ÇERKEZ ETHEM’İN BMM’YE KARŞI AYAKLANMAS
4 5 ÇERKEZ ETHEM MESELESİNİN MECLİSTE GÖRÜŞÜLMESİ
“Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas
me surpreendo jovem, velha e madura ao mesmo tempo”. Marina Colasanti.
Uchoa (2003) refere que, apesar da entrada tardia da antropologia nos estudos do envelhecimento, aconteceram algumas contribuições fundamentais para inovar a abordagem das questões relativas à saúde do idoso, entre elas a relativização da visão universalista, geralmente adotada em pesquisas sobre o envelhecimento. Demarcado a partir de sua dimensão biológica, o envelhecimento foi associado à deterioração do corpo e dessa forma caracterizada pelo seu declínio (DEBERT, 1999a).
Porém, estudos subseqüentes em sociedades não ocidentais tornaram conhecidas imagens bem mais positivas da velhice e do envelhecimento, refletindo sobre a universalidade da visão ocidental, informando que uma representação de velhice arraigada nas idéias de deterioração e perda não é universal. No tocante à concepção do envelhecimento e o debate hoje existente na sociedade atual sobre a velhice, não pode deixar-se de dar ênfase a sua heterogeneidade e complexidade inerentes ao tema em questão.
De acordo com alguns antropólogos e sociólogos, o debate gira em torno de dois modelos teóricos antagônicos que tentam explicar as formas e transformações existentes na sociedade contemporânea acerca do envelhecimento. De um lado, identifica-se um modelo que apresenta uma velhice pobre e de abandono, na qual o velho é relegado, e ser a família a presença que permanece junto o apoiando. Segundo Debert (1999, p.43), trata-se de um modelo criticado,
por alimentar os estereótipos da velhice na qual, considera-se como um período de retraimento em face da doença e da pobreza e, dependência e passividade que legitima as políticas públicas, baseada na visão de idoso, como ser doente, isolado, abandonado pela família e alimentado pelo estado.
Por outro lado, um outro modelo apresenta os idosos como seres ativos, capazes de dar respostas originais aos desafios que enfrentam em seu cotidiano, redefinindo sua experiência de forma a se contrapor aos estereótipos ligados à velhice. Esse modelo rejeita a própria idéia de velhice, ao considerar que a idade não é um marcador pertinente na definição das experiências vividas. De acordo com Debert (1999, p. 43), mesmo sem pretender, acaba fazendo “coro com os discursos interessados em transformar o envelhecimento em um novo mercado de consumo, prometendo que a velhice pode ser eternamente adiada através da adoção de estilos de vida e formas de consumo adequadas”. Segundo a autora, estes são os dois modelos teóricos atuantes da sociedade contemporânea; contudo, a imagem que projetam é, ora, de uma sociedade cujas formas de controle se fundamentam cada vez mais na idade cronológica, ora, a de que se caminha para uma situação em que as diferenças de idade
tendem a ser apagadas e a de que a velhice é, sobretudo, uma questão de auto convencimento (DEBERT, 1999).
Assim sendo, Pritchard (1989) apud Uchoa (2003, p. 850) menciona que a entrada na adolescência para o Nuer (grupo étnico do Sudão) do sexo masculino é marcada por um ritual de iniciação que define sua inserção em uma classe de idade e determina seu estatuto de superioridade, igualdade ou inferioridade frente aos outros Nuer. Os membros de uma classe de idade devem respeito aos da classe anterior, que é composta por pessoas mais velhas e, portanto, superiores na hierarquia social.
A autora, ao estudar os Bambara de Mali, observou que os membros desse grupo viam a velhice como uma conquista. O envelhecimento é um processo de crescimento que ensina, enriquece e enobrece o ser humano. Ser velho significa ter vivido, ter criado filhos e netos, ter acumulado conhecimento e ter conquistado, através destas experiências, um lugar socialmente valorizado. Para os Bambara, a idade é um elemento fundamental na hierarquia de cada indivíduo na sociedade. A vida social é organizada segundo o princípio da senioridade. Os mais velhos detêm a autoridade devido à crença que eles estão mais próximos dos seus ancestrais, portanto, respeito e submissão assinalam as atitudes e comportamentos dos mais jovens para com os mais velhos (UCHÔA, 2003).
Por sua vez, uma abordagem antropológica nas questões relativas à saúde dos idosos possibilita a ampliação desse conhecimento, de maneira que permite a apreensão das experiências subjetivas e de sua interação com os diversos elementos do contexto social e cultural, de especial atenção para a Saúde Pública contemporânea (UCHÔA, 2003).
Um estudo realizado com mulheres idosas, na cidade de Bambuí/MG, avaliou que a gravidade e a relevância de um problema de saúde parecem ser determinadas muito mais pela possibilidade de enfrentá-lo, do que pelo problema em si, fato esse associado ao apoio familiar e ao acesso aos cuidados médicos. No entanto, isto não ocorreu num grupo, de mulheres idosas mais abastadas, quando se observou que a saúde não era uma dificuldade , apesar dos diversos problemas de saúde por elas referidos, dentre os quais a diabetes, doença de Chagas, fraturas e doenças cardíacas. Com exceção destas senhoras, que podiam se consultar a médicos particulares, todas as outras relataram dificuldades para conseguir consultas no sistema público de saúde. Nesse sentido, a situação econômica do próprio idoso e da sua família surge como fator fundamental para a manutenção da saúde.
Luz (2005), em estudos correlatos, aponta novas práticas de saúde coletiva através de recuperação de sociabilidades e valores, como também na existência de sentidos e
significados em formação na cultura relativos à saúde e à vida em sociedade e na construção de uma ética diferente.
Nesse sentido, compreende-se que o contexto familiar do idoso possui um conceito de saúde que lhe é próprio, com significados inerentes a cada indivíduo. Refletir e entender este cotidiano leva à compreensão do processo saúde doença dessas famílias. Dessa maneira, a autora conclui que o universo de significados permite ao indivíduo de um grupo interpretar suas experiências e guiar suas ações. Portanto, estudar antropologicamente o idoso, no contexto da sua família, também permite identificar como os fatores sociais, econômicos e culturais podem proporcionar subsídios positivos ou negativos para se chegar a uma melhor qualidade de vida (UCHOA et al, 2004).