I. BÖLÜM
2.2. Hastalıkla İlgili Terimler
2.2.3. Zihinsel Hastalıklarla İlgili Terimler
Temos por igualmente tormentosa quanto à sujeição passiva do dano moral a hipótese denominada pela jurisprudência como dano moral ricochete e vislumbrada, v.g., na legitimidade ou não dos pais de uma vítima sobrevivente a um infortúnio em pleitear compensação por danos morais, principalmente quando se considera, hipoteticamente, que a própria desafortunada teve reconhecido o direito de receber importância a título de compensação por danos morais.
Não obstante a indenização por dano moral seja devida, em regra, apenas ao próprio ofendido, tanto a doutrina quanto a jurisprudência têm firmado sólida base na defesa da possibilidade de os parentes do ofendido, a esses jungidos afetivamente, postularem com ele uma compensação pelo prejuízo experimentado, conquanto sejam atingidos apenas de forma indireta pelo ato lesivo. Neste ponto, a Ministra Nancy Andrighi, ao relatar o REsp 1.208.949/MG, asseverou que:
Trata-se de hipótese de danos morais reflexos, ou seja, embora o ato tenha sido praticado diretamente contra determinada pessoa, seus efeitos acabam por atingir, indiretamente, a integridade moral de terceiros. É o chamado dano moral por ricochete ou préjudice d’affection, cuja reparação constitui direito personalíssimo e autônomo [...]. No direito comparado, há de se destacar que tanto a doutrina francesa quanto a alemã admitem a existência de danos reflexos (par ricochet ou Reflexschaden), ou seja, ofensa a bem jurídico de terceiros diretamente envolvidos com o sofrimento experimentado pelo principal prejudicado em razão do evento danoso. E, ao finalizar seu voto, a Ministra pontuou:
Assim, são perfeitamente plausíveis situações nas quais o dano moral sofrido pela vítima principal do ato lesivo atinjam, por via reflexa, terceiros como seus familiares diretos, por lhes provocarem sentimentos de dor, impotência e instabilidade emocional. É o que se verifica na hipótese [...] em que postulam compensação por danos morais, em conjunto com a vítima direta, seus pais, perseguindo ressarcimento por seu próprio sofrimento, decorrente da repercussão do ato lesivo na sua esfera pessoal, eis que experimentaram, indubitavelmente, os efeitos lesivos de forma indireta ou reflexa.
Trilhando o mesmo caminho, o Ministro Sidnei Beneti, ao relatar o REsp 876.448/RJ, asseverou:
Deve-se reconhecer, contudo, que, em alguns casos, não somente o prejudicado direto padece, mas outras pessoas a ele estreitamente ligadas são igualmente atingidas, tornando-se vítimas indiretas do ato lesivo. Assim, experimentam os danos de forma reflexa, pelo convívio diuturno com os resultados do dano padecido pela vítima imediata, por estarem a ela ligadas por laços afetivos e circunstâncias de grande proximidade, aptas a também causar-lhes o intenso sofrimento pessoal. [...] O dano moral por ricochete ou préjudice d’affection constitui direito personalíssimo dos referidos autores, e autônomo, conferindo-lhes direito à indenização por dano reflexo, por terem sido atingidos, também, em sua esfera de sofrimento. No caso, têm direito os autores à indenização decorrente da incapacidade e da gravidade dos danos causados à integridade física da vítima, eis que experimentaram, indubitavelmente, os efeitos lesivos de forma indireta ou reflexa.
No trato doutrinário da matéria, segundo Caio Mário da Silva Pereira236: [...] Todas essas situações podem ser enfeixadas numa fórmula global ou num princípio genérico: têm legitimidade ativa para a ação indenizatória as pessoas prejudicadas pelo ato danoso. Não basta, entretanto, como no lugar próprio já desenvolvi (Capítulo IV), um dano hipotético. Somente enseja a titularidade à pretensão indenizatória exigível (Anspruch), quem diretamente sofra o prejuízo. Esta regra comporta, entretanto, exceções, das quais a mais contundente é a teoria do dano em ricochete (Capítulo IV). Pessoa que não pode evidenciar dano direto, pode, contudo, argüir que o fato danoso nela reflete, e, assim, adquire legitimidade para a ação, com exclusividade ou cumulativamente com o prejudicado direto, ou em condições de assistente litisconsorcial. Se se reconhece a existência do dano em ricochete, não se pode recusar o direito de ação, esclarecendo
desde logo que o direito da vítima mediata (reparação do dano material ou moral) é distinto do da vítima imediata.
No mesmo sentido, Sérgio Severo237 assinala que “sobrevivendo a vítima direta, a sua incapacidade pode gerar um dano a outrem”, e “os familiares mais próximos da vítima direta gozam o privilégio da presunção juris tantum de que sofreram um dano em função da morte do parente”, todavia, “se a vítima sobreviver, devem comprovar que a situação é grave e, em função da convivência com a vítima, há um curso causal suficientemente previsível no sentido de que o dano efetiva-se”.
Conquanto vislumbrada pela doutrina e jurisprudência a hipótese do multicitado dano moral ricochete, Humberto Theodoro Júnior238 é cuidadoso no trato da tese de reparabilidade a pessoas ligadas à vítima, ponderando que
:
Quando o ofendido comparece, pessoalmente, em juízo para reclamar reparação do dano moral que ele mesmo suportou em sua honra e dignidade, de forma direta e imediata, não há dúvida alguma sobre sua legitimidade ad causam. Quando, todavia, não é o ofendido direto, mas terceiros que se julgam reflexamente ofendidos em sua dignidade, pela lesão imposta a outra pessoa, torna-se imperioso limitar o campo de repercussão da responsabilidade civil, visto que poderia criar uma cadeia infinita ou indeterminada de possíveis pretendentes à reparação da dor moral, o que não corresponde, evidentemente, aos objetivos do remédio jurídico em tela.
Nesse cenário, torna-se imperioso consignar que a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça confere legitimidade ativa aos parentes do sujeito passivo direto das lesões morais, no denominado dano moral ricochete:
DIREITO CIVIL. RESPONSABILIDADE CIVIL. COMPENSAÇÃO POR DANOS MORAIS. LEGITIMIDADE ATIVA. PAIS DA VÍTIMA DIRETA. RECONHECIMENTO. DANO MORAL POR RICOCHETE. DEDUÇÃO. SEGURO DPVAT. INDENIZAÇÃO JUDICIAL. SÚMULA 246/STJ. IMPOSSIBILIDADE. VIOLAÇÃO DE SÚMULA. DESCABIMENTO. DENUNCIAÇÃO À LIDE. IMPOSSIBILDADE. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STJ E 283/STF. 1. A interposição de recurso especial não é cabível quando ocorre violação de súmula, de dispositivo constitucional ou de qualquer ato normativo que não se enquadre no conceito de lei federal, conforme disposto no art. 105, III, “a”, da CF/88. 2. Reconhece-se a legitimidade ativa dos pais de vítima direta para, conjuntamente com essa, pleitear a compensação por dano moral por ricochete, porquanto experimentaram, comprovadamente, os efeitos lesivos de forma indireta ou reflexa. Precedentes. 3. Recurso especial não provido. REsp 1.208.949/MG; Relator(a): Ministra NANCY ANDRIGHI; Órgão Julgador: T3 - TERCEIRA TURMA; Data do Julgamento: 07/12/2010; Data da Publicação/Fonte: DJe 15/12/2010.
237SEVERO, Sérgio. Os danos extrapatrimoniais. São Paulo: Saraiva, 1996. p. 25-26. 238THEODORO JÚNIOR, Humberto. Dano moral. Belo Horizonte: Del Rey, 2010. p. 16.
PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO AO ARTIGO 535, II, DO CPC NÃO CARACTERIZADA. AÇÃO REPARATÓRIA. DANOS MORAIS. LEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM DO VIÚVO. PREJUDICADO INDIRETO. DANO POR VIA REFLEXA. I - Dirimida a controvérsia de forma objetiva e fundamentada, não fica o órgão julgador obrigado a apreciar, um a um, os questionamentos suscitados pelo embargante, mormente se notório seu propósito de infringência do julgado. II - Em se tratando de ação reparatória, não só a vítima de um fato danoso que sofreu a sua ação direta pode experimentar prejuízo moral. Também aqueles que, de forma reflexa, sentem os efeitos do dano padecido pela vítima imediata, amargando prejuízos, na condição de prejudicados indiretos. Nesse sentido, reconhece- se a legitimidade ativa do viúvo para propor ação por danos morais, em virtude de ter a empresa ré negado cobertura ao tratamento médico- hospitalar de sua esposa, que veio a falecer, hipótese em que postula o autor, em nome próprio, ressarcimento pela repercussão do fato na sua esfera pessoal, pelo sofrimento, dor, angústia que individualmente experimentou. Recurso especial não conhecido. (REsp 530.602/MA, Rel. Min. CASTRO FILHO, TERCEIRA TURMA, DJ 17/11/2003).
No mesmo sentido é a jurisprudência do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo:
Apelação nº 0024727-50.2011.8.26.0224; Relator(a): Beretta da Silveira; Comarca: Guarulhos; Órgão julgador: 3ª Câmara de Direito Privado; Data do julgamento: 04/10/2011. Ementa: Apelação - Indeferimento da petição
inicial, por inépcia - Pedido de assistência judiciária prejudicado, face a sua concessão no Agravo de Instrumento nº 0127248-66.2011.8.26.0000, desta Relatoria - Veiculação, na exordial, da tese do dano moral reflexo, cuja indenização é pretendida dos estabelecimentos médico-hospitalares (clínica médica e hospital) aos quais se encontra vinculado o profissional responsável pelo suposto erro médico, que ocasionou lesão física à companheira do apelante e sofrimento e constrangimento morais, por ricochete, a este e a sua família - Reconhecimento indevido da ilegitimidade ad causam, passiva e ativa - Sentença terminativa que deve ser reformada - Recurso provido, prejudicado o exame do pleito de assistência judiciária.
Apelação nº 9150906-68.2008.8.26.0000; Relator(a): Gomes Varjão; Comarca: Taubaté; Órgão julgador: 34ª Câmara de Direito Privado; Data do julgamento: 09/05/2011. Ementa: Acidente de trânsito. Ações de
indenização por danos morais julgadas conjuntamente, dado o reconhecimento da conexão. O dano moral independe de prova, porque advém da experiência comum, sendo irrelevante a dependência econômica em relação às vítimas, bem como valor recebido pelo ex-cônjuge e pai delas em ação diversa. Hipótese em que se reconhece o dano por ricochete, já que a mãe e irmãs de um dos falecidos foram inegavelmente atingidas pela repercussão do evento danoso, em razão dos laços afetivos que as unia. Razoabilidade da indenização em 150 (cento e cinquenta) salários-mínimos para cada um dos autores. Os juros são devidos desde a data do evento danoso, por se tratar de responsabilidade extracontratual. Deve ser considerado o salário-mínimo vigente quando da prolação da r. sentença, a fim de que não seja utilizado como fator de reajuste, bem como para se adequar a indenização ao disposto na Súmula 362 do STJ. Improvido o recurso da ré e parcialmente providos os dos coautores e da denunciada. Vale a advertência de que este item tratou da questão do dano moral denominado ricochete, no qual se discute a possibilidade de parentes próximos ou
cônjuges pleitearem reparação por danos morais juntamente com a vítima do ato ilícito que permaneceu viva e também promoveu a ação indenizatória perante a justiça, diferenciando-se da situação que será examinada no tópico abaixo atinente à legitimidade para a demanda reparatória quando da morte da pessoa atingida pelo evento danoso.