A economia brasileira passou por um forte período de crise e recessão nos anos 80, o que causou considerável impacto na dinâmica regional. As condições estruturais que davam suporte ao grande volume de imigrantes, transformaram-se substancialmente entre 1940-80. De fato, as regiões de crescimento industrial e de expansão da fronteira agrícola não geram a quantidade de emprego que antes ofertavam (Brito, 1997). Consequentemente, uma das principais áreas de destino dos emigrantes mineiros demonstrava nítidos sinais de esgotamento.
Por outro lado, parte das transformações ocorridas na “década perdida” podem ser vistas como uma extensão de processos iniciados anteriormente, como o arrefecimento no ritmo de crescimento populacional do País como um todo, e especialmente das Regiões Metropolitanas brasileiras. De fato, a crise da década de 80 foi acompanhada pela reconcentração das atividades modernas no Centro-Sul do País, redução dos investimentos estatais diretos e concentração regional e pessoal da renda (Diniz, 1987). Estes fatores atuaram no sentido de dificultar uma significativa desconcentração industrial, reforçando a concentração nas regiões mais dinâmicas do País. Contudo, essas áreas foram ampliadas, tanto para o interior de São Paulo, quanto de Minas Gerais, em detrimento das suas respectivas regiões metropolitanas.
A própria concentração urbana estimulou a geração das deseconomias de aglomeração, através, por exemplo, do aumento dos preços dos terrenos e dos aluguéis e custos inerentes ao controle do meio ambiente, além das pressões sobre o aumento dos salários. Para que ocorresse uma relativa desconcentração foi necessária a formação de economias de aglomeração em outros locais, o que, entre outros fatores, estimulou o crescimento da população nestes lugares (Diniz, 1987).
No que tange às migrações, as especificidades da complexa década de 80 podem ser mais detalhadas graças à disponibilidade, no Censo Demográfico de 1991, do quesito de lugar de residência em uma data fixa do passado, como demonstrado no Capítulo 3.
A Tabela 4.1 e os Gráficos 4.1 e 4.2 mostram as estimativas indiretas dos saldos migratórios de São Paulo e Minas Gerais feitas a partir do método das Relações Intercensitárias de Sobrevivência, corrigidas conforme sugestão de Carvalho (1996) e Carvalho e Rigotti (1999), comentada no capítulo anterior. Utilizou-se quatro Tábuas de Vida para o ajuste da mortalidade: uma da Fundação SEADE, representativa do estado de São Paulo, período 1979/81, e as outras do IBGE, para 1980, 1985 e 1991.
As tábuas foram construídas através dos dados do Registro Civil (método direto). Utilizou-se a tábua da Fundação SEADE para a mensuração dos saldos dos dois estados, ou seja, adotou-se um mesmo padrão e ajustou- se o nível da mortalidade para o ano de 1985; e as tábuas do IBGE foram construídas para cada um dos estados, referentes aos anos de 1980 e 1991 – as funções para o ano de 1985 foram obtidas através de interpolação linear.
Estimar os saldos com o uso de várias funções se justifica devido às incertezas sobre a verdadeira estrutura de mortalidade por idade dos anos 80, principalmente masculina. Na verdade, a utilização destas diferentes Tábuas de Vida tem por finalidade delimitar um intervalo no qual a verdadeira experiência migratória deve estar contida.
Tabela 4. 1 São Paulo e Minas Gerais: Saldos migratórios por sexo, segundo diversas funções de mortalidade - 1980/90.
SALDOS MIGRATÓRIOS – 1980/90
São Paulo Minas Gerais
Funções de mortalidade
Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total
SEADE 79/81 238.819 624.742 863.561 -466.063 -369.986 -836.048
IBGE 80 387.736 658.230 1.045.966 -389.848 -307.143 -696.990
IBGE 85 387.831 618.634 1.006.465 -419.876 -340.419 -760.296
IBGE 91 388.289 581.310 969.599 -447.868 -371.404 -819.272
Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 1980 e 1991.
Nota: nas estimativas estão incluídos apenas os efeitos diretos.
A escolha do padrão de mortalidade faz diferença na estimação dos saldos migratórios. O saldo positivo de São Paulo varia de 864 mil a pouco mais de 1,0 milhão, enquanto o negativo de Minas Gerais vai de 697 mil até 836 mil pessoas. Mas, quaisquer que sejam as funções utilizadas para a mensuração, percebe-se que os saldos migratórios foram bem menores que os das décadas de 1960 e 1970, tanto para Minas Gerais, quanto para São Paulo, o que reflete dinâmicas migratórias distintas – apesar de relacionadas entre si – entre os dois estados, uma vez que os saldos têm sinais contrários.
Se o auge da migração paulista se deu nos anos 70, com um saldo de 3 milhões de pessoas, considerando apenas o efeito direto, um saldo de, no máximo, 1,0 milhão de pessoas nos anos 80, ainda que volumoso, representa uma brusca queda em relação ao período anterior. Vale observar que os saldos migratórios femininos são maiores que os masculinos, quaisquer que sejam as funções utilizadas. O diferencial é maior com a função de mortalidade da Fundação SEADE, cujos resultados para a população feminina ficaram próximos da função “IBGE85”. Como o perfil de mortes por idade dos homens sofreu maiores alterações nos anos 80 que o das mulheres, o uso destes dois padrões de mortalidade causou maiores diferenças na população masculina, embora com a utilização das funções do IBGE os resultados tenham sido semelhantes entre si.
Gráfico 4. 1 Estado de São Paulo: Saldos migratórios por sexo, segundo diversas funções de mortalidade - 1980/90.
Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 1980 e 1991.
Em outras palavras, a esperança de vida masculina produzida pelo padrão da tabela SEADE 79/81 é maior que as do IBGE. Uma das razões de não se considerar o padrão da Fundação SEADE como o mais representativo da experiência de mortalidade dos anos 80, é que quando esta tábua foi construída, o maior impacto da sobremortalidade masculina por causas externas ainda estava por ocorrer.
Comparando os resultados estimados através das tabelas do IBGE para os anos 1980, 1985 e 1991 percebe-se que a esperança de vida masculina não aumentou de modo significativo. Se, por um lado, a esperança de vida dos homens não apresenta ganhos relevantes devido à sobremortalidade por causas externas, as estimativas dos saldos migratórios também não variam significativamente entre si. Por outro lado, se a esperança de vida feminina aumenta, consequentemente os saldos positivos diminuem, uma vez que este é estimado por resíduo – diferença entre a população observada e esperada.
Quanto aos resultados para Minas Gerais, os saldos migratórios negativos também apresentaram queda: de 1,2 milhão nos anos 70 para entre 760 e 836 mil na década de 80. Neste caso, os saldos migratórios masculinos, negativos, são maiores que os femininos e a escolha do padrão de mortalidade faz maior diferença nos resultados das estimativas, mesmo quando usadas as tabelas do IBGE. 0 100000 200000 300000 400000 500000 600000 700000
SEADE80/81 IBGE80 IBGE85 IBGE91
Homens Mulheres
Gráfico 4. 2 Estado de Minas Gerais: Saldos migratórios por sexo, segundo diversas funções de mortalidade - 1980/90
Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 1980 e 1991.
A estimativa maior de saldo ocorre quando da utilização da função de mortalidade da Fundação SEADE. Também não se considera esta como a mais razoável, pelos motivos expostos acima. Em relação aos saldos produzidos pelas tabelas do IBGE para os anos de 1980, 1985 e 1991, o que se observa é um aumento consecutivo do volume dos saldos negativos, significando que a mortalidade diminui a um ritmo maior que o de São Paulo.
A explicação pode ser o fato de que São Paulo já apresentava níveis relativamente elevados de esperança de vida ao nascer, se comparado a Minas, o que, por si só, dificulta ganhos expressivos através da diminuição de mortes por causas mais facilmente evitáveis. Além disso, sendo mais urbanizado que Minas Gerais, o estado de São Paulo sofre mais intensamente os problemas típicos dos grandes centros urbanos, tais como o aumento do peso relativo de mortes causadas por homicídios e acidentes, por exemplo.
Como as funções de mortalidade da Fundação SEADE não incorporam os efeitos do aumento, durante a década de 80, da sobremortalidade masculina por causas externas, que afetam especialmente a população em idade ativa e, portanto, mais propensa a movimentos migratórios, consideramos que as funções de mortalidade do IBGE para 1985 são as que melhor expressam a realidade. -500000 -400000 -300000 -200000 -100000 0
SEADE80/81 IBGE80 IBGE85 IBGE91
Homens Mulheres
Ainda em relação aos aspectos demográficos, merece menção o comportamento migratório por sexo. Dada a reciprocidade das trocas migratórias entre os dois estados, as décadas de 60 e 70 foram bem coerentes, do ponto de vista da atração e perdas populacionais. Na década de 60, caracterizada pelo imenso êxodo rural mineiro, a maioria dos que deixaram o estado eram homens, enquanto em São Paulo a maior parte dos que chegaram também era do sexo masculino.
Na década seguinte, as mulheres mineiras compensaram a menor participação verificada nos anos 60 e apresentaram uma perda líquida maior que a dos homens; em São Paulo, no auge da atração populacional, entraram mais mulheres que homens.
O exame dos Gráficos 4.1 e 4.2 mostra que nos anos 80 houve uma inversão deste comportamento. São Paulo continuou atraindo mais mulheres, mas, desta vez, Minas perdeu mais pessoas do sexo masculino. O que aconteceu?
4.4 Detalhando a complexa década de 80: o papel da migração