma aproximação entre o romance de formação, em especial o terceiro tipo, e o diário. Nos relatos dos diários, o indivíduo passa por etapas singulares, experiências individuais. Junto com as mudanças que seu autor relata nas condições de vida e nos acontecimentos diários, acompanham-se as transformações subjetivas, “a formação da vida e do destino” se misturam com a formação do próprio homem. O próprio autor e seu caráter se tornam uma grandeza variável durante a escrita do diário. As mudanças sofridas pelo “herói” (autor e protagonista da própria história) ganham significado de enredo e em face disso reassimila-se e reconstrói-se todo o enredo do romance. O tempo se interioriza no homem, passa a integrar a sua própria imagem, modificando o significado de todos os momentos do seu destino e da sua vida. Diferentemente dos outros tipos de romance, aqui o sujeito é constituído pela escrita de sua história, transformando-se continuamente.
Alguns autores destacam no romance a sua abrangência e a sua liberdade expressiva. Para Robert (2007), o romance é um gênero revolucionário e burguês, que do ponto de vista literário apropria-se de todas as formas de expressão: utiliza a descrição, a narrativa, o drama, o ensaio, o comentário, o monólogo, o discurso, sendo sucessiva ou simultaneamente fábula, história, apólogo, idílio, crônica, conto, epopeia, com liberdade para a escolha do tema, do cenário, do tempo e do espaço.
Essa abrangência do romance e a sua liberdade expressiva permitem aproximá-lo do diário. O texto do diário pode incluir: poesias, letras de música, descrição de fatos, narrativas, comentários soltos, além de colagens de fotos, desenhos, entre outros. No entanto, na escrita de um diário há um predomínio da narrativa. O diarista narra os acontecimentos de sua vida, além de incluir pensamentos, sonhos e lembranças. Essa narrativa segue uma ordem sucessiva e temporal, compondo uma história. Um relato de um dia não necessariamente leva a uma continuidade no dia seguinte, mas existe uma ordem e uma coerência nessa sequência. O diarista busca a “compreensão do leitor”, que, no caso, é o próprio diário, que funciona como um outro. Ele se preocupa em ser coerente, em se fazer compreender, em relacionar os fatos narrados, em oferecer
explicações para o “diário”. É comum o autor de um diário escrever: “Você não deve estar entendendo nada, vou explicar melhor...”; “Vou te colocar a par dos últimos acontecimentos” etc. Uma outra diferenciação que pode ser feita é com relação ao tempo. Não existe essa liberdade de escolha do tempo nos diários. O diário é uma escrita do tempo presente, a narrativa é datada.
Assim como as trocas epistolares, os diários íntimos se constituíram como uma atividade burguesa por excelência, tendo grande expansão no século XIX. A linguagem dos diários aproximava-se da linguagem dos romances, em especial, dos romances psicológicos, que utilizavam não só a forma epistolar como a forma da confissão íntima, construindo uma maior aproximação entre a ficção e a realidade. Diversos personagens de romances se destacavam das páginas dos livros para transformarem-se em modelos de identificação. As novas subjetividades eram influenciadas pelas referências identificatórias ofertadas pelos romances e relatos autobiográficos modernos.
Mas é importante salientar que, ao lado do romance sentimentalista, desenvolve-se um outro tipo de romance. Diferenciando-se desse movimento “extrínseco” e do seu caráter marcadamente idealista e sentimentalista, alguns românticos alemães (Novalis, August e Friedrich Schelegel) configuraram um outro movimento “intrínseco” do romance moderno. Esse movimento é marcado pelo privilégio da consciência poética em detrimento da espontaneidade e da inspiração, na leitura das questões do sujeito poético e da representação, de acordo com Maciel2.
Essa modalidade de romantismo introduziu a ironia como método, marcando uma distância crítica entre o poeta e a sua obra. Assim, há um descentramento do sujeito poético, contribuindo para a construção do espaço poético da modernidade, “a linguagem e os seus mecanismos converteu-se no cerne da experiência poética, a poesia foi submetida a um processo de desreferenciação e assumiu a tarefa de se autodizer” (MACIEL, 1999: 22).
Uma outra diferenciação que pode ser feita é entre o romance clássico e o romance contemporâneo. No romance clássico (a literatura da interioridade se inscreve muitas
2
vezes nessa perspectiva), há um relato linear, que postula um sentido na existência narrada. Nessa modalidade de romance, observa-se a tentativa de extrair uma lógica retrospectiva e prospectiva, estabelecendo relações inteligíveis entre os estados sucessivos.
Essa modalidade de romance, que pode ser nomeada como “romance clássico” ou “sentimentalista”, é a que buscamos aproximar dos diários íntimos. Ressaltamos, na escrita dos diários íntimos nos séculos XVIII, XIX e XX, essa busca por um sentido na existência narrada, a tentativa de extração de uma lógica retrospectiva e prospectiva, por meio de certa ordenação e busca de coerência entre os estados sucessivos.
Já o romance contemporâneo é descrito por Bourdieu em A ilusão biográfica (2005). Para o autor, o romance “moderno” (ou contemporâneo) é aquele que apresenta uma dupla ruptura na visão da vida como existência dotada de sentido: tanto da significação quanto da direção. Assim, o advento do romance moderno, que podemos identificar com o contemporâneo, está ligado a essa descoberta: “o real é descontínuo, formado de