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5. Doç Dr Güneş SALI

3.1. Kardeş İlişkileriyle İlgili Yapılan Araştırmalar

3.1.1. Yurtdışında Yapılan Araştırmalar

Observar a presença da problematização acerca do nacional nas biografias trabalhadas por nós é tentar mapear como as diferentes interpretações acerca da realidade brasileira operam um sentido historiográfico em um presente determinado. As biografias nos apresentam uma expressividade das perspectivas apresentadas acima, assim como uma complexificação acerca das mesmas. De fato, o estudo destas obras, desconhecidas da tradição historiográfica, mas com relevância editorial e social na medida em que compunham a ‘respeitável’ Coleção Brasiliana e, portanto, significativas no cenário intelectual do período, é revelador das margens historiográficas de nossa própria tradição que preferiu esquecê-las, assim como, dos matizes interpretativos acerca de vários temas que marcam as perspectivas acerca do nacional.

O primeiro tema que deve ser, então, levantado é o da relação entre questão nacional e fazer biográfico presente nas obras trabalhadas. Procurei, no interior da Coleção Brasiliana, mapear algumas obras que pudessem ser reveladoras da diversidade intelectual presente nas primeiras décadas do séc. XX. A questão nacional perpassa essa diversidade como tema central trabalhado a partir de perspectivas distintas. As biografias querem falar à pátria, serem ouvidas pela coletividade nacional. Neste sentido, o fazer biográfico confirma a tese de que o ‘interesse pelos personagens do passado revelaria a busca de identidade de um presente’136. Àquela procura modernista por uma origem pré-histórica, indígena, que confira essência ou originalidade às práticas contemporâneas, o biográfico contrapõe o passado historiográfico. Este movimento seria provocado por um presente que ‘duvidando de sua identidade, desenterra e sacraliza suas raízes. Através da biografia e da novela histórica, o passado, que é dotado de sentido desde o presente, se tinge às vezes de cores contemporâneas, lançando luz sobre o presente’137

136 SCHMIDT, Benito Bisso. A Biografia Histórica: o ‘retorno’ do gênero e a noção de contexto. In: GUAZZELLI, César Augusto Barcellos; PETERSEN, Sílvia Regina Ferraz; SCHMIDT, Benito Bisso; XAVIER, Regina Célia Lima. Questões de Teoria e Metodologia da História. Porto Alegre: Ed Universidade/UFRGS, 2000. 121. 137 MOYA, Antonio Morales. APUD: SCHMIDT, Benito Bisso. A Biografia Histórica: o ‘retorno’ do gênero e a noção de contexto. In: GUAZZELLI, César Augusto Barcellos; PETERSEN, Sílvia Regina Ferraz; SCHMIDT, Benito Bisso; XAVIER, Regina Célia Lima. Questões de Teoria e Metodologia da História. Porto Alegre: Ed Universidade/UFRGS, 2000. 2000. 121.

. Já nos primeiros anos do século XX, a intelectualidade brasileira considerava como fundamental a ‘afirmação de uma

cultura nacional, sem o que não haveria identidade possível’138

abnegação ficou na História da República brasileira como um marco solitário, indicando à posteridade o caminho do alto patriotismo, que não mede o sacrifício pelos proventos

. As biografias inserem-se de forma constitutiva na conformação desta cultura nacional, em permanente processo de construção.

Daí a justificativa para quase toda empresa biográfica residir no culto patriótico ao biografado. São os monumentos nacionais que devem ser seguidos como exemplos e símbolos dos reais interesses e valores brasileiros. O primeiro nível de nossa análise se dá, portanto, neste aspecto que caracteriza quase todas as produções por nós trabalhadas: a biografia é um monumento. Os biografados são personalidades exemplares de ‘uma vontade orientada pelo mais alto atributo da alma humana – o amor da verdade a serviço da Pátria’, como diria o historiador mineiro João Dornas Filho acerca de Silva Jardim. Segundo Dornas Filho, Silva Jardim seria um dos poucos nomes que conseguiriam ‘flutuar com a grandeza capaz de afrontar a Posteridade’. Era, dentre aqueles envolvidos no advento da República no Brasil, um dos ‘pouquíssimos que se salvaram’, que movimentara idéias fora da ‘feitiçaria retorta de Augusto Comte’. A biografia de Silva Jardim prestaria homenagem aquele que seria ‘o mais alto batalhador dos ideais democráticos no Brasil’, e cuja

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O livro, a obra biográfica, poderia, ainda, aparecer como um meio para o soerguimento das figuras biografadas, De fato, segundo Carlos Pontes sua obra sobre Tavares Bastos ‘representa a primeira pedra trazida para o monumento do grande brasileiro’

.

140

contribui decisivamente para autuar Tavares Bastos no seu verdadeiro lugar, servindo de base sólida ao monumento que o Brasil deve a um dos seus mais geniais homens público

. A recepção desta publicação parece acompanhar o juízo do autor. Pizarro Loureiro afirma que o livro de Carlos Pontes

141

Analisando o mesmo livro, José Campelo, redator chefe da Folha da Manhã de Recife, considera que a biografia ‘levantou um verdadeiro, sólido e belo monumento a Tavares Bastos’

.

142

. Augusto Frederico Schmidt percebe aí ‘um esplêndido monumento ao Solitário’143

138 138 DUTRA, Eliana Regina de Freitas. Rebeldes e literário da República: história e identidade nacional no

Almanaque Brasileiro Garnier (1903-1914). Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005. 82.

139 FILHO, João Dornas. Silva Jardim. São Paulo: 1936. 189; 16; 189.

140 PONTES, Carlos. Tavares Bastos (Aureliano Candido) 1839-1875. São Paulo: CEN, 1939. 2. 141 LOUREIRO, Pizarro. Tavares Bastos. Gazeta de Notícias. 19/03/1939.

142 CAMPELO, José. A Biografia de Tavares Bastos. Folha da Manhã. 27/01/1939. 143 SCHMIDT, Augusto Frederico. Um Livro sobre Tavares Bastos. O Jornal. 19/02/1939.

, enquanto o Jornal do

estadista do Império’144. Costa Rego avalia, acerca do centenário de Tavares Bastos: ‘ainda que outras homenagens não se prestem, essa comemoração está virtualmente realizada com o livro de Carlos Pontes’. Este teria, segundo Costa Rego, revelado no pensador alagoano ‘um monumento de crítica política no centro, bem no centro de uma época longínqua e contudo não esquecida’145

Não aspira a outra glória o cidadão benemérito que a sobrevivência na memória da posteridade; e nós seríamos muito pouco patriotas se deixássemos fenecer no pó do esquecimento os nomes daqueles nossos patrícios e concidadãos, que, pelo desempenho de seus deveres, se têm feito credores da nossa consideração e estima

. O ideal patriótico que marca o fazer biográfico na década de 1930-40 pode ser encontrado nas palavras do próprio biografado, realizando uma justificativa autorizada da empresa. É assim que José Gabriel de Lemos Brito imprime às epígrafes de seu livro o seguinte texto

146

Essa passagem foi publicada por Frei Caneca em seu jornal Typhis Pernambucano e permite vislumbrar, na história do Brasil, uma tradição desse patriotismo que opera no sentido da rememoração coletiva dos feitos significativos. Daquele sentido da comemoração que ‘significa, então, reviver de forma coletiva a memória de um acontecimento considerado como ato fundador, a sacralização dos grandes valores e ideais comuns de uma comunidade, constituindo seu objetivo principal’

.

147

faz descer dos monumentos da tradição alguns gênios falsos e negativos ou arranca do quase anonimato gênios a quem o destino ou a incompreensão sepultou no esquecimento

. Revivência que, quando operada pelo fazer biográfico, traria consigo um duplo movimento impresso àquela formação da memória coletiva, pois a biografia, e esta seria sua maior ‘vantagem’:

148

.

O fazer biográfico operaria, portanto, de uma maneira dinâmica na conformação das tradições, revelando as descontinuidades inerentes àquele processo rememorativo. A figura de Frei Caneca, segundo se biógrafo Lemos Brito, deveria fazer com que os jornalistas brasileiros se sentissem ‘orgulhosos deste grande varão de nossa estirpe’149

No horizonte da questão nacional preocupada em conhecer o Brasil e produzir uma intelectualidade brasileira que se expresse e reflita a partir dos temas nacionais, a biografia de

.

144 S/A. Jornal do Commércio. Livros Novos - Carlos Pontes - Tavares Bastos – Brasiliana Bibl. Ped. Brasileira –

Companhia Editora Nacional – São Paulo – 1939. 19/2/1939

145 REGO, Costa. Centenário a comemorar. Correio da Manhã. 5/02/1939.

146 CANECA, Frei Joaquim do Divino Amor e. APUD: BRITO, José Gabriel de Lemos. A gloriosa sotaina do

Império: Frei Caneca. São Paulo: CEN, 1937. 7.

147 SILVA, Helenice Rodrigues da. Entre Memória e História em Paul Ricouer. In: Grandes nomes da história

intelectual. São Paulo: Contexto, 2003. 434.

148 LOUREIRO, Pizarro. Tavares Bastos. Gazeta de Notícias. 19/03/1939.

Raimundo de Farias Brito, escrita por Jonathas Serrano, é apresentada como a obra que traz ‘o nome daquele que é considerado por excelência o filósofo brasileiro’. Tal caracterização, atribuída a um pensador brasileiro, ressaltaria na obra deste ‘uma sinceridade, uma simplicidade e ao mesmo tempo uma finura de análise que a extremam de qualquer outra na produção nacional’. A simplificação da linguagem, tema constante em diversas orientações que visam à aproximação da produção intelectual àquilo que seria o ‘nacional’, também operaria no processo de ‘nacionalização’ do pensamento filosófico. Este e outros aspectos eram ressaltados em uma obra que constitui ‘um monumento inegável de cultura e beleza moral’. Também a vida do biografado deveria ser considerada dessa forma e, a Farias Brito, por ser ‘uma das figuras de maior beleza moral’, estaria garantido o ingresso ‘na galeria dos nossos Grandes Mortos’. Serrano lamenta que a ‘Academia’ [Brasileira de Letras] ‘não o quis em seu grêmio’, porém, o biógrafo lembra que ‘há vários caminhos para a Imortalidade, sem escalas obrigatórias’ e a biografia poderia ser um desses ‘caminhos’150

A obra de Antônio Gontijo de Carvalho refere-se ao seu biografado, João Pandiá Calógeras, como ‘um dos maiores estadistas e das mais altas culturas do Brasil contemporâneo’. Trata-se de um livro sobre o ‘grande estadista brasileiro’

.

151

, que falecera em 1934, um ano antes da publicação. Esta viera a público, segundo Odécio Camargo, a fim de prestar ‘inestimável serviço às letras pátrias e à história moral’, pois a meditação de Calógeras representaria, para as ‘gerações mais novas’, ‘um estímulo, um amparo, uma pedra a mais para consolidar a fortaleza de seus princípios’. Por reunir tais características, a biografia de Calógeras seria ‘não só merecedora de aplausos, mas utilíssima e digna da mais ampla divulgação’152

150 SERRANO, Jonathas. Farias Brito – O homem e a obra. São Paulo: CEN, 1940. 2; 110; 87-88; 9. 151 CARVALHO, Antonio Gontijo de. Calógeras. São Paulo: 1935. 195; 112

152 CAMARGO, Odécio. Prefácio. In: CARVALHO, Antonio Gontijo de. Calógeras. São Paulo: 1935. 15; 17. .

Mesmo em autores reconhecidos como historiadores mais isentos, é possível perceber aquele horizonte monumental presente no fazer biográfico na década de 1930-40 no Brasil. De fato, Otávio Tarquínio de Souza, apesar de suas pretensões objetivas, procura destacar em seu biografado que ‘em Evaristo nunca houve indiferença, nunca houve conformismo’ que ele ‘queria servir aos seus semelhantes, servir à sua terra, concorrer para conduzi-la a bom caminho’. Analisando a trajetória de Evaristo da Veiga nos embates políticos da história imperial brasileira, Tarquínio de Sousa não deixa de caracterizar como positiva e justa a posição de seu biografado como ‘guia supremo da política brasileira’. Neste sentido, Tarquínio de Sousa considera que a biografia iria ‘fazer justiça’ ao nome de Evaristo, revelando um dos ‘nomes com maior repercussão em nossa história’. Assim, o livro sobre Evaristo da Veiga seria um monumento à moderação que

combatera as exagerações de qualquer gênero, desaprovava os excessos e a violência, alentava o homem industrioso nas suas fadigas e trabalho, repelira as sugestões de um patriotismo feroz, procurava aniquilar as fantasias da nobreza e da conquista.

Para Tarquínio de Sousa, a ‘melhor defesa de Evaristo’ residira na ‘constante moderação de sua conduta’ que é avaliada pelo biógrafo como uma ‘imensa contribuição para que no Brasil triunfasse um regime de maior liberdade compatível com a ordem’153

Afonso Schmidt, poeta e romancista paulista, ao apresentar seu biografado, o poeta Paulo Eiró, diz sobre esse, tratar-se de ‘uma das figuras mais luminosas e também mais inquietas de São Paulo’, mas que, ‘para o novelista, a vida do ilustre santamarense apresenta interesse tão vivo como o de sua obra literária. Ela nos transporta a São Paulo de 1830 a 1860’. Apesar de não se buscar aí a constituição de um exemplo nacional de civismo, nem de se erigir um monumento de orientações políticas, éticas ou morais; mas, no interior daquela São Paulo, descrever a biografia de ‘um poeta que amou; mais do que isso, de um poeta que enlouqueceu de amar’. Não obstante, é possível perceber como esta biografia, escrita nos moldes daquela perspectiva ‘moderna’ ou ‘romanceada’, também poderia enquadrar-se no interior de um horizonte monumental. Este estaria expresso na elevação do nome do poeta a um lugar de destaque na história das letras pátrias, especificamente paulistas, em meio às quais o nome de Paulo Eiró deveria ocupar posição melhor do que a que desfrutara até então. Deveria sair do esquecimento para tornar-se o ‘poeta primeiro paulista’

.

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Assim, nestas sete obras é possível verificar o fazer biográfico associado a uma espécie de interesse coletivo que deve reconhecer nestas figuras marcos exemplares da nacionalidade. O horizonte monumental característico das biografias parece ressoar a própria forma como a intelectualidade daquele período se relacionava com o passado. Forma essa que aparenta esperar algo do passado, que conforma uma expectativa para com o passado. De forma mais clara, Tristão de Athayde fazia a defesa de uma história mestra da vida, pois, recordando Tito Lívio, ‘o que há de mais salutar e proveitoso no estudo do passado são os exemplos e as lições que ele nos dá’

. A biografia do poeta Paulo Eiró é uma fissura dentre a questão geral que rege a perspectiva historiográfica mobilizada pelo fazer biográfico, é um arroubo literário complexificando o gênero e as análises que irão se seguir. Esta obra expressa uma diferença de olhar acerca da historiografia, do papel da biografia, do método biográfico, do aspecto ‘científico’ da Coleção Brasiliana e da relação obra/Coleção que tentaremos destacar nos capítulos seguintes.

155

153 SOUSA, Octávio Tarquínio de. Evaristo da Veiga. São Paulo: CEN, 1939. 60; 62; 230; 289; 294. 154 SCHMIDT, Afonso. A vida de Paulo Eiró São Paulo: CEN, 1940. 9; 11.

155 ATHAYDE, Tristão de. O Solitário. O Jornal. 2/02/1939.

. Aprofundando essa perspectiva, ao mesmo tempo em que a associa diretamente ao fazer biográfico,

Sylvio Ella considerava que

Esses homens, os santos da Igreja, os heróis nacionais, os mártires da incompreensão, foram os que incorporaram as idéias e fizeram- nas viver no meio social. A eles é que se erguem os monumentos e se fazem homenagens. O seu exemplo, a sua vida é que servem de modelo aos jovens em formação. Quanto mais grandes homens tem uma Pátria, maior a sua glória e o seu poder. A história, portanto, devia ser escrita em função deles, vendo a maneira pela qual realizaram as idéias de que foram portadores e a difundiram na sociedade. (...) para que a História fosse de fato a mestra da vida de que escarnecem os filiados à nova escola156

Lúcia Miguel Pereira considerava que a biografia poderia operar uma ‘ressurreição’, na qual a figura biografada ‘viverá entre os brasileiros’. O biográfico, segundo a autora, neste processo de fazer ‘ressurgir do túmulo’, provaria o ‘quanto é injusta e ridícula a nossa indiferença pelos homens do passado’

.

157

Estas ‘outras referências’ diriam respeito às ‘manifestações intangíveis’ da cultura brasileira como o ‘saber-fazer, cantos, danças, lendas, superstições, culinária, medicina popular, etc.’. Trata-se daquilo que se consolidou como ‘patrimônio imaterial’. A perspectiva patrimonial,

.

A existência de um ‘horizonte monumental’ associado ao fazer biográfico na década de 1930 pode ser sobreposta à emancipação de uma relação ‘patrimonial’ com o passado, na qual Mário de Andrade foi nome de destaque. De fato, o intelectual paulista soube sintetizar a aproximação entre os ‘projetos de brasilidade idealizados pelos modernistas’ associados à construção de uma ‘memória nacional’ viabilizada por uma política de patrimônio que representasse a ‘cultura brasileira’. Neste sentido, verifica-se a operacionalidade do passado, pois é ‘a memória e a tradição’ que seriam ‘fundadoras de uma arte nacional’. Assim, ao identificar o ‘moderno’ com o ‘nacional’ e este com o patrimônio histórico, a função do passado na constituição da identidade nacional, de uma ‘cultura nacional’, torna-se primordial. Se, por um lado, no Decreto-Lei 25/37, que orientava as disposições que se seguiriam acerca do patrimônio histórico, é notável a ‘hegemonia dos arquitetos’, afinal encontra-se

nos bens arquitetônicos selecionados, a materialidade da nação procurada, assim tombaram-se igrejas barrocas, fortins, palácios e casas-grandes.

Por outro lado, para além da ‘sacralização da memória em pedra e cal’, havia uma preocupação em Mário de Andrade acerca da articulação do Patrimônio Cultural com ‘outras referências culturais para além das restritas categorias tradicionais de arte’.

156 ELLA, Sylvio. A humanização da história. Boletim de Ariel – Mensário crítico-bibliográfico – Letras, Artes,

Ciências. Rio de Janeiro. Ano VI. No 7. Abril de 1937. 216.

157 PEREIRA, Lúcia Miguel. Uma Biografia. Boletim de Ariel – Mensário crítico-bibliográfico – Letras, Artes,

desenvolvida por Mário de Andrade, era fruto de uma ‘obsessiva tarefa de conhecer e entender a realidade brasileira’ que, por sua vez, revelava a ‘importância das tradições como mediadoras da questão nacional’158

é oferecido à lembrança enquanto um bem comum, uma herança coletiva. Esse esforço de transformação de uma memória patrimonial visa não apenas reforçar o sentimento de pertencimento à nação, mas, sobretudo, fixar as singularidades

. O horizonte monumental presente na produção biográfica não deixa de considerar a importância de os intelectuais brasileiros voltarem seus olhos para personagens formadores da nacionalidade brasileira. Se o ‘inventário dos sentidos’, desenvolvido por Mário de Andrade, via no patrimônio cultural brasileiro a matriz para a produção das diversas artes nacionais, o fazer biográfico reivindicava naqueles personagens biografados um lugar de orientação para a interpretação da própria identidade brasileira. Dessa forma, assim como se desenvolve a modalidade de ‘patrimônio cultural intangível’, acreditamos ser possível classificar a produção biográfica, orientada por um horizonte monumental, como esforço de constituição da patrimonialização da ‘cultura política’ brasileira. Esta também seria de caráter imaterial ao procurar monumentalizar figuras associadas a princípios e valores identificados como constituintes da nacionalidade brasileira. Esta relação entre presente/passado fundadora de uma expectativa pode ser apontada nos historiadores brasileiros do início do séc. XX como Capistrano de Abreu, Rocha Pombo, Oliveira Lima e João Ribeiro. Estes historiadores teriam produzido uma espécie de ‘memória patrimônio’ que teria sido ‘responsável pela transformação patrimonial da identidade nacional’. Neste sentido, tratar-se-ia da produção de um patrimônio que

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Em sentido similar, ao analisar a Biblioteca dos Autores Espanhóis, Jean-François Botrel .

Percebemos, assim, nas linhas e trechos citados, aquilo que nos permite visualizar um ‘solo comum patriótico’, no qual caminha o fazer biográfico na década de 1930, especificamente as obras publicadas na Coleção Brasiliana. O horizonte é o da biografia como monumento, símbolo de patriotismo e exemplo de conduta cívica. Daí as obras procurarem um valor coletivo aos seus biografados, no sentido de configurarem na memória coletiva como monumentos nacionais. É preciso acrescentar àquelas expectativas vividas por Monteiro Lobato e outros, acerca do livro, esta que se refere ao aspecto monumental das obras biográficas. O livro, especificamente a obra biográfica, surge como monumento, meio de eternizar e consolidar determinadas figuras associadas a aspectos fundamentais da nacionalidade.

158 NOGUEIRA, Antonio Gilberto Ramos. Por um Inventário dos Sentidos – Mário de Andrade e a concepção de

Patrimônio e Inventário. São Paulo: FAPESP, 2005. 25; 26; 27; 29; 35; 64; 65.

159 DUTRA, Eliana Regina de Freitas. Rebeldes e literário da República: história e identidade nacional no

percebe que havia ‘uma parte dos espanhóis’ que, ‘depois da paz civil encontrada em 1839’, se preocupou em ‘inventar e construir uma nação, animados por um desejo de recuperação e de grandeza’. A BAE, editada entre 1846 e 1878, deveria traduzir esta intenção mediante a ‘construção de uma mitologia e de símbolos nacionais’. Botrel aponta para o fato de a Biblioteca ter sido ‘resultado de uma empresa particular – e não de instituições oficiais’ que se propunha a ‘ler e admirar, tudo ao mesmo tempo’. Constituindo uma ‘singular empresa na medida entre o patriotismo e o lucro mercantil’, a BAE tinha a ‘Espanha no centro de seu projeto’ e manifestou a ‘vontade, sem dúvida original, de celebração permanente e viva por sua difusão das letras e glórias espanholas’. Botrel caracteriza a Biblioteca de Autores Espanhóis como uma ‘arquitetura editorial’