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Çocuklarla Felsefe Eğitiminde Öğretmenin Rolü

2. YÖNTEM

2.10. Çocuklarla Felsefe Eğitiminde Öğretmenin Rolü

3.1 - Crato: da idade de ouro ao tempo da decadência

Nascido de um aldeamento de índios kariris, organizado por capuchinhos italianos na primeira metade do século XVIII, elevado à vila no ano de 1764 e cabeça de comarca desde 1816, o Crato passara à categoria de cidade pela resolução 623, do dia 17 outubro de 1853, promulgada pelo então presidente do Ceará, Joaquim Vilella de Castro Tavares. Cronologicamente, foi a primeira cidade criada no Cariri cearense e a quinta na província, sendo precedida por Fortaleza (1823), Sobral (1841), Icó e Aracati (1842).

A proeminência política dessa cidade em relação aos outros povoados da sua região pode ser explicada pelo sucesso das atividades agrícolas e comerciais lá desenvolvidas desde o início da sua colonização (DELLA CAVA, 1976, p. 27-28). Pela época da elevação à alçada de cidade, tais atividades passavam por um período de ampliação.

Assim sendo, o período de aproximação do cólera em relação ao Crato – entre 1850 e 1860 – coincide com um momento de consideráveis transformações na localidade, o que levou alguns estudiosos – como Irineu Pinheiro (1950) e J. de Figueiredo Filho (1868) – a apresentarem tais décadas como período de renascimento para a mesma e para o Cariri, afirmação baseada na observação de uma série de fatores políticos, econômicos e sociais que influíram sobremaneira no processo de afirmação dessa cidade enquanto liderança regional.

Para compreensão desse suposto renascimento – percebido a partir da comparação e

contraste, feitos pelos historiadores da região, entre uma época tida como de ouro e um tempo de decadência – faz-se necessário recorrer, rapidamente, a algumas fontes e à produção

historiográfica que se referem a temporalidades anteriores ao recorte dessa pesquisa.

Situado ao sopé da Chapada do Araripe, rica em fontes de água perenes, com solo fértil e menos vulnerável às secas que caracterizam a região que atualmente chamamos de

sertão nordestino, a agricultura no Cariri encontrava espaço propício para seu desenvolvimento. Não por acaso, a natureza do Vale do Araripe, em comparação à aridez das regiões circunvizinhas, chamou a atenção de viajantes que passaram pelo Crato. Em 1817, Aires de Casal, padre e geógrafo português, em sua Corografia Brasílica, afirmou que Crato era a vila mais mimosa de todo Ceará, devido a sua fecundidade:

Todas as arvores fructiferas do continente prosperam no fertil terreno do seu districto, onde se aproveitam as aguas correntes para regar as lavoiras, sem exceptuar os mandiocaes, quando lhes faltam as chuvas: razão por que se

recolhe superabundancia de mantimentos, que sam o recurso d‟outros povos, quando os annos sêccos experimentam carestia (CASAL, 1947, p. 231).

As peculiaridades ambientais do Crato e sua região também impressionaram o naturalista George Gardner, que lá esteve entre os anos de 1838 e 1839. Sempre tão ríspido diante do outro – como explanarei mais à frente, pela sua descrição das pessoas e dos

costumes do lugar –, o escocês dedicou alguns parágrafos de sua narrativa para descrever o espanto e êxtase que sentiu ao se deparar com a riqueza natural daquelas paragens:

Impossível descrever o deleite que senti ao entrar neste distrito, comparativamente rico e risonho, depois de marchar mais de trezentas milhas através de uma região que naquela estação era pouco melhor que um deserto.

A tarde era das mais belas que me lembro ter visto, com o sol a sumir-se em grande esplendor por trás da Serra do Araripe, longa cadeia de montanhas a cerca de uma légua para o oeste da vila [...].

A beleza da noite, a doçura revigorante da atmosfera, a riqueza da paisagem, tão diferente de quanto, havia pouco, houvera visto, tudo tendia a gerar uma exultação de espírito, que só experimenta o amante da natureza, e que em vão eu desejava fosse duradoura, porque me sentia não só em

harmonia comigo mesmo, mas “em paz com tudo em torno” (GARDNER,

1975, p. 92). Grifos meus.

No ano de 1859, Francisco Freire Alemão, médico e naturalista que presidiu a

Comissão das Borboletas,66 também escreveu em seu diário de viagem o quanto ficou impressionado com o ambiente em que a cidade se encontrava. De forma semelhante a Gardner, as particularidades físicas e naturais do vale, em comparação com o resto do sertão, era o que mais chamava a atenção de Freire Alemão. Em suas palavras, a chapada produzia um bonito panorama, deixando a bacia do Crato “toda vestida de vigorosa vegetação e formando contraste com o aspecto do sertão” (ALEMÃO, 2006, p. 234).

66

Ironicamente conhecida como Comissão das Borboletas, a Comissão Científica de Exploração foi instituída em 1856 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IGHB), com apoio do governo imperial. Sua meta era organizar uma expedição que percorresse o interior do país, começando pelas províncias do Norte, a fim de conhecer sua geografia e riquezas naturais, coletando material de origem orgânica e inorgânica para o Museu Nacional, promovendo, assim, a ciência brasileira. Como afirma Maria Silvia Porto Alegre, em um contexto caracterizado pela busca de uma identidade nacional, os ideólogos da comissão criticavam o apoio do Estado aos cientistas estrangeiros, os famosos viajantes, acusados pelo poeta Gonçalves Dias – membro da comissão – de disseminarem informações errôneas, repletas de idéias preconcebidas sobre o Brasil e os brasileiros (PORTO ALEGRE, 2003, p. 28). O país que até então só fornecia espécies vegetais, animais e minerais para as coleções e instituições estrangeiras, buscava agora produzir conhecimento, por meio da atuação de um grupo de renomados intelectuais da época, divididos em cinco sessões (botânica, geológica e minerológica, astronômica e geográfica, zoológica, etnográfica e narrativa de viajem), sob direção geral de Francisco Freire Alemão, naturalista fluminense (SILVA FILHO, 2006, p. 09). A expedição começou de fato no ano de 1859, pela província do Ceará, onde ficou até 1861. A estada da mesma no Crato foi de dezembro de 1859 a março de 1860.

Essas peculiaridades geográficas que impactaram tanto aos viajantes citados, foram basilares nos rumos da história regional. Como outros rincões do território brasileiro, o Cariri foi sendo ocupado pelos colonizadores a partir da expansão da pecuária, no século XVIII. De acordo com Ronald Albuquerque, os primeiros colonos da região eram, basicamente, pequenos criadores, agregados de famílias ricas, como os Ávilas, da Casa da Torre, na Bahia (ALBUQUERQUE, 2004, p. 95).

No entanto, a fertilidade e condições climáticas da chapada acabaram por patrocinar a atividade agrícola e o comércio com áreas circunvizinhas do Ceará – como os Inhamuns –, onde a pecuária desenvolveu-se com mais vigor e as condições climáticas eram inferiores às que caracterizavam o Cariri. Sua posição geográfica privilegiada – como destaca o mapa abaixo – igualmente, promovia o desenvolvimento de um comércio inter-regional com o interior da Paraíba, Pernambuco e Piauí: “Era do comércio articulado regionalmente que provinha sua exuberância. Comércio que teve sua origem associada à agricultura e cresceu apoiado na localização geográfica do Cariri, centro eqüidistante de todo o interior do [hoje] Nordeste” (ALBUQUERQUE, 2004, p. 107).

FIGURA 4 - Mapa do século XIX, com destaque meu para localização geográfica do Cariri cearense, particularmente, do Crato. Cartografia originalmente publicada no ano de 1849, no livro Travels in the interior of Brazil, do naturalista George Gardner.

Tais fatores atraíram homens de posses, que passaram a investir na produção agrícola, especialmente da rapadura e aguardente, e no comércio regional, passando a negociar com as regiões pecuaristas limítrofes. Já na segunda metade do século XVIII, os engenhos começavam a pontilhar os sopés da serra. De início, eram feitos à base de madeira – os famosos engenhos de pau – com moendas verticais puxadas por juntas de bois ou cavalos.

Com o passar do tempo, foram sendo substituídos por novas tecnologias. Entre 1840 e 1850, os primeiros engenhos de ferro eram instalados no Crato, bem como alguns movidos à água (PINHEIRO, 1950, p. 56).

A predileção pela fabricação de rapadura não se deu ao acaso. O açúcar produzido no litoral era praticamente inacessível para os habitantes do sertão, tendo em vista os altos gastos para transportá-lo por estradas penosas, só vencidas por burros de cargas. Diante de tais condições adversas, a rapadura do Cariri tornou-se um produto rentável:

A rapadura substitui o açúcar produzido na costa, principalmente entre as populações localizadas no interior pecuarista [...]. A rapadura, por sua vez, com as mesmas propriedades adoçantes, era um produto que exigia menos aparato tecnológico, menos recursos para sua produção, tornando-se, portanto, um produto barato e mais nutritivo por não utilizar técnicas de branqueamento que acabavam por reduzir o potencial alimentar do mesmo (ALBUQUERQUE, 2004, p. 105).

Ao contrário da lavoura canavieira do litoral, a mão de obra escrava não era a força principal dos engenhos caririenses. Para o brasilianista Ralph Della Cava, a mão-de-obra da região era composta basicamente por homens “nominalmente livres, sendo que, do ponto de vista racial, eram quase sempre mestiços e não de origem africana”. Acrescenta ainda que eles viviam “no limite mais baixo da subsistência e eram, de fato, permanentemente ligados à terra” dos donos de engenho de rapadura, daí por que eram conhecidos como agregados

(DELLA CAVA, 1976, p. 32).

O braço escravo era, deste modo, minoria na lida dos engenhos cratenses. Thomaz Pompeu de Souza Brasil, proeminente sacerdote, intelectual e político liberal oitocentista, em seu Ensaio Estatístico da Província do Ceará – publicado originalmente no ano de 1863 –,

oferece dados sobre a composição social da população do município do Crato, em meados do XIX, que corroboram a tese de que a maior parte do trabalho naquela época era exercida por homens livres pobres, como mostra a tabela a seguir:

TABELA 1 - População do Crato em meados do século XIX, classificada por sexo, cor e condição social

População Livre População escrava

Homens Mulheres Homens Mulheres

Brancos Pardos Pretos Índios Brancas Pardas Pretas Índias * *

2590 5151 621 56 2187 6850 703 32 726 665

Total de Livres: 18184 Total de Escravos: 1391

Total geral: 19575

Fonte: Tabela elaborada a partir de dados extraídos do Mappa Estatístico da Província do Ceará, de Thomaz Pompeu de Souza Brasil (1997a, p. 297).

* Não há classificação por cor para os escravos no documento.

Na tabela, é perceptível que a estimativa de homens livres era de cinco mil cento e cinquenta e um pardos, dois mil quinhentos e noventa brancos, seiscentos e vinte um pretos e cinquenta e seis índios. As mulheres livres somavam seis mil oitocentos e cinquenta pardas, duas mil cento e oitenta e sete brancas, setecentas e três pretas e trinta e duas índias. Já a População escrava era estimada em setecentos e vinte e seis homens e seiscentos e sessenta e cinco mulheres, não havendo na fonte classificação de cor para os cativos. O total de pessoas livres era, portanto, de dezoito mil cento e oitenta e quatro; e o de escravos de mil trezentos e noventa e um, o que resulta em considerável diferença numérica.

Ancorado na produção e comercialização regional da rapadura desde o setecentos, o Crato desenvolvia-se e ganhava espaço na política caririense e provincial, o que pode ser observado no papel desempenhado pela localidade na centúria seguinte, durante a Revoluçã o Pernambucana (1817) e a Confederação do Equador (1824), quando influentes famílias, sacerdotes e outros figurões da localidade estiveram entre os principais lideres de tais movimentos no Ceará. A influência política do Cariri em tais conflitos de independência atesta a força das redes de relações de poder tecidas por famílias economicamente abastadas, que estendiam suas ações ao nível provincial.

Por outro lado, é pertinente frisar que a região mediava relações entre o interior e o litoral, transmitindo, pelo deslocamento de caixeiros e pessoas, “aspirações e necessidades emergentes” (ALBUQUERQUE, 2004, p. 107). Nesse contexto, Crato – município mais desenvolvido da época e dono do maior número de engenhos de rapadura no sul do Ceará – delineava-se como proeminente liderança regional, com relações sociais, comerciais e culturais mais estreitas com a cidade do Recife, do que com Fortaleza. A distância do Crato

em relação às duas cidades é praticamente a mesma – cerca de seiscentos quilômetros – e a capital do Ceará, à época, não exibia vigor comercial que pudesse ser comparado à congênere pernambucana. A Fortaleza daquele tempo era apenas a “insignificante sede administrativa do Ceará”, nas palavras de Della Cava, para quem:

Os laços com Recife foram de importância política crucial durante o primeiro quartel do século XIX. A cidade-porto era o foco de fermentação de movimentos nacionalistas e separatistas cujas ideologias e cujos programas políticos foram introduzidos no Vale do Cariri por muitos cratenses ilustres (1976, p. 28).

Há de se destacar também que algumas famílias enriquecidas com a agricultura e o comércio, dispunham de cabedais suficientes para manter seus filhos em instituições de ensino superior, como o Seminário de Olinda, importante difusor do “espírito liberal e nacionalista” (CORTEZ, 2000, p. 21). Assim ocorreu com o político considerado liberal Pe. José Martiniano de Alencar, que, após participação efetiva nos movimentos de 1817 e 1824, conseguiu projeção suficiente para chegar à presidência do Ceará e ao cargo vitalício de senador.

No início da década de 1830, a Vila Real do Crato se envolveu em outro conflito armado, realçando mais uma vez seu peso político na província. Após a abdicação de Dom Pedro I, no ano de 1831, e até fins da década de 1840, uma série de revoltas estourou pelo país, de Norte a Sul (CARVALHO, 2008, p. 250). No Ceará, rebentou um conflito entre as vilas do Crato e do Jardim, que se estendeu de 1831 até o ano seguinte.

Indício da complexa conjuntura regencial, especialmente da polêmica centralizaçã o

versus descentralização, o conflito opôs liberais aos adeptos da restauração de Pedro I, esses últimos capitaneados pelo Cel. Joaquim Pinto Madeira, líder político e militar do Jardim. Ao final do confronto, os liberais cratenses saíram vitoriosos. Pinto Madeira foi condenado à morte, sendo fuzilado no dia 28 de novembro de 1834 (PINHEIRO, 1963, p. 119).

A produção de intelectuais caririenses do século XIX, continuada por estudiosos do século XX, instituiu uma Cultura Histórica – aqui entendida na conceituação de Jacques Le

Goff, como a relação que uma sociedade, ou, pode-se acrescentar, grupos sociais específicos, mantém com seu passado (LE GOFF, 2003, p. 48) – que deu destaque à participação das

elites67do Crato nos conflitos de 1817, 1824 e 1831.

67

O conceito de elites utilizado nesse trabalho está embasado nos estudos de Flávio Heinz, que as define

enquanto “grupos de indivíduos que ocupam posições-chaves em uma sociedade e que dispõem de poderes, de influência e de privilégios inacessíveis ao conjunto de seus membros” (HEINZ, 2006, p. 8). A identificação das

A consagração destas efemérides68 começou a ser engendrada já no século XIX. Não por acaso, o jornal O Araripe, do Partido Liberal, publicou, em 1859, uma série de textos intitulada Apontamentos para a história do Cariri, escrita pelo redator do semanário, João Brígido dos Santos. Posteriormente, tais artigos foram reproduzidos em periódicos de Fortaleza e Recife e, por fim, na forma de livro, no ano 1888. Em minha opinião, a obra de Brígido se constitui enquanto marco fundador da cultura histórica regional aludida a pouco.

O autor em questão, afirmava que ao escrever os Apontamentos estava guiado pelo “desígnio de representar, em um quadro fiel, os acontecimentos do Cariri, tão dignos de um profundo estudo” (BRIGIDO, 1888). Na sua história, o Crato surge como espaço central da região e a ação de determinados personagens da primeira metade do XIX – tais como Bárbara de Alencar, Tristão Gonçalves, entre outros – é representada sob a ênfase dos valores ditos

patrióticos, liberais e altruístas dos mesmos (CORTEZ, 2000, p. 24).

A descrição de humilhações e torturas sofridas por tais personagens após a derrota nos conflitos de 1817 e 1824, acabava por construir também uma imagem de martírio, de

sacrifício por uma causa maior: a independência política do Brasil. Para os segmentos das elites locais responsáveis pelo O Araripe, órgão do Partido Liberal, a participação dos cratenses em tais movimentos era apresentada como prova de que os princípios políticos que afirmavam defender já caracterizavam há muito a localidade. Nestes termos, asseveravam representar a continuidade de um projeto liberal que expunham como um caminho para a

civilização, projeto esse iniciado por heróis do passado.

Na trilha dessa cultura histórica, em meados do século XX, os historiadores do

Instituto Cultural do Cariri69 também centraram seus escritos na exaltação dos movimentos mesmas leva em conta alguns critérios, como a “detenção de um certo poder ou então como produto de uma

seleção social ou intelectual” (HEINZ, 2006, p. 8).

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Em referência às Efemérides do Cariri (1963), obra do médico e historiador Irineu Pinheiro (1881-1954). Livro de fôlego - com mais de quinhentas páginas -, é um dos mais relevantes para história regional, tanto pela ampla pesquisa documental que apresenta como pela tentativa do autor em instituir uma memória sobre o que considerava as datas, nomes e acontecimentos mais importantes ocorridos no Cariri.

69

O Instituto Cultural do Cariri (I.C.C.) foi fundado em 1953, por ocasião das comemorações pelo centenário de elevação do Crato ao foro de cidade. Seguindo a tradição iniciada em 1838, com a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), e que teve continuidade com a criação de academias ilustradas desse tipo por todo o país (SCHWARCZ, 1993), o I.C.C. constituiu-se como espaço privilegiado para o discurso dos intelectuais cratenses, representantes de elites em busca de referências sobre seu passado e que se celebrizou pela dedicação à construção de uma memória e história regional, com sua ação em prol da fundação de museus, construção de monumentos e símbolos, organização de festas cívicas, publicação de periódicos – como a revista Itaytera, publicada entre 1954 e 1999 – e de livros de história e de estudos folclóricos. Otonite Cortez, afirma que a produção do I.C.C. pautou-se basicamente em uma evocação do passado cratense, “rendendo homenagens

aos protagonistas” do mesmo, identificados como heróis por sua participação em movimentos políticos do século XIX e início do XX. Por outro lado, o pioneirismo na fundação da imprensa, escolas e de outros instrumentos culturais, era apresentado como prova da liderança civilizadora do Crato em relação à sua região, contribuindo para a construção simbólica da localidade como a cidade da cultura.Para a autora, a instituição trazia em si “um forte investimento estrategicamente orientado no plano discursivo e no plano das ações, no sentido de marcar

liberais do XIX. Tal período, de certa forma, acabou ganhando a conotação de era de ouro da história local, na qual o lugar adquiria projeção nacional, como assinala as palavras de exaltação proferidas a seguir: “No setênio de 1817 a 1824 nenhum município brasileiro, julgamos, excedeu ao Crato em brilho e lances de patriotismo” (PINHEIRO, 1953, p. 32).

Os intelectuais do I.C.C., nitidamente, buscaram representar o passado do Crato e das suas elites – de que se julgavam herdeiros – sob a ótica de um protagonismo nos episódios acima relatados, e os sujeitos históricos que tomaram parte dos movimentos citados – identificados nas pessoas de sacerdotes e famílias ricas – passaram a ser apontados como referências identitárias de uma cratensidade: “Ser liberal, heróico, patriótico era, pois, de

acordo com as representações dos intelectuais que plasmaram as marcas do passado cratense, uma característica da sua identidade, posto que os „heróis‟ daqueles movimentos liberais do século XIX eram cratenses” (CORTEZ, 2000, p. 25).

Embasada na leitura gloriosa de tais eventos, foi engendrada a interpretação de um

renascimento para o Crato em meados do XIX aludida no início deste subcapítulo –, isso porque, após a era de ouro dos conflitos liberais, o Crato teria vivido um período de

decadência, assim caracterizado por J. de Figueiredo Filho:

Após tais movimentos, houve período negro, quando o cangaceirismo tomou vulto, quase desequilibrando a vida normal da região. Houve como uma temporada de decadência na antiga Vila Real do Crato. A instrução pública como que parou. O gosto pela educação dos filhos enviados às cidades litorâneas, teve quase colapso total (1968, p. 48). Grifos meus.

Uma das principais fontes utilizadas pela historiografia do I.C.C. para a análise desse período, interpretado como de decadência, é o diário de viagem de George Gardner. O botânico produziu uma narrativa crítica e áspera, que revela indícios do choque de um homem uma distinção social e uma superioridade do Crato, por parte dos intelectuais e políticos cratenses”, em relação

ao Juazeiro do Norte, antigo distrito que emergiu econômica e politicamente em fins do século XIX, graças ao fenômeno religioso encetado pelo Pe. Cícero Romão Batista (2000, p. 63). Tendo em vista que Juazeiro, ao