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5.1. Tartışma ve Sonuç

5.1.1. Öğrencilerin Okuduğunu Anlama Becerileri ile İlgili Sonuçlar

Apesar de o trabalho objetivar entender como ocorreram os embates políticos nos debates do Procultura, através da análise das diversas vozes e discursos envolvidos nos espaços participativos, bem como de suas principais demandas, é preciso entender de que forma isso se refletiu, efetivamente, na elaboração do texto do projeto de lei.

O Substitutivo apresentado pela deputada Alice Portugal para ser discutido no Encontro Nacional do Procultura mostrava algumas correções e adequações no anteprojeto enviado pelo Executivo, já resultantes das audiências públicas promovidas pela relatora.

No texto levado ao Encontro, que antecedeu a votação na Câmara dos Deputados, apontava-se como questão central a busca pelo equilíbrio na distribuição regional dos recursos. Isso se apresentava como um item prioritário desde o anteprojeto de lei elaborado pelo Ministério.

Alice Portugal iniciou seu relatório destacando outros oito projetos de lei apensados, onde: 5 deles (PL nº 1.139/07, PL nº 2.151/07, PL nº 2.575/07, PL nº 3.301/08 e PL nº 3.686/08) eram voltados à distribuição regional mais equilibrada dos recursos; um (PL nº 4.143/08) visava incluir novos objetivos para o Fundo Nacional de Cultura (FNC) e alterava sua forma de administração, além de também propor mudanças quanto à distribuição; um (PL nº 6.722/10), relativo ao projeto de Lei do Procultura, elaborado pelo Executivo e tocando em vários aspectos de mudança na Lei Rouanet; e, por último, o PL nº 7.250/10, que fazia a proposta de elevação no limite da dedução das doações para projetos culturais, da alíquota de 4% para 6% do imposto de renda devido, além de elevar o percentual da soma das deduções relativas às contribuições para os fundos de direitos da criança e do adolescente e aos projetos culturais no âmbito do PRONAC.

O PL 6.722/10, como destacou-se ao longo dessa pesquisa, era resultado dos diálogos promovidos pelo Ministério da Cultura junto ao setor cultural, por meio das consultas

públicas. Foi esse projeto de lei que Alice Portugal destacou como "mais abrangente", elencando seus principais aspectos: Fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura - FNC e criação de fundos setoriais, transferência direta de seus recursos para Estados, DF e Municípios, para co-financiamento de projetos culturais, criação de conselhos com a participação da sociedade, descentralização dos recursos, superação das desigualdades sociais e disparidades regionais, apoio a segmentos sociais e identitários historicamente desconsiderados, reconfiguração da aliança entre o poder público e o mercado para a promoção da cultura, com a participação financeira balanceada de fontes da iniciativa privada, do incentivo fiscal, do FNC e do orçamento público.

A estrutura do projeto de lei e os pontos recorrentes nas discussões do Procultura ao longo da consulta pública online, apontavam as demandas da sociedade civil distribuídas e avaliadas em oito blocos: 1) Estrutura e objetivos da Lei; 2) Fundo Nacional de Cultura - FNC e Fundos setoriais; 3) Incentivo fiscal: Critérios e faixas de renúncia; 4) Implementação do Fundo de Investimento cultural e artístico - Ficart; 5) Implantação do Vale-Cultura; 6) Desconcentração territorial de recursos; 7) Critérios de seleção dos projetos culturais; 8) Gestão e fiscalização dos recursos investidos.

Tendo esses blocos como diretrizes, o governo propôs uma série de mecanismos, também abordados no relatório da deputada: o fortalecimento do FNC como principal mecanismo de investimento; a criação de fundos setoriais; a inserção da participação civil no processo de composição da lei; a transferência de 30% dos recursos do FNC aos entes federados, como uma adequação às diretrizes do Sistema Nacional de Cultura; a destinação de recursos para as regiões, de modo a resolver o problema da concentração de verbas no Sul e Sudeste; a criação do Vale-Cultura47.

Considerando a dimensão do Procultura, Alice Portugal assumiu o projeto como texto-base para seu Substitutivo, agregando algumas modificações resultantes das audiências, tais como: apoio à produção independente (demanda que pode ser visualizada no discurso de Odilon Vagner); dotação para o FNC equivalente ao limite anual de renúncia fiscal; ampliação da base de patrocinadores e investidores privados; formulação de critérios objetivos para a análise de projetos (o que também se expressou em alguns discursos analisados nesse primeiro momento). Algumas mudanças foram sugeridas no pré-relatório de Alice Portugal, como destaca o quadro abaixo:

47 Posteriormente, o Vale Cultura foi elaborado através de lei específica, Lei nº 12.761, de 27 de dezembro de

QUADRO 3 - MUDANÇAS DO PROJETO ORIGINAL DO PROCULTURA PARA O SUBSTITUTIVO EM ANÁLISE NA CEC

Fonte: Portal da Câmara dos Deputados.

A postura de Alice Portugal durante o Encontro apontava uma compreensão da modificação da Lei Rouanet como algo fundamental às políticas culturais do país. A disposição para efetivar o debate e produzir um texto sólido, que conseguisse responder às principais questões da esfera civil, também foram sentidas nos discursos e no envolvimento da relatora com o processo.

Após a realização do Encontro, que encerrou o ciclo de debates, a relatora efetuou alterações no texto de seu relatório e do substitutivo, contemplando grande parte do que havia

sido levantado na discussão.

Em seu relatório, apresenta inicialmente um panorama de como foi constituída essa nova proposta: como um resultado de um debate ampliado, que passou por São Paulo, Salvador, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro. A deputada afirma uma parceria mantida com o Ministério da Cultura, ressaltando a atuação dos dois ex-ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira no sentido de motivar uma aproximação dos segmentos culturais com esse debate. Alice Portugal agradeceu a comunidade artística composta por artistas, produtores, patrocinadores, autores, arte-educadores, técnicos, gestores da cultura, afirmando que são estes atores que "criam, enriquecem, preservam e apóiam a cultura brasileira e, assim, contribuem para tecer a identidade nacional".

A deputada prosseguiu elencando as principais demandas incorporadas ao seu texto, bem como nomeando seus autores. A preocupação em apontar os nomes de quem sugeriu cada alteração reitera a importância atribuída pela deputada às vozes presentes no Encontro, promovendo um espaço participativo que resultou, a princípio, em decisões políticas com base nas participação civil.

A primeira sugestão incorporada referia-se a uma reivindicação de Hilton Cobra48,

representante de uma companhia de teatro no Rio de Janeiro com foco na dramaturgia negra, em parceria com o bando de teatro Olodum, que fez uma solicitação de que a Comissão Nacional de Incentivo e Fomento à Cultura - CNIC assegurasse uma composição baseada na diversidade cultural e regional.

Em relação ao desequilíbrio regional dos recursos, a deputada afirmou que essa havia sido uma proposta recorrente feita pelos parlamentares e reiterada pelo Professor Marcelo Dantas, da Universidade Federal da Bahia, durante o Encontro. Apontou o atendimento dessa questão pelo art. 22, que afirma que "os critérios de aporte de recursos do FNC deverão considerar a participação da unidade da Federação na distribuição total de recursos federais para a cultura, com vistas a promover a desconcentração regional do investimento, devendo

48 Discurso de Hilton Cobra no Encontro Nacional do Procultura: "E elas [as instituições] têm de fazer uma

comissão que realmente atenda e seja representada pela diversidade cultural brasileira, o que absolutamente não acontece. Eu fiz parte de comissão, e nela havia projeto de espetáculo de teatro com bumba-meu-boi. A comissão disse: "Isto é déjà vu". Ao mesmo tempo, porém, uma peça de Nelson Rodrigues, montada 300 milhões de vezes, não é déjà vu. Tudo isso é muito interessante para a cultura, mas continuará não nos atingindo, não nos contemplando. É pouco dizer que a comissão é constituída pela sociedade civil, Deputada. É preciso dizer que a diversidade cultural do País tem de estar representada nas comissões, senão não vai nos atender. Falo em nome em nome de 150 grupos de teatro e de dança espalhados por todo o Brasil, e deles somente o Bando de Teatro Olodum é contemplado com patrocínio, os demais 149 não têm qualquer participação de dinheiro de patrocínio ou público.

ser aplicado, no mínimo, dez por cento em cada região do País".

A sugestão de Chico Simões, acerca de algumas manifestações que ficavam ocultas nesse debate e que não conseguiam responder à burocracia da lei, foi apontada por Alice Portugal como algo relevante, mas que não poderia ser incorporada como dispositivo no projeto de lei, mas a partir de uma articulação junto ao Ministério, IBGE e representantes de outros segmentos artísticos.

Geraldo Moraes, cineasta, também foi referenciado no relatório, destacando a proposta de apoio à capitalização das empresas culturais. O parecer da deputada ressaltou que a política cultural não se esgotava no Programa e que tinha uma natureza mais sistêmica. Dessa forma, apontou outros instrumentos já utilizados pelo Governo Federal que respondem a esse tipo de demanda, como o microcrédito cultural e as incubadoras culturais.

Para os critérios de seleção e classificação dos projetos, foram definidas algumas pontuações baseadas em: disponibilização gratuita do produto cultural resultante da ação, visando uma democratização do acesso à cultura por meio da distribuição desses produtos nos mais diversos canais, sem fins comerciais.

A inclusão de arte-educadores como possíveis beneficiários de bolsas de estudo, pesquisa e residências artísticas foi uma outra pauta incorporada ao texto. Apresentadas na fala de Alfredo Manevy durante o Encontro, essas bolsas e prêmios foram apontadas como resultado de uma desburocratização do Fundo Nacional de Cultura, que em seu discurso era significado como "um inferno na vida cultural, que inviabiliza a vida do produtor e dos artistas em relação ao Estado".

Outra alteração no projeto original foi a inserção do esporte como uma das áreas apoiadas em ações e projetos que tenham como mote a transversalidade da cultura, podendo ser resultado de debates que antecederam o Encontro ou fruto de discussões dentro do próprio contexto do parlamento, já que essa demanda não se expressou no Encontro em questão.

Em resposta à sugestão da Cooperativa Paulista de Teatro, que propôs que o Prêmio Teatro Brasileiro estivesse definido na lei, e não em regulamento, a deputada negou a incorporação sob a argumentação de que o processo de tramitação da lei no Congresso Nacional poderia acarretar prejuízos à implantação do prêmio, e finalizou reforçando que a previsão desse prêmio em lei já garantia sua institucionalização.

As últimas propostas acolhidas no relatório da deputada e incorporadas ao texto do substitutivo foram enviadas pela Petrobras, que solicitou a inserção do patrocínio incentivado no artigo 27, que antes englobava somente doação, e o Instituto Brasileiro de Museus - Ibram, que demandou a inclusão do Fundo Setorial de Museus e Memórias nos beneficiados pela

regra do art.18, que prevê a destinação de um percentual do Fundo entre 10% e 30% aos fundos setoriais.

Partindo dessas considerações acerca do relatório e do texto substitutivo de Alice Portugal, é possível entender que o discurso e os interesses ministeriais, do parlamento e da sociedade civil confluíam no mesmo sentido. A natureza do anteprojeto de lei enviado pelo Ministério, que já havia tido uma grande aceitação por parte dos segmentos culturais, foi mantida, resultando na elaboração de um projeto de lei que, de acordo com o MinC, havia sido aperfeiçoado com a incorporação dessas outras demandas.

É importante ressaltar que, nesse momento da discussão, a correlação de forças era favorável à consolidação de um projeto que resolvesse os problemas mais significativos da Rouanet, resultantes do processo de escuta da sociedade civil. Esses interesses confluentes se manifestaram nos discursos proferidos no Encontro, que não se confrontavam, gerando reflexos, inclusive, na postura do empresariado ao longo das discussões, por meio do reforço do discurso da participação civil e do silenciamento em relação às questões polêmicas que lhe diziam respeito.

No dia 8 de dezembro de 2010 foi aprovado na Câmara o primeiro substitutivo ao projeto de lei do Procultura, com características que criavam nos segmentos culturais uma perspectiva de constituição de uma política cultural mais fortalecida e adequada ao campo artístico. Nessa instância de debate, portanto, foi possível perceber o resultado da participação civil na tomada de decisão política, democratizando o Estado e fortalecendo atores sociais, ainda que estes não ocupassem posições hegemônicas. Essa incorporação das demandas acabou gerando grandes expectativas ao setor cultural: o Procultura era apontado como a resolução de todos os problemas da Rouanet. A concentração de expectativas em torno da nova lei se baseava no discurso de que, a partir dela e por ela, seriam resolvidas os conflitos entre Estado, mercado e sociedade civil no manuseio dos recursos públicos e na avaliação de projetos. É preciso, contudo, pensar a lei sobre o ponto de vista de sua operacionalização, como destaca Henilton Menezes no Seminário analisado a seguir. A Lei, por si só, sem um conjunto de outras ferramentas, não responde às necessidades dos processos culturais.