3.3. Çocuğun Bir Kurumda Bakımını Sağlayan Uygulamalar
3.3.3. Çocuk Evleri
A expansão das atividades das associações negras conferiu um caráter vinculado, em princípio com a sociabilidade negra, mas objetivava o fim do regime escravista com o que consideravam que ocorreria a conseqüente inserção do negro na vida social e na política, desprovidos de preconceitos, ou seja, os negros objetivavam a cidadania. O pós-Abolição então, é aqui concebido enquanto um momento histórico de construção e busca pela liberdade (MATTOS; RIOS, 2005) apresentou como característica marcante a proliferação de espaços de associativismo negro. Teve-se então uma propagação de associações beneficentes, culturais, de assistência, auxílio mútuo, algumas das quais vinculadas às antigas ou ainda existentes Irmandades, enquanto outras surgiram da necessidade de proporcionar novos espaços para união dos negros.
Nesse sentido, a análise de Andrews (2007) sobre a população negra latino- americana exemplificou a diversidade de ocupações a qual se dedicou o associativismo negro em função da sociedade preconceituosa e discriminatória de fins do XIX e princípio do XX:
Mas foi justamente por causa dessa discriminação e desse preconceito – juntamente com a autopercepcão dos afro-descendentes prósperos como um grupo separado tanto da classe média branca quanto do proletariado negro – que este período testemunhou um florescimento das instituições culturais e sociais da classe média negra. De Havana a Buenos Aires, negros e mulatos excluídos das organizações sociais e cívicas brancas se juntaram para criar um universo paralelo dessas entidades. Estas incluíam clubes sociais de elite, [...] e outras, menos prestigiosas, porém mais numerosas, as “sociedades recreativas” (Cuba, Uruguai) e os “clubes de dança” (Brasil); associações atléticas [...] que patrocinavam times de futebol, competições de corrida e outros eventos; e organizações cívicas [...].
No limite entre os níveis inferiores da classe média negra e os níveis superiores do proletariado negro estavam as sociedades de ajuda mútua [...]; e na Argentina, no Brasil, em Cuba e no Uruguai (e talvez também em outros países, onde a pesquisa extensiva sobre as organizações negras da virada do século ainda esta por ser feita), uma ativa imprensa negra registrava as atividades desses grupos (ANDREWS, 2007, p. 160-161) 30.
30 O autor cita as seguintes associações como exemplo: El Progresso (Santiago, Cuba), Club Atenas (Havana), La Perla Negra (Santo Domingo), Kosmos (São Paulo) seriam clubes sociais de elite; Alianza Lima (Lima) e a Associação Atlética São Geraldo (São Paulo) seriam as associações atléticas; Federação dos Homens de Cor e o Centro Civico Palmares, no Brasil, e o Directorio Central de las Sociedades de Color em Cuba enquanto organizações cívicas; já as sociedades de ajuda mútua seriam o Centro de Cocheros (Havana), a Sociedade Protetora dos Desvalidos (Salvador) e La Protectora e o Centro Uruguay (Buenos Aires) (ANDREWS, 2007, p. 160-161).
As cidades mais antigas, com destaque para as que mantiveram suas atividades econômicas essenciais através da utilização de mão-de-obra escrava, como os primeiros centros econômicos, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador serviram de espaços de estudos interessantes nessa temática, os quais nos auxiliam a compreender o pós- Abolição. Nesse sentido, é possível destacar no Rio de Janeiro, entre fins do XIX e início do XX, principalmente em sua zona localizada no entorno do Porto, a formação
dos ranchos de reis31. Esta manifestação, repleta de luxo e beleza, é caracterizada por
Ana Maria Rodrigues (apud GOMES, 2008, p. 63) como a primeira manifestação em forma de desfile, por parte da população negra da cidade. Rachel Sohiet (1998, p. 157) destacou ainda a circularidade cultural dos negros destes ranchos, os quais muito provavelmente eram trabalhadores do Porto, entre estes, muitos oriundos da Bahia. Encontra-se aqui uma possível influência da festa e coroação de reis, a qual foi noticiada já em princípios do século XVI (LARA, 2002, p. 84).
A cidade de São Paulo no pós-Abolição, segundo nos apresenta Petrônio Domingues (2004; 2007) configurou-se também como um importante polo aglutinador dos negros brasileiros. O autor enfatizou o surgimento de uma rede associativa bem diversificada entre a ultima década do XIX e a primeira metade do XX, incluindo associações de cunho recreativo, cívico e beneficente. Estas possuíam, em geral, uma estrutura semelhante, a qual incluía estatuto e diretoria nomeada mediante eleições com os sócios, destacando entre seus objetivos a promoção de uma vida social aos negros, através de lazer, na qual se destacavam a realização de bailes pelos clubes sociais negros32.
Foi no período do pós-Abolição, conforme destacamos antes com a
exemplificação de Andrews, que começou a desenvolver-se a imprensa negra33.
Algumas associações buscaram divulgar ideias em torno dos problemas e anseios que alcançavam parcela da comunidade negra através de jornais próprios, como no caso do clube O Kosmos. Através destas atividades as “associações negras cumpriam, fundamentalmente, o papel de produtoras de uma identidade específica, de um ‘nós’, negros, em oposição a ‘eles’, brancos” (DOMINGUES, 2007, p. 348).
31 Sobre a cultura dos trabalhadores negros portuários no Rio de Janeiro ver: ARANTES (2005).
32 Analise especifica sobre clubes sociais negros ver capítulo II. Sobre negros em São Paulo, além da
bibliografia já citada, ver: ANDREWS (1998).
33 A Imprensa negra será discutida neste trabalho no capítulo III ao abordarmos o jornal negro pelotense A Alvorada.
As atividades em busca do lazer também foram destacadas para São Paulo por Olga Rodrigues de Moraes Von Simson (2007) ao buscar as raízes do carnaval negro na cidade. A autora relatou que os primeiros cordões carnavalescos da cidade surgiram em bairros com grande população de pobres e negros. Porém, foi ao buscar as raízes dessas organizações que a autora apresentou uma informação que vem ao encontro do que pretendemos demonstrar a partir de nossa construção acerca do associativismo negro quando rememorarmos as irmandades negras e o culto aos Santos Católicos. A partir de entrevistas a autora pode evidenciar que dentre as inúmeras influências culturais sobre estes folguedos estariam as festas de caráter religioso-profano e as realizadas em homenagem aos santos negros, como por exemplo, em prol de São Benedito. Além disso, a autora destacou que as comemorações carnavalescas não aconteciam apenas no carnaval, mas durante o ano inteiro através de reuniões e festas (VON SIMSON, 2007, p. 115-116).
Os negros gaúchos também buscaram organizar-se de maneira mais diversificada no pós-Abolição. Nesse sentido, é importante destacar a contribuição oferecida por duas pesquisas em específico, as quais apresentam uma analise ainda mais interessante à questão da identidade étnica, visto evidenciarem as fronteiras étnicas em virtude de centrarem seus estudos em locais de reconhecida colonização, alemã, como no caso do estudo de um clube negro de Novo Hamburgo; e italiana, estudo centrado
em um clube social negro de Caxias do Sul34. Destacaram-se assim, as atividades em
prol do lazer no Estado, conforme pontuado para as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, sendo que Müller (2008) percebeu o ano de 1870 como um marco nesta busca, conforme destacamos anteriormente. A autora destacou o aparecimento do expressivo número de 72 novas associações na cidade, somadas a um representante da imprensa
negra, o hebdomadário O Exemplo. A autora, como destacado em relação a Von
Simson (2007) também destacou uma raiz para essas associações, a qual ela concebeu como sendo a experiência de sociabilidade proporcionada pela Irmandade do Rosário na referida cidade. Müller caracterizou as associações negras porto-alegrenses a partir de três grandes grupos, os quais seriam:
[...] exclusivamente dançantes como, por exemplo a Sociedade Bailante União Universal [1905-1911] e a Sociedade Musical e Dramática Olympia
34 Respectivamente MAGALHÃES (2010) e GOMES (2008). Para uma síntese da analise presente nas
Peres [1892-1900]; as sociedades beneficentes e instrutivas como o Club Beneficente e Instrutivo 7 de Dezembro [1892-1909] e a Sociedade Beneficente Floresta Aurora [1907 até os dias de hoje], entre outras; e as que se propunham a organizar ambas as atividades, como o Grêmio Dramático José do Patrocínio [1908-1910] e o Club Instructivo e Recreativo Sete de Setembro [1908] (MÜLLER, 2008, p. 268).
A cidade de Pelotas, local deste estudo, foi palco de uma ampla e diversificada rede associativa negra, e, conforme é possível perceber através do levantamento realizado por Beatriz Ana Loner (2001; 2008) o qual em muito contribuiu para a pesquisa que aqui estamos desenvolvendo, apresentou uma divisão semelhante à verificada por Müller (2008) para a cidade de Porto Alegre. O associativismo negro em Pelotas, contou com 45 entidades, dentre as quais Loner caracterizou dois grandes grupos: associações negras não recreativas e associações esportivas, recreativas ou carnavalescas. Para a cidade de Rio Grande, entre os anos de 1888 e 1940 a referida autora encontrou 22 associações de caráter exclusivamente negro ou misto (LONER, 2008, p. 260-262).
Assim, é possível perceber um espaço social, o qual em muitos momentos os negros utilizaram não apenas como sociabilidade, mas como espaço de reivindicação política e de manutenção de uma identidade étnica frente aos outros. Faz-se importante enfatizar que por vezes os outros podiam ser seus irmãos de cor, mas que não comungavam do mesmo ideal, o que impedia a identificação, ou seja, não eram os por eles denominados irmãos de ideal. Porém, a fim de adentrarmos na exposição e análise especifica do associativismo negro na cidade de Pelotas buscando o papel das associações de e/ou para negros na constituição de identidades sociais durante, e depois da escravidão se faz necessário compreender os meandros desse contexto local no tocante a circularidade e ocupação negra na cidade, assim como do espaço social em questão.