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BÖLÜM IV 45

4.2 İş Güvenliği

4.2.7. Tehlikeli Madde, Malzeme ve İşlemler

Confrontar alguém com sua sombra significa também mostrar-lhe sua luz. (JUNG, [1958], 2011f, §872).

A transição do meio da vida é um período de potencial renovação dos padrões psicológicos conhecidos e é de vital importância para o processo de individuação. As crises podem ocorrer a qualquer momento, na vida; no meio da vida, podem simbolizar um motor impulsionador do desenvolvimento das demandas psicológicas relacionadas a esse período. Entendida como uma situação de emergência, na qual o conflito não pode ser resolvido por meio dos mecanismos de enfrentamento disponíveis, a crise requer o surgimento de um novo elemento conciliador, representando uma oportunidade de renovação da psique. Os conceitos de crise e de transição convergem para a emergência do novo. A superação da crise é em si uma oportunidade de desenvolvimento, mas não é a única saída possível; há situações nas quais a pessoa se acostuma ao problema e o potencial de desenvolvimento não é aproveitado para a emergência do novo. Ao adotar uma perspectiva que leva em conta o processo de individuação, esta pesquisa procurou compreender a crise no trabalho, durante a transição do meio da vida, em profissionais de alta qualificação que atuavam no mercado corporativo privado, de acordo com sua avaliação pessoal.

Vários aspectos associados ao trabalho, na contemporaneidade, foram descritos pelos participantes, ao se referirem a suas experiências nas empresas. A maioria considerou que o trabalho representa uma oportunidade de desenvolvimento de capacidades e de obter ganhos financeiros, no entanto, a agressividade e até mesmo a hostilidade, permeando o ambiente corporativo, descritas na teoria, foram identificadas nas falas referentes a algumas características do ambiente corporativo, tais como: as organizações matriciais das empresas flexíveis que desorientam o indivíduo, dificultando a compreensão das estruturas de poder (SENNETT, 2012a); as mudanças constantes (BAUMAN, 2001), que, muitas vezes, não levam em consideração as aspirações individuais; a meritocracia, que deveria se basear nos resultados obtidos, porém, que, na prática, tende a ser uma avaliação subjetiva dependente do líder (SENNETT, 2012b); a cultura do sucesso, que não aceita o fracasso e premia os melhores, estimulando a competição (SENNETT, 2012a); e os engajamentos por

projeto, nos quais o histórico dos resultados obtidos anteriormente se perdem, o que Sennett (2012a) relacionou à carreira de curto prazo e que Bauman (2001) descreveu como um dos aspectos dos tempos líquidos.

Em tempos de competição acirrada, a indiferença em relação ao ser humano foi sublinhada na maioria das entrevistas, ao descreverem a superficialidade e a falsidade das relações no trabalho, reduzindo o outro a pouca relevância (SENNETT, 2012b), ou ao se referirem às empresas que buscam a meta pela meta, “coisificando os funcionários” – como se o ser humano fosse uma “mercadoria” – ou nos casos em que as pessoas são medidas apenas por números e muitas vezes descartadas (BAUMAN, 2001, 2008).

Considerando que as empresas são potencialmente estimulantes para o desenvolvimento da consciência, devido aos aspectos psicodinâmicos envolvidos, mas que também podem ser restritivas à individualidade e que o grau de prejuízo potencial depende da filosofia da organização e do indivíduo (STEIN, 1992; AUGER; ARNEBERG, 1992), a agressividade enfatizada pelas entrevistas, se excessiva, poderia limitar as condições que favorecem o desenvolvimento individual. Dejours, Dessors e Desriaux (1993) ressaltam que as empresas favoráveis à saúde são as que oferecem um campo de ação para que o trabalhador concretize suas aspirações, ideias, imaginação e desejos. Barreto (2009) assinala, em sua pesquisa, que o mundo atual, líquido, ambíguo, flexível, gera a necessidade de desenvolvimento de competências que contribuam com o equilíbrio e a autorregulação.

As características dos tempos atuais permearam os relatos, contribuindo, em vários casos, para a eclosão da crise. Todos os participantes descreveram eventos externos, denominados culminantes, com base na teoria de Levinson (1978), os quais os levaram a entrar em crise no trabalho20. A maioria dos eventos externos narrados envolveu perdas, em acordo com a teoria estudada (STEIN, 2007; HOLLIS, 1995).

Os relatos obtidos apontaram para distintas formas de enfrentamento da crise. Alguns parecem indicar uma orientação para uma reflexão introspectiva, ao se questionarem sobre sua contribuição para a situação vivida. Nestes, houve mudanças de atitude, novas percepções de si ou uma nova percepção do significado existencial, correspondendo ao que Kast (2004) descreveu como superação. Outros indicaram

20 Ainda que as crises não se restrinjam ao campo do trabalho, procurou-se como objeto de estudo desta pesquisa fazer um recorte ligado ao trabalho.

uma reflexão incipiente apontando para as mesmas atitudes e valores. Dentre os que indicaram uma reflexão incipiente, há aqueles cuja ênfase indica uma orientação externa ou uma prioridade à persona, enquanto outros parecem indicar, apesar de reflexões esparsas, vitimização e frustração, ao culpar o outro ou o mundo pelas dificuldades vividas. Esses resultados se assemelham a uma das pesquisas levantadas, na qual se verificou, que diante de uma situação de risco, pode haver vitimização ou resiliência (BARLACH; LIMONGI-FRANÇA; MALVEZZI, 2008).

Os relatos sugerem uma ideia de gradação no que concerne ao enfrentamento da crise e à disponibilidade reflexiva, que compreende desde a reflexão introspectiva e a emergência de uma nova estratégia de enfrentamento, entendida como superação, até uma reflexão esparsa com muita frustração e vitimização.

A maioria concebeu a crise como uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento e, naqueles em que predominou a vitimização e a frustração, a descrição foi mais negativa, como, por exemplo, associando-a a uma doença ou a uma situação indesejável que deixa marcas profundas, as quais não serão esquecidas. Segundo Kast (2004), aproveitar o potencial de renovação contido na crise depende em primeira instância de entrar em contato com a mesma, compreendendo-a como uma oportunidade e não como um acidente a ser esquecido.

Os relatos que apontaram para uma reflexão introspectiva parecem indicar uma ampliação de consciência, como o reconhecimento de complexos familiares, a identificação com a persona e a inflação do ego ou a conscientização da finitude. O reconhecimento de tais aspectos aponta para uma qualidade na transição do meio da vida, visto que, de acordo com os autores estudados, as demandas psicológicas desse período estão relacionadas com o confronto dos opostos sombra/persona (STEIN, 2007), com a separação dos complexos parentais (HOLLIS, 1995) ou com a conscientização da finitude (JACQUES apud LACHMAN, 2004; STEIN 2007; HOLLIS, 1995), podendo levar a um questionamento sobre o legado de vida, conforme mencionado por um dos participantes e que corresponde ao que Levinson (1978) descreveu como uma reivindicação à imortalidade.

A transição do meio da vida é também um período de potencial emergência da alteridade (STEIN, 2007; BYINGTON, 2013). Alguns relatos indicaram essa possibilidade do meio da vida, como, por exemplo, mudanças no relacionamento com a esposa e com os filhos, mudança de valores no trabalho associada a uma maior

importância do outro e mudança de carreira de atividades voltadas à tarefa para atividades ligadas ao desenvolvimento do outro. Os relatos que indicaram a emergência da alteridade são também os que apontaram para uma reflexão introspectiva.

Esses relatos correspondem ao que a literatura mostra como uma superação ou uma nova estratégia de enfrentamento da crise, descritas em termos de uma nova percepção de contribuição no mundo ou de vocação, uma compreensão existencial da finitude, um reconhecimento de erros e fragilidades, uma mudança de relacionamento com familiares e de cuidado com a própria saúde, uma percepção de maior autonomia e bem-estar e um novo sentido para o trabalho.

Ao indicar uma reflexão introspectiva, com ampliação de consciência e a emergência de uma nova estratégia de enfrentamento, esses relatos parecem apontar para uma qualidade na transição do meio da vida com uma ampliação de possibilidades existenciais.

Outros relatos parecem indicar uma reflexão incipiente, com ênfase na orientação externa, como na disposição mostrada de posturas que atendam constantemente às demandas externas de mobilização da atualidade ou na tentativa descrita de desenvolver capacidades as quais possam ser incluídas em uma “caixa de ferramentas” de atitudes possíveis para lidar com os riscos da vida. Ainda que houvesse uma reflexão incipiente, esses relatos frisaram as atitudes e valores anteriores. São relatos que se assemelhem ao que Jung ([1916, 1934], 2011b) descreveu como a identificação do ego com a persona que se volta à orientação externa, em detrimento da adaptação interna.

E, por último, há um conjunto de relatos que parecem indicar reflexões esparsas que não alcançaram a conscientização de uma postura vitimizada, como na entrevista em que se priorizaram as tentativas de denunciar um assédio moral, na expectativa de que a empresa punisse os agressores; culpando somente o outro e as condições hostis do trabalho, não pareceu perceber sua participação nos acontecimentos. Tais relatos não revelaram uma tomada de consciência de sua postura, mantendo aparentemente valores, objetivos e atitudes usuais. Em outra entrevista, a qual insistiu exaustivamente na hostilidade do ambiente corporativo, enfatizando uma postura de vitimização, houve indicação de uma contínua busca profissional dos objetivos habituais de promoção e reconhecimento por meio de tentativas repetidas de mudar

de área na empresa, sem que surgissem outras formas de lidar com a situação. Pode- se entrever algumas defesas empregadas como, por exemplo, se anestesiar para lidar com a indiferença e o descaso do outro. Esses relatos não deixaram de revelar possibilidades de reflexão como, por exemplo, ponderar sobre o objetivo profissional almejado, contudo, tendem a culpabilizar os outros mantendo uma atitude defensiva contra a dor, ao invés de passar pela transição do meio da vida lidando com a disparidade entre os objetivos profissionais atingidos e o que sonhou ser (LEVINSON, 1978, 1996).

Os relatos que indicaram uma reflexão incipiente ou esparsa, recorrendo a mecanismos de defesa ou ao uso de persona para lidar com a hostilidade do mundo, parecem apontar para uma das dificuldades que Stein (2007) expôs, didaticamente, como um desafio da necessidade de separação no meio da vida, quando se realiza o luto e o desapego de padrões correspondentes ao modo de viver anterior.

Em suma, a pesquisa permitiu observar diferentes formas de enfrentamento das pessoas que viveram uma crise, durante a transição do meio da vida. Alguns parecem indicar uma abertura para reflexão e mudança de atitude com respeito a uma nova percepção de si, emergência da alteridade, conscientização da finitude, correspondendo ao que a literatura trata como uma transição do meio da vida com uma ampliação de possibilidades e de reconhecimento de si, aprofundando o sentido existencial (STEIN, 2006).

Outros mostraram uma capacidade de enfrentamento, mas indicaram uma reflexão incipiente, assinalando os mesmos valores e situações anteriores. Segundo Kast (2004), a crise pode ser superada ou pode desaparecer depois de um tempo com a pessoa convivendo com o problema; nesse caso, o potencial de desenvolvimento não foi aproveitado (KAST, 2004). É importante lembrar que os relatos indicam apenas um momento de resolução, em um processo contínuo, com um potencial de mudanças e transformações que podem ocorrer ao longo de um percurso em aberto.

Destaca-se, face aos resultados observados, que a capacidade de reflexão e de questionamento existencial são elementos de uma superação satisfatória da crise, contribuindo para a qualidade na transição do meio da vida compreendida no processo de individuação.