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A União Aduaneira da África Austral (em sua sigla em inglês, “SACU”) foi criada em 1910 entre a então União da África do Sul e o Alto Comissariado dos Territórios de Bechuanalândia, Basutolândia e Suazilândia (“Acordo de 1910”). Com o advento da independência desses Territórios, o Acordo de 1910 foi atualizado e relançado em 11 de dezembro de 1969, por meio da celebração de um novo acordo entre África do Sul, Botswana, Lesoto e Suazilândia, que entrou em vigor em 01 de março de 1970 (“Acordo de

1969”). A Namíbia aderiu à SACU após sua independência, em 1990, e se tornou o quinto Membro da SACU.

O Acordo de 1969 foi renegociado em 1994, levando à assinatura do acordo atual da SACU, em 21 de outubro de 2002, que entrou em vigor em 15 de julho de 2004 (“Acordo de 2002”). A SACU foi notificada à OMC em 25 de junho de 2007, nos termos do Artigo XXIV:7(a) do GATT 94.

O Acordo de 1910 previu, desde o princípio, que deveria haver um livre intercâmbio de produtos entre os Membros, com exceção de bebidas destiladas e cerveja. Referido Acordo não era, no entanto, muito amplo (possuía apenas seis artigos). Não é de se estranhar, assim, que não houvesse regras sobre instrumentos de defesa comercial.

O Acordo de 1969 foi mais abrangente e incluiu regras sobre comércio de bens agrícolas, medidas sanitárias e fitossanitárias, acordos comerciais com terceiros países, entre outros. Tal Acordo previu que os Membros não poderiam impor direitos aduaneiros ou quaisquer restrições quantitativas a bens originários de outro Membro (Artigo 2). Os Membros não poderiam, ainda, aplicar direitos aduaneiros a bens originários de terceiros países quando tais bens tivessem sido importados de outro Membro (Artigo 3).

O Acordo de 1969 também não tratou de regras antidumping. Por outro lado, foi introduzido um procedimento de consultas entre os Membros caso fosse verificado um surto de importações oriundas de um Membro que causassem (ou ameaçassem causar) dano à indústria de outro Membro. Não se fala expressamente em salvaguardas, mas, por meio das consultas bilaterais, os Membros envolvidos analisariam as medidas necessárias para buscar uma solução mutuamente satisfatória.

O Acordo de 2002 foi resultado de negociações entre os Membros lançadas em 1994, com vistas a implementar os resultados da Rodada Uruguai, desenvolver políticas comuns, constituir a estrutura institucional da SACU115 e estabelecer um mecanismo de solução de controvérsias. Referido Acordo indicou expressamente que a SACU é uma organização internacional, dotada de personalidade jurídica.

115 O Acordo de 2002 criou as seguintes instituições: Conselho de Ministros, Comissão da União Aduaneira, Secretariado, Conselho Tarifário, Comitês Técnicos e um Tribunal Ad Hoc. A estrutura institucional é semelhante a do MERCOSUL.

O Artigo 18 do Acordo de 2002 prevê que o comércio de bens intrabloco deve ser livre de direitos aduaneiros e restrições quantitativas, exceto se disposto de outra forma no Acordo. Dentre as exceções incluem-se a proteção da saúde humana, animal e vegetal; do meio ambiente; moral pública; segurança nacional; recursos naturais; entre outros.

Não há uma previsão expressa sobre a aplicação de medidas antidumping no comércio intrarregional. No entanto, considera-se, por interpretação, que o Acordo da SACU proibiu o uso de tais medidas entre seus Membros. Jean-Daniel Rey observa, nesse sentido, que, exceto pela África do Sul, os Membros da SACU nunca reportaram ao sistema GATT/OMC a aplicação de medidas antidumping. Apesar de África do Sul ser um grande usuário do instrumento antidumping, o país nunca aplicou medidas contra os demais Membros da SACU. Nas palavras do autor,

Against this background and considering that SACU is a functional Customs Union relatively close to a common market, it is remarkable that none of the other Parties to SACU (Botswana; Lesotho; Namibia; and Swaziland) had reported any antidumping action to the WTO, though one may think that, in principle, antidumping actions would have to be conducted by the Customs Union - as an entity - and not only by one of its Member only. What some may consider as an anomaly may, in fact, simply be a notification issue.116

Não obstante, o Artigo 41 do Acordo de 2002 determinou que o Conselho da SACU, aconselhado pela Comissão, deveria desenvolver políticas e instrumentos para tratar de práticas de comércio desleal entre os Membros. Tais políticas deveriam ser anexadas ao referido Acordo. O assunto está sendo discutido no âmbito da Comissão, mas até o momento não se chegou a um consenso sobre o tema.

Em 2010, foi solicitado um estudo para investigar a existência de práticas desleais de comércio entre os Membros da SACU. Um dos objetivos do estudo encomendado era verificar também se a prática de preço predatório poderia ser tratada por meio de normas sobre concorrência.

De acordo com dados do Secretariado, há falta de informações sobre o que realmente acontece na SACU no que se refere a práticas desleais de comércio. Nesse

sentido, demonstrou-se preocupação em introduzir instrumentos contra prática desleais de comércio, principalmente antidumping, entre os Estados-Membros. Seria, assim, muito difícil atender ao disposto no Artigo 41 do Acordo de 2002, devido às complexidades envolvendo o conceito de dumping e o objetivo de aprofundamento da integração regional no contexto de uma união aduaneira117. Até o momento não foi divulgado o resultado do estudo, tampouco finalizado o anexo que trataria das práticas de comércio desleal entre Estados-Membros.

No que diz respeito à aplicação de medidas antidumping contra países não membros, o Acordo de 2002 determina que o Conselho Tarifário é responsável por fazer recomendações ao Conselho da SACU sobre a aplicação de direitos antidumping às importações originárias de terceiros países, de acordo com as regras do Acordo Antidumping da OMC. O Acordo de 2002 estabelece, ainda, que cada Membro deverá instituir um órgão nacional, a fim de conduzir investigações antidumping contra países não-membros. No entanto, a África do Sul é o único Estado-Membro que possui regras antidumping internas. Seu órgão nacional é a Comissão Administrativa de Comércio Internacional (em sua sigla em inglês, “ITAC”). Na prática, a ITAC ficou responsável por conduzir investigações e aplicar medidas antidumping contra terceiros países, tanto em nome da África do Sul, como em nome da união aduaneira, de acordo com as regras do Acordo Antidumping da OMC. O fato de um Estado-Membro poder aplicar uma medida por si (e não como um território único da união aduaneira), no entanto, poderia ser interpretado como uma discordância com o disposto no Artigo XXIV.8.(b) do GATT.

Pelo que se depreende da análise da SACU, a proibição de aplicação de medidas antidumping entre os Estados-Membros esteve implícita nos Acordos de 1969 e 2002, com a determinação de eliminação de tarifas e medidas restritivas ao comércio intrabloco. A não aplicação de medidas antidumping entre os Estados-Membros tornou-se eficaz na prática, sem que fosse instituído outro regime (e.g., antitruste) substitutivo. Apesar de os próprios Estados-Membros não possuíram dados suficientes sobre a ocorrência de prática de comércio desleal intrabloco, a preocupação principal foi o efeito negativo que a inclusão de medidas antidumping no comércio intrarregional poderia acarretar.

117 Conforme dados disponíveis em ‹http://www.sacu.int/docs/tenders/2010/rft290710.pdf›. Acesso em: 02 dez.2012.

O estudo da SACU é importante porque se trata de uma união aduaneira, com grande assimetria entre seus Membros, assim como no caso do MERCOSUL. A visão dos Estados-Membros da SACU de que o antidumping não encontra respaldo em uma união aduaneira poderia ser compartilhada com os Estados-Membros do MERCOSUL. No entanto, a forma de eliminação de tais medidas no comércio intra-MERCOSUL deve ser pesquisada em outros exemplos de integração regional, já que isso não fica claro no processo de integração da SACU.

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