3.4. YUSUF İLE MENOFİS OYUNUNDA ANA METĠNSEL DÖNÜġÜMLER VE
3.4.1. Tarih Ötesi YaklaĢımdan Tarihselliğe: Yusuf‟un Mısır‟a GeliĢi….… 44
3.4.2.3. Rüyaları Yorumlarken: Çıkarcı ve Kurnaz Yusuf
Para a transcrição das palavras em línguas nacionais, baseámo-nos no quadro fonético preconizado pelo Instituto de Cultura e Línguas Africanas de Londres que apresenta o Alfabeto Internacional Africano de Referência e a resolução n.º 3/87 de 23 de Maio, do Conselho de Ministros da República de Angola. Neste caso a língua umbundu. Esta resolução define a título experimental os alfabetos de 6 das 10 línguas nacionais da família bantu existentes em Angola.
Utilizámos a técnica arquivística que consistiu na aplicação de processos de composição do texto dos 13 volumes do Diário de Silva Porto, dos cadernos avulsos e
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do seu espólio iconográfico. Para isso identificámos os elementos que facilitaram a aplicação desta técnica, a sistematização dos dados, o seu processamento, o seu desenvolvimento, a sua utilização, e a apresentação dos resultados do trabalho. Na primeira fase organizámos os textos em quatro categorias: 1- tipologia das temáticas; 2- ordenamento cronológico; 3- ocorrências diárias; 4- registo de transmissão oral. Esta estrutura deveu-se ao facto de o Diário de Silva Porto ser uma fonte arquivística e simultaneamente oral.
Para que a nossa pesquisa evoluísse em conformidade com os objectivos traçados, utilizámos a entrevista como meio de diálogo que nos permitiu cruzar com as diversas fontes documentais e materiais utilizadas, em particular as entrevistas contidas no Diário de Silva Porto, prestadas pelos seus serviçais, carregadores e pombeiros sobre a vida da sociedade umbundu57. Realizámos seis entrevistas a pessoas da área sócio- cultural umbundu, algumas delas habitantes na periferia de Luanda, com quem mantivemos entrevistas livres. Na preparação das entrevistas foram seleccionadas, em primeiro lugar os informantes privilegiados, seguidamente o lugar da entrevista e por fim o roteiro da entrevista. Demos prioridade a 4 pessoas com mais idade: Os oloSoma de Viye e Mbalundu, os Epalanga e a duas descendentes de carregadores do autor. Prosseguimos com o ancião Funda, natural de Viye, diácono da igreja Baptista em Angola desde a década 30, com quem mantivemos diálogos intercalados durante 6 meses no ano de 2011. Delimitámos um cronograma temporal, para evitar que o entrevistado se inibisse e omitisse informação. Interessou-nos auscultar o funcionamento, a estrutura, as regras das instituições sócio-politicas-económicas- culturais ovimbundu, os rituais do nascimento, da escola de iniciação de ambos os sexos, do casamento, da morte e dos ritos religiosos, com muito interesse para o culto dirigido aos espíritos antepassados designados Ehamba. Quando nos encontrávamos no
57 PORTO, António Francisco Ferreira da Silva - Viagens e apontamentos de um portuense em África: diário [Manuscrito]. Vol. XI. Volume pertencente à Sociedade de Geographia Commercial do Porto, 1884-1885-1886-1887. Este volume, à semelhança dos outros, contém transcrições de Silva Porto sobre a transmissão oral de vários assuntos da vida da sociedade umbundu, o que pressupõe a criação de um staff de colectores de dados, partindo da tradição oral até às informações mais recentes nesse período, como descreve: “Querendo reproduzir-se a sena do dia 24 em que serviçais, pombeiros e carregadores, não queriam arredar pé de Quiçanje no Sitio Soto Handongo à nossa aproximação dos acampamentos deixei que tomassem esse caminho, e ordenei os serviçais da tipóia que me seguissem fazendo o mão grado, por se acharem a intenção de subir a Longo lé Longo e entrar no acampamento sitio no sopé do lado de leste!” (27 de Março de 1887).
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município do Citembu na comuna Mumbwe próximo ao rio Cipita, numa plantação de musatchi (cana de açúcar), um ancião de origem ngangela disse-nos que continuavam a praticar o culto de Nahamba, sendo o mesmo praticado na sociedade umbundu, sobretudo na zona sudeste do Viye onde se situam os ngangela, que terão trazido o culto da sua origem, no Kuvangu. Ou seja, perdura a hierarquia na qual se destaca a figura do Soma, Epalanga, o Kasoma, o Katumwa e os ohonganji, a divisão urbanística em ombala, os materiais de construção, de caça o ohonji, (flecha), as armas, as catanas, o trabalho da monda (sementeira), o Kisanje (festa), fundamentalmente as fases do casamento tradicional (Ovihombo), a relação entre as duas famílias (Oku Eça Ovihombo), o dote (ongunda), a noiva (Naveleka), o noivo (Ohonji), o salão de festas (Cingalala), o ritual da entrega da noiva (Esepa), a lua-de-mel (Naveleleka) e a festa prolongada (Oku kuata Epata). Não alongamos o diálogo porque, após estabelecermos uma analogia com as estruturas da fonte manuscrita, acedemos a uma precisão de dados sobre os estabelecimentos do sertanejo, do seu regresso ao Kwitu tal como os estabelecimentos nas localidades do soba Lihapeka da raça Lwena; dos sobetas Kinyaneka I, II, III e suas funções, bem como, o que restava sobre os antigos grandes pombeiros: Kanjunju, Kilabe e Kinyuka.
O procedimento geral de trabalho centrou-se em reunir fontes documentais para além do Diário de Silva Porto. Procedemos a uma pesquisa documental junto dos fundos de arquivos nacionais e estrangeiros, nas bibliotecas diocesanas, urbanas, militares e de sociedades de exploração e, em Portugal, na antiga área residencial da família Silva e no asilo de Santa Estefânia em Guimarães. Na África central, na zona mercantil confluente de Katanga, kazembe, no planalto central de Angola, Viye a capitania-mor, a ombala, em Bengela, na antiga firma Désiré Braga, o representante do importante estabelecimento comercial Cochat Frères da Katumbela que serviu de deliberativo para a obtenção da aliança entre os portugueses e Ekwikwi II o Soma do Mbalundu, e a consequente sujeição deste Estado, antigo palácio do Soma Numa, fragmentos da guerra de 1896 da conquista do Mbalundu, alguns kilombos de guerra, as emballa dos sekulo Mwene Utcina, Kapitangu, Lombwnde, Ialwi, Kaley58. No trabalho
58 Existe uma correspondência de 1899, bastante explícita sobre a ausência concreta de vassalagem do Mbalundu, sobre a falta de um domínio efectivo das autoridades portuguesas. Esta situação prejudicava o comércio dos portugueses na medida em que o Viye era o ponto fulcral de todo o comércio a longa
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de campo no Viye procedemos ao levantamento de localidades, rios para uma comparação com os mapas históricos da época com a finalidade de proceder a uma transposição da situação geográfica actual. Transcrevemos os discursos, descrições, relatos, em suma os conteúdos do texto do Diário de Silva Porto que referem aspectos da História social e transcultural na sociedade umbundu de Angola, tendo em conta o método de análise histórica. Para um maior aprofundamento fizemos um estudo exaustivo da obra do padre Bontinck onde detalha as etapas de abordagem no trabalho de terreno bem como a sua teorização59. Isso facilitou-nos a formulação das hipóteses, a definição dos métodos e técnicas e a metodologia do trabalho. Por outro lado, deu-nos segurança para confrontarmos com outras histórias de vida e outras narrativas, tendo em conta que Silva Porto silenciou situações relacionadas com a sociedade tradicional.
O estudo da recolha e sistematização de 10 histórias de vida na região do Congo, sob a direcção de Jewsiewcki, M’Bokolo, Nziem e Kivilu permitiu-nos organizar e estruturar o corpus do trabalho numa perspectiva do “Eu”, “Nós” e os ”Outros” interpretados e analisados em contexto real da época60. Com a técnica do inquérito procedemos a uma lista remissiva e desprovida de prévias opiniões. Neste trabalho conjugámos o plano teórico com o plano prático e a crítica histórica desprovida de precedentes analíticos e interpretativos. No nosso trabalho utilizámos este método e procedimento recorrendo a fonte primária, o Diário de Silva Porto, e a fonte secundária, os seus cadernos avulsos, periódicos, e publicações dos Annais do Conselho Ultramarino. Sistematizados os documentos que se encontravam dispersos entre 1829 a 1890, procedemos à sua interpretação e análise. Considerando que a nossa fonte primária, o Diário, é silenciosa, como nos diz José Carlos Meihy e Fabiola Holanda,
distância do Viye e Leste da passagem comercial para o litoral, assistindo-se a um grande movimento de carregadores va viyeno, va mbalundu, exigidos aos sobas com o pretexto de “ordem do governo” nas caravanas de borracha. É notório o envolvimento de várias autoridades portuguesas nesse comércio com o objectivo de obterem riqueza, usando as oportunidades e os cargos exercidos, e a manutenção da segurança da zona comercial. Arquivo Histórico Nacional de Angola, correspondência do Governador do Distrito de Bengela para o Secretário-geral do Governo (confidencial), caixas do Mbalundu, de 11 de Agosto de 1899.
59 BONTINCK, François - Derrota de Benguella para o sertão: critique d'authenticité. Bruxelles: Académie Royale des sciences d'outre-mer, [1977]. P. [279]-302.
60 JEWSIEWICKI, Bogumil; M'BOKOLO, Elikia; NDAYWEL è NZIEM; KIVILU, Sabakinu (Dir.) - Moi, l’autre, nous autres: vies zaïroises ordinaires, 1930-1980. Dix récits. Paris: École des hautes études en sciences sociales: Centre d'étude sur la langue, les arts et les traditions populaires des francophones en Amérique du nord: Safi, 1990.
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aplicámos a técnica da História oral com um grupo de pessoas descendentes da corte umbundu, familiares, pombeiros, carregadores dos makotas que entrevistámos61. Esse grupo de pessoas acolheu-nos estabelecendo-se um clima de confiança que permitiu uma atitude de observação participante numa abordagem histórica antropológica na sociedade umbundu de Angola e da Comunidade Económica dos Estados de África Central (CEEAC). Tornou-se possível esta aplicação pela cronologia das viagens e locais de memória pelo que se procedeu à análise comparativa e histórica, marcando todas as sequências da realidade social, consciente ou inconscientemente construída, cada dia na prática quotidiana, no processo para a formação de uma personalidade cultural. Deste modo, a técnica de informação e de reflexão histórica, constituem os factores fortes de consciencialização e de mobilização popular “oral”. Têm sido propiciadoras da formação de uma consciência histórica nacional, propriamente angolana, dos processos sociais e de desenvolvimento sócio-económico62.
Analisámos as conjunturas económicas entre os anos 1848-1880, época em que os capitais económicos contrabalançavam as taxas de exportação dos produtos africanos. Explorámos as fontes quantitativas, preços, tipos de moeda, valores, pagamentos de carregadores, de tributos, avaliámos os rendimentos específicos das classes sociais, das suas contradições e das respectivas consequências. Os procedimentos utilizados neste método foram: Classificação do Diário; Categorização do texto; Constatação e compreensão do corpus; Classificação e organização do corpus. A observação-participante, recolha de dados, registo de som e imagem, entrevista dos detentores da tradição, dos chefes da aldeia, soberanos e curandeiros.
61 MEIHY, José Carlos Sebe Bom; HOLANDA, Fabiola - A História Oral. Revista Brasileira da História. São Paulo (2010). A História Oral é um conjunto de procedimentos que se inicia com a elaboração de um projecto. Ele prevê o planeamento da condução das gravações com definição de locais, factores ambientais, transcrição e estabelecimento de textos, pois no entender dos autores, fonte oral “é o registro de qualquer recurso que guarda vestígios de manifestações da oralidade humana” (p. 14). O Diário de Silva Porto é a nossa fonte principal. Ela contém descrições de informantes que transmitem dados da tradição oral, da história do tempo presente na época e a sua própria acção participante na sociedade umbundu e África Central. Por tal facto, caracterizamos o Diário como uma fonte documental, oral é mais que a História Oral (idem, p. 14).
62 BOGUMIL, Jewsiewicki; M'BOKOLO, Elikia; NDAYWEL è NZIEM; KIVILU, Sabakinu (dir.) - Moi, l’autre, nous autres: vies zaïroises ordinaires, 1930-1980. Dix récits. Paris: École des hautes études en sciences sociales: Centre d'étude sur la langue, les arts et les traditions populaires des francophones en Amérique du nord: Safi, 1990. Prefácio do professor Nyango Mpeye, Recteur de L’Université de Kinshasa.
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A autobiografia evoluída domina a valorização extrema do indivíduo na sua vida social e pública, revela sempre uma consciência de grupo. No caso da narrativa de Silva Porto, procedemos à análise e crítica dos dados registados da tradição oral por Silva Porto. Ele recolheu e transcreveu as informações: o caso da descrição da hierarquia política do Estado de Viye; as informações dos escravos na Corte umbundu, procurando saber a função e o estatuto desses escravos. Analisámos as informações descritas sobre a tipologia de sua ombala de Belmonte no Viye, do seu movimento comercial realizado entre o interior e o litoral; procedemos a uma crítica biográfica depois de interpretarmos esses dados do Diário.
O Diário, o espólio de Silva Porto, a correspondência oficial, os relatórios do reino e os da capitania-mor do Viye, Mbalundu e da Câmara de Bengela, permitiram- nos identificar esse conjunto de bens materiais preservados sobre o passado da sociedade umbundu. Analisámos a documentação referente à correspondência celebrada entre as Sociedades de Geografia Comercial do Porto, e a de Lisboa, uma parte da mesma transcrita no Diário em 1887. Trata-se de textos agrupados em série e transcritos passados muitos anos, como se pode constatar no seguinte: “...ao coliseu levei o meu
serviçal afim de ali admirar as feras, leões, leopardos, feras nunca vistas por mim na África, pois enganei-me porque o imbecil nem se dignou abrir a boca para proferir o sacramental Chim do vocábulo umbundu [affirmativo] – Sim”63. Este facto, apesar de ter sido transcrito em 1887, ocorreu em 1856 quando Silva Porto partiu para Portugal para a primeira intervenção cirúrgica da vista esquerda, no consultório privado do médico oftalmologista Joaquim de Carvalho. Este procedimento é o mais evidenciado no seu Diário. Procedeu-se à leitura, interpretação, elaboração do ficheiro temático, do ficheiro de conteúdo, à estruturação do corpus, selecção dos textos transcritos de correspondência diferenciada, catalogação dos quadros, roteiros, glossário e por fim analisámos numericamente as fichas. A análise histórica, como técnica utilizada nesta etapa, sintetizou as ideias transcritas no Diário.
63 PORTO, António Francisco Ferreira da Silva - Viagens e apontamentos de um portuense em África: diário [Manuscrito]. Vol. XI.
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CAPÍTULO II