2. ÖRGÜTSEL STRES KONUSUNDA YAPILMIġ ÇALIġMALAR
2.1. Konu Ġle Ġlgili AraĢtırmalar
2.1.2. YurtdıĢında YapılmıĢ AraĢtırmalar
Em Pessoa, nas múltiplas pessoas, encontra-se uma forma incomum do ato criador – a heteronomia - marca registrada de seu processo de enunciação.
Fernando Pessoa figura entre os principais expoentes da Literatura Universal e da arte do século XX. A repercussão de suas criações, em menos de quatro décadas, mereceu um número surpreendente de artigos, ensaios, monografias, teses e livros inteiros dedicados ao autor (cerca de 1.312 títulos). No entanto, ainda que muito estudado, mantém-se sempre uma aura de mistério, em torno de seu nome e de sua obra, devido mesmo à complexidade que deixou. Ele foi vários, o quanto permitiu sua lúcida cultura e extensão dialética: ao mesmo tempo modernos e clássicos; nacionalista, místico e revolucionário; materialista e panteísta. Desejou-se ser assim: enigma de si mesmo, múltiplo, paradoxal, lógico e contrário – ao mesmo tempo. Hoje eu defendo uma coisa, amanhã outra; eu era pagão dois
parágrafos acima, mas ao escrever este já não sou. ( O Pensamento Vivo de Fernando
Pessoa, p. 23).
Shakespeare foi o autor com quem mais se identificou, por temperamento e realização artística. Admirava no dramaturgo a força de despersonalização que lhe
possibilitou criar personagens tão reais quanto Lady Macbeth e Hamlet. Impulso semelhante levaria Pessoa a construir o que chamou de seu “drama em gente”, isto é, inventar personagens sem o drama que os sustentasse, dando origem a seus heterônimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Três grandes poetas que, definitivamente, transformariam seu autor em um dos mais intrigantes casos da história literária, impressionando a todos que se aproximam de sua obra, pela raridade de ser ele distintos poetas em um só: Caeiro – seu mestre e poeta da natureza; Reis – das odes horacianas, clássico e pagão; Campos – o futurista e radical; e Pessoa, o Fernando, ele mesmo – lírico desencantado, nacionalista místico e ocultista.
Alberto Caeiro - poeta que está em contato direto com a natureza, sua lógica é a mesma da ordem natural. Para ele, as coisas são como são. Por isso mesmo, seu mundo é o do real-sensível (ou real-objetivo), é tudo aquilo que existe e que percebemos, através dos sentidos. Daí vem uma de suas principais características: ele pensa com os sentidos. Engana-se, porém, quem enxerga nessa sua postura ausência de reflexão; pelo contrário, é apenas outra forma de pensar.
V
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo? / Sei lá o que penso do mundo! / Se eu adoecesse pensaria nisso...
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! / O único mistério é haver quem pense no mistério...
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? / A de serem verdes e copadas e de terem ramos?...
O único sentido íntimo das cousas / É elas não terem sentido íntimo nenhum...
Não acredito em Deus porque nunca o vi. / Se ele quisesse que eu acreditasse nele, / Sem dúvida que viria falar comigo...
Mas se Deus é as flores e as árvores / E os montes e sol e o luar, / Então acredito nele...
Mas se Deus é as árvores e as flores /E os montes e o luar e o sol, / Para que lhe chamo eu Deus? / Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar...
IX
Sou um guardador de rebanhos. / O rebanho é os meus pensamentos. / E os meus pensamentos são todos sensações. / Penso com os olhos e com os ouvidos...
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / E comer um fruto é saber-lhe o sentido... (ALBERTO CAEIRO – trechos de “O Guardador de Rebanhos” in Língua, Literatura & Redação – 1998, p. 40,41,42).
Ricardo Reis - seus temas preferidos, controlados pela razão, são a fugacidade do tempo (daí o carpe diem horaciano: “aproveita o dia que passa”) e a morte inevitável, expressos com harmonia e equilíbrio, em rigorosa construção formal, a que não faltam elementos mitológicos.
Filosoficamente, é um epicurista, isto é, adepto das teorias do grego Epicuro (século III, a. C.), para quem a sabedoria da vida reside no equilíbrio dos sentidos, nos prazeres naturais, sem excessos, nem paixões.
Alguns trechos de suas odes:
Ode VI
Vem sentar-se comigo, Lídia, à beira do rio. / Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos / Que a vida passa e não estamos de mãos enlaçadas. / (Enlacemos as mãos)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida / Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, / Vai para um mar muito longe, para ao é do Fado, / Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mão, porque não vale a pena consarmo-nos.Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio /Mais vale saber passar silenciosamente / E sem desassossegos grandes ... (in F. PESSOA Obra poética – 1983, p. 190-191)
Álvaro de Campos - um homem do século XX, das fábricas, da energia elétrica, das máquinas, da velocidade. Seu estilo arrojado, solto, febril, uma espécie de fluxo ininterrupto de palavras, é cheio de gritos, interrogações e interjeições.
A seguir, trechos de uma de suas poesias:
Ode triunfal
À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica / Tenho febre e escrevo. / Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, / Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens r-r-r-r-r eterno! / Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! / Em fúria fora e dentro de mim...
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações, / Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!...
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina! / Poder ir na vida triunfante como um automóvel último modelo! ... / Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento / A todos os perfumes de óleos e calores e carvões / Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! (in Fernando Pessoa Obra Poética, 1983, p. 240).
Fernando Pessoa “ele-mesmo” – na poesia, assinada por seu ortônimo, transparecem traços da tradição literária portuguesa, tais como: o saudosismo, o sebastianismo e um tom visionário em relação à nacionalidade portuguesa. Traços esses coincidentes com a visão de mundo do homem Fernando Antônio Nogueira Pessoa, politicamente conservadora.
A poesia nacionalista está representada em Mensagem – conjunto de poemas de tom épico sobre o período das navegações -, repletos de uma profunda melancolia com relação ao futuro português – considerado cinzento, se comparado com o passado glorioso.
A poesia lírica, propriamente dita, acha-se em Cancioneiro, onde se exploram temas como: infância, vida, arte, solidão, saudade ..., sempre com nostalgia do passado e tédio pelo presente.
Está, em Mensagem (II parte), o primeiro poema transcrito abaixo; e, em Cancioneiro, o segundo:
Mar portuguez
Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão resaram! Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena. / Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor. / Deus ao mar o perigo e o abysmo deu, / Mas nelle é que espelhou o céu. (in “Língua, Literatura & Redação”, 1998, p. 51-52)
Hora morta
Lenta e lenta a hora / Por mim dentro soa / (Alma que se ignora!) / Lenta e lenta e lenta. / Lenta e sonolenta / A lua se escoa...
Tudo tão inútil! / Tão como que doente / Tão divinamente / Fútil – ah, tão fútil! / Sonho que se sente / De si próprio ausente...
Que morta esta hora! / Que alma minha chora / Tão perdida e alheia?... / Mar batendo na areia / Para quê? Para quê? / Pra ser o que se vê... (in Fernando Pessoa Obra poética, 1983, p. 43).
Como um toque final ao capítulo, valeria reiterar que as formas de expressão humana são infindáveis como os dias e as noites, passados por Penélope, tecendo e destecendo seus bordados, à espera de Ulisses – seu grande amor, o que vem reforçar toda a teorização apresentada no Capítulo II, deste trabalho, corroborada por historiadores, críticos literários, filósofos, escritores – em verso e prosa, apresentados neste capítulo, e que, certamente, auxiliarão na árdua tarefa de análise dos dados colhidos em campo – motivo dos próximos capítulos.
À medida da construção destes dois últimos capítulos, vinham-me à mente – como flashes de luz – momentos da construção da pesquisa com as crianças, onde se puderam experenciar atos de criação – conquanto “pequenos”, porque de acordo com os anos de vida ainda poucos, na história dos pequenos seres da pesquisa – “grandes”, tanto quanto os atos criadores dos gigantes artistas aqui apresentados, porque capazes de expressar seus “eus”, observando, ouvindo, falando, escrevendo, desenhando..., dando tudo de si, mesmo que este “tudo” nem sempre seja compreendido pelos setores instituídos da sociedade, sobretudo pela instituição escolar, que enxerga, com olhos obtusos, as realizações de linguagens, um pouco desviadas do hermético mundo da linguagem padronizada, dentro dos moldes ditos “corretos”, só existindo olhos para a linguagem verbal, sobretudo a enquadrada na norma-culta. Outras linguagens e outras formas de produzir linguagem verbal, nem pensar!
Enquanto buscava as fontes para gerar os escritos sobre Guimarães Rosa (por exemplo) – recheados de neologismos -, muitas das vezes incompreensíveis ao olhar comum e convencional, vinham-me, imediatamente, algumas crianças – uma , em especial, cuja expressão escrita – igualmente incompreensível -, parece-se, em suas hipóteses ainda primitivas, com a linguagem criada por Rosa. Resguarda-se a experiência do autor, enquanto busca no ato pleno da criação artística, e da criança, enquanto mergulho no jogo de linguagem; distancia-se no fazer artístico do autor, enquanto criador de uma obra de arte que necessita, entre outros elementos, de uma concepção própria da linguagem, enquanto que a criança exercita essa linguagem, joga com ela, mas desconhece as concepções que embasam suas escolhas (VIGOTSKI, 1998)
Encerro, pensando ainda nesses seres humanos da pesquisa, no processo de sua formação, dentro do que me revelaram todo tempo; citando um trecho das Odes, de Ricardo Reis – um dos heterônimos de Pessoa – inserido no livro, outras vezes citado neste trabalho, O Pensamento Vivo de Fernando Pessoa (p. 81), que acredito encaixarem-se como luvas, durante a experiência vivida com as crianças:
Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes. Assim, em cada lago a lua toda
CAPÍTULO IV – O QUE NOS COMUNICAM OS RESULTADOS DAS