4. MATERYAL VE YÖNTEM
4.1. Çinko Oksit (ZnO) Yarıiletken Bileşikleri
Se a boa leitura garante a possibilidade de ascensão social e a tomada de uma parcela de poder, desenvolvendo a capacidade de ler nas entrelinhas e pensar pela própria cabeça, pode ser muito perigoso para os privilegiados assegurar a imersão da população num ambiente de livros. (MACHADO, 2001, p.11)
Durante a ditadura militar no Brasil, muitos autores brasileiros encontraram na literatura infantil o espaço para expor seus questionamentos e protestos contra a política de repressão imposta pelo governo. Dentre eles, temos Ana Maria Machado, que tem denunciado, através de seus textos dirigidos ao público infantil e/ou adulto, os abusos do poder e a realidade político social de um país que vive alienado graças à falta de contato com livros. É essa visão que aparece já no primeiro capítulo de Silenciosa
Algazarra (2011):
Só a possibilidade de leitura de literatura, distribuída pelo maior número possível de cidadãos, poderá reforçar a coletividade diante da manipulação do mercado, dos interesses políticos, dos fundamentalismos religiosos, das ambições pessoais de ditadores. Sociedades que já são letradas há muito tempo têm anticorpos intelectuais mais desenvolvidos para enfrentar esses novos males. Sociedades menos acostumadas à leitura ficam muito mais vulneráveis e expostas. Aproximar as crianças de bons textos é também uma forma de fortalecer defesas e cuidar do futuro. (MACHADO, 2011, p.44 e 45)
Em Texturas – sobre leituras e escritos (2011), ela declara com orgulho que, durante a manifestação a favor do impeachment, um grupo de jovens afirmaram terem lido Era uma vez um tirano e que com esta obra aprenderam a lição:
Poucas obras são tão emblemáticas desse período quanto a tetralogia dos reis, de Ruth Rocha, com seu Reizinho mandão, seu Rei que não sabia de nada, seu rei que não conseguia enxergar os pequenos – monarcas poderosos e autoritários, mas sujeitos a ouvir
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de uma menina a frase de enfrentamento: “Cala a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu!” Esses reis viviam em livros que não eram censurados oficialmente, mas viviam tendo problemas em um ou outro colégio, pois eram perfeitamente entendidos pelos leitores. Tanto assim que muito tempo depois, em 1992, estávamos Ruth e eu, às vésperas de um 7 de setembro, autografando livros na Bienal de São Paulo, quando entrou um grupo de jovens com as caras pintadas chamando para uma passeata pelo impeachment do Collor. Quando nos viram, nos cercaram, entre exclamações alegres, fazendo piada: “A culpa é de vocês duas! Viram só no que deu?” E uma menina dizia para mim: “Eu li Era uma vez um tirano e aprendi”.. Outra dizia para Ruth: “Viu como a gente está sabendo mandar o reizinho calar a boca?” (MACHADO, 2001, p. 82).
A partir desse episódio, delineia-se uma artista da palavra que não cria, não inventa do nada, mas dentro de condições históricas, sociais, políticas e ideológicas, nas quais tanto ela como seu material de trabalho estão inseridos. Nesse caso, movida pelos acontecimentos e pelas condições de produção da ditadura militar, a escritora mobilizou-se como cidadã contra as ideias do aparelho repressor da época, escrevendo seus livros e ajudando a formar o entendimento e a consciência política de uma geração.
No entanto, não podemos deixar de mencionar que, nos anos 60, o país expressava uma imagem de modernismo em expansão com o desenvolvimento da indústria brasileira, uma vez que reforçada por investimentos estrangeiros e pela lei de desenvolvimento de pequenos polos no país, encontrava-se alinhado com o mundo capitalista, situação que acarretou dependência tanto da economia quanto da ideologia. Durante a ditadura militar, multiplicaram-se as instituições voltadas para a Literatura Infantil Brasileira com uma quantidade notória de títulos infantis. Dentre elas estão a Fundação Livro Escolar (1966) e a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (1968), que aderiram a uma nova roupagem.19
19Marisa Lajolo e Regina Zilberman (2010, p. 160) afirmam que “a cristalização e ampliação de um mercado rendoso e pouco exigente, sensível a expedientes de divulgação que exploram a dependência entre a literatura infantil e a escola, favorecem a repetição de velhas fórmulas e exige do escritor uma periodicidade de lançamentos que talvez seja incompatível com a criação artística, nos moldes em que ela é concebida na literatura não infantil”.
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Ao mencionar os “livros que não eram censurados oficialmente, mas viviam tendo problemas em um ou outro colégio”, Machado deflagra a difusão do livro na escola, instituição regulamentada segundo as diretrizes do governo ditatorial. Com isso, deixa entrever que, possivelmente, tais livros não fossem tão ameaçadores, já que passavam livres da censura oficial para serem usados na escola e na formação de leitores. E, provavelmente, isso acontecia porque embalados em uma literatura que apregoa a necessidade de nos tornarmos um país leitor20.
Para exemplificarmos o valor político presente na ficção de Ana Maria Machado, tomamos por base História meio ao contrário (1978) e Era uma
vez um tirano (1982). A primeira traz uma narrativa que se passa na era
medieval, em um reino que tem como centro o castelo no qual vive a família real, ou seja, o rei, a rainha e a princesa. Em torno do castelo, existe um vilarejo onde moram pessoas muito simples e trabalhadoras, como aldeãos e camponeses. Tudo transcorre calmamente até que um dia o rei descobre que sua cidade é diariamente atacada por um monstro enorme e terrível, que faz com que o dia desapareça. Mas o monstro, na verdade, é a noite, fenômeno natural desconhecido pelo rei que quase nunca sai do castelo, mantido fechado a maior parte do tempo. Resolve, então, dar fim ao monstro, oferecendo a própria filha em casamento ao príncipe que matar o monstro terrível. Os aldeãos, porém, entendem que a existência da noite é de suma importância para a sobrevivência de todos, unem-se e convocam a ajuda de um gigante para impedir o príncipe de matá-la. O gigante, por sua vez, atende ao pedido dos aldeãos e com seus poderes mágicos acelera o curso normal dos processos da natureza, para que o príncipe não consiga atingir o Dragão Negro. No entanto, o príncipe em sua busca se depara com a Pastora e se apaixona por ela, enquanto o rei desiste de acabar com o Dragão Negro, pois
20É importante ressaltar que, embora Ana Maria Machado defenda que a arte, no caso dela e de outros escritores, materializada pela palavra escrita, não estava a serviço da ideologia, não há como, segundo Bakhtin (1999, p. 96), separar uma da outra: “A língua, no seu uso prático, é inseparável de seu conteúdo ideológico ou relativo à vida. Para se separar abstratamente a língua de seu conteúdo ideológico ou vivencial, é preciso elaborar procedimentos particulares não condicionados pelas motivações da consciência do locutor. Se, à maneira de alguns representantes da segunda orientação, fizermos dessa separação abstrata um princípio, se concedermos um estatuto separado à forma linguística vazia de ideologia, só encontraremos sinais e não mais signos da linguagem. A separação da língua de seu conteúdo ideológico constitui um dos erros mais grosseiros do objetivismo abstrato.”
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percebe sua importância. Ao final, a princesa recusa casar-se com o príncipe para se aventurar pelo mundo; enquanto ele, apaixonado pela pastora e tento decidido ficar ao seu lado, torna-se vaqueiro.
Nessa obra, o rei aparece ridicularizado e ignorante, desconhecendo as verdadeiras necessidades de seu povo. A ignorância do Rei é colocada na narrativa de maneira cômica, o que contribui para a construção da imagem do rei como alguém que vive uma vida “de mentira”, de “faz de conta”. Esse distanciamento social é gerador do conflito na trama do livro: a Corte Real desconhece o que seja um pôr do sol e, por consequência, a noite. Fato que, no contexto, é perfeitamente possível e justificado, pois o Primeiro Ministro diz: “Vossa Majestade é um homem feliz para sempre e ninguém quis incomodá-lo com essas coisas” (MACHADO,1978, p. 15).
Ana Maria Machado chega ao extremo da crítica social fazendo com que o Rei nem sequer saiba o que é o povo, pois pensava que se tratava de um só indivíduo. Ele queria conversar com esse povo, como se conversa com uma pessoa, e convoca-o, pedindo a seus criados que lhe gritem aos ouvidos, joguem-lhe água e o façam “pular da cama, calçar os sapatos e vir correndo” (MACHADO,1978, p. 17). Quando o povo atende ao chamado do rei, ele se assusta ao ver uma multidão embaixo da sacada real, que é constituída pelos seus próprios trabalhadores. Nota-se, então, uma personagem alienada daquilo que acontece em seu reino, pois desconhece por completo todos os fatos recorrentes.
Era uma vez um Tirano (1982) foi escrito após a anistia, embora ainda
vigorassem as leis da ditadura, e traz a história de um país muito divertido que, por descuido ou preguiça, deixou-se dominar por um tirano. As armas que três crianças dispunham para combater sua tirania eram um arco-íris no bolso, uma canção no corpo e uma chuvarada de estrelas. A obra enfoca a relação com o poder político, mas o narrador demonstra preocupação em marcar a atemporalidade e o não-lugar, reforçando a ideia de que os fatos que serão contados podem ocorrer em qualquer lugar ou época:
Uns dizem que esta história aconteceu há muitos anos, num país muito longe daqui. Outros garantem que não, que aconteceu há poucos e poucos dias, bem pertinho. Tem também quem jure que está acontecendo ainda, em algum lugar. E há até quem ache que ainda vai acontecer. (MACHADO,1982, p.05).
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Para introduzir o questionamento acerca dos limites do poder, Machado insere como protagonista um Tirano, centralizador do poder, que se impõe politicamente pela força e proíbe as diferenças de qualquer natureza em seus domínios. Diante de tal construção, fica evidente que a escritora buscou elementos que fizessem menção ao regime ditatorial que o Brasil viveu em seu passado histórico, demarcando uma de suas características: a resistência a tudo que é imposto. Daí seu desejo de ser Dom Quixote, como menciona no Prefácio de Contracorrente (1999), ou seja, uma defensora da liberdade por meio de sua atitude anticonformista. Em seu web site, Machado nos revela sua real intenção acerca da obra:
Minha proposta para vencer a situação era simbólica, naturalmente. Mas tinha a ver com o caminho em que eu acreditava: uma festa feita com a união de toda a nação, nas suas diferentes etnias e gerações, com os recursos da memória e da criatividade artística, e com a pureza e coragem das crianças.21
Desde o início da obra, o narrador expõe as atitudes repressivas do Tirano, com o intuito de anular aquilo que ele julgou ser uma bagunça: as pessoas discutiam por qualquer coisa antes de tomarem as decisões acerca do país. Em seguida, surge o discurso do Tirano, afirmando a inutilidade da discussão, sobretudo em detrimento do trabalho.
É curioso observar que a submissão às ordens desse Tirano não se deu de forma pacífica, mas força e violência funcionaram como armas para coibir qualquer divergência em relação ao poder, ou a quem ousasse contrariá-lo. E mais uma vez, Machado nos remete ao regime ditatorial ao mencionar o toque de recolher, que, simbolicamente, propunha uma retirada da resistência de forma pacífica ou não, pois acabava desencadeando prisões e expulsões. A apatia do povo diante de tal situação foi o mais lamentável fato, portanto, era necessário introduzir e delegar às crianças o poder de articulação entre as pessoas que julgavam ser improcedentes as imposições do Tirano.
Em Contracorrente (1999), Machado questiona o papel dos textos para crianças no que diz respeito à ideologia transmitida. Segundo a autora, na
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literatura infantil, muitas histórias reafirmam a dominação do mais fraco pelo mais forte, ensinando aos pequenos que os adultos sempre devem decidir. No entanto, a autora acredita que a literatura infantil, assim como qualquer outra literatura, enquanto forma de arte, tende a ser subversiva e questionadora mediante a autoridade, tanto que, em Era uma vez um tirano, são as três crianças os elementos fundamentais de contestação em relação aos abusos de poder por parte do Tirano. Assim, quando o narrador menciona as crianças, há uma espécie de recomeço com o uso da estrutura “Era uma vez”, e as três crianças descobrem-se diferentes entre si devido as cores da pele: “preta”, “rosada” e “cor de cobre”, fazendo referência à etnia brasileira.22
O despertar por parte da população, portanto, é provocado por essas três crianças, e cada uma delas é responsável por uma frente. É importante lembrar que uma das proibições do Tirano correspondia à arte, ou seja, “estava proibido cantar, dançar, tocar, batucar, representar, desenhar, pintar, inventar, escrever, ler, guardar papel escrito" (MACHADO,1982, p. 14). Foi por isso que as crianças instauraram a revolução, através de algumas atitudes dos pequenos: Jacira e seu grupo trouxeram de volta as cores que, com o reflexo da luz, fez surgir o arco-íris; o outro grupo, liderado por Totonho, trouxe a música e a dança; e a última, conduzida por Isabel, teve como objetivo ligar a intervenção humana na tentativa de reinventar a natureza. Ao final, temos o esperado desfecho: ao perceber que não tinha forças para enfrentar o povo, o Tirano foge e a paz reina novamente.
Diante de tais definições, podemos pensar que Machado com seus reis23, após duas décadas, muito contribuiu na formação de uma geração mais
22 Nelly Novaes Coelho (2000, p.11) assinala um conjunto de características estilísticas e estruturais da
literatura infanto-juvenil contemporânea, dentre elas estão as personagens-grupo, que deixam de lado suas individualidades e incorporam-se em grupos, adquirindo assim o espírito coletivo, a fim de buscar um interesse comum. Com base nessa informação, temos um grupo de crianças que promovem a revolução e “de conversa em conversa as ideias aparecem... E as conversas e ideias são inimigas dos Tiranos”.
23Tendo em vista as figuras do Rei ignorante de História meio ao contrário (1978) e o Tirano de Era
uma vez um Tirano (1982), é importante destacar o que Michel Foucault (1988, p. 35) afirma acerca do
poder que é representado pelo rei, pelo fato de, ainda hoje, esse conceito estar ligado às ideias de direito e soberania: “No fundo, apesar das diferenças de época e de objetivos, a representação do poder permaneceu marcada pela monarquia. No pensamento e na análise política, ainda não cortaram a cabeça do rei.” Além disso, o estudo dos símbolos também nos remete às motivações da conotação de soberania associada ao monarca. De acordo com Chevalier (1996), o rei é concebido como a projeção de um eu superior. Sua imagem associa-se a do pai, do herói, do sábio e do santo – personas que concentram em si o arquétipo da perfeição humana. Essa imagem de onipotência confere ao rei, em
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participativa, que leu e entendeu o que ela havia dito. Além disso, ajudou na formação de leitores que, futuramente, participariam ativamente de um acontecimento político de repercussão nacional – a destituição do presidente do país, fazendo valer seus direitos, desde que estivessem unidos pela mesma causa.