ARAŞTIRMANIN KURAMSAL ÇERÇEVESİ VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.2 İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.2.1 Yurtiçinde Yapılan Araştırmalar
Nasceu em 20 de fevereiro de 1955 em Ita (Paraguai). Recebeu o nome de seu santo “Eleutério”, que significa "Aquele que é livre, quem age como homem livre" ou "Aquele que se comporta com generosidade e liberdade". Seus pais tiveram três filhos e separaram-se, quando Eleuteria era ainda criança. O abandono do pai é o primeiro episódio marcante de sua trajetória: “Y yo le explico a mis hijos cuídense, porque yo, mi
papá, no tuve papá. Porque cuando yo era chica nos cambió por una mujer que tenía plata”. Assim, manifesta-se um dos primeiros acontecimentos marcantes de sua vida, resultante da condição de sua classe social.
Ao abandono do pai soma-se, em seguida, a emigração da mãe à procura de emprego em Buenos Aires. Eleuteria estava na primeira série e é deixada a cargo da família de um chefe de polícia. Porém, explica que, tão logo sua mãe parou de mandar notícias, foi retirada da escola e colocada para trabalhar como servente das filhas.
“Y bueno, yo sufrí un montón, de chiquita así. De los siete años me quedé a cargo ajeno, mi mamá se vino para acá, a Buenos Aires y me dejó en un extraño para que me metan al colegio. ¡Qué!, yo fui a primer grado creo que tres meses y después cuando mi mamá ya no escribió más cartas, ya no mandó más nada, ya me sacó [da escola]. Era un jefe de policía, me dejó a su cargo, porque era un jefe de policía. (…) Tenía dos hijas la señora, yo era la sirvienta de ellas. Yo iba al Baradero [clube], así, por ejemplo a la pileta, así, yo tenía que ir con las chicas, a la pileta. Yo tenía que pasarles jugo, toalla, lo que necesiten, una empleada de ellas. (…) Después ya no entré más a la escuela”
186 Ter sido retirada da escola é outra das consequências marcantes da infância, pois não conseguiu aprender a ler e escrever. A primeira vez que a entrevistamos em 2006, ela se declarava analfabeta. Em alguns aspectos, assemelha-se à trajetória de Dona Francisca, reconstruída por Silva (1999): “Sempre criada „pela mão dos outros‟ e não pela dos pais. Na casa desta família, desde os sete anos, cuidava das crianças pequenas, ajudava nos serviços domésticos” (id. ibid., p.283). Em outros, à biografia de Rigoberta Menchú, no período em que trabalhou como empregada doméstica:
“Os filhos nos tratavam muito mal. (...) São pequenos-burgueses que não sabem nem recolher um trapo. Não sabem guardar suas coisas. Gostam de jogar suas coisas na cara das empregadas. Era nosso serviço. Jogavam as coisas em nós e gritavam por qualquer coisa. (...) A patroa só sabia ralhar muito todos os dias. (...) De manhã, tanto o pai como os filhos gritavam da cama para que a gente levasse para eles seus chinelos, seus sapatos, tudo o que queriam.” (BURGOS, 1987, p.151)
Como Francisca e como Rigoberta, Eleuteria rememora essa época com indignação e amargura. Uma lembrança que aflorou sobre esse tempo foi o dia em que ela estava molhando as plantas e, acidentalmente, quebrou um vaso. A família ia passar o dia no rio, e deixaram-na trancada num quarto com uma jarra de água e um penico. Essa punição revela sua situação de “clausura” e o tratamento que recebia.
Eleuteria fugiu da casa, antes de completar quinze anos. Rememora que encontrou a oportunidade de fugir quando foi enviada a fazer as compras:
“Y la señora [disse] „Las chicas tienen que comer fruta todos los días, de otro día no pueden comer‟, como era jefe de policía no puede comer la chica la fruta que amaneció, tiene que ser fresca [com ênfase]. Y no viene la empleada, entonces dice „Bueno, Mary, cambiáte y andá al pueblo para traerme fruta para las chicas‟. Bueno yo ya tenía pensado hace rato escaparme, pero no podía. „A ver, me dice, me vas a traer esto‟, me anotó todo, viste, como yo no sabía (ler), viste, me anotó todo. Y faltaba un mes para mi cumpleaños, yo me fui a Paraguay, me escapé de la señora (…)”
A narrativa da fuga apresentava-nos uma interrogação. Pensávamos que Rigoberta, vivenciando situações semelhantes, permaneceu na casa até conseguir reunir um dinheiro para ajudar os pais, enquanto Eleuteria tinha fugido. Outras lembranças deram resposta para essa dúvida. Um dia, sua tia apareceu na casa onde morava, estava com uma criança de colo, vendendo hortaliças. Reconheceu Eleuteria e lhe pediu um copo de água, mas a patroa “no me dejó darle agua a mi tía”. Esta perguntou-lhe se estava bem aí, Eleuteria respondeu que podia ver que nem um copo de água lhe podia
187 dar. Há também na trajetória de Rigoberta um episódio semelhante. Quando o pai passa pela casa onde ela trabalhava:
“A patroa me disse de vez que não o deixasse entrar nem mesmo no corredor. Tive que deixá-lo no pátio e expliquei a situação. Disse a ele que a patroa era uma pessoa muito má e que tinha nojo, tinha horror de ver meu pai e que ele nem mesmo podia entrar na casa. Então, meu pai entendeu muito bem. Isso não era estranho para meu pai, pois já tínhamos sido muito desprezados em diversos lugares.” (id. ibid., p. 152-153)
Da breve conversa com a tia, surge a ideia da fuga: quando a mandassem fazer compras, devia colocar duas roupas, uma em cima da outra, e ir embora. Eles ainda moravam no mesmo sítio. O relato se acelera.
“Y yo me escapé, me dio la plata para ir a comprar la fruta y con esa plata, pregunté a dónde podía ir a tomar el colectivo para Itá, yo soy itera. Y me miraba la gente, yo tenía una bolsa, me miraban. „¿A dónde puedo ir a tomar el colectivo que va a Itá?‟, „Y acá… tres cuadras tenés que caminar está la parada, preguntá a cualquiera que está ahí la parada‟. Y fui ahí, y viste cuando uno está haciendo cosas malas, miraba para atrás a ver si nadie me, como él era jefe de mujer policía. Yo digo a dos horas que no llego me van a mandar a buscar, la gendarmería por todos lados va a estar y yo decía, me voy corriendo, corriendo y hasta llegué justo venía el colectivo. „¿Este va a tal parte?‟ „Sí‟, y subí y pagué, vos no sabés hasta que no llegué a la casa de mi tío no me quedé tranquila, porque como es jefe de policía, enseguida por la radio me van a estar, enseguida me van a agarrar. Y fui y llegué allá, era, no sé, como… seis cuadras quedaba la casa de mi tía de la parada, corriendo, fui.”
Comenta que, uma vez na casa, deixou de sentir medo, mesmo ao ouvir pelo rádio que estava sendo procurada. Seu tio decidiu, na ausência da mãe, responsabilizar- se por ela. Ao cabo de dois dias, sua mãe chegou à cidade. Eleuteria lembra o diálogo com seu tio: “Hija, dice, te traje una noticia‟ „¿Qué noticia?‟ „Sabés, ¿quién vino?‟
„No sé, si no me dicen, no sé‟, „Tu mamá‟, „Ah, yo no tengo mamá‟, le digo [risos]”.
Inicialmente, resistiu ir com sua mãe para Buenos Aires e lhe disse: “Yo no voy a ir. Yo
de los siete años me quedé y nunca más supe nada, para mí era…(uma extraña?)”. A
frase ficou truncada na entrevista, interrompida com a chegada da sogra à sala.
Emigra com sua mãe para Buenos Aires, onde conheceu Cáseres, seu futuro marido; ele alugava um quarto na casa de sua mãe. Também, paraguaio de origem, mais de dez anos mais velho que ela, trabalhava de pedreiro. Entre risos, relata o momento em que se conheceram:
“(…) yo era flaquita, yo tenía cuarenta y ocho kilos, más flaca que vos. Flaquita, después llegamos, me trajo mi mamá, me presentó ahí „Este es mi inquilino‟, me dice, „vive atrás de mi casa. Yo le lavo la ropa, le hago la comida‟. Y después me enteré (do que disse o marido) „Esta era tu hija, tan flaca, nadie la va a querer‟ [riso].”
188 Construímos nossas lembranças com as pessoas do nosso convívio, como disse Maurice Halbwachs. Assim, Eleuteria comenta que sua mãe costuma lhe lembrar o que dissera quando conheceu o marido:
“Y yo dice que le dije a mi mamá „Quién va a querer a este borracho, yo me voy a buscar un tipo que no toma‟. Mi mamá decía „Es un tipo trabajador, es bueno, él los sábados nomás toma. Pero no es malo, es buen trabajador‟. „Es que yo no quiero a este borracho‟ [risos]. Mi mamá siempre dice „Menos mal que era borracho y no lo querías‟, me estaba haciendo la excusa había sido, y bueno qué sabía yo.”
Em Buenos Aires, começou a trabalhar como empregada doméstica. Revela que a “mudança” de nome se deu nessa época, em razão de que para a patroa “Eleuteria” era um nome difícil, e assim decidiu chamá-la de Mary. Esse é o nome que utiliza até hoje e com o qual a nomearemos a partir de agora. A mudança de nome está relacionada à sua nova condição social de empregada doméstica. Embora pareça que houve uma aceitação e certa conformidade com essa mudança, a mesma torna explícito o processo de desenraizamento sofrido e o poder da patroa que se considera com o direito de nomeá- la. Para Strauss (1999),
Os nomes que são adotados voluntariamente revelam, até mesmo com mais eficácia, o vínculo indissolúvel entre o nome e a auto-imagem. A mudança de nome marca um rito de passagem. Significa mais ou menos que a pessoa deseja ter o tipo de nome que, a seu ver, a representa como pessoa, que não quer mais ser o tipo de pessoa que seu nome anterior expressava. (id. ibid., p.36).
Considerando as circunstâncias ela estava mais para Mary do que para Eleuteria. Depois de poucas semanas que estava em Buenos Aires, fez quinze anos e o inquilino da mãe organizou a festa e assumiu todos os gastos (vestido, churrasco, convites, músicos paraguaios etc.). A mãe achou que eles estavam namorando e, após a festa, espancou-a “con una varilla de guayaba”.
“(…) me pegaron un montón mi mamá por eso, dice „No, porque ya andaba con vos, porque sino no puede gastar tanto‟, dice. (…) Al otro día no sabés, no quedaba un lugar sano de cobrar. Me tuve que ir al hospital y no me querían atender porque eran muchos los golpes que tenía y tuve que llevar dos testigos, así extraños, para atenderme porque estaba muy golpeada.”
Para que pudesse ser atendida no hospital, Cáseres se fez passar por seu tio. No relato apresentado, na ausência da figura paterna, a mãe exerceu a punição, quando interrogada por Cáseres sobre o acontecido, ela asseverou “hablé con ella y la corregí”. Saffioti, analisando as situações em que mães batem nos filhos, considera que estão assumindo o papel do patriarca: “para quem define a violência doméstica em termos do
189 estabelecimento de patriarcado considerado, não resta dúvida de que a hierarquia começa no chefe e termina no mais frágil dos seus filhos, provavelmente filhas. (SAFFIOTI, 2004, p.73).
Fugiu novamente e, desta vez, foi morar com Cáseres. No ano seguinte, teve sua primeira filha e, por ocasião do batismo, decidiu retomar o contato com a mãe
convidando-a para a cerimônia. “Me dijo de todo menos que era linda”, e que nunca
teria um lugar onde cair morta. Mary explica que lhe disse que agora que ela era mãe sabia por si própria o que era, e afirmou-lhe “yo si Dios quiere voy a defender a mi
hijo”. Essa frase, como “se van a acordar de mí” de Laura, reflete seu poder, transformado em contrapoder, e passará a orientar sua vida. Como sentindo o peso maior do desafio, afirma “encima me tocó una hija”. Conta que, no final do dia, a mãe arrumou sua mala e foi com ela. Na entrevista, refletindo a respeito afirma que não se cumpriu o que sua mãe falou.
“(…) yo le digo a mis hijos, ustedes no se tienen que quejar de la madre, a lo mejor no soy buena madre, el estudio, qué sé yo, no tengo eso… una madre que es arquitecta. Bueno, tienen una madre, nadie es perfecto, ¿o no? Yo no sé leer pero bueno, gracias a Dios a lo que yo, lo que a mí no me dieron le di a mis hijos y después comprendí por ellos mismos que no le puedo discriminar mi mamá. Ella sabrá su problema con mi viejo, y ¡qué sabía yo cuando era chica! ”
Durante a narrativa, uma lembrança vai puxando a outra. Assim, Mary revela- nos que com seus filhos aprendeu a não discriminar sua mãe e, também, foi por eles que se reconciliou com seu pai. A lembrança que aflora é datada pela idade do terceiro filho “Y cuando Darío iba a cumplir dos años fui a verlo a mi papá”. Ela fez uma viagem com sua família para o Paraguai. Explica que não havia perdoado seu pai por tê-los abandonado e casado com uma mulher endinheirada. De fato, quando está à frente dele, questionou-lhe: “Esta es la plata que nos cambiaste”. Explica que seu marido tentava tranquilizá-la e evitar o conflito, dizendo que não era para falar assim com seu pai. Porém, ela disse: “No. Yo tengo en el corazón así, herido‟. Y yo me pregunto, ¿esta es
la vida que Dios le dio que nos cambió a nosotros? Yo le dije [À pesquisadora] Y sabés ¿cuándo le perdoné a mi viejo? Cuando Darío casi se me cayó en el pozo”.
“Mi viejo hizo un pozo, viste, esos de los que se saca el agua y puso todo maderitas finas arriba del pozo nuevo y Darío iba caminando arriba de eso y la mujer de él fue y lo agarró de atrás, si yo gritaba el chico iba nueve metros de profundidad del agua y no lo sacaba vivo. Ahí le perdoné a mi viejo, porque le salvó a mi hijo, la mujer. El pozo era así de grande, y la madera nueva, finita estaba arriba todo del pozo y el chiquito se iba caminando. Si yo gritaba, „¡Ah, mi hijo!‟, la madera se iba al fondo. Y mi madrastra fue y lo agarró de atrás y lo sacó. Ahí le di gracias a Dios que le perdoné a mi viejo, porque yo tenía un