2.2. Ġlgili AraĢtırmalar
2.2.1. Yurt Ġçinde Yapılan AraĢtırmalar
Chamou-nos atenção no aluno GUS a sensação de medo que experimentou relacionada às aulas no laboratório de informática. O medo é uma sensação que costuma aparecer relacionada aos primeiros contatos com o computador. Para refletirmos sobre isso, apresentarmos os desenhos e alguns trechos de entrevista com esse aluno.
Aluno GUS
FIGURA 15 – Desenho 2 do aluno GUS
Entrevista com o aluno GUS após a 6ª atividade em que os alunos digitaram e ilustraram trechos da história Flofi, a nuvem teimosa, de Denise Ruiz, usando o programa Kolorpaint:
Pesquisadora: Hoje quando falei que os computadores estavam travados, você pensou que eles iam explodir. Por quê?
Aluno GUS: Eu achei que ia explodir a escola grande toda39 e também ia
queimar minha mãe.
Pesquisadora: Você acha que todas as vezes que o computador dá problema ele vai explodir?
Aluno GUS: Acho. Acho que ele vai explodir, queimar “tudinho” e a gente vai morrer [ele foi alterando a voz para mais forte à proporção que ia falando].
[...]
39 A escola municipal de Belo Horizonte onde fizemos a pesquisa de campo é estruturada em dois prédios, a saber: o prédio principal, que contém a diretoria e todos os setores administrativos de uma escola, a biblioteca, quadra coberta, laboratório de informática, cantina dentre outros; nesse prédio funcionam as turmas do segundo ciclo em diante. Em uma casa ao lado do prédio da escola funciona o ciclo básico de alfabetização. Essa casa (chamada de anexo) foi adaptada, na medida do possível, para funcionarem salas de aula, sala dos professores, banheiros, cantina e um pátio, tudo muito pequeno. A expressão “escola grande”, usada pelo aluno GUS, faz referência ao prédio principal da escola; a mãe do aluno GUS é professora e leciona na “escola grande”.
Entrevista com o aluno GUS após a 7ª e 8ª atividades de jogos com letras no computador:
Pesquisadora: Você sentiu medo, GUS?
Aluno GUS: [silêncio...] É que eram muitas letras caindo, caindo...
Pesquisadora: Você achou que não fosse conseguir vencer nos joguinhos? Aluno GUS: É.
Pesquisadora: E você conseguiu vencer nos dois joguinhos? Aluno GUS: Consegui; eu e o aluno NIC.
[...]
Entrevista com os alunos GUS e NIC após a 11ª atividade em que os alunos digitaram e ilustraram partes do livro Bichos são todos bichos, de Bartolomeu Campos de Queirós:
Pesquisadora: O que vocês acharam da aula de hoje?
Aluno GUS: Sabe, eu não gosto da aula de informática por causa do Tiago da outra escola. Você sabia que ele beija na boca dos meninos? E eu fico nervoso, furioso; só de pensar eu fico vermelho de irritado. [Vai alterando a voz à medida que fala]
Pesquisadora: É só o Thiago que te deixa nervoso na aula de informática? Aluno GUS: Não; é que toda hora tem que ficar perguntando.
Pesquisadora: Perguntando o quê?
Aluno NIC: É que ele não sabe e tem que perguntar como faz a atividade no computador.
[...]
O aluno GUS é um garoto de sucesso na escola; leu e escreveu com facilidade. Apesar de apresentar certa dificuldade em realizar a tarefa escolar nos programas de computador que usamos, tem facilidade motora em usar o mouse como também em usar o dedo no laptop, no caso da aula em que a professora F levou sua máquina particular para dentro da sala para que os alunos tivessem uma aula coletiva através de um jogo virtual.
Entretanto, em quase todas as entrevistas com ele, a palavra medo surgiu; a própria mãe comentou com a professora F que o aluno GUS, mais no início do ano, chegou a pensar em não participar da aula no laboratório de informática.
Por isso, entendemos ser curioso que em seu desenho 1 aparecesse, na tela do computador idealizado por ele, um garoto na faixa de pedestre atravessando
a rua, pois foi exatamente isso que teve que fazer todas as quintas-feiras de 2009 para poder participar das aulas no laboratório de informática, visto que o laboratório fica no prédio principal da sua escola e não no anexo onde estuda.
Esse garoto caminhou várias vezes em pânico para esse laboratório; mas será que o medo era do computador ou do processo de aprendizagem no computador? Pela entrevista com ele e em conversa com a professora F, concluímos que o que ocorreu foi um receio de não dar conta do processo de aprendizagem na sala de informática.
O aluno GUS teve medo de não saber escrever e ler no computador de sua escola; teve medo de não dar certo, de não conseguir. Por ser um garoto de sucesso escolar, quando se viu na possibilidade de não se sair tão bem, visto as dificuldades normais em se lidar com o texto digital pela primeira vez, entrou em pânico.
Aparentemente, o “Tiago” é que era culpado por ele não gostar de ir para a aula de informática, o medo era que os computadores da escola explodissem, mas em toda a entrevista deixava escapar seu real motivo: admitir que não lhe agradava a possibilidade de não vencer nos joguinhos com as letras, não lhe agradava também ter que perguntar sobre como fazer para desenhar usando os recursos do programa ou escrever seu texto teclando na máquina ou, ainda, ler o site da internet, enfim, não admitia ter dificuldades exatamente por ser um aluno de sucesso.
Toda essa história pode até sugerir que é coisa de menino com muita imaginação, muito expressivo; o que é, certamente, o caso do aluno GUS Mas não é apenas isso. A criança ter medo do computador é natural; aparece tanto em relação a crianças quanto em adultos que nunca tiveram contato com o computador. Só que no adulto isso costuma bloqueá-lo, mas na criança é mais tranquila a superação desse medo, pois ela o enfrenta com mais facilidade.
Lidar com texto em suportes diferenciados (manuscrito, impresso e digital) na fase de alfabetização pode ser uma experiência muito significativa, mas não descartamos sua complexidade; afinal, em relação ao digital particularmente, Marco Silva (2001, p. 68) esclarece:
Digital significa existência imaterial das imagens, sons, textos que, na memória hipertextual do computador, “são definidos matematicamente e processados por algoritmos”, que são “conceitos científicos
operacionalizados” como disposição para múltiplas intervenções- navegações da parte do usuário. E uma vez que a imagem, o som e o texto, em sua forma digital, não têm uma existência material, “eles podem ser entendidos como campos de possibilidades”.
Certamente que aprender a lidar com a imaterialidade do texto é desafiador; muito mais para quem está no processo inicial de apropriação da escrita. Isso fica ainda mais evidente quando o aluno comenta sua perplexidade quando caem as letras, o que dá uma ideia de inconstância que não ocorre na página escrita. Por isso, ter medo ou insegurança é algo compreensível.
Silva descreve que (2001, p. 22) “[...] a tela do computador não é um plano de irradiação, mas um espaço de manipulação, de co-criação, com ’janelas’ móveis e abertas a múltiplas conexões.”
Percebemos, a esse respeito, que os alunos na fase de alfabetização se sentem muito atraídos pela tela do computador; sentem um verdadeiro fascínio por seu brilho e pelas possibilidades de manipulação. No entanto, em alguns casos, todo esse brilho pode provocar um sentimento de receio diante de uma outra forma da escrita se materializar.
Portanto, esse é um desafio que deve ser encarado não só pelo aluno, mas por toda a escola; preparar-se para desenvolver atividades de escrita por meio do computador é garantir à criança o aprendizado de uma nova modalidade comunicacional em que “comunicar não é simplesmente transmitir, mas disponibilizar múltiplas disposições à intervenção do interlocutor” (SILVA, 2001, p. 69).