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3- Araştırmanın Sınırlılıkları

1.2. ÖĞRENCİ KAZANIMLARININ ÖNEMİ VE ÖZELLİKLERİ

a) Analisador 1: CAPS atendem portadores(as) de transtornos mentais severos

Seguindo por nosso percurso chegamos aos CAPS, onde entrevistamos a coordenação e os dois psiquiatras que estavam de plantão no dia. O acesso aos prontuários bem como aos profissionais e gestores foi bastante tranquilo e facilitado. Não houve resistência alguma por parte dos profissionais em participar da pesquisa, ao contrário, julgaram bastante importante a problemática alegando que a violência contra as mulheres era um problema presente no cotidiano dos CAPS.

Mesmo assim, as respostas sobre a existência e visibilidade de mulheres em situação de violência que procuram o CAPS é relativizada pelos profissionais. Enfatizaram que a violência física não é um fato muito comum no cotidiano do serviço:

Até porque é muito velado, né? Eu acho que em qualquer outro local é assim. Mas, a gente percebe as outras violências: “ah, porque você não pode fazer isso, porque você é louca, porque você não tem condições de cuidar do seu filho, porque você é doida”. Eu considero uma forma de violência. São formas de violência dizer pra pessoa que ela não pode fazer determinada coisa porque ela tem um transtorno. (Profissional do CAPS)

Outro profissional alerta para a falta de visão para estas questões por parte da equipe, como um fato que não foi “trabalhado” para ser visto: “Eu posso não estar com a minha visão aberta pra observar essas coisas porque às vezes está na nossa frente e a gente não está vendo. A gente às vezes não trabalhou pra estar enxergando determinadas coisas” (Profissional do CAPS).

Não há protocolos nos CAPS que definam procedimentos iniciais na chegada das usuárias, tampouco que notifiquem as situações declaradas de violência contra as mulheres de forma geral. O CAPS trabalha com o acolhimento e depois com o

procedimento da triagem e a questão da violência poderia ser aprofundada somente depois do acolhimento inicial:

Para essa questão da violência de fato não tem nada de instrumento dentro do acolhimento, a não ser que surja. Porque no acolhimento você faz uma escuta, entende que demanda a pessoa traz, um pouquinho da historia da doença da pessoa, mas não tem uma coisa direcionada pra questão da violência. Quando surge a gente aprofunda na própria triagem. (Profissional do CAPS)

Fica claro, segundo o trecho acima, que as equipes dos CAPS também trabalham sob “demanda” numa espécie de atendimento ambulatorial acolhendo aquilo que chega no cotidiano do trabalho, desde que seja caracterizado como transtorno mental severo.

Os CAPS, segundo a equipe, atendem exclusivamente os transtornos mais severos e utilizam a política do encaminhamento quando a demanda não é pertinente à clientela atendida pelos CAPS:

Se for questão de ambulatório, a gente faz os encaminhamentos ou outras questões que às vezes nem são casos pra CAPS, a gente faz os encaminhamentos necessários. Os CAPS são serviços substitutos para atendimento de pessoas portadoras de transtornos mentais severos que precisam de acompanhamento diário. (Profissional do CAPS)

Ainda em resposta à questão supracitada:

A gente realmente não aborda esse tema porque a gente realmente vê essa pessoa de uma forma muito mais abrangente de maneira holística, então o que a gente vai recebendo e aquilo pode ser uma causa ou um sintoma ou que aquilo ali no momento da vida dela não está bem, a gente atua em relação a isso, de dar esse suporte, de acolher, de comprometer também a família nesse suporte. (Profissional do CAPS)

Segundo este profissional, olhar a usuária de mareira mais brangente não inclui questionar sobre a violência, ao especificar um olhar nesta perspectiva deixaria de ser holístico.

De maneira geral, nos serviços substitutivos à atenção hospitalocêntrica, nos CAPS as respostas em relação aos procedimentos iniciais foram: preenchimento de ficha de acolhimento, triagem a respeito de dados clínicos e dados sociais. Não há procedimento formal e não há abordagem para a temática da violência. O apoio da família da usuária como fonte de fornecimento de informações, a realização de atendimento individual, escuta clínica no atendimento psicológico são as maneiras encontradas para abordar a questão.

A equipe pensa que um modelo interessante para abranger a problemática da violência seria a política de apoio matricial realizada pela Atenção Primária em Saúde nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Ainda segundo os profissionais entrevistados, a ideia seria que a própria equipe do Centro de Referência poderia realizá-lo para as equipes das UBS. Pois, afirmam que é muito difícil agir preventivemente em relação à questão da violência. Consideram, mesmo assim, que as equipes deveriam ter a percepção de que algo está errado com a paciente, mas que é muito difícil essa percepção no cotidiano, devido à grande demanda de casos de transtornos mentais severos.

A interface entre os dois fenômenos é apontada como significamente positiva por toda a equipe, porém para os mesmos, há de se realizar a diferenciação de sintomas entre os Transtornos Mentais Comuns e os Transtornos Mentais Graves. No trecho abaixo vemos a predisposição biológica (genética) se sobrepor sobre alguns determinantes sociais para a saúde mental:

Às vezes nem precisa sofrer a violência física especificamente. Só em ter vivenciado uma situação de violência. Uma criança que teve uma história de violência dentro de casa, ela pode vir a desenvolver uma depressão, um quadro de ansiedade, pode desenvolver uma crise de pânico... Lógico. Uma esquizofrenia não, né? Uma esquizofrenia pode até ser, mas acho que uma esquizofrenia está bem ligada mesmo à genética, se você realmente tem essa predisposição é muito difícil que você não desenvolva. Uma bipolaridade... mas acho que é possível que você desenvolva a partir de uma situação de violência quando tem a disposição. (Profissional do CAPS)

A equipe revela não ter conhecimento em relação às politicas públicas para mulheres. Somente informações advindas do cotidiano e mídia televisiva. Ressaltam que estas políticas são muito específicas (idoso, criança, mulher) e, tal fato, dificulta a articulação e comunicação entre os diferentes serviços.

Ao solicitar que descrevessem algum caso atendido em que hovesse a interface entre os fenômenos, relatam um caso bastante “violento” e como relatado no CRMC/RN esta narrativa é sangrenta e de difícil aproximação com a realidade. Por que estes relatos vêm com tanto sangue? Será que a violência contra as mulheres ainda é somente ligada a assassinatos, cenas bizarras e macabras? Será que estamos longe ainda de pensar que a violência também pode ser algo sutil, instituído nos cotidianos e normativas que regem nossas vidas? Ou será que estas mulheres só procuram ajuda quando o sangue já está derramado? As duas ideias se sobrepõem, pois quando não consideramos as violências do cotidiano, as violências institucionais silenciadas, as mesmas crescem e ganham visibilidade vermelha, roxa... para que sejam vistas! Esta violência é mais visível, claro. Porém, é preciso chegar a estas cores?

Outro ponto em comum observado nas duas equipes é o relato em que a usuária tinha uma vida “normal” antes de ter sofrido as violências. Obervamos o peso sangrento deste relato:

Uma usuária falou que ele cravou nela, no crânio, um pedaço de estaca e ela saiu na rua com essa estaca, atordoada inconsciente sem saber direito onde estava. E aí uma pessoa, quando ela chegou num determinado ponto, foi conversar com ela e a levou ao hospital. O que me chamou atenção foi porque pelo relato dela e de um familiar que estava acompanhando é que ela tinha uma vida comum até esse fato e, após esse fato, ela se encontra com alucinações e apresenta também um pouco de retardo mental. Ela ficou hospitalizada durante dois meses depois dessa agressão. O que eu sei pelo que foi dito é que não se abriu nenhuma investigação, ela não denunciou, não foi feito nada. (Profissional do CAPS)