Em uma primeira análise, pode-se dizer que a relatoria oralizada não é apenas uma leitura da relatoria escrita. Verifica-se que o conselheiro-relator, ao apresentar seu parecer, não se limita a reproduzir oralmente aquilo que produziu graficamente. Observe-se, por exemplo, o trecho a seguir extraído da relatoria oralizada:
“/tá ok... bom... ã:: eu já: vo:u adiantando que:: o parecer da relatoria é favorável ao ao bacharelado em ciências econô/ é:: bacharelado em
ciências econômicas... ã deixa eu pegar eu peguei errado aqui a::cho... só um minuto ah tem uma cópia? é porque... ah eu escrevi
errado aqui, ah /tá... foi um copiar colar aqui que foi errado... então /tá
bom... não eu tive um problema de copiar colar que /tava escrito
bacharelado em políticas públicas /tá bom... é:: é ciências econômicas...
então tá bom eu tenho eu tenho aqui /tá... é:: histórico primeiro né?”
(linhas 48 a 54)
Percebe-se que há todo um preâmbulo que abre o diálogo41, revelando um início típico de conversa, o que, em primeira instância já justifica a hipótese de não a relatoria oralizada não ser mera leitura. Os destaques acima, em negrito, permitem observar facilmente que se trata de um trecho sem planejamento prévio, uma vez que há a presença de diversos marcadores, como “tá”, “ok”, “bom”, “ã”, “acho”, “ah”, “tá”, “tá bom” (linhas, 48, 49, 50, 51, 52 e 53), permeada por repetições (linhas 49, 50, 52 e 54), hesitações (linhas 50 e 51), corte de palavras no início ou no fim “/tava” e “econô/” (linhas 53 e 49), dentre outros aspectos. Observa-se, portanto, uma superposição de muitos fenômenos típicos da linearidade da fala.
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Diz-se aqui “diálogo” porque, embora apenas um indivíduo efetivamente fale, é sabido haver, além do coordenador do curso sobre o qual se apresenta o parecer, também uma plateia composta pelos conselheiros que integram o ConsEPE. Nesse caso, diálogo aproxima-se da noção de diálogo em sentido amplo na perspectiva do dialogismo de Bakhtin (2002, p. 125), “não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja”.
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Somente a partir da linha 55 que o conselheiro-relator passa à leitura de seu texto escrito, retextualizando-o oralmente. Verifica-se, portanto, haver uma mescla, entre leitura e inserções, seja para introduzir a conversa (linhas 48 a 54), seja para explicar ou parafrasear o que fora lido (linhas 67 a 81; 101 a 105; 107 a 113; 133 a 140). Dos trechos mencionados, destaca-se o seguinte para exemplificar: “é:: e:u me lembro quando foi apresentado na última reunião né? que foi dito isso... que os cursos de:: economia o/ eles eles são mais quantitativos matemáticos ou então eles são mais qualitati::vos filosó::ficos etc etc e:: que aqui até por conta da formação dos professores acho que fizeram uma tentativa de fazer um:: a:umama formação ma::is ã:: um pouco de cada né?...” (linhas 67 a 71)
Há em quase toda a apresentação uma espécie de intercalar de leitura e comentários; estes últimos sempre relacionados ao tema que foi lido. Ademais, as referidas inserções justificam, ainda, a relatoria oralizada apresentar extensão nitidamente maior em relação à relatoria escrita.
No trecho a seguir, é possível notar a ausência de aspectos típicos da conversação como, por exemplo, dos marcadores conversacionais. Isso porque o trecho em questão foi lido tal como grafado na relatoria escrita. Disso infere-se que o fato de um texto ser oralizado não implica necessariamente que ele seja permeado de elementos da fala. Verifique-se o exposto no excerto abaixo:
“o bacharelado em ciências econômicas foi criado juntamente com bacharelado em ciências e humanidades pela resolução consuni [ConsUni] número vinte-um de dezesseis de quatro de nove seu projeto pedagógico foi discutido no conselho do cecs, na comissão de graduação e apresentado no expediente da quinta sessão ordinária de dois mil e onze do consepe [ConsEPE]... ocorrida em oito de junho de dois mil e onze” (linhas 54 a 60)
Embora oralizado, o trecho que vai da linha 54 a 60 possui uma fluência que se distingue sobremaneira do trecho anterior (linhas 48 a 54), não havendo cortes de palavras, sobreposições, hesitações, nem mesmo a presença de marcadores conversacionais.
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Assim, tomando-se o texto da relatoria oralizada como um todo, tem-se um texto híbrido, matizado por nuances da oralidade e da escrituralidade.
Ao se referir às siglas, nota-se não haver um padrão para menção à nomenclatura por extenso e à sigla. Por exemplo, quando se refere ao Conselho Nacional de Educação (CNE), na primeira menção, o conselheiro-relator pronuncia “ceeneé” (CNE) (linha 65) ao reproduzir oralmente a sigla escrita. Note-se que, na relatoria escrita, o trecho correspondente, no qual se menciona a referida sigla, não apresenta a denominação por extenso: “O projeto pedagógico está muito bem estruturado e compatível com as diretrizes curriculares do CNE” (linhas 12 e 13, da relatoria escrita), levando o conselheiro-relator à oralização tal e qual proposto no texto escrito (CNE), corroborando a ideia de que a leitura presta menor margem a inserções ou alterações, em oposição à fala espontânea.
Tal ideia, contudo, não se constitui em uma regra, tendo em vista que, mais adiante, no trecho que vai das linhas 82 a 90, mesmo a relatoria escrita trazendo a sigla CNE (linha 20), quando oraliza o trecho correspondente da relatoria escrita (linhas 14 a 21), o conselheiro-relator substitui a sigla pelo extenso, conforme se vê no destaque:
“a recomendação expressa da direção do centro para que a carga horária total não se distanciasse muito do mínimo... de três mil horas exigidos pelo conselho nacional de educação [...]” (linhas 88 a 90)
No que se refere às repetições (lexicais ou gramaticais), conforme assinala Marcuschi (2006, p. 2019), “mais do que uma característica da língua falada, a repetição é uma das estratégias de formulação textual mais presentes na oralidade”. Observem-se, além dos casos já apontados anteriormente, os seguintes trechos com atenção aos destaques em negrito:
• os cursos de:: economia o/ eles eles são mais quantitativos matemáticos (linha 68)
• eu imagi:no que o pessoal que:: projetou o curso deve ter ficado
numa numa:: saia justa né? (linha 95)
• eu fiz outros comentários que são mais pontuais... por exemplo...
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usado ã:: a:: o termo formação específica sequencial e tem o
termo sequencial (linhas 101 a 103)
• o:: projeto pedagógico em um determinado momento faz menção específica às notas notas numéricas (linhas 106-107)
• eu não não encontrei em nenhuma matriz (linha 128)
• os docentes credenciados são aquele:s é é é a foto... é o instantâneo agora (linha 134)
Os enunciados mencionados foram extraídos de trechos marcados pela oralidade, por falas espontâneas. Nesse sentido, as repetições sinalizam um planejamento local, que ocorre concomitantemente à produção. É uma espécie de “tempo que se ganha” entre a formulação da fala e sua verbalização de fato.
Por outro lado, em trechos que são nitidamente lidos, as repetições não são verificadas:
“é:: bom, o bacharelado em ciências econômicas da uefeabecê [UFABC] possui um projeto pedagógico diferenciado porque busca formar profissionais não polarizados... combinando uma formação em métodos quantitativos e matemáticos com conceitos qualitativos... humanísticos e filosóficos... o projeto pedagógico está muito bem estruturado e compatível com as diretrizes curriculares do cêeneé [CNE] e com o projeto pedagógico do bêcêagá [BCH]” (linhas 61 a 66).
Não se poderia deixar de destacar que em um dos excertos da lista anterior, verifica-se a presença de uma marca típica da oralidade, que é a “expressão idiomática”, referida na linha 95, “ficar numa saia justa”. Vale explicar que esse tipo de realização é uma construção composicional cujos sentidos extrapolam a soma dos significados de seus componentes, mas são entendidos graças ao conhecimento compartilhado pelos falantes de uma língua. Como é possível confirmar, essa expressão não figura na relatoria escrita. Além disso, é mencionada em um trecho marcadamente espontâneo e não de leitura.
Outro ponto que merece destaque nesta análise é que apenas esta parte do corpus conta com um fator específico do contexto situacional. Desse modo, a presença da plateia, da qual fazia parte inclusive o coordenador do curso cujo
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Projeto Pedagógico estava sob avaliação, acaba por exercer certa influência no conduzir da exposição oral. Embora estivesse lendo um texto que ele mesmo redigiu, no momento da leitura, diante da plateia, nota-se que houve a preocupação por parte do conselheiro-relator de explicar cada um dos itens por ele elencado no documento escrito. Nesse sentido, pode-se dizer que o conselheiro-relator reformulou (retextualizou) seu próprio texto.
Comparando os trechos nos quais o conselheiro-relator realiza a leitura da relatoria, com os trechos nos quais ele emite comentários ou presta esclarecimentos – valendo-se de uma fala mais espontânea – é possível analisar alguns aspectos no que tange ao planejamento. Tendo-se em conta os termos considerados por Urbano (2006, p. 135), ao observar o trecho entre as linhas 67 e 81 é possível verificar a presença de alguns elementos que indicam a falta de planejamento prévio (verbal) – em oposição ao planejamento temático, uma vez que o conselheiro-relator demonstra conhecer, dominar e planejar ad hoc (sobretudo prosodicamente) o tema que desenvolve em sua fala. Exemplo disso são as marcas que indicam que a fala está sendo elaborada em concomitância com a produção, dentre as quais:
• prolongamentos vocálicos: “de::” (linha 68), qualitati::vos (linha 69), ma::is (linha 74);
• pausas silenciosas: “polarizado... mas” (linha 73); “sei... só” (linha 81);
• pausas preenchidas: “assi::m... é::” (linha 72); “que tem né? eles” (linha 75);
• repetições: “eles eles” (linha 68);
• marcadores conversacionais: “ok...” (linha 48); “bom” (linhas 48, 61); “né” (linhas 67, 71, 75 );
Por outro lado, essas marcas aparecem com menor frequência quando o texto falado é há uma simples leitura neutra (URBANO, 2013, p. 197) do texto escrito. Cumpre lembrar que no caso das pausas há aquelas que ocorrem em coincidência com os sinais de pontuação do texto escrito. A correspondência entre pausa e pontuação pode ser verificada, por exemplo, nas linhas 62 e 63, na relatoria escrita, e 10 e 11, na relatoria oralizada, respectivamente:
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“porque busca formar profissionais não polarizados, combinando uma formação” (linhas 62 e 63)
“porque busca formar profissionais não polarizados... combinando uma formação” (linhas 10 e 11)
A relatoria oralizada confirma as hipóteses de que o fato de um texto ser produzido no meio fônico não é determinante para que suas características sejam puramente da oralidade. De acordo com apontamentos realizados, pode-se observar que a relatoria oralizada é permeada por traços da escrituralidade, especialmente quando se tem a relatoria escrita como norteadora da fala.
Desse modo tais traços demonstram que, embora esteja sendo apresentada no fonicamente, a relatoria oralizada exibe características típicas da escrituralidade concepcional. Assim, a relatoria oralizada, por apresentar traços da oralidade e da escrituralidade, pode ser considerado um texto híbrido que, em função de sua condição de produção, apresenta tanto características da oralidade quanto da escrituralidade. Nesse sentido, é possível entender que a relatoria oralizada é uma retextualização, conservando traços modais de seu texto matriz, isto é, da relatoria escrita, produzida no meio gráfico.