Na acta da Assembleia Geral do Grémio reunida no dia 18 de Outubro de 1888 (e que já não reunia há vários anos), é já visível o estado decadente em que se encontra a Sociedade – ―A sociedade que tivera tempos prósperos, estava hoje decadente por ser muito deminuto o número de sócios‖. Nesta reunião são mesmo avançadas algumas soluções -―diversos alvitres se tinham lembrado para lhe dar mais alguma vida, um d’eles era reunil-a a um club‖.
Nesta data, coloca-se já a possibilidade de entregar a biblioteca à Câmara Municipal: ―lembrara-se também entregar-se a bibliotheca à Câmara, tornando-a assim uma bibliotheca municipal; que este alvitre seria rasoavel se a Câmara se prestasse a inscrever todos os annos no seu orçamento uma verba para livros, e se estabelecesse a leitura em domícilios‖.
Frederico Laranjo refere ainda na mesma acta que :
Tiinh-se também lembrado de acabar com a sociedade, mas parecia-lhe uma vergonha que elles não conservassem depois de homens e quando todos tinham alguma fortuna, pouco ou muita, o que tinham fundado cheios d’entusiasmo na adolescência e na mocidade. Pequena como era
91 ainda, poucas terras do paíz tinham uma bibliotheca como aquella, não a tinha por exemplo, a capital do distrito deviam pois conservá-la e augmental-a e traminttindo-a a gerações que os seguem.
Datado de 1899, o Inventário é possivelmente o único inventário existente desta época e desta biblioteca, foi elaborado pelo próprio Dr. Frederico Laranjo, regista o número de títulos (e número de volumes de cada título), assim como de alguns equipamentos da Biblioteca do
Grémio, talvez para servir de registo quando a associação se extinguisse. Dissolvido o Grémio em 1900, passou a competir à autarquia a continuação do trabalho
iniciado pelo associativismo local.
Em acta referente à sessão ordinária de 6 de Novembro de 1900 é referido o ofício de 30 de Outubro de 1900 da última Direcção do Grémio Ilustração Popular que informa do fim desta associação, entregando à Câmara Municipal ― a biblioteca e mais haveres do mesmo Gremio para servirem de núcleo a uma biblioteca municipal‖ (verso da página 120 do livro de actas das sessões de 1898/108 a 1902 da Câmara Municipal de Castelo de Vide). Na mesma página pode ainda ler-se que foi entregue ―também em dinheiro a quantia de cento e trinta e três mil quinhentos reiz para fundo destinado à conservação e augmento da mesma bibliotheca‖. Pede ainda a Direcção que:
O capital seja dado a juro com as devidas garantias, ou convertido em inscripções averbadas à Câmara com a cláusula de que constituem fundo da bibliotheca doada pelo Gremio Illustração Popular, e os juros são destinados ao augmento do mesmo capital, ou à conservação e augmento da biblioteca.
O presidente, José Frederico Laranjo, lembra que segundo o ― disposto no nº28 – artigo 50 do código administrativo compete à Câmara deliberar sobre a creação de institutos de utilidade para o concelho comprehendendo-se nesses mesmos institutos as bibliotecas populares creadas por decreto de 2 d’Agosto de 1870‖.
No final da mesma acta e a pedido do Presidente do extinto Grémio Ilustração Popular, ― que por tanto tempo manteve uma biblioteca e nalguns annos uma eschola nocturna para operários‖, é transcrito o referido ofício, onde percebemos que se extinguiu ―porque estava muito redusido o numero de sócios‖ (verso da página 121 da referida acta). É ainda referido no dito ofício que:
O espolio da associação consta d’uma porção de livros nacionaes e estrangeiros e d’objectos de mobília, estantez, mesa e algumas cadeiras e bancos e d’uma quantia de cento e trinta e três mil e quinhentos reiz proveniente dum pequeno capital que tinha e das ultimas quotas recebidas.
São também impostas as seguintes condições pela antiga Direcção:
Que a biblioteca será conservada, permittida e facilitada a leitura gratuitamente no edificio da Camara e tambem um domicilio, mas somente sob a condição do pagamento d’uma quantia annual, feito adiantadamente no acto da subscripção.
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Dá-se também conta do facto de que ― da biblioteca andam ainda nas mãos dos antigos sócios ou extraviados muitos livros‖ e que para o empréstimo domiciliário poderia o ―subscriptor pagar annualmente mil reiz‖.
Fig.12-Jornal ―Castellovidense‖, nº55 de 27/02/1910
Curiosamente, na acta de 27 de Janeiro de 1902 é pedida e aprovada a criação de um ―pelouro de beneficiencia e biblioteca‖, em que é proposto a ― conservação e augmento da biblioteca que esta câmara actualmente possui‖ (verso da página 168 do livro de actas).
A Biblioteca Associativa transformou-se em Municipal. Instalada nos Paços do Concelho durante algum tempo, foi votada ao abandono. Mais tarde, em 1908, foi reforçada com um legado de 3147 volumes feito pelo professor Dr. José António Serrano (acta de 9 de Junho de 1905, p.136-verso), tendo então sido iniciado o seu funcionamento.
Fig.13 - Jornal ― Castellovidense‖, nº14 de 27/07/1908
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Laura Lisboa, a herdeira dos livros de José António Serrano, ofereceu à Câmara, além da sua vasta biblioteca, também duas estantes (acta de 22 de Setembro de 1905,pág.150-verso). Alfredo Lecocq, antigo director geral de agricultura lega também 1308 volumes, na maior parte sobre as diferentes especialidades das ciências físico-quimicas e agronómicas. O capitão Tomé Gomes Pereira deixa também um legado de 322 volumes (Coelho, 1927:27)
Os castelovidenses demonstravam interesse em ter acesso aos livros do Grémio.
Esteve muito tempo guardada na sala do tribunal de Castelo de Vide, por não ter sede própria.
Fig.14 - Jornal ―Alto Alemtejo‖, nº12, ano 1, de 12/07/1908
Em 1909, a Câmara Municipal resolve contratar o Dr. João Cordeiro para catalogar os livros da Biblioteca. Nesta altura houve por parte da Câmara a preocupação em mandar construir estantes próprias para os livros.
Fig.15 - Jornal ―Castellovidense‖, nº44, de 12/12/1909
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Pouco tempo depois, mais uma vez a Biblioteca Municipal é esquecida, até que Raposo Repenicado é incumbido da sua reorganização (1938), numa altura em que regista cerca de 11 000 volumes. Pela primeira vez se elabora um ficheiro, um catálogo e um regulamento. Funcionava então nas duas salas do rés-do-chão, no edifício dos Paços do Concelho.
A morte do responsável, Adolfo Marmelo, e um ataque de parasitas, levou de novo ao seu encerramento. Os livros foram colocados em depósito numa sala voltada para a Praça D. Pedro V.
Várias comissões, vários projectos tiveram lugar nos anos setenta, mas a nada levaram. A lacuna foi provisoriamente preenchida pela Biblioteca Itinerante da Fundação Gulbenkian. Em 1982, a Câmara Municipal retirou de novo os livros do esquecimento. A Biblioteca Municipal ocupava as duas salas do rés-do-chão dos Paços do Concelho, viradas para a Praça D. Pedro V. Mas menos de dez anos depois, volta à situação precária e é instalada provisoriamente e sem condições na Rua Almeida Sarzedas.
A actual Biblioteca Municipal, à qual foi atribuído o nome de Possidónio Laranjo Coelho, está instalada em edifício próprio, legado por este ilustre Castelovidense para esse mesmo fim à Câmara Municipal, e recebeu o apoio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e fundos FEDER.