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TRAFİK VE KASKO SİGORTALARINDA HASAR SÜREÇLERİNE İLİŞKİN MÜŞTERİ ALGILARINI ETKİLEYEN FAKTÖRLER (UŞAK İLİ ÖRNEĞİ)

4. YÖNTEM VE BULGULAR

4.1. Çalışmanın Gerekçes

Neste ponto, podemos fazer um balanço dos conteúdos de Hb 7.1-10 frente aos resultados colhidos das tradições usadas neste capítulo a respeito de Melquisedec.

O sumo sacerdócio é de importância vital na relação do “ser humano” com a “Divindade”. Vital pois se entende que a mediação do sumo sacerdote garante a manutenção da vida. Todo o aparato cultual visa alcançar o perdão de Deus e o acesso à sua presença, a fim de se atingir a vida que dá sustentação à ordem criada. Pois, a Criação e o perdão dos pecados se conectam desde o começo de Hebreus: “(ele) sustenta o universo (lit.: “todas as coisas”) com o poder de sua palavra; e depois de ter realizado a purificação dos pecados...” (1.3). De modo que, a perenidade do universo se baseia sobre a santificação resultante da purificação dos pecados. Em outras palavras, o poder criativo precisa superar o “caos” que a morte provoca, faz-se isso mediante uma morte vicária, vida que vem pela morte. Isto é senso comum, compartilhado pelos diversos grupos dentro do judaísmo do período do segundo Templo. Por conseguinte, o sumo sacerdote é o representante humano, que após o sacrifício de uma vítima substitutiva, ao entrar no recinto do santíssimo lugar, experimenta a imediata presença de Deus, e o fato de sair dali sem sofrer qualquer dano é devido ao fato de que sua oferta foi aceita, a morte não o alcançou. Disso tudo resulta a necessidade de “perfeição” do sumo sacerdote, e perfeição é melhor expressa em termos divinos, daí o angelomorfismo ser a melhor sintaxe de perfeição.

Partindo-se do fato de o próprio Deus, inicialmente, por uma via ter-se revelado ao ser humano como o Anjo do Senhor, que representa a divindade diante do homem; o próprio Anjo do Senhor, que também é antropomórfico, por outra via, representa o ser humano que pode se apresentar diante de Deus, conseqüentemente daí o sumo sacerdote ser idealizado com tonalidades angelomórficas.

A interpretação do autor de Hebreus acerca do sumo sacerdócio de Jesus não prescinde de um sacrifício vicário, este dado não é omitido, mas cumprido. A morte de Jesus por crucificação é confessada como fator determinante para seu ofício sacerdotal, mas ao contrário das vítimas anteriores, sua morte é voluntária:

“Por isso, ao entrar no mundo, ele afirmou: Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-me um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não foram do teu agrado. Por isso eu digo: Eis-me aqui, -- no rolo do livro está escrito a meu respeito – eu vim, ó Deus, para fazer tua vontade (Hb 10.5-7).

Sua vida de ser humano sem pecado (9.14), vida do Filho de Deus, manifestada no fim dos tempos (9.26, 27), derrama-se como sacrifício único e cabal (9.26; 10.18-20). Após a morte, Jesus ascende aos céus (13.20), atravessa o véu, isto é, o próprio céu, e como sumo sacerdote glorioso se assenta no trono ao lado direito da Divindade (1.3; 8.1).

Com efeito, Melquisedec exerceu grande interesse no que toca ao sumo sacerdócio idealizado. A antigüidade, os significados de seu nome e lugar, seu ofício sacerdotal, sua impressiva presença, seu contato com Abraão, a falta de genealogia, tudo isso deu margem para especulações visando compreender o significado de sua abrupta aparição e saída de cena. Mesmo estas deram aso ao imaginário para o tema de sua ocultação temporária no paraíso (2 Enoc 71). Por ser uma figura humana recebe muita atenção e foi elevado a estatura angélica, indo mais longe, superando os anjos, liderando anjos e homens, fazendo expiação por seus pecados e chamado de divino por seu colegiado (11QMelquisedec).

O Melquisedec visto pelo autor de Hebreus apresenta uma reserva de sentido que também supre os elementos angelomórficos de Jesus. Porém, isso é feito de uma outra maneira. Melquisedec não é a contraparte celeste de Jesus, como o é para os sectários de Qumran. Mas Melquisedec é a contraparte terrena do Jesus celeste:

Sem pai, sem mãe, sem genealogia, nem princípio de dias nem fim de vida! É assim que se assemelha ao Filho de Deus, e permanece sacerdote eternamente (Hb 7.3).

Melquisedec é o duplo da Pré-existência e imortalidade de Jesus, bem como de seu sacerdócio perene. Os temas relacionados no início de Hebreus 1.1-4 podem ser vistos entrelaçados na figura de Melquisedec como duplo. Podemos começar pela Criação da qual o Filho é o feitor, que encontra-se na bênção impetrada sobre Abraão (7.7). E vistoque a indumentária e o próprio ofício sacerdotal são embasados na promoção da Criação Divina, como temos visto, tanto na expiação de pecados pelo povo, como na reparação do universo criado, uma espécie de manutenção do cosmos.

A dúplice função rei-sacerdote de Melquisedec é proveitosa para a Cristologia de Hebreus, em que dois ungidos são incorporados em um só. Como rei proveniente da tribo de Davi não há necessidade de uma exposição a este respeito, porém, desde que o rei nas

tradições monárquicas de Israel/Judá (e nos arredores) é declarado Filho de Deus, mais uma vez Melquisedec funciona como anti-tipo de Jesus, pois se ele é entronizado em Salém, Jesus é entronizado nos céus (1.3; 8.1).366 E esta filiação divina não foi privilégio de anjo algum,

pois mesmo os anjos surgiram de sua ação criadora. Ainda, quanto à filiação, leve-se em conta a humanidade de Melquisedec que o capacita a interceder por outros humanos estampados em Abraão que se submete ao seu ministério (7.2, 7), que igualmente capacita a Jesus também ser mediador em favor da humanidade.

Melquisedec vai ao encontro de Abraão como um portador de boas-novas quando o abençoa, isto lhe dá uma atribuição profética. O “evangelista”(euvaggelisth,j) é o “proclamador de oráculos”.367 Tal proclamador anunciava as boas-novas de vitória (Is 52.7;

61.1; cf. Ml 1.7). Jesus igualmente anunciou a salvação aos descendentes de Abraão (2.16) e de todos os homens (2.9).

Tanto o rei, como o sacerdote são designados para exercer justiça e paz entre os homens (Dt 17.16-20; Sl 72; Zc 6.13; Ml 2.3-5). Melquisedec faz isso ao abençoar Abraão com o que avaliza sua ação de libertação e promoção de paz.

11QMelquisedec descreve um Melquisedec angelomórfico. Não se discute o motivo de sua “ordem”, nem muito menos o encontro com Abraão, simplesmente o autor apreende sua figura e a transfigura. O interesse não reside na figura histórica de Melquisedec, mas no Melquisedec exaltado. Embora não explicitamente citado, pode-se pensar que o texto que faz o transfundo é o do Salmo 110. Deste modo, a figura de Melquisedec expressa no Sl 110 também torna-se ponto de partida para uma nova configuração de seu personagem.

Por um lado, Melquisedec é o paradigma do anelo sacerdotal por uma existência celestial dos qumranitas. Os textos aventados em sua descrição são utilizados em outros lugares do NT para Jesus Cristo. Porém, já havia notado Kobelsky, há várias similaridades entre o Jesus de Hebreus e o Melquisedec. Jesus, em seus dias terrenos, anunciou a “Salvação” (2.13), pois veio para libertar a humanidade do pavor da morte, sujeitos à escravidão (Hb 2.14-15). Melquisedec também é portador de “boa-nova” de libertação aos cativos de suas iniqüidades (11QMelquisedec ii.1-7). Jesus possui um “lote” de filhos de Deus, isto é, os cristãos (Hb 2.11-13), que anteriormente estavam sob o domínio do “Diabo”,

366 Em Malaquias 1.6, os sacerdotes são considerados como filhos de Deus.

detentor da morte (Hb 2.11). Melquisedec também possui um lote dos “filhos de Deus”, os quais liberta da “mão de Belial” (11QMelquisedec ii.13, 24-25). O “sacrifício” vicário efetuado por Jesus “ao se cumprirem os tempos” (Hb 9.26) relaciona-se com o do dia da expiação (Hb 9.23-28). O “Dia da Expiações” é a marca do fim do décimo jubileu, Melquisedec expiará por todos os filhos de Deus (11QMelquisedec ii.7-9), “é o tempo do ano da graça para Melquisedec” (ii.9). Jesus se manifesta “no meio da assembléia” em favor dos “irmãos (Hb 2.11-13); de igual forma Melquisedec presidirá “a assembléia” dos filhos de Deus em favor de seu lote (ii.9, 14). Jesus é superior aos anjos e estes estão a serviço dos que herdarão a salvação (Hb 1.4, 14). Melquisedec também é superior aos deuses de justiça, prevalece sobre todos os filhos de Deus (ii.14). Os crentes são os que chegaram “ao monte Sião e a cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à assembléia universal, e à assembléia dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12.22-23). Em 11QMelquisedec “Sião é a congregação de todos os filhos de justiça, os que estabelecem a aliança, os que evitam andar pelo caminho do povo” (ii.23-24). Hebreus trata da “desobediência” da geração da caminhada no deserto (Hb 4.11); 11QMelquisedec menciona “os rebeldes” (ii.4), isto é, “Belial e os espíritos de seu lote”, que incluem os anjos caídos e os homens, “todos eles apartando-se dos mandamentos de Deus para cometer o mal”(ii.12). A Jesus se designa de “Deus”: “mas acerca do Filho: ‘O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hb 1.8). De igual forma, 11QMelquisedec lança mão de um texto escriturístico para declarar que Melquisedec é Deus: “Dizendo a Sião: ‘teu Deus reina’”. (...). “Teu Deus”, Melquisedec que os livrará da mão de Belial” (ii.24-25). Jesus é o “Cristo”: “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (Hb 13.8). 11QMelquisedec diz o mesmo de Melquisedec: “E o proclamador é o ungido do espírito que falou Daniel...”(ii.18). Melquisedec se manifesta para consolar (instruir) os aflitos (ii.20), também Jesus consola os seus (Hb 4.14-16; 5.1-3). Nada se diz de Melquisedec ter feito ofertas por seus pecados (pelo que nos chegou, nada sabemos), nem Jesus precisa fazer pelos seus (Hb 9.25 ). Digna de nota é o caso de que quando se fala de Melquisedec “nas alturas se pronunciará a seu favor segundo os seus lotes”, fala-se após a expiação (ii.8), o que é igualmente dito de Jesus (Hb 9.24-25).

Por outro lado, quanto ao tema da “pré-existência” (Hb 1.1-3), 11QMelquisedec não faz menção, pelo menos no fragmento que foi preservado. O status angelomórfico de

Melquisedec parece derivar do Salmo 110.1 nos moldes da LXX: “Disse o Senhor ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo de teus pés” (ei=pen o` ku,rioj tw/| kuri,w| mou ka,qou evk dexiw/n mou e[wj a'n qw/ tou.j evcqrou,j sou u`popo,dion tw/n podw/n sou). Entende-se que se trata de Melquisedec devido ao v. 4: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec”. E o aspecto vingador de Melquisedec (como instrumento de justiça de Deus) em 11QMelquisedec se encontra nos v. 5-6 do mesmo Salmo: “O Senhor, à tua direita, no dia da sua ira, esmagará os reis. Ele julga entre as nações; enche-as de cadáveres; esmagará cabeças por toda a terra”. Quanto à função de juiz de Melquisedec procede do Salmo 82, como o próprio 11QMelquisedec diz (ii.10-13). De outro lado, de 11QMelch não se infere qualquer auto-sacrifício pelos pecados dos fiéis, que é imprescindível para Hebreus (Hb 9.11-14), muito menos uma expiação derradeira; nem há qualquer referência ou justificação de uma morte ultrajante de sua parte, e, por conseqüência, nenhum registro da exaltação derivada disso. Melquisedec de 11QMelquisedec é triunfalista por completo. É dito, sim, que Melquisedec fará expiação pelos filhos de Deus (ii.8). Nada se diz de uma filiação divina de Melquisedec; “filhos de Deus” é genérico e é empregado para outros (ii.14); quanto a Jesus, “Filho de Deus” é o tema predominante em Hb 1. É verdade que no segundo, Melquisedec não é explicitamente declarado “Filho de Deus” como se faz em Hebreus. O caráter enigmático de sua pessoa é que parece ser a matriz para lhe conceder que seja um redentor angelomórfico. Por isso, pensamos que sua exaltação está mais para os moldes de Enoc, numa mescla que conflui as descrições dos mesmos textos utilizados pelo autor de 11QMelch: Lv 25.13; Dt 15.2; Is 61.1; Lv 25.10; Sl 82.1; Sl 7.8-9; Sl 82.2; Is 52.7; Lv 25.9.

4.6. Conclusão

No texto de Hb 7.1-10 predomina o objetivo principal de fundamentar a atribuição e superioridade do sumo sacerdócio a Jesus. Diante disso, não surpreende que todos os motivos agrupados em 11QMelquisedec não estejam presentes em Hb 7.1-10. Pelas evidências que temos, não é possível afirmar que o autor foi dependente textualmente de uma concepção de 11QMelquisedec. Os dois textos não dependem um do outro.

Todavia, como vimos, as similaridades entre as figuras de Jesus em Hebreus em sua totalidade e Melquisedec em 11QMelquisedec são evidentes. As similaridades dos motivos entre o Jesus sumo sacerdotal angelomórfico de Hebreus e o Melquisedec angelomórfico de

11QMelch derivam-se de preocupações comuns. O anelo por um redentor celestial em que convergem as funções de rei e sumo sacerdote, redentor, promotor da justiça e da paz, que encarne ao mesmo tempo o triunfo sobre as forças do mal e uma divinização do humano, resultante de uma comunhão com o Senhor estavam na ordem do dia. Destarte, o motivo do sumo sacerdócio celestial era bastante difundido nas reflexões do Judaísmo do período do 2º Templo, e por isso mesmo, o autor de Hebreus se encontrava a vontade, num terreno muito fértil de tradições acerca de Melquisedec para a sua formulação de Cristo Jesus exaltado à direita de Deus.

CONCLUSÃO

O Jesus exaltado da Cristologia da Carta aos Hebreus compartilha a mesma confissão expressa em quase todos os outros documentos do Novo Testamento. Mas o elemento distintivo é o seu enfoque claramente no tema do sumo sacerdócio celestial de Jesus Cristo. Isto não quer dizer que os outros textos do N.T. não façam alusão ao sacerdócio de Jesus, mas que Hebreus o expressa enfaticamente.

A exaltação de Jesus ao lado direito de Deus como vice-regente angelomórfico incorpora as diversas funções deste e, principalmente, a de sumo sacerdote celestial prefigurada em Melquisedec (Hb 7.1-10). Destarte, o autor de Hebreus partilha e refaz as considerações presentes em tradições angelomórficas de um mediador glorificado na presença de Deus. Enquanto tais tradições especulam em torno de diversas figuras exaltadas, como Miguel e algum outro anjo, Melquisedec ou outro patriarca, ou ainda o Messias Araônico da Comunidade de Qumran, o autor de Hebreus não titubeia em confluir e atribuir esse status a Jesus Cristo expressando o binitarismo do Cristianismo das origens.

Hebreus não inventa um novo modelo de messianismo em sua confissão cristológica, mas partilha das considerações contemporâneas a respeito do sumo sacerdote exaltado. O enfático interesse na figura do sumo sacerdote como encarnação das esperanças apocalípticas deve muito ao seu próprio momento histórico e ao meio-ambiente cultural sócio-religioso do Mediterrâneo do século I. O sumo sacerdote incorpora as atenções e expectativas religiosas tanto no Judaísmo como também no mundo gentílico. Desde séculos atrás o sumo sacerdote foi galgando mais atenção no terreno político-religioso da Palestina, suplantando até mesmo a figura da instituição monárquica. Não surpreende que as funções de rei e sumo sacerdote sejam confluídas em uma só pessoa, e que todo um arcabouço literário, ora a favor, ora contra, tenha surgido nesse período. Como qualquer liderança humana, o sumo sacerdote era alvo de aprovação e de rejeição, constituindo-se nos motivos de uma expectativa, superior, exaltada e final. O sumo sacerdote na história do Judaísmo do período do Segundo Templo fora capaz de substituir o rei em muitos momentos cruciais do povo, granjeando tamanha autoridade e riqueza. Diante de suas conquistas e falhas, construiu-se um volumoso

corpo de tradições que a despeito de seus pecados, e mesmo por conta dos pecados, em que um mediador celeste surge como o depositário de tantas esperanças. Também a religião civil do império romano possuía uma razoável concentração no sumo pontifex que era ao mesmo tempo um magistrado e sacerdote prestigiado da cidade ideal.

No caso do Judaísmo, o sumo sacerdote perfeito é idealizado em caracteres angelomórficos, e mesmo os anjos são descritos em tons sacerdotais de tal modo que, no imaginário angélico, os arcanjos são concebidos como a contraparte celeste do sumo sacerdócio terrestre ou vice-versa. Daí a massiva literatura da Comunidade de Qumran testemunhar seu interesse e expressar de modo inegável tal ideal no Melquisedec de 11QMelquisedec, sumo sacerdote angelomórfico, vice-regente, redentor e juiz escatológico. Os sacerdotes da Comunidade já assumiam sua identidade celestial nas confecções de textos litúrgicos em que se viam como parte das hostes angélicas (cf. Os Cânticos do Sacrifício Sábatico).

Mas o sumo sacerdote não encarnava essas expectativas somente devido ao prestígio adquirido por sustentar a identidade nacional do Judaísmo do período do Segundo Templo. Acrescente-se que a personagem do sumo sacerdote é além de paradigma de salvador celeste, também é o paradigma do homem primordial (Urmensch), o ser humano perfeito, que reabilitado em suas relações com Deus, pode usufruir de sua presença imediata e gozar da imortalidade, típica dos anjos.

Todo esse arcabouço de esperanças foi passo a passo sendo construído, influenciado inicialmente pelas elucubrações da aquisição de imortalidade, de uma esperança pos-mortem, que só aumentou desde o período do exílio babilônico e na constante interação com as culturas do entorno do Mediterrâneo do século I. Para alguns, como por exemplo, o império romano, a possessão da imortalidade era a recompensa devida aos atos heróicos realizados pelos mandatários provenientes das altas elites. Para outros (de uns poucos), a imortalidade era fruto de uma vida bem-aventurada vivida em justiça, ou devido ao martírio como marca de fidelidade ao compromisso da aliança do povo com Deus.

Contra esse pano de fundo cultural e sócio-religioso, a Carta aos Hebreus revela certa simbiose quando encaixada nesse quadro referencial. Há uma cultura dominante que privilegia o imperador romano como o salvador do mundo, mas que na prática sustenta uma maquinaria opressora que faz dos seres humanos meros servidores do estado, massa de

manobra, instrumentos do bem estar de poucos, que se sentem no direito de escravizar. Ou seja, um Estado que desclassifica e exclui os seres humanos de seu direito básico, o da existência em sociedade com seus plenos direitos de usufruir a felicidade, que segundo Aristóteles, é o objetivo primeiro e último do Estado. Há também uma sub-cultura proposta pelo judaísmo que se opõe ao império em termos religiosos, mas que lhe dá a mão como seu aliado na impostura de seus próprios interesses. Nega-se, assim, o evento salvífico estampado na caminhada do povo rumo à terra que mana leite e mel. Reagindo a isto, os partidários de Qumran (e talvez, outros grupos subjacentes à literatura pseudepígrafa) se afastam dos centros urbanos e refugiando-se no deserto da Judéia, não para se alienarem, porém, muito mais para uma rearticulação estratégica com projeções bélicas contra o opressor. Dá-se, então, que coletando abundante material, espera-se uma liderança messiânica, ainda que dupla, com ênfase num idealizado sumo sacerdote angelomórfico que redimirá os filhos de Deus e executará a sua vingança final. A cultura concorrente representada e assumida pela comunidade de Hebreus, que expressa suas certezas e esperança na Cristologia Angelomórfica do Jesus exaltado, desafia o pensamento dominante no império romano, fazendo dos deserdados e reprovados, seja por questões de sangue, seja de pureza ou socialmente, o verdadeiro povo de Deus. Contrariando abertamente qualquer política de retaliação, o autor de Hebreus propõe aos seus leitores não abandonarem a esperança adquirida por Jesus, e mesmo que a situação seja sufocante, exorta seus leitores a não abandonar o estilo de vida de uma nova sociedade mesmo que isto custe à própria vida.

Este povo tem seu sumo sacerdote, Jesus, que é ao mesmo tempo o Filho de Deus e o crucificado, que morre a morte de escravos e desclassificados, mas torna-se exaltado à direita gloriosa de Deus, garantindo uma nova existência aos seus fiéis seguidores, a quem chama de irmãos. A cidadania, que lhes é negada no plano terreno, é assegurada no plano celeste, expressão de muito mais honra que a terrena, fazendo deles companheiros dos anjos e santos do passado, habitantes da Jerusalém Celestial. Por enquanto, esses mesmos são peregrinos, recém libertados da escravidão, caminhantes para o repouso divino assegurado não por Josué (=Jesus), mas por Jesus Cristo. Mas que desde já fazem parte de uma comunidade celeste formada dos primogênitos, justos transformados e elencados no livro da vida, companheiros dos anjos de Deus.

greco-romana como a expectativa judaica por uma vida transformada. Acrescente-se a isso o fato dos recentes eventos da destruição do Templo de Jerusalém e da instituição sacerdotal, que são levados em conta na elaboração de seu discurso para uma comunidade crente que