3.4. YUSUF İLE MENOFİS OYUNUNDA ANA METĠNSEL DÖNÜġÜMLER VE
3.4.1. Tarih Ötesi YaklaĢımdan Tarihselliğe: Yusuf‟un Mısır‟a GeliĢi….… 44
3.4.2.5. Yusuf Mısır Halkını KöleleĢtiriyor
A história de vida do Silva Porto foi-se reconstituindo, ao longo do seu percurso, através da sua convivência no espaço social umbundu e nas sociedades de África Central, desde a superestrutura até à base. Isso processou-se nas suas viagens desencadeadas, a nível comercial e político, em defesa dos interesses da coroa portuguesa. Esta incumbiu-o de apresentar um relatório com a descrição do itinerário das rotas comerciais do marfim, dos escravos, do ouro, e da borracha; a identificação dos topónimos, hidrónimos, antropónimos, dados cronológicos, geográficos, etnológicos e da revitalização do famoso comércio “a longa distância” decorrido na segunda metade do século XVIII, pelos antigos sertanejos, como via importante da economia colonial84. Estas relações possibilitaram a Silva Porto redigir a sua biografia conforme consta no seu Diário de viagens. O autor sentiu-se estimulado pelo prémio militar oferecido pelo Governo-Geral, o “pôsto de Capitão de Passagens, com o soldo
ou gratificação que o Governo da Sua Majestade designou a Junta de Fazenda, conceder-lhe um prémio de um conto de réis e outra recompensa que sua Majestade, sempre solicita para promover, dignar e galarduar importantes serviços, àquele que pelo mais louvável patriotismo e os auxilios que deveriam receber do Governador - Geral da província de Moçambique”85. As orientações do governo eram de se estabelecer uma convivência directa com as fontes de abastecimento comercial, através da “criação de relações amigaveis com os chefes africanos”86, promover feiras, contractos, negociações, o que o estimulou a traduzir o seu próprio discurso narrativo, tendo em conta o prémio galardoado de “herói da Pátria portuguesa”, aliciado pelo Governo português.
O epílogo deste assunto, concedido ao estudo da história de vida implica analisarmos as teorias sobre autobiografia e biografia, consideradas as teorias que formalizam o estudo da História de Vida. Assim, a autobiografia é “a recolha directa ou
84 Uma viagem a Contra-Costa. Boletim Official do Governo da Província de Angola (B.O.A). N.º 446 (1954) p. 451-456. Este texto foi reproduzido nos Annaes do Conselho Ultramarino, parte não official. I.ª Série (1867) p. 273-281.
85 Ofício n.º 474 da Repartição Civil do Governo-geral da Província de Angola dirigido ao Governo do Distrito do [Bié] e ao Presidente da Câmara Municipal de Luanda. Boletim Official da província de Angola. n.º 344 (1 de Maio 1852).
86 Ofício do Palácio do Governo de [Benguela], 30 de Maio de 1852, exarado por José Rodrigues Coelho do Amaral, a Silva Porto. Boletim Oficial de Angola. N.º 355 (17 de Julho de 1852).
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indirecta de testemunhos ‘vividos’ nos domínios histórico, etnológico, psicológico, sociológico e literário”87. “A autobiografia é redigida por aquele que assume o seu
próprio dizer- elementos característicos de um diário pessoal- motivação interior”88.
Foi nesse sentido que o autor da sua própria biografia (autobiógrafo) produziu a sua história de vida. O estudo de Pierre Michard e Arlette Yatcinovsky (1995) clarifica o domínio da História de Vida, incluindo-lhe a Autobiografia89. Eles aprofundam a teoria da Historia de Vida contemporânea como sendo o resultado da narrativa de vida através dos anos, onde a autobiografia literária constitui particular importância. Questionam qual é a primeira autobiografia, razão que trouxe muitas querelas no campo literário90. Eles propõem absorver os escritos e fundamentar a exploração de todas as dimensões de História de Vida. Partindo do seu ensaio, Montaigne (século XVI) apresentou os temas da autobiografia: “Je suis moi-même la matière de mon livre, je veux qu’on m’y voit en
une façon simple, naturelle, et ordinaire sans contention et artifice”. Cada homem
possui nele a sua condição humana, e a autobiografia é também privada e universal e além disso, é a descrição da mudança e da evolução. Na época do iluminismo, no século XVII, temos, por exemplo, Jean Jacques Rousseau que redigiu diante de Deus e o resto da História, uma vontade que expressava querer fazer-se reconhecer inocente das faltas que lhe eram imputadas e que ele não cometeu. A propósito, Georges Gusdorf, citado por Michard e Yatchinovsky, particulariza o exercício espiritual na tradição milenar das escrituras do “Eu” e de inspiração religiosa até uma época relativamente recente, na qual o jornal íntimo e a autobiografia se encontram estreitamente associadas com o
87 POIRIER, Jean; CLAPIER-VALLADON, S; RAYBAUT, Paul - Histórias de vida: teoria e prática. 2.ª ed. Oeiras: Celta, 1999. P. 11.
88 Idem, p. 23.
89 MICHARD, Pierre; YATCHINOVSKY, Arlette - Histoire de vie: une nouvelle approche pour repenser sa vie autrement. Paris: ESF, 1995.
90 Saint Augustin, Montaigne e Jules Vallés debruçaram-se sobre o conceito de autobiografia dita “mais conceituada” em tempos remotos, da antiguidade moderna, presente nos estudos de Direito Canônico, assente nas ordenações de justiça e teologia. O teólogo Saint Augustin possui informação comparável à contida nas Confissões, onde relaciona a história comovente de sua alma, a retratações que dão a história de sua mente. A história de Vida de Santo Agostinho foi escrita por seu homólogo Possídio, retratando o santo apostolado. Nele foram destacadas 3 etapas desta grandiosa vida: (1) o retorno gradual do jovem andarilho da Fé, (2) o desenvolvimento doutrinário do filósofo cristão ao tempo de seu episcopado, (3) o pleno desenvolvimento de suas atividades sobre o trono episcopal de Hipona. Reconhece-se que a sua evolução teórica neste domínio da Autobiografia, Biografia e História de Vida deveu-se, grandemente, aos contemporâneos da época clássica, da escola francesa, tais como, Pierre Bourdieu, Simon-Clapivier e Raybout.
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exame de consciência em que os fiéis se entregam perante Deus, onde o acto de confessar caracteriza bem o aspecto sacramental91.
A autobiografia é, antes de tudo, um acto religioso. Ele apela para a “dessacralização do espaço interior”, porque considera que a história do “Eu” tornou-se o testemunho humano de um homem entre os outros homens. A compreensão da passagem de uma falta, reconhecida como redentora durante as confissões perante o testemunho da injustiça ou de abuso ou mesmo de maus tratos, é central para compreender a evolução da Autobiografia e da prática da História de Vida como forma de reflectir sobre si. Dentro dos estádios de formação, a História de Vida é utilizada como meditação entre o saber individual e a necessidade das estruturas. As grandes noções de História de Vida são apontadas por Michard e Yatchinovsky e “cingem-se denominadas pela acção do sujeito, surgem no contexto e na referência teórica do narrador da sua história92. Elas surgem involuntariamente e passam a constituir depois uma referência de vida: a identidade, a evolução e a formação; factos e ocorrências acidentais; experiências e revoltas; projectos; património, hereditariedade e recursos; destino e determinismo; ciclo de vida, ruptura, crise, injustiça, maus tratos, ou o inverso, agradecimentos”. A história de vida principia, quase sempre, por abordagens do sujeito que a inicia sem modelo conceptual que a priori vai forjando uma teoria pessoal. A autobiografia é transversal à questão da identidade, entre a sua permanência e a evolução, reflectida em duas opções, na permanência do “Eu” e do carácter da alma resistente ao tempo e à vida. As correntes teóricas da história de vida caracterizam-se por três grandes correntes psicoterapêuticas: A psicanálise, a abordagem sistemática e a abordagem contextual. Destas grandes correntes psicoterapêuticas o nosso trabalho enquadra-se numa abordagem contextual, ao considerar que a história de vida de Silva Porto está inserida no contexto das relações de convivência na sociedade umbundu e da África central.
A biografia insere-se nos estudos biográficos e é, sobretudo, a recolha de testemunhos documentais, orais e materiais para redigir a história de vida de alguém. Enquanto a autobiografia é aquela que assume o seu dizer de forma introspectiva, como
91 MICHARD; YATCHINOVSKY, Op. Cit., p. 11-12. 92Idem.
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acima referimos, a biografia é a escrita de factos particulares das várias fases da vida de uma determinada pessoa. Sendo a biografia escrita por outra pessoa pode surgir opiniões subjetivas sobre a vida do protagonista. Como género literário, a biografia é uma narração da história de vida de uma pessoa ou de uma personagem, geralmente na terceira pessoa.
Valorizar a biografia e a história de vida em contactos iniciais com o subjectivo até às razões de um trabalho de terreno estruturado, são estratégias que produzem a motivação do narrador na persistência e simultaneidade das informações obtidas através de um inquérito. Outro conjunto de perspectivas deriva dos aprofundamentos desenvolvidos nos estudos pós-coloniais respeitantes à constituição do poder, do conhecimento e do discurso colonial, Joseph C. Miller e V. Mudimbe93. Neste sentido, as obras de Nicholas Thomas e de Mary Louise Pratt 94, que se encontram na intersecção da análise do texto e da crítica ideológica, são particularmente relevantes e úteis em sugerir caminhos para “desvendar os mecanismos ideológicos e semânticos” por meio dos quais o viajante europeu participava num campo discursivo mais vasto relativamente ao “Outro” e a outras culturas95. A leitura e análise documental apoiar-se- ão ainda na aplicação dos métodos de investigação e de interpretação biográfica e autobiográfica – cuja importância para a compreensão dos mundos, quer individuais, quer sociais tem sido cada vez mais demonstrada – dando uma atenção especial às questões colocadas pela auto-representação nas narrativas produzidas pelos dois viajantes96. Orientada por essas gralhas conceptuais, a interpretação e análise do
93 MILLER, Joseph Calder - Slavery: a worldwide bibliography, 1900-1982. White Plains, N.Y.: Kraus International, 1985. MUDIMBÉ, Vumbi Yoka - The invention of Africa: gnosis, philosophy, and the order of knowledge. Bloomington; Indianapolis: Indiana University Press, 1988.
94 THOMAS, Nicholas - Colonialism's culture: Anthropology, travel, and government. Princeton, N. J.: Princeton University Press, 1994. PRATT, Mary Louise - Os Olhos do Império: relatos de viagem e transculturação. Bauru: EDUSC, 2005.
95 MACHADO, M. H. Pereira Toledo - Os olhos do Império. Relatos de viagem e Transculturação. Revista Brasileira de História. Vol. 20, n.º39 (2000) p. 281-289.
96 MICHARD, Pierre; YATCHINOVSKY, Arlette - Histoire de vie: une nouvelle approche pour repenser sa vie autrement. Paris: ESF, 1995. POIRIER, Jean; CLAPIER-VALLADON, S; RAYBAUT, Paul - Histórias de vida: teoria e prática. Oeiras: Celta, 1999. LEJEUNE, Philippe - Le pacte autobiographique. Paris: Seuil, 1975. CHAMBERLAIN, M.; THOMPSON, P. - Gender and the narratives of migration. History Workshop Journal. 43 (1997) p. 87-110. DENZIN, Norman K. - Interpretive biography. Newbury Park: Sage, 1989. REISSMAN, C. K. - Narrative Analisis. Qualitative Research Methods Series. Nº. 30 (1993).
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conteúdo do Diário de Silva Porto apoiar-se-á em pesquisas complementares, tanto arquivísticas e bibliográficas, como recolha de informação no terreno. Correspondência original referente ao viajante está preservada no concelho de administração de Bengela. Outra documentação relevante encontra-se em Portugal - em especial, nos fundos do Arquivo Nacional Ultramarino, na Sociedade de Geografia de Lisboa e na Biblioteca Pública Municipal do Porto.
Na leitura dos seus textos identificámos vários aspectos da transculturalidade e autobiografia. A descrição do itinerário de viagens, do percurso, a genealogia das relações com a corte, com as entidades políticas, a forma de escrever os textos integrando a língua umbundu e outras práticas que absorveu no seio da comunidade umbundu, constituíram o principal motivo para desenvolver a nossa pesquisa de investigação em História no domínio da biografia e transculturação. De igual modo, retivemos os elementos culturais que Silva Porto transmitiu à sociedade umbundu. No conjunto desses aspectos procurámos destacar os elementos que marcaram a evolução da sua mentalidade, com especial atenção, dentro da estrutura social umbundu. Sendo o fenómeno transcultural a base do estudo das questões identitárias presentes nas trajectórias das personagens, migrantes que se transformam e enfrentam situações de contacto com a cultura alheia, recorremos a este conceito de transculturalidade para definir a história de vida de Silva Porto na sua deslocação de Portugal para o Brasil e depois para África – Viye num processo de redescoberta de si mesmo, pela assimilação de elementos culturais encontrados no novo espaço. As opções para a abordagem do suporte teórico foram possíveis devido à amplitude do espólio documental deixado por Silva Porto que incorpora diversos assuntos: fauna, zoologia, flora, glossário umbundu, literatura, genealogia, hierarquia política, hidrografia, comércio a longa distância, correspondência oficial e familiar, para além do espólio material e iconográfico depositado na Sociedade de Geografia de Lisboa e na Biblioteca Pública Municipal do Porto, em Portugal.
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