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Pela via Convencional, segundo Felipe Gómez Isa (1999, p. 76; 130 et seq.), é possível identificar o direito ao desenvolvimento analisando os instrumentos convencionais de direitos humanos. Nesse sentido, observa o autor, constata-se que, salvo a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, nenhum outro Tratado internacional de âmbito universal ou regional reconhece expressamente o direito humano ao desenvolvimento.

Por isso, pela sua importância, transcrevemos na integra e comentamos alguns extratos da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos.

A Conferência de Chefes de Estados e de Governo membros da OUA (hoje UA), realizada em 27 de junho de 1981, em Nairobe-Quênia, adotou a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (CADHP ou Carta Africana) que entrou em vigor a 21 de outubro de 1986 e foi ratificada por 53 países membros56.

No Preâmbulo da Carta Africana reafirmam-se alguns princípios e valores sobre os quais se inspiraram os seus redatores: a) consideraram a liberdade, a igualdade, a justiça e a dignidade como objetivos essenciais para a realização das legítimas aspirações dos povos africanos conforme prevista da Carta da OUA; b) tiverem em conta a adesão aos conteúdos da Carta das Nações Unidas e a DUDH e os valores das tradições e civilização africanas na concepção dos direitos humanos e dos povos; c) a correlação entre direitos e deveres; d) a indivisibilidade entre direitos civis e políticos e direitos econômicos, sociais e culturais tanto na sua concepção como na sua universalidade, uma vez que a satisfação dos direitos

56 COMISSÃO AFRICANA DOS DIREITOS HUMANOS E DOS POVOS. Carta Africana dos Direitos Humanos

econômicos, sociais e culturais garante o gozo dos direitos civis e políticos; e) convencidos e que é essencial dedicar particular atenção ao direito ao desenvolvimento.

Nessa conformidade, a Carta Africana reconheceu os direitos dos indivíduos e dos povos e estabeleceu deveres que, a título de exemplo, são adiante identificados: Aos

indivíduos reconhece o direito à igualdade perante a lei (artigo 3.º), direito à vida e à

integridade de sua pessoa (artigo 4.º), direito ao respeito da sua dignidade inerente à sua pessoa humana e ao reconhecimento da personalidade jurídica (artigo 5.º), direito à liberdade e à segurança da sua pessoa e suas garantias judiciais (artigo 6.º e 7.º), direito à informação e a liberdade de expressão e de opinião (artigo 9.º), direito de associação (artigo 10), direito de reunião e manifestação (artigo 11), direito de participação política (artigo 13), direito de propriedade (artigo 14), direito ao trabalho em condições equitativas e satisfatórias e salário igual por trabalho igual (artigo 15), direito à saúde física e mental (artigo 16), direito à educação (artigo 17). Nesse âmbito, é dever do estado promover e proteger os valores tradicionais reconhecidos pela comunidade no quadro da salvaguarda dos direitos humanos, proteger a família inclusive zelar pela eliminação de todas as formas de descriminação da mulher e proteger as pessoas idosas e as crianças (artigos 16 e 17).

A Carta reconhece também o direito dos povos57 à autodeterminação, a partir da qual todo o povo determina seu estatuto político e assegura o seu desenvolvimento econômico e social (artigo 20), direito dos povos à livre disposição das suas riquezas e dos seus recursos naturais (artigo 21), direito dos povos ao desenvolvimento econômico, social e cultural no

estrito respeito de sua liberdade e identidade (artigo 22), direito à paz e à segurança (artigo

23) e direito a um meio ambiente geral e satisfatório propício ao desenvolvimento (artigo 24). Os deveres individuais previstos na Carta são, por exemplo, os seguintes: deveres para com a família, a sociedade, o Estado e para com entidades legalmente reconhecidas e para com a comunidade internacional (artigo 27); dever de preservar o desenvolvimento harmonioso da família, de servir a comunidade, preservar os valores culturais africanos positivos em espírito de tolerância e diálogo (artigo 29, n. 1, 2, 7). O artigo 27 n. 2 da Carta prevê quatro possibilidades em que o exercício dos direitos e liberdades nela previstos podem ser limitados sempre que esbarrarem: a) nos direitos de outrem, b) na segurança coletiva, c)

57 Os direitos dos povos têm a função legal de complementar os direitos individuais e de preencher as lacunas dos direitos humanos quando os direitos individuais se manifestam insuficientes para proteger a dignidade da pessoa humana. Quer sejam direitos humanos individuais quer sejam direitos de titularidade coletiva, todos visam assegurar a proteçao da dignidade da pessoa humana. Por esta razão, no Direito Internacional dos Direitos Humanos, os direitos dos povos são compreendidos como direitos humanos em sentido lato. Deste modo, no Direito Internacional dos Direitos Humano podem ser identificados duas categorias de direitos, nomeadamente, os direitos de titularidade individual (Direitos Humanos em sentido restrito) e os direitos de titularidade coletiva, os direitos dos povos (direitos humanos em sentido amplo) (ALMEIDA, 2011, p. 101-102).

moral da comunidade, d) e interesse comum. Em segundo, o indivíduo tem o dever de respeitar os seus semelhantes sem nenhuma discriminação promovendo, deste modo, o respeito e a tolerância recíprocos (artigo 28).

No que concerne aos deveres, na sua interpretação, Marcolino Moco (2010, p. 182) observa que a consagração de deveres na Carta Africana reflete duas realidades: a primeira tem a ver com o fato de na cultura africana não se concebe a pessoa numa perspectiva isolada ou individualista, sem a sua relação com a comunidade na qual vive. A segunda realidade tem a ver com “a intenção latente de cercear os direitos, as liberdades e garantias da pessoa, com consonância com o zelo pela soberania do Estado recém-constituído, e com a natureza menos democrática, na época da aprovação da Carta”. Por esta razão, mais adiante, Moco defende que “[...] sendo os deveres desta natureza simples correlativos dos direitos ou meras regras de carácter moral, ético e social, não se vê como pode o seu cumprimento ser exigível no âmbito das instâncias de controle [...].

Sobre a primeira realidade, Raúl Altuna (1993, p. 251 et seq.) descreve que nas sociedades negro-africanas, sobretudo de origem banto, considera-se que, para além da sua individualidade, a pessoa humana tem direitos e deveres dentro da comunidade, a sua liberdade individual relaciona-se com os imperativos da participação na comunidade e, por esta razão, é primordial a comunidade, a solidariedade, a comunhão e a interação, e é secundária, a autonomia dos indivíduos (ALTUNA, 1993, p. 209 et seq.; 251 et seq.).

Quanto à segunda realidade, Luciana Figueiredo Maia (2011, p. 192) sustenta que “parece haver uma intenção de mitigar o gozo dos direitos e liberdades através da imposição de deveres que, se forem exigidos tal como prescreve a norma sem uma interpretação benéfica [...], pode-se realmente ver alcançado o poder perdido [autoritário] e a violação dos direitos”. Por este motivo, acrescenta Maia, “parece ser tarefa da Comissão analisar o conteúdo dos deveres e estabelecer critérios de interpretação”.

Vincent Nmehielle (apud MOCO, 2010, p. 183) em feliz síntese afirma que não será pela inclusão dos deveres na Carta Africana que os Estados africanos serão estimulados a violar mais indiscriminadamente os Direitos Humanos no continente, pelo contrário, a sua consagração constitui um sinal positivo como elemento de harmonização das sociedades e de preservação do melhor que existe nas tradições africanas.

Assim, quanto ao seu conteúdo, a Carta Africana caracteriza-se por aglutinar no mesmo documento de proteção dos direitos humanos, os direitos de diversas dimensões/gerações, estabelecer deveres correlatos aos direitos e consagrar direitos dos

Marcolino Moco (2010) explicita que a matriz cultural africana influenciou a estrutura e o conteúdo da Carta Africana que inseriu alguns aspectos que a diferenciam dos outros instrumentos regionais dos direitos humanos, nomeadamente, a Convenção Europeia dos Direitos do Homem e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos.

Para Moco (2010) existem, entre outros, quatro aspectos que distinguem a Carta Africana. O primeiro aspecto é formal, isto é, diferentemente das outras convenções de direitos humanos, o instrumento africano designa-se por “Carta” e não “Convenção”.

O segundo elemento tem a ver com o fato de a Carta Africana consagrar num único documento os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) e os direitos de segunda geração (os direitos econômicos, sociais e culturais), diferentemente dos outros instrumentos regionais de proteção dos direitos humanos que tratam quase exclusivamente dos direitos civis e políticos remetendo os direitos de segunda geração para protocolos adicionais ou complementares.

O terceiro aspecto tem a ver com o fato de a carta consagrar um capítulo sobre os deveres na sua correlação com os direitos. “Na CADHP quando se fala em deveres deve entender-se por obrigações do indivíduo perante a família, a comunidade e as instituições nacionais [...]” (MOCO, 2010, p. 137).

O último aspecto, e talvez o mais relevante, tem a ver com fato de a CADHP, diferentemente dos outros sistemas regionais e universais de proteção dos direitos humanos, conter os chamados Direitos dos Povos58 (MOCO, 2010).

Por seu lado, neste contexto da Carta, Fatsah Ouguergouz (2003, p. 210-211) defende que no conceito de povo estão incluídos os cidadãos nacionais de um Estado, todos os habitantes e/ou população de um Estado, os povos sob dominação colonial ou racial, as comunidades indígenas e, finalmente, os grupos étnicos.

Sobre o reconhecimento de direitos humanos aos povos, já no parágrafo 5º do seu Preâmbulo, a Carta Africana reconhece “[...] que, por um lado, os direitos fundamentais do ser humano se baseiam nos atributos da pessoa humana, o que justifica a sua proteção internacional e que, por outro lado, a realidade e o respeito dos direitos dos povos devem necessariamente garantir os direitos do homem”.

58 Para aprofundamento interpretação do conceito de “povo” à luz da Carta Africana, Marcolino Moco (2008, p. 82) propõe três linhas de orientação: Primeira, refere-se a aquelas populações que por fatores históricos, geográficos e econômicos são discriminados pelos poderes centrais dos respetivos Estados. A segunda linha tem a ver com o fato de que o conceito de povo diz respeito aos grupos e minorias étnicas e ou raciais e seus respetivos territórios. A terceira linha inclui os povos que devido as suas especificidades civilizacionais que vivem em territórios de Estados africanos de estruturação moderna, não foram absolvidos por eles do ponto de vista institucional, econômico e cultural.

Nesse ponto, fica claro que os autores da Carta Africana não pretenderam desvalorizar os direitos de titularidade individual em proveito dos direitos de titularidade coletiva, o direito dos povos. Antes pelo contrário, eles esclareceram que os Direitos dos Povos (direitos humanos em sentido amplo) e os Direitos Humanos em sentido estrito (direitos individuais) complementam-se mutuamente e ambos visam assegurar a proteção da dignidade humana. (ALMEIDA, 2011, p. 104-105).

O reconhecimento de direitos humanos aos povos foi e tem sido objeto de alguma controvérsia doutrinária uma vez que os direitos humanos foram sempre associados apenas aos direitos individuais.

Não abordaremos detalhadamente esta questão em sede desse trabalho. No entanto, pode-se dizer com Marcolino Moco (2008, p. 73 et seq.; 2010, p. 173, 298) que os direitos dos povos reconhecidos na Carta Africana reforçam e complementam os direitos individuais universalmente reconhecidos e atende as especificidades culturais e políticas do continente africano.

Kellyne Laís L. A. de Almeida (2011, p. 97) observa que quando se fala em direitos dos povos deve-se ter em conta a sua titularidade e não o objeto dos direitos ou o mero exercício coletivo dos mesmos. Nesse sentido, os direitos dos povos caracterizam-se pela sua titularidade coletiva, independentemente do tipo de bem jurídico tutelado, que pode ser direitos de liberdade, igualdade ou solidariedade.

De certa forma, a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos consagra nos artigos 19, 20, 21, 22, 23 e 24 vários tipos de direitos dos povos. Associando o direito dos povos aos direitos de primeira, segunda e terceira gerações ou dimensões, Fatsah Ouguergouz (2003, p. 210; 290 et seq.) apresenta a seguinte divisão: a) direitos de primeira geração/dimensão (liberdades) que inclui o direito dos povos à existência, à autodeterminação e à livre disposição das suas riquezas e/ou recursos naturais; b) direitos de segunda geração/dimensão que inclui o direito dos povos à igualdade e dignidade; c) direitos de terceira geração/dimensão que abarca o direito dos povos ao desenvolvimento, ao meio ambiente satisfatório, direito à paz e à segurança.

A CDHP trouxe uma nova abordagem do conceito de desenvolvimento, dispondo que “1. Todos os povos têm direito ao desenvolvimento econômico, social e cultural, no estrito respeito à sua liberdade e da sua identidade, [...]. 2. Os Estados têm o dever, separadamente ou em cooperação, de assegurar o exercício do direito ao desenvolvimento” (artigo 22); e ao direito a um meio ambiente geral e satisfatório propício ao desenvolvimento (artigo 24).

Assim, no âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos, a Carta Africana tornou-se o primeiro e, até o momento, único tratado internacional de proteção de direitos humanos que reconhece ou consagra expressamente o direito humano ao desenvolvimento.

Nesse âmbito de abordagem, Fábio K. Comparato (2007, p. 395 et seq.) sustenta que a Carta Africana foi o primeiro documento internacional a reconhecer os direitos humanos aos povos, o direito ao desenvolvimento e à preservação do meio ambiente. Sobre a preservação do meio ambiente, diz o autor que, refutando de antemão a objeção que era feita ao reconhecimento do direito ao meio ambiente, “a Carta Africana é a primeira convenção internacional a afirmar o direito dos povos à preservação do equilíbrio ecológico (art. 24). [...] a Carta o apresenta como condição do desenvolvimento nacional; ou seja, adota a tese do desenvolvimento sustentável” (2007, p. 403).

Este reconhecimento se justifica porque se, por um lado, os direitos humanos são universais, por outro lado, é por princípio de justiça, que todos os seres humanos tenham o direito de viver um padrão e qualidade de vida condizente com a dignidade da pessoa humana que, nos dias de hoje, resultam do desenvolvimento, quer ao nível interno nos países de origem, quer ao nível internacional.

Por outro lado, como bem observa Ana Teixeira Delgado (2001, p. 91) a “Carta refere- se a uma tríplice dimensão do direito ao desenvolvimento (econômico, social e cultural), cujo exercício deve ser garantido por meio da solidariedade dos Estados que compõem a sociedade internacional, externada sob a forma de cooperação”.

Por sua vez, Fábio K. Comparato (2007, p. 395-406) considera que a grande novidade da Carta consistiu também em afirmar que os povos são também titulares de direitos humanos, tanto no plano interno como na esfera internacional e, diferentemente dos documentos internacionais até então em vigor, ela vai mais além, inova e afirma os direitos dos povos à existência enquanto tal (art. 20), à livre disposição de sua riqueza e recursos naturais (art. 21), direito ao desenvolvimento (art. 22), à paz e à segurança (art. 23) e também à preservação de um meio ambiente sadio (art. 24).

Assim, na Carta Africana, o direito ao desenvolvimento é um direito positivo autônomo inserido da categoria jurídica dos Direitos dos Povos cujos titulares ativos são as comunidades humanas, isto é, os povos (populações e grupos étnicos dos Estados africanos) e os sujeitos passivos os Estados africanos individualmente ou em cooperação (artigo 22, n. 2) com a comunidade internacional (ALMEIDA, 2011). Esta questão é retomada com todo detalhe no capítulo terceiro no qual se analisa os consensos e dissensos no processo de reconhecimento do desenvolvimento como direito humano.

Quanto aos meios de proteção e monitoramento do respeito dos direitos elencados, a Carta atribui a competência para promover e proteger os direitos e liberdades a dois à Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (artigo 27). Nesse âmbito, mais tarde, foi adotado o Protocolo à CADHP sobre o estabelecimento do Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos, em 10 de junho de 1998 e entrado em vigor 25 de Janeiro de 2004, com objetivo de fortalecer e complementar o mandato da Comissão Africana e garantir a proteção dos direitos previstos na Carta Africana e noutros tratados africanos de direitos humanos.

2.6 OUTRAS CONVENÇÕES REGIONAIS DE DIREITOS HUMANOS: A CONVENÇÃO

Benzer Belgeler